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CAPÍTULO II O PLANO DE AÇÕES ARTICULADAS COMO DISPOSITIVO

2.1. Plano de Desenvolvimento da Educação: programas e ações

Nos últimos anos, o Brasil vem passando por uma reformulação no que diz respeito ao planejamento das políticas públicas. Ela é organizada por meio do PDE/PAR, em que a Educação Especial e Inclusiva também é parte integrante nesse processo.

O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) foi apresentado pelo Ministério da Educação, em 2007, como uma das ações da política educacional do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Foi ressaltado, aos estados e municípios, um conjunto de instrumentos de planejamento e avaliação, tendo como justificativa a melhoria na qualidade da Educação Básica pública brasileira.

O PDE foi apresentado ao Brasil no dia 15 de março de 2007 e lançado oficialmente em 24 de abril, juntamente com o Decreto n. 6.094, que instituiu o Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação. Pode-se dizer que o PDE é o grande “guarda-chuva” que abriga vários programas desenvolvidos pelo MEC (SAVIANI, 2009). O PDE foi lançado como parte do Programa de Aceleração para o Crescimento (PAC) pelo governo federal, sendo que cada ministério deveria indicar as ações que estivessem de acordo com o programa.

No contexto do PDE e do Plano de Metas, o MEC lança o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Esse indicador reafirma as avaliações externas que trazem muitos desdobramentos na organização do trabalho pedagógico e do professor, sendo objeto de muitas críticas.

Saviani (2007) destaca o PDE como uma forma de controle, com o intuito de criar uma educação padronizada a partir das avaliações externas, o que faz com que a escola e a prática docente passem por modificações. Nesse sentido, o autor afirma que :

[...] a singularidade do PDE se manifesta naquilo que ele traz de novo. [...] Trata-se da preocupação em atacar o problema qualitativo da Educação Básica brasileira, o que se revela em três programas lançados no dia 24 de abril: o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o Provinha Brasil e o Piso do Magistério (SAVIANI, 2007, p. 1242).

Não se pode afirmar se tais intenções vêm sendo materializadas na realidade. Além disso, Saviani (2007) nos chama a atenção que, por meio dessas estratégias políticas, presencia-se no cotidiano das escolas ações a serem cumpridas como condição para o recebimento de recursos financeiros do poder público. Percebe-se o fortalecimento de uma “pedagogia de resultados” que exerce uma forte regulação da gestão da escola e do trabalho docente.

Nesse movimento de regulação, mecanismos como o ranqueamento das escolas revelam que a avaliação tem o papel de regular o trabalho do professor para que resultados sejam atingidos, repercutindo na intensificação e nas condições do trabalho docente.

O Plano de Desenvolvimento da Educação, no que se refere à Educação Básica, prevê as seguintes ações que contemplam todas as modalidades de ensino:

•O Fundo de Manutenção e desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), aprovado em substituição ao Fundef – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério. O Fundeb propõe ampliar as ações em relação ao Fundef, estendendo-se a toda a Educação Básica. Este fundo prevê a elevação da participação dos municípios e estados na composição do montante de recursos destinados à Educação, assegurando-se a complementação da União. •O “Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação”, que prevê um regime de colaboração entre os entes da federação e a sociedade civil, para o cumprimento de 28 diretrizes que visam à qualidade educacional. Neste Plano de Metas se insere o Plano de Ações Articuladas – PAR.

• O Índice de desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, criado para avaliar o nível de aprendizagem dos alunos, tomando como padrão o rendimento dos alunos no final da 4ª e 8ª série do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio, nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, juntamente com os indicadores de fluxo- taxas de promoção, repetência e evasão escolar.

• Piso do Magistério, proposta de elevação gradativa do salário dos professores da Educação Básica para se atingir um piso nacional mínimo para a jornada de 40 horas semanais.

