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2 O PLANO DIRETOR COMO INSTRUMENTO DE GESTÃO DA

2.1 A necessidade histórica de se planejar cidades

2.1.1 Planejamento e gestão urbanos: complementares e

Entende-se que, para se chegar a uma gestão urbana eficiente, precisa-se de um planejamento urbano eficaz, e este deve satisfazer as dimensões que compõem uma cidade, quais sejam: institucional, econômica, social, política, jurídica, tributária e territorial. É necessário então que planejamento e gestão urbanos sejam definidos, a fim de se chegar a um maior entendimento sobre estes dois entes.

Castells (1983) define o planejamento urbano como

[...] intervenção política sobre a articulação específica das diferentes instâncias de uma formação social no âmago de uma unidade coletiva de reprodução da força de trabalho, com a finalidade de assegurar sua reprodução ampliada, de regular às contradições não antagônicas, assegurando assim os interesses da classe social no conjunto da formação social e a reorganização do sistema urbano, de forma a garantir a reprodução estrutural do modo de produção dominante. (p.376-377).

Segundo o autor (1983, p.393), o planejamento urbano deve ser interpretado “a partir do efeito social produzido pela intervenção política sobre o sistema urbano e/ou sobre a estrutura social”, por isso, a questão social deve sempre ser relacionada ao planejamento.

Já, para Santos Jr. (1995, p.24), “A cidade começa a ser considerada como um organismo ou um sistema onde o bom funcionamento de cada um dos seus elementos é fundamental para o funcionamento do todo e vice-versa.” E, para que haja este bom funcionamento, é preciso haver um planejamento das ações a serem implementadas nesta cidade.

Já Singer (2002, p.152), acentua que “o planejamento pode regulamentar o uso do solo de modo a facilitar não só o contato no mercado de trabalho mas também entre os ofertantes e usuários de bens e serviços”. A partir destas

definições, entende-se que planejamento reúne estratégias que visam ao bom funcionamento de uma cidade, garantindo o bem-estar da população quanto à oferta de bens e serviços. O planejamento vai permitir que haja uma integração de suas dimensões institucional, econômica, social, política, jurídica, tributária e territorial.

Souza & Rodrigues (2004) observam que

Quando se fala no enfrentamento das dificuldades observadas nas cidades é comum que se pense no planejamento como solução. [...], se houvesse planejamento, todos os problemas estariam resolvidos: do trânsito, do meio ambiente, até mesmo da multiplicação de favelas e loteamentos, entre muitos outros. Mas... seria assim tão simples?...

Os debates sobre a expansão de favelas e das periferias, o crescimento do tráfico de drogas e as políticas de segurança pública estão presentes em todos os lugares: nos jornais, nos livros, no cinema, na música nas conversas do dia-a-dia. (p.9-10).

Com relação à existência destes problemas citados por Marcelo Lopes de Souza e Glauco Bruce Rodrigues, verifica-se que eles só existem quando as cidades não oferecem condições de igualdade para o desenvolvimento de seus habitantes. Cabe, portanto, ao Estado, nas suas três esferas – federal, estadual e municipal –, juntamente com a sociedade, tentar equacionar essas diferenças mediante do planejamento.

Além disso, ressalte-se que o planejamento elaborado somente por técnicos não é capaz de resolver problemas do cotidiano dos habitantes. Os técnicos responsáveis pelo planejamento possuem visão diferenciada da realidade de grande parte da população, principalmente aquela residente em áreas periféricas, que necessitam de infra-estrutura e serviços essenciais, ou seja, dos serviços que fazem da cidade um lugar para bem viver. Portanto, quando não há um intercâmbio do planejador com as partes interessadas, o planejamento torna-se inadequado, o que faz supor ser o motivo principal da ineficácia do planejamento.

Será então que o motivo principal de não haver eficiência na implementação no planejamento urbano de algumas cidades se refere à falta de comunicação entre o planejador e a população? Talvez este seja um dos motivos, mas não o único. O despreparo nas questões de planejamento e gestão e a negligência com que é tratada a cidade por parte dos gestores são outros motivos para esta ineficiência.

O planejamento urbano cedeu lugar à implementação de obras pontuais (quase sempre equipamentos urbanos direcionados sempre a cultura, lazer e entretenimento), que, em sua maioria, servem de ingrediente eleitoral. A cidade deixa de ser planejada para receber grandes projetos que, muitas vezes, criam problemas urbanos no que diz respeito ao uso e à ocupação do solo, ao sistema viário e, principalmente, ao cotidiano do cidadão.

