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CAPÍTULO 2 – REFERENCIAL TEÓRICO

2.4 Planejamento turístico e sustentabilidade

“Os planos estratégicos procuram organizar as incertezas quanto ao futuro.” (FERREIRA, 2011, p. 270). É uma atividade que tem por intenção criar condições adequadas de forma a se alcançarem os objetivos propostos (RUSCHMANN; WIDMER, 2000).

Em turismo, os conceitos apenas contextualizam essa lógica. Para Beni (2007, p. 112), o planejamento do turismo (ou turístico) é um “[...] processo que estabelece objetivos, define linhas de ação e planos detalhados para atingi-los, e determina os recursos necessários à sua consecução.” (BENI, 2007, p. 112). Em linhas breves, pode ser entendido como um processo racional que tem por objetivo assegurar o crescimento e o desenvolvimento turístico. (MOLINA, 2005). Segundo Lohmann;Panosso Netto (2008, p. 129) o planejamento turístico “[...] visa, a partir de uma situação dada, orientar o desenvolvimento turístico de um empreendimento, local, região, município, estado ou país, tendo como meta alcançar objetivos propostos anteriormente ou durante a própria elaboração do planejamento.”. Da mesma

forma, Ruschmann (2000, p. 84) também afirma que “os objetivos do planejamento conduzem a mudanças estruturais de realidades existentes, visando, geralmente, ao crescimento econômico acelerado.”.

Um imperativo adicionado a ideia de planejamento turístico é a questão da sustentabilidade. O debate sobre turismo sustentável é um fenômenos dos anos 90, porém, a idéia de sustentabilidade já é discutida desde a década de 1980 (SWARBROOKE, 2000). Conforme visto na história do turismo, desde que observados os efeitos maléficos do turismo industrial, massificado, exigiu-se novas formas de desenvolvimento da atividade.

A origem do conceito de sustentabilidade está no cerne do modelo econômico neoliberal, que, sob os preceitos de liberdade e progresso, promoveram, de um lado, o crescimento vertiginoso da indústria e o acúmulo de capital, e do outro, sérios problemas sociais e ambientais (GARCÍA; DÁVILA, 2008). Segundo Anderson (1995), o movimento neoliberalista foi uma reação teórica e política contra o Estado intervencionista. Sob o argumento de que o Estado e os mecanismos de mercado eram ameaça letal à liberdade, não somente econômica, mas também política, a corrente neoliberal retomaria o crescimento da indústria – promovendo o incentivo ao consumo –, o uso indiscriminado dos recursos e o aumento dos abismos sociais.

O modelo neoliberal mostrou sinais de deficiência já entre os anos 70 e 80, quando o câmbio puramente especulativo foi privilegiado em detrimento aos reinvestimentos na própria indústria crescente (ANDERSON, 1995). Além disso, ainda segundo este autor, o Estado, ao contrário do que se promulgava, estava ainda mais endividado em função dos elevados gastos relativos à previdência e às taxas de desemprego. Assim, “a fé cega nos méritos do crescimento econômico começou a ceder lugar a uma série de interrogações sobre o equilíbrio entre este crescimento e a distribuição da riqueza para a sociedade como um todo.” (SILVEIRA, 1997, p. 88).

O termo sustentabilidade surge desse contexto, da urgência por repensar o modelo neoliberalista. A primeira proposição conceitual data de 1987, no Relatório de Brundtland, quando se define desenvolvimento sustentável como “aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as futuras gerações atenderem as suas próprias necessidades.” (SILVEIRA, 1997). À partir desta concepção, vários outros conceitos decorrem (quadro 13).

Quadro 13 – Conceitos de sustentabilidade

Conceito Autor/Ano

O sistema é sustentado tanto quanto o seu capital total seja igual ou maior a cada

nova geração. Solow (1991)

Sustentabilidade implica a habilidade do sistema manter sua estrutura (organização)

e função (vigor), com o passar do tempo, em face de estresse externo (resiliência). Constanza (1992) A sustentabilidade apenas ocorre quando não há declínio do capital natural. Constanza;Daly (1992) Ser sustentável é fornecer alimento, fibra e outros recursos naturais e sociais

necessários para a sobrevivência de um grupo – ou sociedade nacional ou internacional, setor econômico ou categoria residencial –, de modo que tais recursos essenciais sejam mantidos para as gerações presentes e futuras.

