A importância da docência no pensamento estético. Uma admiração mútua
Se Klee não tivesse ensinado no Bauhaus, entre 1922 e 1932, não teria certamente produzido cerca de 4000 folhas de anotações, nem desenhado importantes esquemas didácticos que demonstram uma invulgar capacidade de pensar visualmente. Este espólio está ainda por publicar integralmente, mas a chamada herança pedagógica que Jürg Spiller286 começou a compilar, logo após a morte de Klee, com a ajuda de Lily Klee, contribuiu decisivamente para divulgar a sua gramática visual bauhausiana. Por outro lado, se a situação política e a sua saúde o tivessem permitido, Klee teria provavelmente dado continuidade a um ambicioso projecto na área da pedagogia com a publicação de um livro composto de vinte e quatro capítulos com o título Bildnerische
Gestaltungslehre (Teoria da Génese da Forma Pictórica).287
Por seu turno, Kandinsky compilou os textos da sua experiência pedagógica no Bauhaus, entre 1922 e 1933, publicados em Paris, com o título Cours du Bauhaus, Curso da Bauhaus, na tradução portuguesa. O pintor continuou com a mesma determinação em divulgar o seu pensamento, fosse, neste caso, como sublinhou Philippe Sers, no prefácio do livro, para pôr em ordem as suas ideias, ou para conservar a
recordação dos momentos inesquecíveis da comunicação com os estudantes.
A verdade é que Kandinsky manteve a sua postura de homem de leis, divulgando a sua obra teórica, que continuou a publicar em Paris, cidade onde se refugiou em 1933. Embora com estilos diferentes, tanto Kandinsky, como Klee foram ambos poetas do universo,288 usando as palavras de Philippe Sers.
286
Jürg Spiller começou por publicar, em 1956, com o título Paul Klee. Form-und Gestaltungslehre.
Prevista para ter quatro volumes, quando Spiller morreu, esta compilação foi editada em apenas dois volumes: Das
bildnerischen Denken e Unendliche Naturgeschichte.
287
Segundo Rainer K. Wick, esta edição já foi alvo de críticas, nomeadamente de Max Huggler:
Il lui reprocha d’avoir négligé “la stratification temporelle“ des matériaux et de conférer ce faisant un caractère absolu aux formulations temporaires de l’artiste, de combiner le manuscrit M1 avec des passages d’autres manuscrits, de M5 et des Esquisses pédagogiques surtout, et cela sans les justifications nécessaires et sans reculer devant des interventions au niveau de la langue dans le matériau original, de sorte qu’il s’agit tout au plus d’une compilation partiellement utilisable de parties isolées de l’Héritage pédagogique. En outre, des esquisses, des dessins de schémas de la main de Klee ont été retravaillés, transformés pour l’impression, parfois même redessinés, ce qui est bien entendu une atteinte grave et inacceptable au matériau original.
Rainer Wick, Art – Théorie – Enseignement in Paul Klee, Cours du Bauhaus, Weimar 1921-1922, Contribuitions à la
Théorie de la Forme Picturale, Paris, Éditions Hazan, 2004, p. 21.
A Cada dos Mestres de Kandinsky e de Klee, em Dessau.
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No primeiro número da revista bauhaus, publicado em Dessau, no dia 4 de Dezembro de 1926, para assinalar a reabertura da escola, Klee prestou homenagem a Kandinsky que, em breve, completaria 60 anos de idade. Aproveitando esta ocasião, escreveu algumas palavras elogiosas sobre o amigo que considerava seu professor:
one is amazed, delighted, and one’s delight is of a special kind. at the age of fifty, he still found room to take decisive, mettled strides into new territory, and from that day to this, he has expanded upon his achievements in the richest possible way. […] their lavish perfection surpass the time span not merely of the artist’s life, but of the epoch.289
Quando Klee abandonou o Bauhaus, em Abril de 1931, para ensinar na Academia de Düsseldorf, Kandinsky aceitou a tarefa de editar o novo número da revista bauhaus que assinalou a partida de mais um mestre da forma. Na capa, a reprodução de um desenho de Klee. No seu interior, a retribuição de Kandinsky à homenagem que Klee lhe havia prestado cerca de cinco anos antes:
this number of the “bauhaus” magazine is dedicated to paul klee. […] at the bauhaus, Klee exuded a healthy, generative atmosphere – as a great artist and as lucid human being. the bauhaus appreciates his worth.290
Embora Kandinsky nunca tenha tratado Klee por tu, preferindo o tratamento formal, você – segundo Kenneth C. Lindsay e Peter Vergo, em Kandinsky, Complete Writings on Art –, a verdade é que não restam dúvidas quanto a uma mútua admiração. Estas homenagens na revista bauhaus serviram para atestá-la publicamente.
