3. POLÍTICAS PÚBLICAS E DESENVOLVIMENTO URBANO-REGIONAL NO
4.3. Planejamento e desenvolvimento e a busca da sustentabilidade
Sobre a política de desenvolvimento incentivada pelo Governo do Ceará, baseada em agências de desenvolvimento endógeno e arranjos de produção locais, podemos encaixá-la na seguinte afirmação de Coutinho "Exige, também, uma reflexão nova sobre a questão dos pólos ou dos clusters, das redes horizontais ou dos núcleos horizontais de atividade. Para lidar com essa dimensão exige-se uma engenharia institucional nova, na qual entram estados, municípios e União‖ (COUTINHO, 2006, p.46). Desta forma podemos encontrar essa (re) engenharia institucional no Ceará, nas regiões com a criação de Agências de
Desenvolvimento nas principais regiões do Estado, e a nível municipal podemos localizar algumas diretrizes e princípios do empreendedorismo urbano em cidades do Maciço de Baturité. Desta forma, é importante reconhecer o papel mediador fundamental das estruturas e dos poderes financeiros e institucionais, dando destaque ao papel do Estado nos processos de acumulação do capital (HARVEY, 2005).
Tomando-se como base a elaboração e execução dos Planos de Desenvolvimento Sustentável (1995-98/1999-2002) como pontos de partida de uma tentativa de modernização e integração econômica mais efetiva, onde o primeiro reconhece as mudanças tanto do Estado em si como da economia global e propõe uma visão mais prospectiva de suas metas para o ano 2020. Para isto o citado plano afirma que o crescimento econômico não é primordial, e sim um instrumento para alcançar o desenvolvimento no prazo de uma geração, sendo este apoiado em uma melhoria da qualidade de vida de todos os cearenses em curto prazo. Tinha como objetivos gerais: proteção do meio ambiente; reordenamento do espaço – interiorizar o desenvolvimento do estado; capacitação da população; crescimento da economia, geração de empregos e redução de desigualdades; desenvolvimento da cultura, ciência, tecnologia e inovação – promoção das mudanças culturais necessárias ao desenvolvimento sustentável e melhoria da gestão pública. Ainda podemos destacar as iniciativas do Estado em seu ―novo‖ papel de agente indutor do desenvolvimento econômico, como aponta Rigotto (2001)
O programa destaca o papel do Estado como agente indutor para que a iniciativa privada não só obtenha retorno econômico satisfatório como contribua para o equilíbrio sócio-econômico e ambiental do estado, através da divulgação, por meio de feiras, exposições e um escritório nos EUA [para a venda externa do estado], de oportunidades de investimentos industriais, incentivos fiscais e financeiros, apoio tecnológico, de mercado e de infra-estrutura. Quanto ao perfil industrial propõem a seleção de gêneros e subgêneros em função do aspecto espacial da atividade industrial, do uso intensivo da mão-de-obra e de alternativas de investimentos em projetos sustentáveis em face da vulnerabilidade climática. (...) Na definição dos princípios e práticas do desenvolvimento sustentável, a sustentabilidade é
compreendida como ―a possibilidade de obtenção de resultados permanentes no
processo de desenvolvimento, preservando a capacidade produtiva dos recursos naturais, maximizando seus efeitos sobre a criação de renda e de emprego e assegurando o apoio político necessário para garantir a continuidade das políticas (RIGOTTO, 2001, p.47).
Quanto ao Plano de Desenvolvimento Sustentável 1999-2002 que representa a continuidade propalada da política de desenvolvimento sustentável do estado, este mantém os mesmos princípios. O mesmo considera que a indústria de transformação, juntamente com o turismo e a agricultura de valor agregado – lê-se agroindústria - são setores em que o estado tem as chamadas vantagens competitivas. Neste período, o estado alcança uma imagem positiva perante os investidores. Quanto ao meio ambiente, a política se concentra em
proteger e preservar a biodiversidade, através da implantação de unidades de conservação ambiental – APA de Baturité/2000, gerenciamento costeiro, zoneamento econômico- ecológico entre outros.
