• Nenhum resultado encontrado

Planta, Duguetia furfuracea (St. Hil.) Benth e Hook. f. (1862)

A  planta  Duguetia  furfuracea  (St.  Hil.)  Benth  e  Hook.  f.  (1862),  pertence  à  família  Annonaceae,  é  conhecida  popularmente  como  sofre‐do‐rim‐quem‐quer,  araticum‐do‐ cerrado  e  ata‐do‐mato.  Esta  planta  ocorre  em  vários  estados  brasileiros,  como  Amazonas,  Bahia, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. É  comumente  utilizada  pela  população  como  anti‐reumática  e  para  combater  cólicas  renais.  Estudos anteriores têm descrito a atividade terapêutica da planta com ação tripanomicida,  antiprotozoárica  e  antiplasmódica.  Devido  à  grande  utilização  da  planta  D.  furfuracea  pela  população,  o  presente  trabalho  teve  como  objetivo  avaliar  as  atividades  genotóxica/mutagênica, antigenotóxica/antimutagênica e citotóxica do extrato liofilizado de  folhas de D. furfuracea pelo teste de indução do profago λ (Induteste) em cepas de E. coli e  pelo  teste  do  micronúcleo  em  medula  óssea  de  camundongos  (Teste  do  Micronúcleo).  O  teste de indução do profago λ foi realizado de acordo com Moreau et al. (1976), utilizando  as  cepas  de  E.  coli  WP2s(λ)  e  RJF013.  Para  a  avaliação  das  atividades  genotóxica  e  tóxica  foram  empregadas  as  doses  de  1  mg,  2  mg,  5  mg  e  10  mg,  enquanto  que  na  avaliação  da  ação  antigenotóxica  foram  testadas  as  doses  de  0,5  mg,  1  mg,  2  mg,  5  mg  e  10  mg  co‐ tratadas  com  0,5  µg  de  mitomicina  C.  O  teste  do  micronúcleo  em  medula  óssea  de  camundongos foi realizado de acordo com a metodologia de Schmid (1975). Para a avaliação  da atividade mutagênica, os animais foram tratados com três diferentes doses do extrato da  planta  (100,  200  e  300  mg/Kg  p.c.),  enquanto  que  para  a  avaliação  da  atividade  antimutagênica  foram  administradas  as  mesmas  doses  (100,  200  e  300  mg/Kg  p.c.)  concomitantemente de uma dose de 4 mg/Kg de mitomicina C. A genotoxicidade foi avaliada  pela freqüência de eritrócitos policromáticos micronucleados (EPCMN) e a citotoxicidade foi  analisada pela razão eritrócitos policromáticos e normocromáticos (EPC/ENC). Os resultados  obtidos  na  avaliação  da  mutagenicidade  mostraram  que  todas  as  doses  do  extrato  de  D.  furfuracea  não  aumentaram  significativamente  o  número  de  EPCMN  (p>0,05),  quando  comparados com o grupo controle negativo. A citotoxicidade foi evidente em todas as doses  testadas  (p<0,05).  Em  relação  à  antimutagenicidade,  todas  as  doses  administradas  reduziram significativamente a freqüência de EPCMN, em relação ao grupo controle positivo  (p<0,05). Em ambos os testes, os resultados obtidos mostraram‐se concordantes, nos quais  o  extrato  de  D.  furfuracea  apresentou  atividade  citotóxica;  porém,  não  demonstrou 

atividade genotóxica em bactérias e ação mutagênica em camundongos. Por outro lado, foi  observada ação antigenotóxica e antimutagênica.                                                              

