• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 4 POLÍTICAS PÚBLICAS NA EDUCAÇÃO

4.1 PRINCIPAIS INSTRUMENTOS NACIONAIS SOBRE SEXUALIDADE NA

4.1.3 Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (2004 e 2008)

Anteriores às conferências LGBT, as conferências de políticas para as mulheres significaram instrumento fundamental nas políticas públicas sobre diversidade sexual. Nessas conferências, as políticas educacionais pautadas têm o olhar de mulheres lésbicas e bissexuais ativistas e as exigências de equidade são estabelecidas em todo o processo de elaboração, implementação e monitoramento de tais políticas. Trago, na sequência, algumas conquistas traduzidas em políticas públicas na educação protagonizadas pelo movimento LGBT com apoio do movimento de mulheres de todo o país.

O Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (PNPM), nas suas duas edições (2004 e 2008) é resultado da articulação de mulheres de todo o país, integrantes ou não de movimentos feministas, reunidas nas Conferências Nacionais de Políticas para Mulheres, realizadas nos anos 2004 e 2008, respectivamente. O movimento de mulheres lésbicas e bissexuais, integrado com as mulheres negras e feministas do quadro nacional, mobilizou-se no sentido de reivindicar, entre outras prioridades, ações que promovessem a sensibilização de gestoras e gestores da educação em todas as instâncias de governo para a temática da diversidade sexual na escola, além da formação continuada de professoras e professores, da elaboração de materiais didáticos adequados ao tema e da mudança curricular para a promoção de uma educação sexual inclusiva.

Na sua primeira edição, a perspectiva de uma Educação inclusiva e não-sexista propunha, entre os objetivos, “[...] incorporar a perspectiva de gênero, raça, etnia e orientação sexual no processo educacional formal e informal” (BRASIL, 2009c, p. 56), evidenciando a preocupação com a diversidade sexual no âmbito da educação. A ideia de “[...] transformar a cultura educacional e escolar, enfrentando os preconceitos e discriminações étnico-raciais, de gênero e por orientação sexual, bem como promover uma educação para a diversidade” (p. 45) atravessa todo o documento. Enfatizo que

Vitória está entre os 106 municípios, em todo o Brasil, que firmaram o pacto de implementação do Plano, em 18 de novembro de 200527.

O relatório de implementação do primeiro Plano, que abrange o período de 2005 a 2007, apontou algumas ações viabilizadas pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) em parceria com o Ministério da Educação (MEC), entre outros órgãos. Uma ação significativa foi a elaboração e implementação do Programa Gênero e Diversidade na Escola (GDE), que trata da formação de professoras e professores nas temáticas: sexualidade e orientação sexual, raça, etnia e gênero. Oferecido na modalidade à distância, formou cerca de quatro mil profissionais em educação no período mencionado, em todo o Brasil. Apenas no ano 2011, o estado do Espírito Santo, por meio da UFES, oferece o curso pela primeira vez, formando o equivalente a 400 profissionais da educação nas temáticas citadas. Este relatório aponta, também, as dificuldades encontradas na implementação do I PNPM, a saber:

[...] as demandas fundamentais da educação para a igualdade de gênero e orientação sexual seguem as mesmas: sensibilização de gestores/as federais; formação de profissionais da educação em âmbito nacional; promoção de uma mudança curricular que inclua o tratamento da questão de gênero e de orientação sexual de maneira transversal nos currículos de educação básica e superior; e a consequente elaboração de materiais didáticos e de orientação aos/às professores/as para a prática em sala de aula [...] (BRASIL, 2009c).

No segundo Plano, elaborado a partir da II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, em 2008, a seção que aborda a educação passa a ser intitulada como: Educação inclusiva, não sexista, não racista, não homofóbica e não lesbofóbica, atendendo às reivindicações do movimento de mulheres lésbicas participantes do evento. O próprio documento traz a constatação de que “[...] de 2004, ano de lançamento do primeiro Plano Nacional de Políticas para as Mulheres até agora [2008], as grandes estatísticas sobre a área educacional permanecem inalteradas” (BRASIL, 2008a, p. 54).