Outro responsável pelo enfraquecimento do planejamento, segundo o autor, foi à popularização do termo gestão, vocábulo que, segundo Souza (2003, p.31) significa a “administração de recursos e problemas aqui e agora”. Isso comprometeu

o planejamento. A palavra gestão está relacionada para muitos como um consenso, um controle operacional mais democrático, enquanto o planejamento soa como algo do passado, relacionado à tecnocracia.

Concorda-se com o autor, quando este complementa sua afirmação dizendo que, assim como existe a necessidade de administrar o agora, é essencial se ter

uma visão em longo prazo, até mesmo para se tecer cenários que poderão ocorrer. E isso é tarefa para o planejamento. Souza (2003, p.31) confirma esse pensamento, quando assinala que “A administração de curto e médio prazo é tão essencial quanto à visão de longo alcance e a reflexão de longo prazo”. Portanto, planejamento e gestão não competem entre si, pelo contrário, uma boa gestão acontecerá se esta for antecedida de um planejamento adequado.

Souza (2003) é veemente na distinção entre planejamento e gestão, quando expressa que

[...] a substituição da palavra planejamento por gestão baseia-se em uma incompreensão da natureza dos termos envolvidos. Planejamento e gestão não são termos intercambiáveis, por possuírem referenciais temporais distintos e, por tabela, por se referirem a diferentes tipos de atividades. Até mesmo intuitivamente, planejar sempre remete ao futuro: planejar significa tentar prevê a evolução de um fenômeno ou, para dizê-lo de modo menos comprometido com o pensamento convencional, tentar simular os desdobramentos de um processo, com o objetivo de melhor precaver-se contra prováveis problemas ou inversamente, com o fito de tirar melhor partido de prováveis benefícios. De sua parte gestão remete ao presente: gerir significa administrar uma situação dentro dos marcos dos recursos presentemente disponíveis e tendo em vista as necessidades imediatas. O planejamento é a preparação para a gestão futura, buscando-se evitar ou minimizar problemas e ampliar margens de manobra; e a gestão é a efetivação, ao menos em parte (pois o invisível e o indeterminado estão sempre presentes, o que torna a capacidade de improvisação e a

flexibilidade sempre imprescindíveis), das condições que o planejamento feito no passado ajudou a construir. Longe de serem concorrentes ou intercambiáveis, planejamento e gestão são distintos e complementares. (p.46).

Concorda-se com Marcelo Lopes de Souza que planejamento e gestão urbanos são atividades complementares e interdependentes e, que, portanto, a gestão pode ser definida como a implementação do planejamento.

Para Castells (1983, p.338), a gestão é “regulação da relação entre produto

(meios de produção específicos), consumo (força de trabalho específica) e troca em

função das leis estruturais, da formação social [...]. É a especificação urbana da instância política, o que não esgota as relações entre esta instância e o sistema urbano”.

De acordo com Santos Jr. (1995)

A nova concepção de planejamento e gestão da cidade possui dois fundamentos. Primeiro, o diagnóstico de que o capitalismo tardio gerou uma dinâmica intra-urbana a qual produz e reproduz as desigualdades sociais, traduzidas pela segregação e pela espoliação urbana. Segundo, os princípios políticos e ideológicos calcados no ideário da democracia e da justiça social, concepção que recebe fortes influências das idéias e análises identificadas como a sociologia urbana marxista francesa. (p.21).

Segundo o autor, alguns desafios são necessários para se chegar ao sucesso do planejamento e da gestão das cidades. Devem ser mencionados como, por exemplo, a unidade política e técnico-científica do planejamento e da gestão, uma análise dos instrumentos de que o planejamento e a gestão urbanos dispõem, a adequação dos meios para se chegar a um fim, dar importância devida a termos como participação popular e contextualizar o planejamento dentro da teoria das ciências sociais. O desafio maior, porém, é de não tornar a cidade uma simples máquina controlada pelo Estado e sim planejá-la de modo que sua gestão seja eficiente para que as estratégias de planejamento sejam implementadas de forma correta e de acordo com a expectativa da sociedade.

Ribeiro e Santos Jr. et al. (1997) ressaltam que

[...] boa parte das experiências de planejamento local carregam a marca da ineficácia. Em função disso é evidentemente desejável para uma gestão democrática fazer uso de tecnologias de planejamento que alcancem a eficácia [...]. (p.303).

A ineficácia de boa parte dessas experiências de planejamento, no entanto, não decorre somente da falta de tecnologias. A ineficácia, aqui, pode ser definida como a ausência de resultados positivos na implementação do planejamento de uma cidade. Já a ineficiência da gestão é causada também pelo desconhecimento e/ou descompromisso do gestor público relativamente à aplicação dos instrumentos que devem gerir esta cidade, como, por exemplo, os planos diretores.

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