Com desenvolvimento em 2002 do Plano de Desenvolvimento Regional do Maciço - e dos seus posteriores em outras regiões do estado, que tinham como premissas serem uns dos principais instrumentos de planejamento do Estado, financiados pelo Banco Mundial, através do Programa de Desenvolvimento Urbano e Gestão dos Recursos Hídricos do Estado do Ceará – PROURB-CE coordenado pela SDLR. Estes planos foram concebidos visando à formulação de diretrizes estratégicas para o desenvolvimento econômico e social das regiões. Estes são estruturados em quatro componentes: caracterização regional; plano estratégico; proposta de estruturação do espaço regional e estratégia de execução.
Destaquemos a primeira parte dos planos quando fazem a caracterização regional, buscando a compreensão do espaço regional como forma de domínio deste – pode usar instrumentos como zoneamento econômico-ecológico – e sua inserção no contexto estadual, usando para isto de dados em nível municipal. Esta fase vai desembocar em um dos componentes, que aqui faremos destaque, o do planejamento estratégico em suas seguintes diretrizes: visão integrada das vantagens e potencialidades da região; identificação de obstáculos e ameaças a serem movidos para potencializar as oportunidades de desenvolvimento; levantamento da hierarquia e funções dos núcleos urbanos e elaboração de cenários prospectivos para a região – lêem-se empresários – com dimensões demográfica, socioeconômica e ambiental.
Todavia, cabe-se perguntar a quem este levantamento - tão minucioso do espaço regional pelo planejamento - tem realmente servido. O planejamento é propagado como ―única‖ forma de alcançar o desenvolvimento, tendo o nosso estado que também reduzir a pobreza aguda. Santos, analisando o papel do planejamento para o desenvolvimento e expansão do capital, afirma
Existem muitos exemplos da contribuição da ciência regional, da geografia e do planejamento regional para a difusão do capital; é o caso da popularização de teorias tais como a dos lugares centrais, a dos pólos de crescimento, a da descentralização e desconcentração industrial das grandes cidades, a da industrialização deliberada e descentralização concentrada. Não é de se admirar que o tema da urbanização se tenha tornado muito controverso durante o período em que a idéia da ―matriz
locacional‖, de Sclultz (1953), ganhava terreno graças a categorias econômico-
espaciais tais como as de economias externas, economias e deseconomias de escala, cujo papel é justificar cientificamente arranjos espaciais [regiões especializadas competitivas, arranjos produtivos locais] que promovem a expansão capitalista (SANTOS, 2007, pp.21-22).
Cabe lembrar o papel da mobilidade da classe trabalhadora que o planejamento estatal também se preocupa, pois passamos por um momento de reestruturação espacial da distribuição demográfica no Ceará, como resultado de sua reestruturação produtiva. Com uma diminuição do peso da agricultura – em algumas regiões – e desenvolvimento de outras atividades mais complexas que envolvem vários setores da economia. Destaca-se a necessidade propalada pelo governo de uma urbanização completa da sociedade. Como também não podemos deixar de relembrar da questão da sustentabilidade ambiental que vai de encontro com o desenvolvimento das forças produtivas e a política econômica de desenvolvimento do Estado. Santos aborda, de forma muito interessante essas vertentes do planejamento, quando diz
Com o desenvolvimento da forças produtivas, a desigualdade regional cessa de ser o resultado das aptidões naturais e está se tornando ao mesmo tempo mais profunda e mais especulativa: existe uma maior necessidade de capitais crescentemente volumosos; os recursos sociais também tendem a se concentrar em certos locais onde a produtividade do capital é cada vez mais alta. Tudo está ligado. A atração da força de trabalho é um corolário dos investimentos e os salários mais baixos são um fator adicional para aumentar os lucros e inflar a mais-valia do grande capital. É por isto que se depara com uma concentração cumulativa de investimentos e de população nas mesmas cidades. A tendência à especialização agrícola se acompanha da expansão do número de salariados, da extrema divisão social do trabalho e da concentração econômica e espacial. A urbanização e a primazia se apresentam como necessidade do sistema (Id, Ibid., p.22).
Findamos como esta citação de Santos, que descreve muito bem grande parte dos processos que ora se dão no nosso Estado e região estudada, e o que os mesmos representam.
5. PLANEJAMENTO URBANO-REGIONAL NO MACIÇO DE BATURITÉ ALGUNS