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2 ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA: ASPECTOS LEGAIS E

3.5 O ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA E SEU PLANEJAMENTO

3.5.1 Planejamento Familiar no Estatuto da Pessoa com Deficiência

3.5.1.4 Planejamento Familiar: Dignidade do Filho

“O filho não pede para nascer”, ditado popular apropriado para estabelecer a premissa de que uma vez concebido e sendo proibida na legislação brasileira a prática do aborto, ou sendo autorizada somente em situações excepcionais, o feto tem o direito à vida. 203

Silmara Juny de Abreu Chinelato e Almeida afirma que:

Em nosso modo de ver, ao nascituro – inclusive ao adotado – são devidos, como direito próprio, alimentos em sentido lato – alimentos civis – para que possa nutrir- se e desenvolver-se com normalidade, objetivando o nascimento com vida. Incluem- se nos alimentos a adequada assistência médico-cirúrgica pré-natal, em sua inteireza, que abrange as técnicas especiais (transfusão de sangue, em caso de eritroblastose fetal, amniocentese, ultra-sonografia) e cirurgias realizadas em fetos, cada vez mais frequentes, alcançando, ainda, as despesas com o parto.204

202 CARDIN, Valéria Silva Galdino. Da responsabilidade civil pelos danos decorrentes da quebra de deveres

paternais. In: VIEIRA, Tereza Rodrigues; CARDIN, Valéria Silva Galdino; BRUNINI, Barbara Cossetin Costa Beber. (Orgs.). Famílias, Psicologia e Direito. Brasília: Zakarewicz, 2017. p. 45.

203 Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico:

Aborto necessário

I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante;

Aborto no caso de gravidez resultante de estupro

II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz,

de seu representante legal.

Tal pensamento encontrou guarida na Lei nº 11.804, de 05 de novembro de 2008, também chamada de Lei de Alimentos Gravídicos, que regulamenta ao nascituro o direito de receber alimentos. A proteção legal alcança também a gestante, pois os alimentos se destinam ao desenvolvimento saudável do feto, recebendo a mãe os cuidados necessários até o nascimento do filho.

Mário da Silva Pinheiro e Victor Sales Ribeiro explicam:

[...] no exato momento da fecundação concretiza-se uma correlação profunda entre corpo e alma, e isto implica afirmar que ali, no útero materno, está plenamente individualizado um ser que é humano e, por isso, digno; uma pessoa que merece estima máxima, a começar pelo direito de não ser intencionalmente morta.205

Dessa forma, não cabe a gestante o direito de decidir sobre a vida que está em seu ventre, mas sim de dar-lhe as condições necessárias para o seu desenvolvimento sadio pois, dotado de dignidade da pessoa humana, o ser possui valor próprio intrínseco, impossível de ser coisificado ou instrumentalizado.

Na Constituição Federal, o seu art. 227 preconiza:

É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência comunitária, além de colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.206

Direito à vida não é somente o direito de nascer, de respirar, mas ter qualidade de vida, de ter a proteção da sua integridade física e psíquica em todas as suas dimensões, receber estímulos para adquirir conhecimento de acordo com a faixa etária da pessoa, receber o carinho, a atenção e interagir com os pais desde tenra idade.

No Preâmbulo da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (promulgada pelo Decreto nº 99.710/90) está estipulado: [...] reconhecendo que a criança, para o pleno e harmonioso desenvolvimento de sua personalidade, deve crescer no seio da família, em um ambiente de felicidade, amor e compreensão; e continua: [...] tendo em conta que, conforme assinalado na Declaração dos Direitos da Criança, “a criança, em virtude de sua falta de

205 RIBEIRO, Mário da Silva, PINHEIRO, Victor Sales. A dignidade da pessoa humana e o direito à vida do

nascituro: fundamentos biológicos, filosóficos e jurídicos. R. Dir. Gar. Fund., Vitória, v. 18, n. 3, p. 139- 176, set./dez. 2017. p. 160.

206 BRASIL. Constituição Federal de 1988. Organização Editoria Jurídica da Editora Manole. 9. ed. atual. até a

maturidade física e mental, necessita proteção e cuidados especiais, inclusive a devida proteção legal, tanto antes quanto após seu nascimento”.207

Assim como o item 1 do art. 4º do Pacto San José da Costa Rica (promulgado pelo Decreto nº. 678/92): “Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”. A legislação citada estabelece a proteção da criança de forma integral, para que tenha uma boa formação moral, social e psíquica. Também não se pode olvidar do princípio do melhor interesse da criança.

Esse princípio faz parte da evolução dos direitos da criança e do adolescente, oriundos dos tratados e convenções internacionais e do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei nº 8.069/1990, as crianças e adolescentes passaram a ser sujeitos de direito, condizentes com sua condição de pessoas em formação e passíveis da mais ampla proteção e assistência.

A criança está em permanente transformação e a combinação entre os fatores ambientais e genéticos irá determinar o seu desenvolvimento psicossocial. O que a criança vivencia em casa, na escola e na comunidade irá refletir por toda a sua vida; assim, as necessidades físicas, emocionais e intelectuais que forem negligenciadas causarão traumas, problemas de relacionamento e de afetividade na vida adulta.

Por tudo que foi explanado até aqui, pergunta-se: como consentir que uma jovem impossibilitada permanentemente de cuidar de si mesma, seja por deficiência física ou mental gere filhos, já que não possui sequer autonomia para aderir ao pré-natal, atitude que põe em risco a sua própria saúde e a do ente em formação no seu ventre? Que dignidade há na procriação involuntária e irracional de uma pessoa com deficiência mental severa que gera prole sem envolvimento por parte dos genitores e sem condições para o exercício da parentalidade responsável? O planejamento familiar requer decisões bem amadurecidas e refletidas, a capacidade jurídica dada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência para todas as pessoas com deficiência é suficiente para a utilização desse instituto?

O direito tem uma missão árdua, pois sua aplicação ao caso concreto requer uma resposta pelo Poder Judiciário, e saber o que é justo exige uma ponderação de normas e princípios, pois os juízes devem respaldar suas decisões na legislação vigente. A norma regulatória dos direitos da pessoa com deficiência é a Lei Brasileira de Inclusão, cujo próprio

207 BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Decreto nº 99.710, de 21 de novembro de 1990.Promulga

a Convenção sobre os Direitos da Criança. Brasília, DF, 21 nov. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d99710.htm>. Acesso em: 18 nov. 2018.

nome já traduz sua finalidade, ou seja, inserir na sociedade as pessoas portadoras de deficiência, cujas necessidades especiais devem ser atendidas.

Maria Regina Cazzaniga Maciel explica:

A inclusão social é, na verdade, uma medida de ordem econômica, uma vez que o portador de deficiência e outras minorias tornam-se cidadãos produtivos, participantes, conscientes de seus direitos e deveres, diminuindo, assim, os custos sociais. Dessa forma, lutar a favor da inclusão social deve ser responsabilidade de cada um e de todos coletivamente.208

Não se questiona a necessidade de inclusão social das pessoas com deficiência, entretanto, a forma como o Estatuto da Pessoa com Deficiência alterou a legislação vigente, especialmente a capacidade civil e o exercício dos direitos existenciais, sem qualquer restrição, trouxe uma celeuma no ordenamento jurídico.