• Formação docente: o PDE propõe-se a oferecer por meio da Universidade Aberta do Brasil – UAB – cursos de formação inicial e continuada de docentes da Educação Básica (SAVIANI, 2007, p. 1234-1237).

Juntamente com o lançamento do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), em 24 de abril de 2007, foi apresentado à sociedade o Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, por meio do Decreto n. 6.094, que tem como objetivo ser o eixo central de articulação entre municípios, estados e União.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), o Plano de Metas:

[...] inaugura um novo regime de colaboração, que busca consertar a atuação dos entes federados sem lhes ferir a autonomia, envolvendo primordialmente a decisão política, a ação técnica e atendimento da demanda educacional, visando à melhoria dos indicadores educacionais (BRASIL, 2007b, p. 2).

O Plano de Metas é um compromisso firmado entre os entes federados a partir de 28 diretrizes; um mecanismo que compartilha competências políticas, técnicas e financeiras para a execução de programas e manutenção /desenvolvimento da Educação Básica. Com a aprovação do Plano de Metas Compromisso Todos pela Educação, os municípios terão como meta a elaboração dos planos municipais, de acordo com as diretrizes do MEC:

I – estabelecer como foco a aprendizagem, apontando resultados concretos a atingir;

II – alfabetizar as crianças até, no máximo, os oito anos de idade, aferindo os resultados por exame periódico específico;

III – acompanhar cada aluno da rede individualmente, mediante registro da sua frequência e do seu desempenho em avaliações, que devem ser realizadas periodicamente;

IV – combater a repetência, dadas as especificidades de cada rede, pela adoção de práticas como aulas de reforço no contraturno, estudos de recuperação e progressão parcial;

V – combater a evasão pelo acompanhamento individual das razões da não frequência do educando e sua superação;

VI – matricular o aluno na escola mais próxima da sua residência; VII – ampliar as possibilidades de permanência do educando sob responsabilidade da escola para além da jornada regular;

IX – garantir o acesso e permanência das pessoas com necessidades

educacionais especiais10 nas classes comuns do Ensino Regular,

fortalecendo a inclusão educacional nas escolas públicas; X – promover a Educação Infantil;

XI – manter programa de alfabetização de jovens e adultos;

XII – instituir programa próprio ou um regime de colaboração para

formação inicial e continuada de profissionais da educação;

XIII – implantar o plano de carreira, cargos e salários para os profissionais da educação, privilegiando o mérito, a formação e a avaliação do desempenho;

XIV – valorizar o mérito do trabalhador da educação, representado pelo desempenho eficiente no trabalho, dedicação, assiduidade, pontualidade, responsabilidade, realização de projetos e trabalhos especializados, cursos de atualização e desenvolvimento profissional; XV – dar consequência ao período probatório, tornando o professor efetivo estável após avaliação, de preferência externo ao sistema ao sistema educacional local;

XVI – envolver todos os professores na discussão e elaboração do projeto político pedagógico, respeitadas as especificidades de cada escola;

XVII – incorporar, ao núcleo gestor da escola, coordenadores pedagógicos que acompanhem as dificuldades enfrentadas pelo professor;

XVIII – fixar regras claras, considerados mérito e desempenho, para nomeação e exoneração de diretor de escola;

XIX – divulgar na escola e na comunidade os dados relativos à área da educação, com ênfase no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB, referido no art. 3º;

XX – acompanhar e avaliar, com participação da comunidade e do Conselho de Educação, as políticas públicas na área de educação e garantir condições, sobretudo institucionais, de continuidade das ações efetivas, preservando a memória daquelas realizadas;

XXI – zelar pela transparência da gestão pública na área da educação, garantindo o funcionamento efetivo, autônomo e articulado dos conselhos de controle social;

XXII – promover a gestão participativa na rede de ensino;

XXIII – elaborar plano de educação e instalar Conselho de Educação, quando inexistentes;

XXIV – integrar os programas da área da educação com os de outras áreas como saúde, esporte, assistência social, cultura, dentre outras, com vista ao fortalecimento da identidade do educando com sua escola;

XXV – fomentar e apoiar os conselhos escolares, envolvendo as famílias dos educandos, com as atribuições, dentre outras, de zelar pela manutenção da escola e pelo monitoramento das ações e consecução das metas de do compromisso;

10 O Decreto utiliza a expressão necessidades educacionais especiais para denominar o público da Educação Especial de pessoas com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e superdotação/altas habilidades.

