A partir da Constituição Federal se determina que o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana é o Plano Diretor. Já, o planejamento na esfera local ressurge, com vigor, nos anos noventa. Para além da exigência constitucional, o intenso crescimento das cidades brasileiras reforça o papel do planejamento local como importante instrumento para organização das ações governamentais, visando o bem-estar coletivo e a justiça social.
A visão atual do Plano Diretor difere bastante de sua concepção anterior. De mero documento administrativo com pretensão de resolução de todos os problemas locais, desconsiderando as práticas sociais quotidianas, o Plano Diretor assume a função de, como instrumento, interferir no processo de desenvolvimento local, a partir da compreensão integradora dos fatores políticos, econômicos, financeiros, culturais, ambientais, institucionais, sociais e territoriais que condicionam a situação encontrada no Município.
Deixando de ser de alguns para ser de todos, o Plano Diretor construído a partir da participação dos diferentes setores sociais, fazendo com que, coletivamente, ocorra a sua elaboração, implementação e sua natural e necessária revisão. As estratégias, originalmente adotadas, podem ser revistas após a avaliação responsável e consequente do Plano Diretor, permitindo mudanças nos rumos anteriormente traçados e perseguidos.
Vinculado ao Estatuto da Cidade (art. 39 à 42), o Plano Diretor deve ser aprovado por lei municipal e se constitui em instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana. Como parte de todo o processo de planejamento municipal, o Plano Diretor deverá estar integrado ao plano plurianual, às diretrizes orçamentárias e ao orçamento anual.
É de grandiosa importância considerar a vinculação do Plano Diretor ao processo de planejamento por ventura existente. Muitas vezes, o Plano Diretor pode ser a alavanca para a institucionalização de processo permanente de planejamento. Esse não é imutável, pode e deve ser continuamente revisto, de modo a se adequar às mudanças que venham a ocorrer na realidade local.
Observando o caráter dinâmico de nossas cidades e a sua complexidade intrínseca, considerando quaisquer de suas diferentes escalas, pressupõem a existência de um processo de planejamento do desenvolvimento urbano, também dinâmico e pleno de complexidade.
Algumas indicações de caráter geral podem auxiliar na percepção dos rumos que o planejamento na esfera local deve assumir.
O Plano Diretor transcende uma gestão administrativa pelos objetivos gerais e integrados que persegue. Nesse caso, ao estabelecer diretrizes de mais largo prazo, devem ser garantidas a necessária coerência e a continuidade nas ações, em especial daquelas que se referem a base econômica do Município, as voltadas para a localização de atividades no território municipal, as relativas à expansão da área urbana e à proteção do ambiente natural, dentre outras importantes metas que não podem estar submetidas a mudanças conjunturais e se limitarem a um único período de quatro anos de governo.
Muito importante salientar que, nos atuais planos diretores, é que eles necessariamente consideram a participação da população, seja na sua elaboração, no seu acompanhamento, seja em sua revisão. A participação da população pode ocorrer de distintas maneiras, como, por exemplo, nos processos de discussão das potencialidades e identificação dos problemas existentes na escala local, através de conselhos, comitês ou comissões de representantes de variados segmentos da população, do empresariado e das diferentes esferas de governo.
É no Estatuto da Cidade que se encontra a garantia de que os poderes legislativo e executivo promoverão audiências públicas e debates com a participação da população e de associações representativas dos vários segmentos que compõem a sociedade local. Todos os documentos e informações produzidos devem se tornar públicos, sendo livre o acesso de qualquer interessado aos documentos e informações produzidos.
Deve-se entender e construir o Plano Diretor na esfera local com a clara compreensão de que ele é um importante documento de governo, portanto, a principal referência para a ação governamental e, ao ser legitimado por todos, estabelece-se, entre os diferentes agentes do desenvolvimento, um pacto. Dessa forma, suas orientações são, ao mesmo tempo, resultado de uma construção pactuada coletivamente e base para o controle social sobre a ação do poder público no território municipal.
Sabe-se que não se pode mais isolar de modo mutilador as diversificadas dimensões do fenômeno urbano. Ele só será melhor compreendido através da incorporação de múltiplas visões e integração de suas inúmeras dimensões. Sabemos, também, que a ‘realidade’ urbana é, ao mesmo tempo, solidária e conflituosa, como também o é a democracia — sistema que se alimenta de antagonismos e, concomitantemente, os regula. Estas são visões a serem incorporadas, cada vez mais, no cotidiano de nossas cidades e municípios e, claro, de nossas ações como cidadãos.