ABSTRACT   

The  plant  Duguetia  furfuracea  (St.  Hil.)  Benth  and  Hook.  f.  (1862),  belongs  to  the  family  Annonaceae,  is  popularly  known  as  sofre‐do‐rim‐quem‐quer,  araticum‐do‐cerrado  and ata‐do‐mato. This plant occurres in several Brazilian states, as Amazonas, Bahia, Distrito  Federal,  Goiás,  Minas  Gerais,  Mato  Grosso,  Mato  Grosso  do  Sul  and  São  Paulo.  It  is  commonly used by people as anti‐rheumatic and to cure renal colic. Previous studies have  described  therapeutic  activity  of  this  plant  with  trypanocidal,  antiplasmodial  and  antiprotozoal  effects.  Due  to  the  large  utilization  of  this  plant  by  the  local  people,  the  present work aimed to evaluate the genotoxic/mutagenic, antigenotoxic/antimutagenic and  cytotoxic activities of lyophilized leaf extract of D. furfuracea by the lisogenic induction test  (Inductest) and the mice bone marrow micronucleus assay (Micronucleus Test). The lisogenic  induction  test  was  performed  according  Moreau  et  al.,  (1976)  using  E.  coli  WP2s(λ)  and  RJF013  strains.  To  evaluate  the  genotoxic  and  toxic  activities,  the  doses  employed  were  1  mg, 2 mg, 5 mg e 10 mg, while to evaluate the antigenotoxic action the doses were of 0,5  mg, 1 mg, 2 mg, 5 mg e 10 mg co‐treated with 0,5 µg de mitomycin C. Micronucleus test in  the bone marrow of mice was performed according to Schmid (1975). To evaluate mutagenic  activity,  mice  were  treated  with  three  different  doses  of  plant  extract  (100,  200  and  300  mg/Kg  body  weight),  to  evaluate  antimutagenic  activity,  mice  were  treated  with  the  same  doses co‐administered with 4 mg/kg of mitomycin C. The genotoxic action was evaluated by  the frequency of micronucleated  polychromatic erythrocytes (MNPCE) and cytotoxicity was  evaluated  by  the  polychromatic  and  normochromatic  erythrocytes  ratio  (PCE/NCE).  The  results obtained from the evaluation of mutagenicity of this plant showed that the extract of  D.  Furfuracea  didn’t  increase  significantly  (p>0.05)  the  frequency  of  MNPCE  compared  to  negative  control.  Cytotoxicity  was  evident  in  all  applied  doses  (p<0.05).  Concerning  antimutagenicity,  all  doses  of  extract  reduced  significantly  the  frequency  of  MNPCE  compared  to  the  positive  control  group  (p<0.05).    In  both  tests,  the  results  obtained  demonstrated  that  the  extract  of  D.  furfuracea  presented  cytotoxicity;  however,  it  didn’t  show genotoxic or mutagenic effects in bacteria and mice bone marrow respectively. In the  other hand, it was observed a antigenotoxic and antimutagenic action.   

   

1. INTRODUÇÃO GERAL   

1.1. Câncer e Fitoterapia   

O  câncer  é  uma  das  doenças  que  mais  causam  temor  na  sociedade,  por  ter  se  tornado um estigma de mortalidade e dor. Na verdade, a palavra câncer, de origem latina  (cancer)  significando  “caranguejo”,  deve  ter  sido  empregada  em  analogia  ao  modo  de  crescimento infiltrante, que pode ser comparado às pernas do crustáceo, que as introduz na  areia ou lama para se fixar e dificultar sua remoção (Almeida et al., 2005). 

Atualmente,  a  definição  científica  de  câncer  refere‐se  ao  termo  neoplasia,  especificamente  aos  tumores  malignos,  pelo  crescimento  descontrolado  de  células  transformadas. Existem quase 200 tipos que correspondem aos vários sistemas de células do  corpo,  os  quais  se  diferenciam  pela  capacidade  de  invadir  tecidos  e  órgãos,  vizinhos  ou  distantes (Almeida et al., 2005). 

Em  2005,  de  um  total  de  58  milhões  de  mortes  ocorridas  no  mundo,  o  câncer  foi  responsável por 7,6 milhões, o que representou 13% de todas as mortes. Do total de óbitos  por câncer ocorridos em 2005, mais de 70% ocorreram em países de média ou baixa renda  (Organização Mundial da Saúde (OMS), 2006). No Brasil, as estimativas para o ano de 2008,  válidas também para o ano de 2009, apontam que ocorrerão 466.730 casos novos de câncer.  Os  tipos  mais  incidentes,  à  exceção  do  câncer  de  pele  do  tipo  não  melanoma,  serão  os  cânceres de próstata e de pulmão, no sexo masculino, e os cânceres de mama e de colo do  útero, no sexo feminino, acompanhando o mesmo perfil da magnitude observada no mundo  (Figura 1) (INCA, 2007). 