O parentesco entre Arte e Natureza
Num dia de Inverno, em 1924, Klee dirigiu-se ao apartamento de Kandinsky. Ambos partilhavam uma das três Casas dos Mestres, em Dessau. Atravessou a cave que ligava uma casa à outra. Queria mostrar-lhe o que tinha escrito sobre os exercícios relativos aos desenhos botânicos que realizara com os alunos. Nas aulas, eles tinham observado em pormenor a metamorfose das plantas. Pequenas coisas. Observou Klee, que deu a ler a Kandinsky os seus apontamentos:
288
Prefácio de Philippe Sers. C. B., p. 23.
289 C. W. A., p. 701. 290
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Le pré-mouvement, qui est impulsion, mène à la production. Comme il en est dans la nature, il en est de même pour nous. La nature est créatrice et nous le sommes aussi. Elle l’est jusqu’à la moindre chose, et puisqu’il est plus facile de s’en apercevoir d’un regard rapide et intense dans un petit détail, c’est bien par les petites choses que nous avons commencé à imiter la nature créatrice et, sous sa conduite, nous sommes facilement parvenus à reconnaître en nous une nature créatrice.291
Kandinsky estava sentado na sala de jantar, cujas paredes tinha mandado pintar de preto. O tecto, de cinzento. Ao fundo, um recanto revestido a folha dourada, como nas igrejas russas. Klee sentou-se na cadeira concebida por Marcel Breuer, de acordo com as orientações do amigo. Linhas sóbrias. Formas elementares. Cor: preto.
O mobiliário e a decoração interior, ao gosto de Kandinsky, reflectiam assim a estética bauhausiana. Foi para que os seus habitantes
pudessem viver como verdadeiros bauhaüsler que Gropius construiu as Casas dos Mestres. A Arte desceu do seu pedestal à vida, nela se confundindo. A grande herança estética do Bauhaus.
Naquele dia, Klee e Kandinsky conversaram sobre a relação da Arte com a Natureza. Se o primeiro ambicionava imitar a natureza
criadora, se o segundo passou a valorizar o princípio criador da natureza ao ponto de o considerar
indispensável para o artista e para o ensino,292 torna-se legítimo considerar que ambos concordaram numa tese, particularmente grata a Klee: existe um parentesco muito próximo entre Arte e Natureza. Ambas partilham o mesmo princípio expansivo que dá vida às formas, sejam elas, portanto, naturais ou artísticas. Pois, como sublinhou o pintor russo:
291Klee, Paul, Das bildnerische Denken, trad. inglesa: Paul Klee: The Thinking Eye, Jürg Spiller (ed.), Londres, Lund
Humphries, 1961, p. 259. Abreviatura utilizada: E. A. II
292 Para que serve este ensino? [para] demonstrar que tudo o que é produzido pela natureza, – como o que é produzido
pelo homem – provém das mesmas origens. Está tudo ligado num processo dinâmico, conducente à harmonia. A harmonia não é estática, mas sim dinâmica. A arte não se situa fora da VIDA, nasceu de um impulso natural. A sua lei fundamental é o ritmo – como a NATUREZA.
C. B., p. 59.
Paul Klee, desenho de observação.