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6 ANALISANDO O COMITÊ DAS BACIAS HIDROGRÁFICAS DA

6.4 Plano das Bacias Metropolitanas – papel do CBH-RMF

O primeiro plano das Bacias Metropolitanas foi elaborado em 2000, portanto antes da criação do comitê. Na 9ª reunião ordinária do comitê ocorrida em 15/05/2006 houve discussão no comitê sobre a reformulação do plano de bacia, que se encontrava defasado, o que ocorreu em 2010, tendo o diferencial de contar com a participação do CBH-RMF.

Também em 2010 foram elaborados os planos das bacias do Litoral, Coreaú e Acaraú. Os recursos para a elaboração dos planos vêm do programa PROÁGUA coordenado pela Agência Nacional de Águas - ANA, juntamente com recursos do Banco Mundial e do governo estadual, e sua execução é de responsabilidade da COGERH, que contrata serviços de consultoria para os estudos técnicos. Na 20ª reunião ordinária de 16/04/2009 foi registrada a abertura da licitação para a produção dos 4 planos de bacia acima citados, pelo valor de R$ 1.600.000,00.

Durante todo o ano de 2010, a revisão do plano veio sendo discutida, passando por três fases: diagnóstico, planejamento e plano de ações.

A primeira constou de um levantamento de dados básicos e diagnósticos, como caracterização física das bacias, levantamento da disponibilidade hídrica, indicadores sociais e demográficos, etc. A segunda, de um planejamento tendo em vista a oferta de água e as demandas, conflitos e problemas atuais; na terceira fase foram estabelecidas medidas a serem tomadas e recursos a serem distribuídos.

Ao final dos relatórios das fases o plano foi levado a uma audiência pública para aprovação, com a presença de membros do CBH-RMF, entidades, ONGs, universidades, representantes do governo estadual e dos municípios, totalizando cerca de 70 pessoas (COGERH, 2010).

Em todas as etapas de construção do plano, houve a fase chamada de ―articulação política com o comitê‖, quando foram resgatadas as informações e as demandas colocadas pelo CBH-RMF em seminários preparatórios, apresentando uma síntese da visão do colegiado a respeito da situação geral das bacias.

Nessa fase foram detectados problemas de várias naturezas os quais foram divididos nas seguintes categorias:

 Administrativa – refere-se ao tipo de conflito cuja origem está nas limitações funcionais do órgão gestor;

 Estrutural – decorrente das obras hídricas, sua situação e consequências para a efetivação da política das águas;

 Gerenciamento – compreende as ações ou a falta destas com relação aos sistemas hídricos e que acarretam consequências na manutenção, distribuição e proteção das águas;

 Gestão – problemas que demandam a aplicação do poder de polícia por parte do órgão gestor, ou execução da cobrança, outorgam aplicação de multa por infração, dentre outros.

 Institucional – consiste na falta de uma integração entre as autoridades competentes ou a falta destas.

 Legal – quando a situação não está regulamentada em lei ou celebrada em convênio.

 Preservação – quando há a necessidade de manter os padrões de qualidade da água.

O CBH-RMF destacou o conflito institucional como um dos principais entraves para a gestão das águas nas Bacias Metropolitanas. Tal conflito caracteriza-se pela falta de articulação entre os demais integrantes do SIGERH, evidenciado pelo desconhecimento das atribuições de um órgão em relação ao outro, além da falta de integração entre o plano das Bacias Metropolitanas e diferentes programas, planos e políticas públicas realizadas no Estado, tais como: o plano de bacia estadual (PLANERH), planos diretores municipais, Projeto Orla, Pacto das Águas, plano de gerenciamento costeiro, zoneamento ecológico-econômico – ZEE, projetos de manejo de unidades de conservação, dentre outros.

A burocracia que inviabiliza ou dificulta acordos de cooperação, a superposição de poderes e ações, a insuficiência de estudos e de pessoal técnico, além do o pouco compromisso de parte de alguns gestores públicos, foram os principais motivos apontados pelo comitê para a existência desses entraves.

O colegiado registra no plano também a necessidade de ampliar a participação social na política hídrica, sendo uma questão de caráter institucional e de gestão. Como propostas foram citadas a articulação e mobilização social, através de projetos de educação ambiental, referendos, audiências públicas e outros mecanismos.