Wimberley (1993)

O sistema será sustentável se existe um cenário de manejo trazendo-o para o estado desejado ou dinâmico. Quando não existe a possibilidade de manejo, ou quando ele não pode ser aplicado devido as limitações externas (limitação financeira), o sistema é dito insustentável.

Voinov (1999)

Fonte: Adaptado de Faria e Carneiro (2001)

Segundo Jatobá;Cidade;Vargas (2009), as visões de sustentabilidade que hoje ocupam igualmente espaços de debate tanto na mídia quanto na academia e o seu significado tem variado ao longo do tempo, em sintonia com a dinâmica social, econômica e política que circunscreve as relações entre a sociedade e a natureza.

Ainda que diversos, os conceitos mostram que a lógica da sustentabilidade prevê perspectivas de médio e longo prazo, o que se opõe ao imediatismo da sociedade de consumo cultuada pelo modelo neoliberal. Mais que isso, é nítido que:

O antagonismo entre crescimento econômico e sustentabilidade é próprio de uma sociedade capitalista, na qual a preocupação em garantir a continuidade do processo de industrialização, afetado pelo esgotamento de recursos, esbarra na lógica de mercado, alheia às estratégias de médio e longo prazo que priorizam benefícios sociais e ambientais em oposição à acumulação de renda e conseqüente disparidades econômicas. (FARIA; CARNEIRO, 2001, p. 19)

O turismo como uma das atividades econômicas mais importantes do mundo (BRASIL, 2009), não foge ao mesmo percurso histórico, exigindo hoje à busca pela sustentabilidade. De um lado, atraentes indicadores econômicos, mas de outro, graves conseqüências pela exploração indiscriminada: um ciclo que compromete a saúde e a vida da atividade.

Muito embora atualmente as discussões sobre sustentabilidade em turismo estejam mais comumente associadas à questão ambiental, não se pode ignorar que o escopo da sustentabilidade é bem mais amplo. “O conceito de sustentabilidade engloba claramente o meio ambiente, as pessoas e os sistemas econômicos” (SWARBROOKE, 2000, p. 3). Dessa forma, a sustentabilidade também converge para a lógica sistêmica. “À medida que o meio ambiente torna-se provedor do contexto no qual todas as ações humanas, inclusive as econômicas, ocorrem, o pensamento sistêmico passa a ser considerado um pensamento ambiental” (FARIA; CARNEIRO, 2001, p. 27).

Swarbrooke (2000, p. 19) define turismo sustentável como “formas de turismo que satisfaçam hoje as necessidades dos turistas, da indústria do turismo e das comunidades locais, sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem suas próprias necessidades.”. Na percepção deste autor (2000), a sustentabilidade no turismo prevê uma atividade economicamente viável, mas que não destrói os recursos dos quais o turismo no futuro dependerá, principalmente o meio ambiente físico e o tecido social da comunidade local. “Aplicado ao turismo, o princípio da sustentabilidade é definido como algo que vai além da dimensão ecológica, pois, compreende também a melhoria das condições econômicas e sociais das populações locais e a satisfação dos turistas.” (SILVEIRA, 1997, p. 90).

Ao que caminha, não há então outra via de busca da sustentabilidade sem que se passe pelo processo de planejamento:

As ações do planejamento devem ser formuladas segundo os princípios da eficiência, que se relaciona à melhor maneira de como as coisas deverão ser feitas, da eficácia, que se refere ao alcance dos resultados definidos e, por fim, da efetividade, isto é, da apresentação de resultados positivos ao longo do tempo, permanentemente. É nesse conjunto de princípios que a sustentabilidade permeia o planejamento estratégico (FERREIRA, 2011, p. 272).

Orientado pela lógica sistêmica, os modelos dão conta de mapear as interfaces de um dado sistema turístico e o emaranhado de relações complexas estabelecidas entre os subsistemas e agentes, bem como a mutualidade de relações entre o sistema e o ambiente. O planejamento, por sua vez, tendo por base o diagnóstico obtido nesta análise, conduz o processo de desenvolvimento, agora de forma global, consciente e responsável. Desta forma, será improvável que não se prevejam os impactos e conseqüências das ações apontadas dentro do processo de planejamento. A sustentabilidade no turismo passa a ser uma questão de escolha do gestor, e não uma questão de imprevisibilidade.