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O Plano Experimental foi criado pelo CEPE/SEEC a fim de combater o alto índice de repetência e evasão dos alunos da escola primária no RN, sobretudo na 1ª série (atualmente 2º ano do Ensino Fundamental).

Dentre os diversos objetivos específicos desse plano, destacamos aqueles que nos parecem convincentes, aos quais nos remeteremos, quando se fizer necessário.

Primeiramente, em relação às crianças, destacamos o objetivo do CEPE em envolver 390 dessas, que correspondiam a treze classes de primeira série de nove unidades escolares de Natal-RN. Cada classe não deveria ultrapassar o limite de trinta alunos.

Outro objetivo que destacamos, agora em relação à escola, foi o de integrar no Plano Experimental àquelas que tinham o maior número de evasões e repetências.

Os objetivos em relação aos professores eram: (1) fazer o professor conhecer o Plano Experimental por meio de treinamentos; (2) assistir o professor por meio de encontros periódicos, seminários, palestras, reuniões, debates, e outros; (3) fazer o professor valorizar a supervisão como um meio de ajuda a sua atuação na sala de aula e (4) fazê-lo conhecer a situação da classe, para que assim pudesse regê-la. Os objetivos do supervisor eram assistir os professores e orientá-los, bem como avaliar e planejar com eles as atividades a serem desenvolvidas.

Finalmente, os objetivos em relação ao CEPE foram: elaborar um roteiro programático mínimo a ser desenvolvido nas classes experimentais; manter uma equipe técnica de assistência direta ao plano e tornar constante o trabalho de coordenação das atividades do Plano Experimental (CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS, 1970).

Leonice de Medeiros Lima e Nancy Gomes dos Santos eram as coordenadoras do Plano Experimental. A equipe técnica era formada por três supervisores no Núcleo Regional de Ensino e quatro técnicos do CEPE.

As atividades propostas no Plano aconteceram no período de 07 a 21 de março de 1970. Essas foram executadas pela equipe técnica do CEPE, perfazendo um total de 18 horas, sendo 2 a 3 horas por dia. Eram treinados, por essa equipe, quatorze professores, nove diretores e três supervisores.

No documento intitulado Plano Experimental da Escola Primária para 1970, escrito pelas coordenadoras supracitadas, encontramos a informação que os recursos, no valor de NCR$25.000,00, destinados à realização desse plano, foram provenientes do orçamento do Estado – 703/3140/11. Contudo, nesse mesmo documento, há a vistoria da senhora Zélia Maria de Moura, que era a técnica da

DAP/INEP/USAID no RN, que, nesse Plano Experimental, por meio da SEEC, tinha como atribuição colaborar para o desenvolvimento do referido Plano. Com isso, podemos inferir que a USAID e o INEP interferiram, também, na execução desse Plano Experimental.

Procuramos à senhora Zélia Maria de Moura e ela foi uma de nossas entrevistadas. Como falamos no primeiro capítulo deste estudo, essa professora respondeu aos nossos questionamentos por e-mail.

Sobre sua função de técnica da DAP/INEP/USAID no RN, ela nos diz que:

Belo Horizonte concentrava o grupo de técnicos em Educação que coordenava os técnicos enviados aos Estados do Nordeste. No Recife, ficava o grupo de americanos (USAID) assessorados por outros tantos técnicos em educação das Minas Gerais, de São Paulo e do próprio Recife. [...]. Minha ligação sempre foi com a equipe de Belo Horizonte, com quem mantinha permanente contato via Relatórios técnicos sobre o trabalho que realizava junto à Secretaria de Educação do RN. [...]. A nós, mineiras, nos Estados do nordeste, nunca nos interessou saber, indagar os termos do convênio MEC/INEP/USAD. A nós bastava realizar o trabalho técnico e pedagógico junto às escolas, junto à equipe central da SEEC e junto ao senhor Secretário de Educação. Com esses mantínhamos constantes reuniões para prestação de contas pedagógicas. [...]. No Plano Experimental, nossa função era orientar os 14 professores, de 5 Grupos Escolares, de vários bairros de Natal. Ao chegar à Natal, os 14 professores já estavam escolhidos para assumirem as 14 classes de primeira série nos respectivos grupos escolares. Nossa tarefa principal sempre foi preparar pedagogicamente esses professores, visitando-os, semanalmente, a fim de corrigir distorções pedagógicas (quando havia). Enfim tínhamos a função de motivá-los continuamente para o bom desempenho da missão de alfabetizar bem seus respectivos alunos. [...]. As cinco Escolas e os 14 professores pertencentes ao Plano eram direta e administrativamente ligados ao 1º NURE. (ZÉLIA MARIA DE MOURA - Depoimento por e-mail).

O Plano Experimental foi planejado para quatro anos de duração. Em mãos, temos o relatório do primeiro ano de execução do plano. Neste, consta que foram realizados dois cursos de treinamento para os 14 professores, que aconteceram nos meses de março e julho.

