CAPÍTULO I Moral na sociedade contemporânea
2.4. Análise dos dados
2.4.2. Planejamento escolar: flexibilidade versus inflexibilidade
Observa-se que o professor da educação infantil enfrenta conflitos e tensões ao tentar conciliar atribuições da instituição de ensino, às suas próprias convicções e às vontades dos alunos. A relação entre o que a criança quer e necessita frente ao que deve ser ensinado, definido em planejamentos pedagógicos e currículos, é identificada nas opiniões de professores da escola A17, apresentando-se como dilema da docência nessa etapa do ensino.
Apesar dos professores da escola A terem clareza sobre a importância da criança brincar e se movimentar, atividades esperadas na infância, nota-se que há momentos em que isso deixa de ser levado em conta pelo professor, em detrimento do que foi programado em seus planejamentos escolares. Observa-se que há professores que entendem a necessidade de acolher o desejo da criança, no entanto, há planejamentos, programas e horários a serem
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A análise limita-se aos dados disponíveis da escola A, visto que esse assunto não foi identificado nos dados da escola B.
cumpridos. Essa situação leva à adaptação entre o desejo do aluno com a proposta de ensino, o que, muitas vezes, causa frustração no professor, como se constata com as falas a seguir:
Então a gente chega com esse pensamento, ah eu preciso dar isso, eu preciso dar aquilo, eu preciso atingir esses objetivos. E na verdade a criança vem com outro olhar, pensando em outras coisas, e a gente já come18 todo esse pensamento da criança deixando toda ... [PA 4].
nós, como professoras, já enxergamos aquela criança com outro olhar, com, o olhar de como ela vai aprender a adquirir aquele conhecimento e o que a gente espera dela. Então, acho que chega a ser um pouco frustrante, porque me vejo assim também, imaginando como a criança estará daqui a pouco, como ela está agora [PA 1].
Esse ouvir das crianças não é algo tranquilo e fácil, é algo que você precisa se dedicar mesmo [PA 19].
Na outra parte do planejamento que ela já tem um pré estabelecido na cabeça dela, muitas vezes a gente não dá espaço pra, de repente, uma coisa nova e super interessante que a criança traz, né? Ou até mesmo um problema, alguma coisa que é tão importante a gente ter esse olhar também [PA 23].
Há, portanto, questionamentos sobre a maneira de colocar em prática o que é planejado frente ao interesse da criança e outras possibilidades de atividades voltadas para a aprendizagem, visto que o professor tende inicialmente a seguir seus planejamentos, como mostra a fala da professora PA 4. Devido ao que tem programado, a professora PA 1 passa a observar a criança sobre a perspectiva do conteúdo ou habilidade que pretende desenvolver na criança. Observa-se, ainda, que, como mencionado na fala da professora PA 19, entender a criança não é algo simples. Posto que existe uma problemática, nota-se que os professores apresentam compreensão em suas condutas de reconhecimento de que a criança acaba tendo vontades cerceadas e também da importância de se entender o que a criança necessita, de acordo com a fala da professora PA 23. Note-se que, principalmente, em relação às brincadeiras, há consciência por parte das professoras de que o trabalho deve estar voltado para as necessidades inerentes da criança, de acordo com os relatos a seguir:
18 A palavra 'come' usada pela professora P
A 4 faz referência à charge 1, que ilustra uma professora comendo a
A gente acaba podando um pouco mais do que eu no caso gostaria, mas assim eu tenho feito esse exercício de separar um tempo pra isso, mesmo que alguma outra coisa fique para trás, porque eu vejo realmente a importância, a diferença [PA 24].
A gente tem que ter um olhar. Mas para a criança neste sentido, eles são muito corporais nesta faixa etária da Educação Infantil, eles estão se movimentando o tempo todo, e eu acho que a gente tem mesmo que atingir as expectativas deles, eu acho que a gente vem com um monte de coisas na cabeça, a gente tem que dar conta dos conteúdos, mas não pode deixar de lado também essa expectativa que vem do brincar, da interação do social, que é muito importante [PA 7].
