para Estradas - Parque na Floresta
Capítulo 5 Estudo de caso: Estrada Parque:
5.9 Implantação de uma estrada-parque modelo na BR-319
5.9.3 Plano de Manejo da EP BR-319
As EP, assim como qualquer outra UC, devem contar com um Plano de Manejo (PM), elaborado a partir de diagnósticos do meio físico, biológico e social da área de influência. O documento estabelece as normas e as diretrizes de gestão da UC, conforme os seus objetivos, incluindo a instalação de infraestrutura específica, se necessário. Este último ponto é especialmente importante no caso de uma EP, pois a unidade requererá estruturas físicas para adaptar a área aos objetivos pretendidos. Na concepção da Lei 9.985/2000, art. 2, inciso XVII, o PM é um:
Documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade.
(BRASIL, 2000, p.2)
A Lei do SNUC estipula ainda três condições importantes para a elaboração do PM de uma UC. O primeiro é que o documento deve ter uma abordagem holística, considerando não apenas a área da UC, mas sua ZA e os corredores ecológicos adjacentes. O plano deve também discriminar medidas que promovam a integração socioeconômica das populações residentes ou vizinhas. Em seu art. 27, parágrafo 1, a Lei 9.985/2000 afirma:
Todas as unidades de conservação devem dispor de um Plano de Manejo, que deve abranger a área da Unidade de Conservação, sua zona de amortecimento e os corredores ecológicos, incluindo medidas com o fim de promover sua integração à vida econômica social das comunidades vizinhas (BRASIL, 2000, p10).
A segunda condição fundamental ao se conceber o PM de uma UC, é que o documento deve ser elaborado com a participação das populações residentes, principalmente se a unidade for enquadrada como Reserva Extrativista, Reserva de Desenvolvimento Sustentável, Área de Proteção Ambiental ou Florestas Nacionais.
98 Como a EP proposta será categorizada como Área de Proteção Ambiental, a condição se aplica. Em seu art. 27, parágrafo 2, a Lei 9.985/2000 é muito clara neste sentido:
Na elaboração, atualização e implementação do Plano de Manejo das Reservas Extrativistas, das Reservas de Desenvolvimento Sustentável, das Áreas de Proteção Ambiental e, quando couber, das Florestas Nacionais e das Áreas de Relevante Interesse Ecológico, será assegurada a ampla participação da população residente (BRASIL, 2000, p10).
A terceira e última principal condição para a concepção do PM de uma UC é que o documento deve ser “elaborado no prazo de cinco anos a partir da data de sua criação”
(BRASIL, 2000, p10), conforme estipulado no art. 27, parágrafo 3, da Lei 9.985/2000.
Infelizmente, no Brasil, muitas UC foram criadas há mais de cinco anos e até hoje não contam com um PM adequado.
Ressaltamos também que a redação do PM deve levar em consideração a estrutura administrativa da UC. Por lei, cada UC deve ter um Conselho Gestor, que pode ser de natureza deliberativa ou consultiva, dependendo da categoria na qual a unidade se enquadre. Neste Conselho Gestor participam representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes, tendo como objetivo a integração da UC com as demais unidades e outras áreas protegidas com seu entorno.
As ações previstas no PM devem estar em sintonia com os objetivos gerais da UC, visando não somente à proteção ambiental, mas também à preservação das condições de sobrevivência das populações locais. Caso seja necessário realocar os residentes de uma UC de Proteção Integral, o art. 42, da Lei 9.985/2000 prevê que seja feito um acordo entre o órgão gestor responsável pela unidade (em nível federal ou estadual) e os moradores impactados, definindo o novo local e as condições de moradia.
O mecanismo estipula ainda que quaisquer benfeitorias realizadas pelos moradores na área a ser desocupada devem ser devidamente indenizadas ou compensadas. Em se tratando da EP modelo da BR-319, o IBAMA ou IPAAM devem buscar diálogo com os órgãos de proteção à comunidade indígena, como FUNAI e CIMI, bem como com as associações de moradores locais, particularmente dos municípios amazonenses próximos, como Humaitá, Lábrea, Canutama, Manicoré e Tapauá.
Embora a EP proposta seja uma APA, isto é, por definição uma UC de Uso Sustentável, como sua ZA envolve um mosaico de unidades, abarcaria também UC de Proteção Integral. Detalharemos a complexidade deste desafio no subitem a seguir.
99 5.9.3.1 Plano de Manejo de um mosaico de unidades de Conservação
No entendimento do SNUC, uma vez que se identifica um conjunto de UC geograficamente próximas e/ou justapostas fica caracterizado o que chamam de
“mosaico de unidades”. O termo faz referência ao padrão visual criado pelas diferentes partes que compõem o todo, gerando um resultado mais rico e complexo. Trata-se justamente do caso da área de influência do trecho central da BR-319, que percorre 28 UC (federais e estaduais), das quais 22 são de Uso Sustentável e apenas seis são de Proteção Integral.
Ao propor o PM integrado da EP BR-319 é necessário considerar todas as afinidades e as particularidades das unidades que compõem este mosaico. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que o PM de um mosaico de unidades deve levar em consideração o conjunto amplo de objetivos gerais de todas as 28 UC, deve também ter um objetivo próprio, maior. O propósito será conceber um plano capaz de integrar, compatibilizar e otimizar o conjunto, especialmente no que tange as questões de acesso às unidades, a fiscalização das mesmas, o uso da terra nas áreas fronteiriças, além do próprio monitoramento e avaliação do PM integrado. O documento deve ser elaborado seguindo o Desenho do Processo de Planejamento (DPP), marco conceitual e teórico definido pela Portaria ICMBIO 4/2012 (ICMBIO, 2012).
De acordo com o SNUC, a gestão da um mosaico de UC deve estar a cargo de um Conselho Consultivo, presidido por um dos líderes dos respectivos conselhos das UC integrantes. O principal desafio deste Conselho é promover a interação entre os diferentes órgãos gestores, o governo local e a população residente.
Atualmente, os planos de manejo das 11 UC federais estão sendo elaborados com apoio técnico de consultoria contratada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O edital para a contratação foi divulgado em setembro de 2013 e até a conclusão desta dissertação não havíamos recebido novas informações (ICMBIO, 2013b).
5.9.3.2 Zona de Amortecimento da EP BR-319
Um dos pontos mais importantes do PM de uma UC é a delimitação da Zona de Amortecimento (ZA), conforme conceito definido no capítulo 2. Como a EP envolve um mosaico de UC, estamos falando naturalmente de uma área bem abrangente. É
100 importante ressaltar que a delimitação da ZA não implica necessariamente na desapropriação de terrenos. Caberá ao PM definir as regras a serem seguidas para manter o acesso aos recursos naturais das terras localizadas nas UC ou em áreas vizinhas.
Ao estabelecer a ZA da EP BR-319 propomos dois métodos. O primeiro é considerar a ZA como sendo todas as regiões circundantes da UC num raio de três quilômetros, corroborando o disposto na resolução CONAMA 428/2010. O segundo – e o mais adequado no nosso entendimento – é definir a ZA como sendo o interflúvio dos rios Madeira e Purus, particularmente seus cursos médio e baixo. Na prática, isto equivale a dizer que todas as UC contidas nas AID e AII, conforme definido pelo EIA/RIMA do trecho central da rodovia, farão parte da ZA.