Os  fatores  de  risco  de  câncer  podem  ser  externos  (ambientais)  ou  endógenos  (hereditários)  (INCA,  2007).  A  maioria  dos  casos  (cerca  de  80%)  está  relacionada  ao  meio  ambiente,  onde  encontra‐se  um  grande  número  de  fatores  de  risco.  Entende‐se  por  ambiente, o meio em geral (água, terra e ar), o ambiente ocupacional (quando insalubre), o  ambiente  social  e  cultural  (estilo  e  hábitos  de  vida)  e  o  ambiente  de  consumo  (alimentos,  medicamentos).  As  mudanças  provocadas  no  meio  ambiente  pelo  próprio  homem,  os  hábitos  e  estilos  de  vida  adotados  pelas  pessoas  podem  determinar  os  diferentes  tipos  de  câncer (Almeida et al., 2005). 

  Figura  1.  Tipos  de  câncer  mais  incidentes,  estimados  para  o  ano  de  2008,  na  população  brasileira (INCA, 2007). 

 

Em  2005,  pesquisadores  da  Harvard  School  of  Public  Health,  liderados  por  Goodarz  Danaei,  estimaram  que  35%  das  mortes  por  câncer  no  mundo  poderiam  ser  atribuídas  ao  efeito combinado de nove fatores de risco, separados em cinco grupos: dieta e inatividade  física,  substâncias  aditivas  (uso  de  tabaco  e  álcool),  saúde  sexual  e  reprodutiva  (infecções  sexualmente  transmissíveis),  riscos  ambientais  (poluição  do  ar,  combustíveis  sólidos,  tabagismo passivo) e contaminação venosa pelo vírus da hepatite B e C (INCA, 2007). 

Assim, tanto fatores de risco de câncer ambientais quanto hereditários, estão inter‐ relacionados e interagem de várias formas para dar início às alterações celulares presentes  na  etiologia  do  câncer  (INCA,  2007).  Tais  alterações  celulares  que  geram  as  neoplasias  podem  ocorrer  em  genes  especiais  denominados  protooncogenes,  que  a  princípio,  são  inativos  em  células  normais.  Quando  ativados,  os  protooncogenes  transformam‐se  em  oncogenes,  responsáveis  pela  malignização  (transformação)  das  células  normais.  Estas  células  diferentes  são,  então,  denominadas  cancerosas,  ou  melhor,  tumorais.  Essas  células  alteradas  passam  então  a  se  comportar  de  forma  anormal,  multiplicando‐se  de  maneira  descontrolada. Com a constante multiplicação celular, há a necessidade de que novos vasos  sangüíneos  sejam  formados  para  que  haja  a  nutrição  destas  células,  em  um  processo  denominado angiogênese. A manutenção e o acúmulo de massa dessas células formam os 

tumores  malignos  e  elas  também  podem  adquirir  a  capacidade  de  se  desprenderem  do  tumor  e  de  migrarem,  invadindo  inicialmente  os  tecidos  vizinhos,  podendo  chegar  ao  interior de um vaso sangüíneo ou linfático e, através destes, disseminarem‐se, chegando a  órgãos distantes do local onde o tumor se iniciou, formando as metástases (Almeida et al.,  2005).  As células cancerosas são, geralmente, menos especializadas nas suas funções que as  suas correspondentes normais. Conforme as células cancerosas vão substituindo as normais,  os tecidos invadidos vão perdendo suas funções; assim, por exemplo, a invasão neoplásica  dos pulmões gera alterações respiratórias; com isto há a disfunção orgânica que pode levar à  falência do órgão ou, em casos mais graves, leva à morte do paciente. Cabe ressaltar que, na  verdade, oncologia médica é a especialidade na medicina que foca o tratamento sistemático  do  paciente  com  câncer  com  quimioterapia  e  outros  tipos  de  tratamento  (Almeida  et  al.,  2005). 