XXVI – transformar a escola num espaço comunitário e manter ou recuperar aqueles espaços públicos da cidade que possam ser utilizados pela comunidade escolar;

XXVII – firmar parcerias externas à comunidade escolar, visando a melhoria da infraestrutura da escola ou a promoção de projetos socioculturais e ações educativas;

XXVIII – organizar um comitê local do Compromisso, com representantes das associações de empresários, trabalhadores, sociedade civil, Ministério Público, Conselho Tutelar e dirigente do sistema educacional público, encarregado da mobilização da sociedade e do acompanhamento das metas de evolução do IDEB (BRASIL, 2007b, p.1. Destaque do autor).

Dentre os programas e ações, no âmbito do PDE, voltados para a modalidade da Educação Especial, destacam-se o Programa de Formação Continuada de Professores na Educação Especial e o Programa de Implantação de Salas de Recursos Multifuncionais.

O Programa de Formação Continuada de Professores na Educação Especial foi lançado por meio do edital n. 2, de 26 de abril de 2007, cujo objetivo é oferecer cursos de extensão/aperfeiçoamento e/ou especialização nas áreas do Atendimento Educacional Especializado para os professores das escolas públicas. Esses cursos são oferecidos na modalidade à distância, nas instituições públicas de educação superior, em três modalidades: aperfeiçoamento ou especialização em Atendimento Educacional Especializado (de 180 a 360 horas); extensão ou aperfeiçoamento em Atendimento Educacional Especializado (máximo de 180 horas); extensão ou aperfeiçoamento para docentes do Ensino Regular, que trabalham com o público da Educação Especial na sala de aula comum (máximo de 180 horas). O programa é desenvolvido por meio de uma parceria com a Universidade Aberta do Brasil (UAB).

Já o Programa de Salas de Recursos Multifuncionais para a oferta do Atendimento Educacional Especializado faz parte dessa nova política de Educação Inclusiva e especial, que pretende tornar a escola um espaço de democracia, onde possa haver a permanência de todos os alunos, sem distinção social, cultural, étnica, de gênero (ou razão de deficiência) e características pessoais. Tal programa foi implementado no Brasil em 2007, como um dos objetivos do PDE, sendo considerada uma das principais ações que se destacaram na política da educação brasileira (BRASIL, 2007c).

As Salas de Recursos Multifuncionais utilizadas para a oferta do AEE são implantadas nas escolas das redes estaduais e municipais, cujo censo escolar deve apresentar matrículas de alunos com deficiência (física, mental, intelectual ou

sensorial), de educandos com transtornos globais do desenvolvimento (autismo, síndromes do espectro do autismo e psicose infantil) e estudantes com altas habilidades/superdotação.

Tais Salas são espaços onde acontece o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Elas são equipadas com mobiliários, materiais didáticos e pedagógicos adaptados, recursos de acessibilidade e equipamentos voltados para o trabalho com os alunos da Educação Especial (BRASIL, 2007c; 2011a).

A legislação apresenta a questão das Salas de Recursos Multifuncionais com bases conceituais distintas: em alguns momentos, trata-a como espaço físico e, em outros, como um conjunto de equipamentos e recursos didáticos pedagógicos para serem utilizados no Atendimento Educacional Especializado. Essa situação ocorre, em certa medida, pelo fato de tal questão ser muito recente, encontrando-se, portanto, em construção.

