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6 APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

6.3 Educação Financeira Escolar: perspectivas das professoras

6.3.3 Planejamento e atividades para o trabalho com a EF

seu planejamento e selecionam as atividades que podem favorecer o ensino de EF. Este tópico contempla o seguinte bloco de perguntas: Como é feito seu planejamento? Na sua rotina diária, há um tempo específico para você pesquisar e se planejar? Que tipos de atividades e contextos você utiliza para trabalhar esta temática? Há algum material ou recurso que você acredita que favoreça o ensino de EF? Embora saibamos que a EF é uma temática interdisciplinar, há uma disciplina que você relaciona com mais frequência com seu estudo? Comente.

De acordo com as professoras participantes, o planejamento é realizado de três formas distintas: relacionando a EF ao ensino de Matemática; trabalhando apenas com o conteúdo presente nos livros didáticos de EF ou contemplando as duas formas (Matemática e livro didático de EF).

Destacamos que a P4, embora tenha demonstrado uma compreensão sobre a importância e influência positiva na aprendizagem do aluno com relação aos temas discutidos a partir do trabalho com a EF, evidencia desinteresse na busca de outras fontes (além do livro didático de EF adotado) para a realização do planejamento das aulas de EF, como pode ser visto no trecho abaixo.

Faço uso do material didático comprado. No planejamento, só coloco a proposta da aula, objetivo, as páginas que vou utilizar se for usar o livro, mas assim, não vou tão além disso, porque não é tão cobrado em avaliações (P4). Diante da fala de P4, percebemos que a falta de obrigatoriedade da temática nas avaliações faz com que a participante não se preocupe em “ir além”, em ampliar as situações didáticas para este trabalho.

A não validação da EF como saber escolar é discutida por Hofmann (2013). A pesquisadora afirma que dificuldades estruturais de reformas nos currículos e questões como o excesso de conteúdos versus o tempo limitado para o trabalho, empregam à temática de EF apenas uma perspectiva multidisciplinar.

Além disso, o posicionamento de P4 demonstra a clara intenção de manter-se em sua zona de conforto. Sá (2012) afirma que na maioria das vezes, os professores preferem formas consolidadas de trabalho, pensamento e ação, refutando ideias que solicitem reflexão, planejamento e diálogo.

Nesta direção, Skovsmose (2014) discute que professores podem se sentir inseguros a respeito de como resolver um problema, de como discutir algo novo como um conceito ou temática sem metodologias preestabelecidas. O autor afirma que não adentrar em uma zona de

risco, embora permeada de incertezas, é deixar de lado também a zona das possibilidades. Acreditamos que apenas o uso do material didático adotado para o trabalho com a EF pode empobrecer o ensino da temática. Como explicitado no início das análises, o material adotado trabalha a EF em uma perspectiva diretiva e em um viés de consumo. Deste modo, trabalhar nessa perspectiva é desconsiderar, por exemplo, a possibilidade de criação de novos contextos de atividades pelo professor com referência a outros materiais e fontes, o que acreditamos possa, talvez, além de enriquecer a aula, ampliar a própria compreensão do professor sobre o tema.

Neste sentido, Muniz (2016a) desenvolve em seu estudo a perspectiva de Ambientes de Educação Financeira Escolar (AEFE). Estes ambientes são criados a partir do convite entre professores, alunos, pesquisadores a pensar sobre questões financeiras, que podem envolver ideias matemáticas, mas não apenas elas.

Ambientes são formados por momentos em que se abrem portas e janelas para se convidar os alunos a pensarem sobre situações financeiras em uma perspectiva ampla, interativa e multidisciplinar, sendo a apresentada aqui apenas uma das possibilidades (MUNIZ, 2016a, p. 49).

Segundo o pesquisador, os ambientes podem ser formados por momentos de sala de aula, projetos, investigação, roda de conversa, dentre outros momentos em que o convite para reflexão seja a forma de conduzir as situações financeiras. Assim, compreendemos ser esse um meio de potencializar as aprendizagens e reflexões sobre a EF.

Muniz (2016a) afirma que o professor de Matemática, por exemplo, pode criar um AEFE a qualquer momento, independente do conteúdo a ser tratado. Entende-se que não precisa ter uma aula de EF específica para fazer convites, ou seja, para fazer EF. O pesquisador salienta que não precisar não significa que não podemos ter um bimestre inteiramente dedicado à EF. Significa dizer que não é necessário ter EF na grade curricular para se criar um AEFE, estes ambientes podem ser formados por pequenos momentos, a qualquer momento.