Existem  três  tipos  principais  de  tratamento  para  o  câncer:  cirurgia,  radioterapia  e  quimioterapia (Murad, 1996). Mais recentemente tem‐se usado a terapia de fotorradiação  com  derivados  hematoporfirínicos  (HTP)  (Machado,  2000)  e  a  imunoterapia  (Salmonm,  1998),  sendo  que  o  objetivo  de  cada  um  destes  tratamentos  é  erradicar  o  câncer,  normalmente  por  meio  da  terapia  combinada,  onde  é  associado  mais  de  um  tipo  de  tratamento (Almeida et al., 2005). 

A  técnica  cirúrgica  pode  levar  à  remoção  de  tumores  com  eficácia,  se  não  houver  metástase; no caso da leucemia, por exemplo, costuma ser necessário o uso de outros tipos  conjuntos  de  terapia,  incluindo  o  transplante  de  medula.  A  radioterapia  (geralmente  raios  gama, radioisótopos como cobalto‐60, raios‐X e até prótons e mésons pi negativos) é usada  comumente  em  conjunto  com  a  cirurgia,  como  incremento  da  eficiência  do  tratamento.  Mesmo isoladamente, a radioterapia pode diminuir tumores grandes, diminuir a recorrência  e a chance de metástase, sendo uma metodologia antineoplásica muito usada; entretanto,  mesmo  que  sejam  usados  os  sensitizadores  (que  diminuem  os  efeitos  colaterais)  o  tratamento por radiação é sujeito a severas limitações (Murad, 1996). 

Com  esses  métodos  de  tratamento  citados,  um  terço  dos  pacientes  consegue  ser  curado  através  de  medidas  locais  (cirurgia  ou  radioterapia),  que  são  eficazes  quando  o  tumor ainda não sofreu metástase por ocasião do tratamento. Todavia, nos demais casos, a  neoplasia  caracteriza‐se  pelo  desenvolvimento  precoce  de  micrometástases,  indicando  a 

necessidade de uma abordagem sistêmica, que pode ser efetuada, em cerca de 60‐70% dos  casos com a quimioterapia (Almeida et al., 2005). 

O objetivo primário da quimioterapia é destruir as células neoplásicas, preservando  as normais. Entretanto, a maioria dos agentes quimioterápicos atua de forma não‐específica,  lesando  tanto  células  malignas  quanto  normais  (Murad,  1996;  Salmonm,  1998),  particularmente as células de rápido crescimento, como as gastrointestinais, capilares e as  do sistema imunológico. Isto explica a maior parte dos efeitos colaterais da quimioterapia:  náuseas,  perda  de  cabelo  e  susceptibilidade  maior  às  infecções  (Machado,  2000;  Oliveira,  2002). 

Porém, o corpo recupera‐se destes inconvenientes após o tratamento, e o uso clínico  desses fármacos exige que os benefícios sejam confrontados com a toxicidade, na procura  de  um  índice  terapêutico  favorável  (Murad,  1996;  Salmonm,  1998). Muitos  estudos  estão  sendo  feitos  para  a maior  eficiência  da  quimioterapia e  a combinação  de  diversos  agentes  antineoplásicos, tendo‐se conseguido resultados surpreendentes com índices de cura de 75  a 90% em diversos tipos de câncer (Almeida et al., 2005).  

