LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
3.4 PLANEJAMENTO E PROCEDIMENTOS EXPERIMENTAIS
3.4.1 Descrição do plano da tarefa
Neste trabalho, foi organizada uma tarefa de escrita e de comunicação em 3 versões, diferentes entre si pelo tipo de texto utilizado. Para os sujeitos, estava prevista uma atividade de escrita com um texto. A tarefa foi inserida numa situação de comunicação por telefone, na qual um texto seria lido, em voz alta, pelo experimentador e escrito pelos sujeitos da pesquisa, numa relação de reciprocidade.
A tarefa de escrita e comunicação foi então estruturada como uma brincadeira de telefone - um jogo de faz-de-conta, como, por exemplo, a tradicional brincadeira do telefone sem fio (REYSABAL, 1999), o mais próximo possível da cultura lúdica dos sujeitos. Ela tinha, assim, a intenção de possibilitar aos sujeitos a compreensão da significação da comunicação (os seus objetivos, as ações em comum e as expectativas entre os participantes, tudo isso contido no contrato didático da situação), fosse esta efetivada pela transmissão da mensagem escrita quando fosse lida, ou viabilizada pela sua recepção e escrita. 38
Noutras palavra, a tarefa de escrita e comunicação inserida numa situação de significação resultaria de um acontecimento particular (por exemplo: uma quermesse de São João; um aniversário ou uma festa de leitura) que teria, então, como objetivo levar o leitor (experimentador) e o escriba (sujeito) a ler e a escrever, de maneira recíproca, com o objetivo de realizar ações de comunicação (por meio de comentários orais) e de organizar sua
38 Considerando a relevância de encravar a situação na vida cotidiana dos sujeitos, ao tratar do conteúdo da
ortografia, foi desenvolvida uma contextualização, isto é, uma encenação com base numa historinha. Ver referência de VERGNAUD (2003a).
interpretação e produção de mensagens (notação). Por conseguinte, o conceito de situação didática adquiriu o sentido de uma tarefa de notação segundo a norma ortográfica e de comunicação oral. Intentou-se, com essa situação, romper com outras situações didáticas utilizadas, em geral pela escola, em que a significação e a comunicação não estão presentes e em que, em muitos casos, a leitura e a escrita são apresentadas às crianças separadamente.
Nessa situação didática, foi ainda inserido o ditado de mensagens em voz alta. Neste estudo, porém, o ditado teve a intenção de contribuir com a reflexão a respeito das atividades habitualmente propostas pela escola, cujo sentido é descontextualizado, afastado da vida das crianças e sem espaço para comentários por parte delas. Por conseguinte, em nossa situação didática, o ditado passou a ter uma função de atividade de linguagem, isto é, de uma atividade textual imersa em condições sociopragmáticas, diferentes daquelas da tarefa em que o professor dita um texto aos alunos para controlar e verificar o aprendizado da ortografia de uma lista aleatória de palavras.
3.4.2 O material da tarefa
Foram previstos três gêneros textuais (anúncio, receita de bolo e convite). Antes da elaboração destes, foi feito um levantamento de palavras de uso freqüente e de uso infreqüente para os alunos. As palavras selecionadas foram ou não conhecidas pelos alunos durante o ano escolar, conforme depoimentos das professoras. Podemos ver abaixo o resultado final desse levantamento em treze palavras selecionadas:
a) as palavras de uso freqüente foram: chocolate, ovos, leite, açúcar, farinha, manga, manteiga, aniversário;
b) as palavras de uso infreqüente foram: canela, cravo, noz, conhaque e fermento.
A categorização das palavras em função da freqüência de uso foi posteriormente confirmada com dados obtidos a partir do Dicionário de Usos do Português Escrito, elaborado pela equipe coordenada pelo Professor Francisco Borba, da Universidade de São Paulo/Araraquara, que utilizou textos da língua portuguesa em prosa, a partir de 1950, num total de aproximadamente 14.000.000 de ocorrências de palavras. As palavras do texto categorizadas como de uso freqüente apresentam uma recorrência de uso superior a 230/14.000.000, variando de leite (1496) a manteiga (237), enquanto as palavras de uso
infreqüente apresentaram uma recorrência de uso inferior a 150/14.000.000, variando de canela (147) a noz (50).
Os três gêneros textuais organizados foram provenientes de três situações de significação particular, susceptíveis de serem vividas pelas crianças no seu contexto habitual de vida, tais como:
Situação 1: Quermesse de São João: Gênero textual: anúncio
Situação 2: Aniversário: Gênero Textual: receita de bolo.
Situação 3: Festa da leitura: Gênero textual: convite
As treze palavras de uso freqüente e de uso infreqüente acima mencionadas foram incluídas nos três gêneros textuais acima indicados quando de sua organização (anúncio, receita de bolo e convite). O lugar dessas treze palavras em cada um dos gêneros era diferente para cada um deles. Essas variações na seqüência das palavras tinham por objetivo evitar que as crianças memorizassem a ordem das palavras.
O primeiro gênero textual, o anúncio, foi constituído de 33 palavras; o segundo, a receita de bolo, de 40 palavras; e o terceiro, o convite, de 81 palavras. Os gêneros textuais foram organizados em relação à sua forma composicional, e essas diversas formas composicionais puseram em relevo as diferenças de natureza textual entre o anúncio, a receita de bolo e o convite.
O anúncio obedeceu a convenções textuais (por exemplo: de como começa e como termina) que são fáceis de distinguir daquelas de uma receita de bolo e de um convite. No anúncio, escolhemos um público que se informa oralmente ou por escrito. Na receita de bolo, enumeravam-se os ingredientes necessários e, finalmente, a maneira de preparar o bolo. No convite, escolhemos um destinatário preciso, recomendamos o envio da mensagem a ele e datamos.