Muitos municípios já elaboraram o Plano Diretor para todo o território municipal; outros o limitaram às cidades-sede; outros há que desenvolveram seu Plano Diretor considerando também as cidades dos seus respectivos distritos. Várias abrangências podem ser identificadas. Contudo, muitos municípios, apesar da obrigatoriedade constitucional de elaboração de Plano Diretor nas cidades com mais de vinte mil habitantes, em vigor desde 1986, ainda não o elaboraram. O Estatuto da Cidade estabelece que o Plano Diretor deverá considerar todo o território municipal. Pois, o Brasil possui, hoje, 5.561 municípios. Deste total, 4.172 possuem cidade com até vinte mil habitantes. Os demais, 1.389 municípios, abrigam cidades com mais de vinte mil habitantes. Portanto, todos estes estão obrigados a elaborar seu Plano Diretor (IBGE, 2015).
Dentre os municípios brasileiros, pode-se dizer que, o Plano Diretor que se implementa, de fato, é aquele em que ocorre a participação popular, não sendo imposto, mas com o devido reconhecimento popular e a real participação, no sentido de sentir-se parte e pertencente aquele local, fazendo, com sua atuação, a diferença. Mas também, não somente o de ter o dito ‘Plano Diretor’ e o mesmo não ser implementado de nenhuma das formas em que é citado no papel, mas apenas para cumprir regras preestabelecidas, exigidas para municípios com um número específico de habitantes.
Ao se buscar um comparativo, resolveu-se citar dois municípios, um deles situado no Estado do Paraná, Francisco Beltrão e o outro situado no Rio Grande do Sul, Ijuí, inclusive sede desta Universidade – UNIJUÍ. Como cidade de nascimento, residência formação, graduação e pós-graduação, em Ijuí, até o ano de 1986, teve-se a infância e juventude usufruindo daquilo que, na época era oferecido, fundamentalmente: escola, igreja, cinema, universidade, bailes nos clubes da cidade e do interior, festas da uva e no Parque de Exposições. Aos domingos, no inverno, chimarrão na praça com vizinhos e amigos.
Trabalho, emprego na área de formação em Ijuí, foi difícil pela concorrência, na época (não saindo concurso), procurou-se um local que ainda era deficiente em nossa área: geografia. Partiu-se, então para Francisco Beltrão, Estado do Paraná, cidade jovem, com falta de professores formados, em todas as áreas, proporcionando uma esperança grandiosa de poder exercer o tão honroso papel de professora na única Faculdade da região: Facibel, como também professora do ensino público estadual do Paraná. E, assim se efetivou. Lá reside-se há mais de trinta anos, acompanhando o crescimento, desenvolvimento e implementação de condições e equipamentos urbanos que fizeram desse município um ícone na atração de indústrias e universidades, apesar de ter como condição maior de desenvolvimento econômico a agricultura e pecuária, (SADIA e PERDIGÃO, hoje BRF), formado por pequenas propriedades e produção
de feijão, milho, soja, trigo, bovino, suíno e aves (galinhas e perus). A funilaria também é um excelente setor promissor, tanto é que se chama ‘Capital da panela’.
Surgiu a oportunidade de cursar o Mestrado em Direitos Humanos da UNIJUÍ, no qual trouxe uma condição de comparação em relação ao crescimento urbano, desenvolvimento industrial, universitário, áreas de lazer, de participação da população, das praças, por meio do tema que escolheu-se para aprofundar nesta dissertação: A UTOPIA DA CIDADE COMO DIREITO: REFLEXÕES PARA A QUALIDADE DE VIDA POR MEIO DA SUSTENTABILIDADE, EDUCAÇÃO E CIDADANIA. E as duas cidades serviram como uma luva, já que em Ijuí moram familiares e ela continua sendo a cidade onde constantemente faz-se presente, e, agora, muito mais, durante dois anos consecutivos, enquanto aqui efetiva-se a pós-graduação.
Mas a pergunta que não quer calar: como os Planos Diretores dos dois municípios, que, quando comparados, no papel, possuem tantas semelhanças, mas na realidade, na prática, na implementação propriamente dita, são tão diferentes?
