3.2 UMA CIDADE QUE SE PLANEJA…
3.2.2 O Plano Wilheim-Ippuc
A arquitetura moderna já mostrava sinais de cansaço na Europa durante os anos 1950, mas a influência desse movimento ainda ressoaria no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970. Mesmo seguindo as tendências do chamado pós-modernismo, o Plano Diretor de 1966 simboliza mais uma transição lenta do que uma ruptura com o que foi proposto por Alfred Agache (RODRIGUES, 2010).
A década de 1960 marca um momento fértil para a arquitetura e urbanismo em Curi-tiba. Em 1962, tem início a primeira turma do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e também a gestão do engenheiro Ivo Arzua como prefeito. Com recursos cedidos pela Companhia de Desenvolvimento do Paraná (Codepar), mesmo órgão que havia constatado a necessidade de um novo planejamento urbano para Curitiba (SANTOS, 2015), a prefeitura abre um edital para escolher a empresa responsável por esse novo plano diretor. A Sociedade Serete de Estudos e Projetos Ltda (Serete) sai vitoriosa e se encarrega dos novos diagnósticos sobre a cidade que são usados como base para o desenvolvimento desse plano.
Da parceria entre essa empresa e o arquiteto paulista Jorge Wilheim nasce o Plano Preliminar de Urbanismo (PPU). Esse pré-plano é concebido sob a tutela de um “grupo de acompanha-mento local” formado por especialistas curitibanos, entre eles Jaime Lerner – que em 1971 vi-ria a se tornar prefeito de Curitiba.
Lerner fez parte da primeira turma de Arquitetura da UFPR, mas antes disso estagiou na França, após se formar engenheiro civil, em um projeto junto com alguns integrantes Team X – um grupo de arquitetos renomados encarregado de organizar o último Congresso Interna-cional de Arquitetura Moderna (CIAM), em 1956. O Team X se propõe a rever os conceitos mecanicistas e funcionalistas que marcavam o urbanismo até então. Não se trata de uma nega-ção das funções básicas urbanas de habitar, recrear, circular e trabalhar, mas de ampliar esses conceitos os contextualizando e fazendo com que abarcassem também uma gama de fatores
humanos e ambientais. A ideia principal do projeto no qual Lerner estava envolvido era a con-centração de atividades urbanas como forma de revalorizar a rua como função primordial da vida em comunidade (GNOATO, 2006).
Essa ideia guarda algumas semelhanças com as propostas para os Eixos Estruturais de Curitiba, que surgem como a resposta para a principal discussão do PPU: qual seria a for-ma de crescimento for-mais adequada para o futuro da capital paranaense. A proposta de cresci-mento concêntrico de Agache se provou antiquada, por isso é escolhido o desenvolvicresci-mento a partir de eixos lineares. Esses eixos são longas vias que ligam as demais regiões da cidade ao centro, nas quais se concentrariam as principais linhas de transporte público. Incentiva-se um adensamento populacional baseado na verticalização nesses eixos. Essa foi a maneira encon-trada para “desafogar” o centro de Curitiba, tanto na questão do trânsito como da habitação.
Promove-se a ocupação de outros espaços pela população e se facilita o acesso ao centro por outros meios que não os automóveis. O transporte público orienta e organiza o crescimento de Curitiba (RODRIGUES, 2010).
Para o centro de Curitiba foi mantida a permissão de verticalização, mas o futuro crescimento deveria acontecer em novos “centros lineares”, chamados de Eixos Es-truturais. Considerando a vocação do bairro do Portão, como centro comercial, de-terminou-se que a Avenida República Argentina deveria compor o Eixo Sul. Para o Eixo Norte escolheu-se o prolongamento da Avenida João Gualberto, e para o Eixo Oeste ficou determinado um conjunto de ruas, ainda pouco ocupadas. (GNOATO, 2006)
Antes de elaborar o texto final do Plano Diretor, feito com base no PPU, e o pôr em prática, o grupo de acompanhamento promove em 1965 um seminário de três dias, “Curitiba de Amanhã”, para divulgar e discutir o projeto contando com a participação de arquitetos, en-genheiros, empresários e membros da sociedade. Durante esse período de debates o grupo de acompanhamento se torna a Assessoria de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ap-puc) meses mais tarde transformada em instituto (Ip(Ap-puc). O novo Plano Diretor é aprovado em 31 de julho de 1966 e o Ippuc se encarrega de dar encaminhamento às obras.
O Plano Diretor, desenvolvido posteriormente pelo Ippuc a partir do PPU, propunha a estrutura do Planejamento Integrado, o desenvolvimento preferencial da cidade no eixo nordeste-sudoeste, a hierarquia de vias, o crescimento linear do centro principal servido por vias tangenciais de circulação rápida, a caracterização das áreas de uso preferencial ou exclusivo de pedestres, a extensão e adequação de áreas verdes, a criação de uma paisagem urbana própria, a renovação urbana e a preservação his-tórico-tradicional. (SANTOS, 2015, sem paginação)
Somente cinco anos depois, com a posse de Jaime Lerner como prefeito, o Plano Di-retor começa a ser implantado. Em plena ditadura militar, a reorganização urbana de Curitiba é incentivada pelo governo de forma que a cidade seja exemplo palpável do “milagre brasilei-ro” – assim nasce a alcunha da cidade-modelo (MOURA, 2014). Como já havia passado o tempo dos boulevards característicos do século XIX e não havia a possibilidade de criar auto-pistas como as de Brasília, os urbanistas curitibanos voltam sua atenção para a transformação das ruas existentes da cidade (GNOATO, 2006). Em 1972, Lerner fecha a Rua XV, transfor-mando-a em uma rua exclusiva para pedestres. A decisão é recebida com certo receio pelos comerciantes da região que alegam não terem sido consultados e custam a acreditar que essa intervenção lhes seria benéfica (SANTOS, 2015) – uma situação parecida com a discussão so-bre o fechamento da Avenida Paulista aos domingos em São Paulo.
As indústrias saem da região do Rebouças para uma área 13 vezes maior do que a prevista por Agache para ser o polo industrial da cidade – a Cidade Industrial de Curitiba (CIC). A implantação da Rede Integrada de Transporte (RIT), com o sistema do BRT, também marca as gestões de Lerner. A proposta de fazer vias expressas exclusivas para ônibus, as esta-ções-tubo, a possibilidade de baldeação nos terminais e o sistema trinário nos eixos estruturais (uma canaleta exclusiva para ônibus ladeada por duas vias para carros com sentidos opostos) tornam Curitiba referencial em transporte. O Plano Diretor também prevê o zoneamento da ci-dade, mas ao invés de centros funcionais implementa as Zonas Residenciais (subdivididas em 5), Zonas Comerciais (subdivididas em 3) e Zonas Industriais (duas zonas e distritos industri-ais). Também se publica quais são os limites do Setor Histórico em Curitiba, e uma política patrimonial, a UIPs – unidades de interesse de preservação. Contramão da tradição modernis-ta em romper com o passado e que deixou de lado iniciativas de preservação de prédios his-tóricos na cidade durante a formulação do Plano Agache (RODRIGUES, 2010). Essas medi-das se encaixam no tripé que sintetiza esse Plano Diretor: uso do solo, transporte coletivo e circulação.