Decorrente da segunda compreensão, a legislação apresenta dois tipos de salas de recursos multifuncionais: I e II. O que difere uma da outra são os recursos e os equipamentos específicos para o atendimento aos alunos público-alvo da Educação Especial, de acordo com a realidade de cada escola.

As Salas de Recursos Multifuncionais Tipo I são constituídas de microcomputadores, monitores, fones de ouvido e microfones, scanner, impressora a laser, teclado e colmeia, mouse e acionador de pressão, laptop, materiais e jogos pedagógicos acessíveis, software para comunicação alternativa, lupas manuais e lupa eletrônica, plano inclinado, mesas, cadeiras, armário e quadro melânico (BRASIL, 2010).

Já as Salas de Recursos Multifuncionais Tipo II são constituídas dos recursos da sala Tipo I, porém, com mais alguns materiais que servem como recursos específicos para o atendimento de alunos com cegueira: impressora Braille, máquina datilográfica Braille, reglete de mesa, punção, soroban, guia de assinatura, globo terrestre acessível, kit de desenho geométrico acessível, calculadora sonora e software para produção de desenhos gráficos e táteis (BRASIL, 2010).

Em relação à proposta de implantação de Salas de Recursos Multifuncionais, alguns cuidados são essenciais com essa ação, pois pode incorrer no risco ressaltado por Mendes (2009 apud MILANESI, 2012, p. 24). Ele considera que a política da Secretaria

de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão, via Diretoria de Educação Especial (SEDADI/DPEE), de implantar a “classe de recurso multifuncional” como uma espécie de “serviço tamanho único”, pode ser entendida como uma simplificação dos serviços de apoio, uma vez que deveria ser apenas mais um dos vários serviços de sistema do contínuo de ações da Educação Especial. Isso não encontra sustentação, de acordo com a literatura da área de Educação, em termos de efetividade, para atender às necessidades tão diversificadas desse público.

Esse posicionamento parece-nos um pouco restritivo no que tange à constituição das Salas de Recursos Funcionais colocadas no PAR, pois esse Programa tem como foco principal criar condições mínimas necessárias, enquanto financiamento para instrumentalizar a criação de um espaço adequado no qual se congrega um conjunto de recursos materiais considerados mínimos e necessários para que o Atendimento Educacional possa ocorrer. Logo, não entendemos que se trata apenas da criação de um serviço de tamanho único, mas de oferecer condições mínimas para o início do trabalho, e não o tamanho esperado, desejável para tal espaço.

Além disso, Mendes (2009 apud MILANESI, 2012, p. 24) chama atenção para o fato de as Salas de Recursos Multifuncionais serem utilizadas como único serviço de apoio. Elas podem apresentar, como desvantagem, a circunscrição da responsabilidade pela escolarização do aluno ao espaço da SRM e ao professor da sala de recurso.

Outro aspecto a ser destacado, no tocante aos entendimentos sobre a temática, é desconsiderar o fato de que a legislação brasileira atual apresenta outros serviços da Educação Especial presente na escola, tais como: garantia da acessibilidade pedagógica, comunicacional, arquitetônica aos alunos público-alvo da Educação Especial na escola comum; formação de docentes; oferta de cuidadores, entre outros. Assim, o AEE é apenas um dos serviços da Educação Especial, que precisa considerar cada estudante na sua diferença – portanto, nas suas especificidades é que oferecem o tom e a dimensão do serviço a ser prestado. Esse não é um serviço de tamanho único, nem o único serviço existente, financiado e demandado pelas instâncias deliberativas da área.

Segundo o discurso do MEC, o Plano de Metas tem o intuito de orientar e articular as ações que devem se destacar no que diz respeito à Educação Básica, por meio do Plano de Ações Articuladas (PAR), que estabelece que a União oferecerá apoio

técnico e financeiro aos estados e municípios brasileiros. A seguir, discutiremos sobre o PAR e seus desdobramentos nas políticas educacionais.