Além disso, cuidamos dos aspectos intertextuais (o texto tem elementos comuns a outros textos), lingüísticos (coerência), pragmáticos (a forma composional do gênero é convencinalizada) e do conhecimento partilhado do texto. A escolha dos três tipos de eventos de letramento (KLEIMAN, 2002) foi determinada pelas razões seguintes:
a) apoiar a notação da norma ortográfica em práticas que envolviam gêneros textuais extra- escolares;
b) explorar a notação das 13 palavras selecionadas em atividades de linguagem, isto é, em três atividades textuais;
c) verificar o papel da comunicação (diálogos) no momento da notação das mensagens; d) inscrever a tarefa de notação da norma ortográfica em uma situação de significação, isto
é, em um evento de letramento, contextualizando a situação didática com uma historinha.
Vejamos a seguir os três gêneros textuais organizados:
ANÚNCIO CLASSIFICADO
Compra para bolo de aniversário, festa junina: Rótulos: fermento, conhaque.
Embalagens: manteiga, chocolate;
Sacos; mangas, açúcar, leite, cravos, farinha e noz. Caixas: ovos;
Pacote: canela.
Preço a combinar. Falar com Júlio, número 4454413 (ou 4531293), às 10 horas.
RECEITA DE BOLO
Dizer à Lia e à Diva que nós vamos preparar um bolo de aniversário. É preciso trazer:
Canela, Fermento, Manteiga, Leite, Ovos, Chocolate, Farinha, Cravos, Mangas, Açúcar, Conhaque, Noz.
CONVITE
Recife,... de março de Senhora,
Gostaria de convidá-la para falar em nossa classe sobre o seu livro O bolo de aniversário de Lia. Você poderia vir à nossa escola?
Nós teríamos, então, uma pergunta a lhe fazer. Se é uma festa de aniversário, seria preciso velas, bolas e outras coisas mais. Por que a mãe de Lia só compra ovos, açúcar, noz, leite, mangas, fermento, chocolate, cravos, canela, manteiga, farinha e conhaque?
Ficaria feliz se você pudesse vir! Obrigada. Local: Escola...
Endereço: Rua... Data: 20 de maio Hora: 10:00 horas
O material da tarefa de comunicação telefônica foi composto por dois aparelhos eletrônicos para possibilitar aos sujeitos e ao experimentador falarem entre si em lugares contíguos.
3.4.3 Procedimento experimental
Antes de iniciar a experiência, a professora e o experimentador conversaram com o escriba (sujeito) a respeito da brincadeira do telefone que ele desempenharia com ela.
Para instalar a comunicação por telefone, foi contada uma historinha à criança concernente a cada situação de significação e sua respectiva mensagem (por exemplo, no caso da quermesse de São João, falamos da necessidade de escrever um anúncio a fim de que todos os colegas da escola pudessem participar da situação de compra e venda de ingredientes de um bolo) para que a mesma entrasse no contrato didático da tarefa.
No caso do aniversário, o sujeito foi informado, então, de que a professora pretenderia preparar um bolo de aniversário, mas que, para isso, ela precisava de que as crianças trouxessem algumas coisas. O escriba teve, pois, a função de receber essas informações, no início do telefonema, para transmiti-las aos seus colegas. Assim, o escriba ficaria sabendo que o leitor falaria com ele desse acontecimento (O aniversário, por exemplo) e leria uma mensagem para ele anotar.
O contrato didático (BROUSSEAU, 1998), por seu turno, consistiu na construção recíproca da expectativa da tarefa a ser realizada pelo sujeito em parceria com o experimentador. Esperamos, assim, que a criança, de seu aparelho telefônico, compreendesse que ela produziria uma mensagem, que seria ditada pelo experimentador, e que esta fosse clara, possivelmente notada sem erros, para ser lida e interpretada por seus colegas. Ao ficar a criança ciente da compreensão das expectativas da tarefa, de seus objetivos e das ações a serem empreendidas, o experimentador começou o ditado. 39
Essa experiência foi realizada por uma dupla constituída por um experimentador e um sujeito. Quarenta duplas foram formadas. Os participantes dispunham de um telefone e se encontravam em duas salas separadas. O leitor (experimentador) tinha à mão a mensagem que ele conhecia bem e o escritor (sujeito) dispunha de um caderno e de um lápis para poder escrever a mensagem.
Cada criança foi submetida às três situações estruturadas pelo telefonema, ao longo das quais as três mensagens foram ditadas, sem artificialização de pronúncia, numa ordem precisa (anúncio, receita de bolo e convite). Eles, em intervalos de aproximadamente 10 dias, escreveram as três mensagens cada vez que o jogo de comunicação foi aplicado. As sessões duraram de 40 a 50 minutos. As comunicações por telefone foram registradas em fita cassete e as mensagens foram copiadas no caderno de cada criança. Foram recolhidos 120 textos infantis (Ver exemplo no Anexo C).
O ditado, enquanto situação de conhecimento, foi aspecto importante na situação didática de comunicação. Ele forneceu informações relevantes relativas à notação da norma ortográfica e aos comentários orais contidos nos protocolos. Do ponto de vista lingüístico, essa avaliação dependeu das habilidades desenvolvidas pelas crianças e de seus conhecimentos em notar a norma ortográfica, produzir comentários orais a respeito da notação e compreender a situação pragmática vivida.
3.4.4 Descrição do processo experimental do Jogo de Comunicação por Telefone.
39 O sentido proposto por Brousseau (1998) leva a entender a necessidade de considerar o contrato didático em
função das relações dinâmicas entre professor, aluno e conhecimento a propósito da expectativa de aprendizagem comunicada pelo professor aos alunos, quando da realização de uma determinada tarefa de ensino.