A criança sempre pensa de uma forma muito lúdica, brincadeiras e dessas questões que fazem parte do mundo dela. Então o professor muitas vezes acaba se esquecendo disso e priorizando outras. E, na verdade, deveria sempre partir dessas questões, dessa ludicidade que as crianças têm. Com certeza elas vão aprender muito mais, envolvendo esses aspectos do mundo delas e do seu cotidiano [PA 21].
E pra descobrir do que eles gostam, sente-se com eles e brinque junto. Foi esse caminho que eu descobri este ano. Eu estou brincando de boneca com as meninas de fazer bolinho e de carrinho. Antigamente eu dava o quebra- cabeça nos cantinhos19 e agora não, eu vou junto montar com eles. E aí você percebe o que eles estão falando, o que eles estão querendo fazer, eles gostam, brincar junto... Eu descobri isso, antes eu ficava observando eles brincarem, e agora não, estou brincando junto e eles falam e chamam [PA
23].
Observa-se, assim, o reconhecimento da escuta, de entendimento e sensibilidade com o outro, na medida em que se flexibiliza o que havia planejado para os alunos. As professoras PA 7 e PA 21 se referem a tais situações nas quais a criança chega à escola com determinadas expectativas e vontades, principalmente ao fato esperado da criança querer brincar, ser espontânea. As professoras referem-se aos elementos lúdicos e de curiosidade. Observa-se, nestes casos, mudança de conduta das professoras ao desejarem ouvir, no sentido de compreender melhor as crianças. Pode-se compreender que há um processo de adaptação e cerceamento das crianças para ao meio escolar. Isso é observado no relato da professora PA 24
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'Cantos' é um termo comum utilizado em creches e escolas de educação infantil que consiste em diversificados espaços em salas ou outros ambientes da instituição com diferentes propostas pedagógicas com brinquedos, jogos, livros ou outros materiais. Por serem geralmente organizados nos cantos da sala, recebem esse nome.
de "podar a criança mais do que se gostaria", e aqui usa-se os termos da professora, no entanto, ao mesmo tempo, observa-se atenção por parte das professoras em respeitar, ou, tentar adequar as necessidades da criança, evidenciadas nas situações em que as crianças desejam brincar, com o que está determinado em planos escolares, como expressam as professoras PA 7, PA 21, PA 23, PA 24.
Se, na educação infantil, é possível notar o conflito de base moral entre o desejo e a vontade da criança com determinações e regras de uma instituição, que também prepara o indivíduo para a vida coletiva, vê-se que o professor encontra-se diante de padronizações e direcionamentos que geram desconfortos até angústia, para equacionar um trabalho que volta- se para a natureza do ser humano e articula-se com o planejamento escolar. A esse respeito, observa-se também a opinião da professora PA 2 sobre o processo de adaptação pelo qual todos professores passam, ao considerar, de acordo com o trecho a seguir, que:
(...) todo mundo que entra em uma Instituição se modela de acordo com a Instituição, seja ela qual for, e tem um padrão, tem algo a seguir, tem o comportamento, (...) um projeto, uma forma de ensinar, uma forma de educar, e, um roteiro para isso. Olha, você tem que dar conta disso até tal data. O aluno tem que sair do seu nível pra isso, quando na verdade a gente tinha que ser formado para a flexibilidade, independente de onde a gente trabalhe, pra conseguir trazer isso para a criança [PA 2].
A professora PA 2 parece ter clareza acerca da formação do professor, que prepare o educador para a flexibilidade, de tal forma que o trabalho na escola tenha sentido.
Importante ressaltar que, apesar de entendimentos e reflexões das professoras da escola A em flexibilizar e compreender a adequação da criança no ambiente escolar, a problemática da adequação dos desejos das crianças com a estrutura escola está presente de forma consistente no dia a dia do professor de educação infantil. Isso não promove a autonomia da criança e leva a uma adaptação que não privilegia os aspectos individuais da criança. Ao invés de ser necessário flexibilizar, a estrutura escolar já poderia ter superado essas questões para que tais situações não fossem mais de conflito e tensão por parte do professor.