Em relação à Matemática, chamou-nos a atenção o fato de 8 das 26 aulas desse curso serem destinadas aos conteúdos matemáticos. Também foi 8 o número de aulas destinadas à Linguagem. Assim, podemos concluir que Matemática tinha o mesmo peso dado à Linguagem nesses cursos de treinamento, nos quais, acima de tudo, desejava-se combater a problemática da evasão e repetência na escola

primária. As 10 aulas restantes do curso dividiam-se para as disciplinas de Estudos Sociais, Ciências Naturais e Planejamento.

No segundo curso de treinamento que aconteceu no mês de julho de 1970 também se evidenciou que quase 30% das aulas dadas foram destinadas à Matemática. Novamente, percebemos o mesmo peso dado à Linguagem.

Sobre isso, inferimos das palavras de Zélia Maria de Moura que não era proposital esse número de aulas de Matemática ser igual ao número de aulas de Linguagem, pois a

matemática ensinada e trabalhada no Plano Experimental não se

destacava em nada das demais matérias que compunham o Programa de

Ensino Primário da SEEC. O tratamento pedagógico tinha igual peso e medida. (ZÉLIA MARIA DE MOURA - Depoimento por e-mail). (Grifos nossos).

Finalmente, no relatório do Plano Experimental da Escola Primária para 1970 são evidenciados os pontos positivos e negativos da execução deste. Entre os positivos, chamamos a atenção para a análise feita pelas coordenadoras do Plano, quando as 14 professoras, já em suas escolas, aplicaram o que aprenderam no respectivo relatório:

o ambiente social das comunidades, onde se localizam as classes influi diretamente para que houvesse pouco ou quase nenhum interesse da parte dos pais em mandar o filho para a escola; a infreqüência foi muito grande, o que refletiu em alto índice de evasão. A propósito, por falta de esclarecimentos iniciais, o índice de evasão foi, à primeira vista, alarmante. É importante porém que se esclareça o fato de a professora, por não ter sido bem esclarecida, considerou evasão até mesmo dos alunos que nunca chegaram a comparecer em sua sala de aula. Isto pesou no cômputo final (CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS, 1970, p.6).

No tocante à repetência na 1ª série foi feito pelas supervisoras do Plano Experimental nas classes de suas alunas um teste de leitura oral e os resultados foram os da tabela a seguir:

Total de alunos testados 316 Boa leitura e interpretação 85 Leitura lenta, sílaba por sílaba 16

Não lêem nada 215

Porcentagem de alunos que lêem 31%

Acerca desse resultado, os argumentos foram os que seguem:

após computação dos testes, houve encontro com as professoras, para análise dos resultados e concluiu-se que, dentre os alunos que nada leram, há muitos que foram vencidos pela inibição e que, se testados pela própria professora de classe, teriam apresentado melhores resultados (CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS, 1970, p.8).

Finalizamos apontando que, em 1970, quando foi colocado em ação o Plano Experimental, muitos professores advinham do Curso de Treinamento de Professores Leigos. Por isso, convém esclarecermos algumas questões em aberto: será que esse curso ou mesmo os dois cursos de treinamento oferecidos pelas próprias ações do Plano Experimental foram suficientes para a formação desses professores? Será que esses professores sentiam-se seguros para alfabetizar crianças? Por que o número de aulas destinado à Linguagem era o mesmo número destinado à Matemática se, no final, os testes, como vimos na citação acima, eram somente destinados à leitura oral?

Enfim, no relatório acerca do Plano Experimental não consta qual o conteúdo matemático desenvolvido para esses 14 professores.

Desse modo, fica mais uma questão em aberto: o que de fato se ensinou sobre Matemática aos 14 professores que fizeram parte das aulas do Plano Experimental?

O Plano Experimental da Escola Primária para 1970 não nos pareceu ter sido significativo nem para aqueles que fizeram parte dele, por isso, talvez, tenhamos muitas dificuldades em responder às questões supracitadas. Essa afirmação se deve

às palavras da Professora Nancy Gomes dos Santos, que era uma das coordenadoras desse Plano:

o Plano Experimental era centralizado na Secretaria de Educação. Eu me lembro de que nós fizemos, pelo menos eu fiz, duas viagens a Recife com a coordenadora do CEPE que, na época, era Anilda Menezes. Nós tínhamos um encontro em Recife para discutir o andamento do Plano Experimental. [...].Olha, eu confesso a você, com sinceridade, eu não achei muita vantagem não, por exemplo nós dávamos aulas para a maioria dos professores do Pré e do Jardim de Infância. [...]. Eu confesso a você que não achei muita vantagem no plano experimental, é tanto que eu não tenho nem lembranças. [...].não tínhamos gratificações, tínhamos encontros e reuniões, mas a vida escolar eu, particularmente, achei que deixou muito a desejar (NANCY GOMES DOS SANTOS. Depoimento Oral).