Destaco que a II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres aprovou, em sua plenária final, a inclusão de um eixo específico28 em que mulheres lésbicas receberam

Além de Vitória, outros 16 municípios do ES firmaram o pacto de implementação do I PNPM

São os seguintes os eixos contemplados no II PNPM: 1) Autonomia econômica e igualdade no mundo do trabalho com inclusão social; 2) Educação inclusiva, não sexista, não racista, não homofóbica e não lesbofóbica; 3) Saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos; 4) Enfrentamento a todas as formas de violência contra as mulheres; 5) Participação das mulheres nos espaços de poder e decisão; 6) Desenvolvimento sustentável no meio rural, na cidade e na floresta, com garantia de justiça ambiental, soberania e segurança alimentar, 7) Direito à terra, moradia digna e infraestrutura social nos meios rural e urbano, considerando as comunidades tradicionais; 8) Cultura, educação e mídia igualitárias, democráticas e não discriminatórias; 9) Enfrentamento do

atenção diferenciada para ações políticas em diferentes áreas, entre elas, a educação. Com o tema “Enfrentamento do racismo, do sexismo e da lesbofobia”, o eixo 9 do II PNPM representa a instituição de um importante marco político na luta pela equidade para todas as mulheres, com especial tratamento às mulheres lésbicas e negras. Nele, são destacadas as dificuldades que gestoras e gestores encontram para compreender os entraves da intersecionalidade para pensar políticas públicas focalizadas. As diferenças entre mulheres heterossexuais e mulheres lésbicas recebem destaque e é dada ênfase na ideia de que tais diferenças não podem subsidiar desigualdades. Na sua apresentação, o documento afirma:

Importante destacar a estratégia política expressa no eixo 09 do II PNPM para o enfrentamento às discriminações de maneira intersecional. Reconhecer as origens sociais e culturais específicas e as peculiaridades de cada expressão da discriminação contra as mulheres tem um valor significativo para o desenvolvimento de ações mais efetivas e intervenções nas diversas políticas governamentais (BRASIL, 2010b, p. 12).

O investimento na formação e capacitação de gestoras e gestores, somado à parceria da sociedade civil, compõe uma das mais estratégicas ações identificadas no referido eixo. Com a finalidade de assegurar a transversalidade e intersetorialidade de gênero, raça e sexualidade nas políticas públicas, o II PNPM propôs o curso à distância Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça (GPPGeR) , cujo objetivo é “[...] contribuir para o desenvolvimento de instrumentos que subsidiem o compromisso com a igualdade de gênero e raça em ações permanentes e sistêmicas na agenda pública” (BRASIL, 2010a, p. 32). No estado do Espírito Santo, esse curso, oferecido pela UFES na modalidade especialização, no ano 2011, em 17 municípios, com 680 vagas, tem como público servidoras(es) municipais e estaduais, integrantes dos Conselhos de Direitos da Mulher, dos Fóruns Intergovernamentais de Promoção da Igualdade Racial, dos fóruns de direitos de LGBT, dos Conselhos de Educação e dirigentes de organismos da sociedade civil ligados à temática de gênero, diversidade sexual, raça e etnia. Essa iniciativa, proposta por mulheres lésbicas e outras parceiras, tem proporcionado a formação de gestoras e gestores públicos que, a partir dos estudos e discussões das temáticas propostas pelo curso, poderão mudar o olhar eivado de estereótipos sobre mulheres lésbicas em especial e à população de gays, bissexuais, travestis e transexuais de modo geral, passando a pensar políticas públicas para essa população que, de fato, favoreçam a igualdade de tratamento e oportunidades.

racismo, sexismo e lesbofobia; 10) Enfrentamento das desigualdades geracionais que atingem as mulheres, com especial atenção às jovens e idosas; e 11) Gestão e monitoramento do Plano (BRASIL, 2009c, p. 121).

No panorama de políticas de promoção de equidade para a população LGBT, o Programa Brasil sem Homofobia, abaixo abordado, apresenta, também, perspectivas no cenário educacional brasileiro sobre o respeito à diversidade sexual na escola.