A Sustentabilidade permeia ambos os planos, mas o que se observa é que Ijuí deixa muito a desejar em relação ao lazer, à socialização e em relação ao tratamento de lixo e esgoto, mesmo que ambos os municpios possuam uma população quase semelhante em tempos diferentes: Ijuí, centenário e Francisco Beltrão, cinquentenário, povoado essencialmente por gaúchos do norte e noroeste do RS; verificando-se que, em terra nova pode-se implementar também condições de sustentabilidades novas, modernas e de grande representatividade a nível de país, garantido uma vivência de maior corresponsabilidade com o ambiente e com sua conservação, levando a Sustentabilidade como propulsora de uma existência profícua.
Afinal, o que acontece: Ijuí tinha cinema, hoje, não mais; Francisco Beltrão tinha, queimou, mas foi reconstruído e hoje é um dos lazeres e ponto de encontro dos jovens, principalmente os mais interessados e apaixonados por vivências diferenciadas. Será que esses lementos implicam na visão de mundo, na leitura, na escrita e no entendimento da complexidade do que é o humano, a vida, a natureza, o desenvolvimento pessoal e afetivo, social, comunitário, de pertencimento?
O que é pensado para a criança, o jovem e o idoso nestas duas cidades nos Planos Diretores? O lazer tem importância, o local de caminhada e de encontro se efetiva? Para quem? Qual grupo de pessoas utiliza parques de caminhada, lagos e seu entorno para lazer, piquenique, encontros furtivos, casuais ou até planejados? As praças de exercícios (academias ao ar livre) para idosos é realmente frequentada e por quem?
Porque a praça central é banalizada e considerada lugar de ‘vagabundos e prostitutas’ e, portanto, não frequentada pela imensa maioria da população: preconceito, será? Ou não se tem interesse em que o encontro se efetive e as pessoas conversem e tenham uma opinião mais abrangente e crítica em relação a algumas questões pontuais do município do qual fazem parte e venham a se manifestar, dar opinião, pitaco? Ou orçamento participativo é apenas uma ilusão e as decisões já são previamente tomadas, não importando em nada o que o povo quer e pensa? Como e quando o jovem é chamado a participar e opinar sobre o que para ele teria interessante em termos de lazer, de entretenimento, de dedicação, empenho e coparticipação? Ou será que o jovem não pensa, não tem opinião, não sabe ou realmente não quer fazer parte desse jogo: está cego com o que o mundo lhe apresenta, aceita pacificamente, está feliz assim com o que impõem a ele, como por exemplo a moda de falar com o colega do lado pelo face, watts, Messenger...ir na balada e o som ser tão alto que não possam dialogar, será que tem intencionalidade nisso tudo ou mera coincidência?
A partir dessas indagações e, possivelmente outras centenas de indagações, a ressignificação das cidades para o bem viver e a dimensão nas relações do lazer é algo muito complexo? As cidades estão sendo reinventadas para oferecer lazer/consumo à sua população, através dos parques e feiras, exposições, shows, festas e outros atrativos e está dentro do conceito de “cidade-mercadoria”, “cidade-festiva”, “festa-mercadoria”, voltados para o consumo cultural de massa (SERPA, 2007)?
Ou os processos atuantes e determinantes no planejamento das cidades estão voltados para o lazer e o consumo, permeados de subjetividade, interesses pessoais e marketing político, sendo estratégico e comum usar o conceito de ‘lazer e qualidade de vida para toda a população’, o que na realidade é próprio de quem detém uma condição financeira que é capaz de poder usfruir de ‘certas’ qualidades de vida que o mercado capitalista oferece e conjuga junto à vivência, com fins específicos de lucro vinculados ao lazer, a digna qualidade de vida e ao embelezamento atrativo?
Pensa-se que estas análises são necessárias e que, ao falar de qualidade de vida, de ressignificação das cidades e do bem viver junto à sustentabilidade é questão primordial que devem, os Planos Diretores, enfatizar com veemência para que se implementem, verdadeiramente, garantindo uma digna existência e usufruto do espaço geográfico do qual Milton Santos, geógrafo renomado, tanto enfatizou e que é, realmente, essencial, fundamental e, urgente.
Como já mencionado, muitos já o fizeram e o põem em prática, mas deverão adequá- los às exigências legais atualmente vigentes, considerando as práticas sociais cotidianas e a
participação permanente da população no processo de planejamento participativo, garantindo, assim, uma condição democrática, apesar de que estamos vivenciando um momento político que está as avessas e anda de ré, contramão a tudo aquilo que se tinha galgado nos últimos anos, em que a democracia participativa era o mote de mudanças qualitativas e quantitativas para a grande parcela da população, desfavorecida econômica e culturalmente.