No tocante às questões ambientais, o comitê destacou o declínio da qualidade da água nas bacias como consequência da utilização inadequada das águas, do despejo de esgoto e outros dejetos, ineficiência na gestão no que concerne ao monitoramento dos recursos hídricos, fiscalização insuficiente ou inexistente, que contribui para a continuidade de práticas nocivas e poluidoras, dentre outros fatores.

A precariedade nos serviços de saneamento básico tem também agravado o problema da contaminação das águas, como foi evidenciado na tabela 11, referente ao percentual da população servida com abastecimento de água e esgotamento sanitário. As realidades díspares de atendimento dos 31 municípios são graves do ponto de vista local, mas o são principalmente no contexto das bacias.

As propostas sugeridas no aspecto ambiental incluíram a necessidade de implantar ações de gerenciamento, por meio da fiscalização, gerenciamento de resíduos sólidos, ampliação do saneamento básico, realização de zoneamento, além de ações de preservação dos recursos hídricos, combate à desertificação e reflorestamento.

Os conflitos de uso da água existentes entre os setores indústria, irrigação e turismo segundo o colegiado, existem por falta de mecanismos estruturais de lidar com eles, embora haja a legislação. Um exemplo é o conflito entre os municípios localizados no Vale do Acarape em relação ao Distrito Industrial, sobre a utilização das águas e potencial risco de contaminação. Pelo CBH-RMF, esses impasses são tratados no âmbito institucional e de gestão, interpretando-os como passíveis de resolução por meio da implementação de programas de educação ambiental e campanhas informativas, ampliação da fiscalização de obras e atividades, realização de obras estruturais. Há ênfase para a articulação institucional, no acompanhamento e execução de todas essas ações.

Outros conflitos existentes e em potencial identificados relacionam-se com a questão ambiental, como a necessidade de fiscalização das práticas de aquicultura que reduzem a disponibilidade hídrica para a população ribeirinha, com a falta de regulamentação da atividade pesqueira em algumas porções litorâneas das bacias, com a falta de fiscalização das águas minerais envazadas, comprometendo a saúde da população (tal fato levou a estudos por meio da Câmara Técnica de Águas Subterrâneas

e posteriormente à regulamentação por meio da Nova Política Estadual de Recursos Hídricos) e também com a falta de programas de educação ambiental que levem à racionalização e à conservação da água.

Com relação à oferta de água nas bacias, o relatório técnico do plano com base na visão do CBH-RMF, afirma que há necessidade de ampliar esse serviço, sendo, portanto um problema de caráter estrutural, enfatizando a necessidade de democratização do acesso, sobretudo para atendimento das comunidades difusas no interior do Estado, por meio da construção e recuperação de poços, cisternas de placas, adutoras, etc. O plano lembra que a oferta de água não se traduz apenas nos aspectos quantitativos, mas também na qualidade dos mananciais e poços, o que em muitos casos nessas comunidades tem inviabilizado o consumo da água. Nesse aspecto o comitê destaca também a necessidade de articular projetos estaduais com o plano de bacias e o plano de recursos hídricos, o que segundo o colegiado, não é praticado, embora haja regulamentação em lei.

A maior parte dos problemas das Bacias Metropolitanas, na visão do colegiado, se enquadra na natureza de gestão e institucional e, portanto, sua resolução depende de ações como fiscalização, multas, aplicação dos instrumentos de gestão, articulação de instituições, etc.

Vale ressaltar que as conclusões do CBH-RMF encontradas nesse plano já haviam sido amplamente debatidas no Pacto das Águas, que foi um projeto desenvolvido em parceria com a Assembleia Legislativa do Ceará, por meio do Conselho de Altos Estudos e Assuntos Estratégicos, fazendo avaliação das políticas públicas na área de recursos hídricos, por meio da realização de encontros e oficinas envolvendo prefeituras, entidades da sociedade civil e os comitês de bacia do estado. Nesses encontros houve a divisão em eixos temáticos: Água para Beber, Água e Desenvolvimento, Convivência com o Semi-Árido e Sistema de Gerenciamento.

O posicionamento do comitê com relação ao Pacto das Águas foi favorável ao acordo de cooperação da Assembleia Legislativa e o Governo, por meio da produção de um documento que se somou com os demais colegiados cearenses na sua respectiva área dentro da metodologia do Pacto, mas se manifestou com ressalvas para que o resultado do Pacto das Águas não se transforme em políticas públicas e venha a se sobrepor à Política Estadual de Recursos Hídricos, Plano Estadual de Recursos Hídricos e plano de bacias, políticas já existentes.