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“Finalmente, cabe reafirmar o compromisso de qualquer plano urbano de situar no centro de sua construção a questão da moradia social e dos transportes públicos”. (MARICATO, 2000, p.185)

No item “O que é mobilidade urbana?” vimos que esta se define justamente na interseção das localizações na cidade, com os desejos de deslocamento e o sistema de transporte disponível. Então, colocar um desses três fatores componentes no centro da discussão de qualquer plano urbano pode ser o mesmo que colocar a questão da mobilidade urbana.

Vallejo (2008) diz que o problema atual da mobilidade urbana está centrado nas políticas de desenvolvimento que reforçam a prioridade à circulação dos automóveis privados. Fato que exclui a maior parte da população que não os possui e que sofre com a má qualidade dos transportes coletivos e com a degradação dos espaços públicos por excelência, as ruas. Para ele o direito à mobilidade deve ser garantido, através de políticas públicas, para todos os modos de circulação, inclusive o automóvel e, para que isso aconteça, é necessário a implementação de “planos integrados de mobilidade” que devem proporcionar e delimitar medidas que especializem a trama de circulação viária.

Ainda que seja possível tratar o assunto da mobilidade urbana em plano específico, como aponta Vallejo, o que interessa para os objetivos dessa pesquisa é tratar a mobilidade urbana dentro dos planos diretores. Veremos quais são as possibilidades.

Políticas estruturais de transportes e desenvolvimento urbano, conforme apontado no documento “Cidades em Movimento” do Banco Mundial (BANCO MUNDIAL, 2003, p.5) exigem uma coordenação das políticas do setor de transportes dentro de uma construção mais ampla de planejamento urbano. É a mobilidade urbana que supõe essa integração, que passa pelos planos diretores.

O documento “Plano diretor participativo: guia para a elaboração pelos municípios e cidadãos” apresenta diretrizes para inclusão da mobilidade urbana nos planos diretores e indica que é necessário diminuir o número de viagens motorizadas, repensar a circulação de veículos e que “não se pode reconstruir uma cidade; mas quando se posicionam melhor os equipamentos sociais, informatizam‐se e descentralizam‐se os serviços públicos e ocupam‐ se os vazios urbanos, modificam‐se objetivamente os fatores geradores de viagens.” (BRASIL, 2004, p.90) Dessa forma pode ocorrer uma redução da demanda de viagens, principalmente de longas distâncias, que para serem efetivadas dependem dos meios motorizados de transporte.Quando indica a necessidade de repensar a circulação de veículos, o documento deixa claro que a intenção não é banir os automóveis das cidades, mas fazer com que eles não sejam os únicos critérios para planos e projetos que tenham finalidade de organizar a mobilidade urbana.

Além disso, devemos considerar que a possibilidade de colocar diretrizes e instrumentos para restrição do uso do automóvel não resolve, isoladamente, o problema da mobilidade urbana. São necessárias, além da melhoria do transporte público, novas medidas de regulação sobre o uso e ocupação do solo. Principalmente sobre extensão do perímetro urbano e localização das atividades.

A Resolução n.º 34 do Conselho das Cidades emite orientações e recomendações para o conteúdo mínimo do plano diretor e coloca, no artigo 2º, que as funções sociais da cidade e da propriedade urbana serão definidas a partir da destinação de cada porção do território do

município. Essas definições incluem a reorganização territorial, a legislação incidente e o controle dos impactos sobre o uso e ocupação do solo no território do município. (BRASIL, 2005, p.84‐5)

Para Vasconcellos (2005, 115‐6) a alteração do uso do solo altera também as condições do transporte e do trânsito. “É importante analisar como a cidade cresce e quais são as conseqüências desse crescimento para as condições do trânsito e do transporte”. Exemplos que confirmam a sua afirmação são mudanças de uso que alteram as demandas de deslocamento e a expansão urbana provocada pelo incentivo à construção de loteamentos afastados.

A idéia básica da integração entre uso do solo e transportes está expressa da seguinte maneira:

La distribuición espacial de la vivienda, el trabajo, los lugares de compra, los lugares de recreación, y otras actividades deteminan las distancias de viajes promedios en el transporte urbano. Alta densidad de población, además de una mezcla de uso del terreno para varias actividades sociales y econômicas, mantienen las distancias cortas entre orígenes y destinos de los viajes urbanos. (GTZ, 2002, p.3)

Curitiba, no Brasil, pode ser considerada uma cidade vitoriosa na administração da relação entre transporte e uso e ocupação do solo. Nessa cidade o grande marco foi o plano diretor de 1966, Lei n.º 2.828/1966, que definiu as diretrizes básicas para o sistema viário e para o zoneamento de uso do solo urbano. Dentre os objetivos básicos do Plano estava “mudar a conformação radial de expansão da cidade para uma conformação linear, integrando transporte, sistema viário e uso do solo.” (IPPUC, 2008) Em sua implementação, década de 1970, a Lei n.º 5.234/1975 definiu o uso do solo em Curitiba e o Sistema Trinário15 foi a solução encontrada pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), órgão encarregado pela implementação, para as grandes artérias de deslocamentos, tanto do transporte coletivo, como do individual.

15 O sistema trinário de Curitiba é um conjunto de três eixos estruturantes composto ao centro por uma

canaleta exclusiva para ônibus expresso, ladeada por duas vias de tráfego lento em sentidos opostos, e complementada, paralelamente, por duas ruas de tráfego rápido.

Existe uma série de dispositivos sobre mobilidade urbana que não devem, necessariamente estar contidas no plano diretor, como exemplo larguras de calçadas ou localização de pontos de ônibus. Na proposta apontada por GTZ (2002, p.26) o plano diretor, plan de desarrollo urbano, deve conter a hierarquização do sistema de transporte ‐ entende‐se sistema viário, transporte público, individual e não motorizado, e terminais de integração modal. No plan de desarrollo a nivel distrital, os detalhes adicionais sobre as dimensões do sistema viário e desenhos de cruzamentos e interseções, assunto mais afeto a nossa Lei de Uso e Ocupação do Solo.