Com relação às atividades desenvolvidas nas aulas de EF, a P5 afirma desenvolver um trabalho partindo de situações-problema criadas por ela e pelos alunos, de problemas presentes no livro didático e paradidático do material didático deles e da realização de sonhos materiais coletivos, favorecidos pelo uso de um cofrinho pela turma. Fica clara, diante da resposta da P5, a preocupação em oportunizar diferentes situações didáticas para o trabalho com a temática, aspecto bastante positivo.

Além disso, a participante afirma acreditar ser importante o desenvolvimento de outros contextos ligados à realidade do aluno. A valorização da construção da aprendizagem pelo aluno é um elemento presente na fala da P5. Hofmann e Moro (2012, p. 42) refletem que “a ação educacional significativa, assim, deveria partir do que os alunos já sabem, cabendo à escola o papel de ajudá-los a construir e a apropriar-se do conhecimento científico produzido pela humanidade”.

A P4 aponta outros recursos para o trabalho com a temática.

Eu utilizo o livro didático de EF, mas uso outros recursos, recursos do dia-a- dia mesmo, a gente tem na sala um cofrinho para realizar um sonho coletivo no final de novembro e pra gente ver também que dinheiro traz prazer, traz realização (P4).

E os contextos trabalhados? (Pesquisadora).

Acho que vai variando de acordo com o conteúdo que está sendo passado, tem conteúdos que falam sobre o empreendedorismo, a gente fala: quais são as profissões? As pessoas são felizes em suas profissões? A gente já fez entrevistas interligando a português, entrevistas com os funcionários da escola perguntando se eles gostavam do trabalho, o tempo de serviço. Então, vai variando de acordo com o tema. A gente fala do Sistema Monetário, então já vai associando com a Matemática (P4).

Percebemos a partir da fala de P4, certo desconhecimento sobre que contextos que podem favorecer o desenvolvimento de discussões sobre a EF. Neste sentido, refletimos que a falta de clareza aos conceitos e contextos trabalhados na EF, possa ser justificada por se tratar de uma temática recente e/ou devido à fragilidade da formação recebida. Compreendemos que contextos para o trabalho com a EF, são as situações que denotam significados para o desencadeamento de discussões, como situações que envolvam economia, consumo consciente/inconsciente, consumismo, sustentabilidade, tomada de decisão, entre outras.

Quando questionadas sobre a existência e uso de algum recurso que possa favorecer o trabalho com a temática, a P5 aponta o livro didático de EF, mas salienta que ele não é essencial e tece algumas críticas ao recurso, como pode ser visto na fala abaixo.

Tem o material que a gente usa que é do programa que a escola comprou, mas eu não o acho essencial pra isso não, entendeu? Se não tivesse o material, isso poderia entrar de outra maneira, sem precisar de um material específico (P5).

Como? (Pesquisadora).

O próprio professor poderia desenvolver algum tipo de apostila ou estar colocando isso como registro no caderno mesmo. Não precisaria ser um livro

específico. O livro não é fundamental, mas dá um norte, um direcionamento. Acho às vezes elementar pra faixa etária, às vezes eles (os alunos) acham que aquele exemplo que está no livro é muito distante do contexto deles ou é muito bobo, sabe? Os contextos ou são muito simples ou distantes da realidade (P5).

Embora não seja objetivo desse estudo julgar que tipo de abordagem seja mais adequada em relação às referências utilizadas para a construção das atividades, é importante que haja uma aproximação entre os conhecimentos escolares com a vida dos alunos, principalmente se esses conhecimentos fazem uso diretamente de situações que envolvem práticas de nossa realidade, como é o caso da EF. Neste sentido, Santos (2017) reflete que parece mais cômodo para quem elabora o problema apresentar situações da semirrealidade do que pesquisar dados da vida real para a elaboração das atividades de livro didático.

Ainda sobre os recursos para o trabalho com a EF, P4 afirma que depende do planejamento do professor. A participante comenta que não usa nenhum recurso além dos materiais didáticos da sala de aula como os livros, aponta que uma atividade de feira, por exemplo, pode ser realizada com os próprios objetos que a sala dispõe.

A seguir, será apresentado e discutido o processo de formação continuada acerca da EF vivenciado pelas participantes da pesquisa.