Existe  uma  grande  variedade  de  tipos  de  compostos  utilizados  em  quimioterapia  oncológica (Almeida et al., 2005), dentre eles encontram‐se compostos sintéticos e produtos  naturais  extraídos  de  plantas.  Dentre  alguns  produtos  naturais  citotóxicos,  usados  clinicamente no tratamento de neoplasias, têm se os alcalóides vegetais (produtos naturais  nitrogenados  derivados  biossinteticamente  de  aminoácidos)  como:  i)  alcalóides  da  vinca  (vimblastina  e  vincristina)  (Oliveira,  2002)  (Figura  2)  –  ação  pela  inibição  do  fuso  mitótico,  ligando‐se  às  proteínas  microtubulares  e,  conseqüentemente,  interrompendo  a  divisão  celular  na  metáfase  (Oliveira,  2002);  ii)  taxol  (Figura  2),  éster  alcalóide  derivado  do  teixo  ocidental (Taxus brevifolia) e do teixo europeu (Taxus baccata), (conhecido comercialmente  como Paclitaxel®)(Oliveira, 2002) – ação também pela inibição do fuso mitótico, dimerização  da  tubulina  e  estabilização  dos  túbulos,  protegendo‐os  da  despolimerização,  o  que  estabiliza, provoca o bloqueio da multiplicação celular, o que resulta na perda da viabilidade  celular (Oliveira, 2002); iii) podofilotoxinas (ou epipodofilotoxinas) (Salmonm, 1998; Chabner  &  Calabresi,  1995),  tendo‐se  como  exemplos  principais  a  etoposida  (VP‐16)  e  teniposida  (VM‐26), (Figura 2), derivados semi‐sintéticos da podofilotoxina, extraída da raiz do podofilo  (Podophyllum peltatum) (Salmonm, 1998; Chabner & Calabresi, 1995) – ação pelo bloqueio  das células nas fases S e G2 e inibição da enzima topoisomerase II, o que promove lesão no 

DNA.  Pode‐se  citar  também  o  uso  da  enzima  asparaginase  (Lasparagina  amino  hidrolase,  Elspar),  particularmente  em  tratamento  de  leucemia  aguda  infantil  (Machado,  2000;  Chabner & Calabresi, 1995), isolada de várias bactérias, que atua pela diminuição catabólica  de  asparagina  sérica,  assim  como  dos  níveis  sangüíneos  de  glutamina.  Nas  células  neoplásicas,  isto  provoca  a  inibição  da  síntese  de  proteínas,  resultando  no  bloqueio  da  proliferação  celular.  Por  último,  é  digno  de  nota  ressaltar  o  uso  recente  de  vacinas  antitumorais,  ainda  em  fase  de  teste,  através  da  interação  antígeno‐anticorpo  visando  a  imunização do organismo (Jager et al., 2002).      Figura 2. Estruturas de vimblastina, vincristina, etoposida, teniposida e Taxol (Almeida et al.,  2005).    Neste contexto é importante mencionar que as plantas, além de seu uso na medicina  popular com finalidades terapêuticas, têm contribuído, ao longo dos anos para a obtenção  de  vários  fármacos,  até  hoje  amplamente  utilizados  na  clínica  (Farnsworth,  1980;  Teske  e  Trentini, 1995). 

Nos  últimos  anos  tem‐se  verificado  um  grande  avanço  científico  envolvendo  os  estudos químicos e farmacológicos de plantas medicinais que visam obter novos compostos  com  propriedades  terapêuticas.  Isto  pode  ser  claramente  observado  pelo  aumento  de  trabalhos  publicados  nesta  área,  tanto  em  congressos  como  em  periódicos  nacionais  e  internacionais, além do surgimento de novos periódicos específicos sobre produtos naturais  ativos,  como  Phytomedicine,  Phytochemical  Analysis,  Natural  Product  Letter,  etc.  (Filho  &  Yunes, 1998). 

Quando  se  procura  obter  substâncias  ativas  de  plantas,  um  dos  principais  aspectos  que deve ser observado consiste nas informações da medicina popular. Dados da literatura  revelam que é muito mais provável encontrar atividade biológica em plantas orientadas pelo  seu  uso  na  medicina  popular  do  que  em  plantas  escolhidas  ao  acaso  (Montellano,  1975;  Farnsworth,  1981).  Cerca  de  75%  dos  compostos  puros  naturais  empregados  na  indústria  farmacêutica  foram  isolados  seguindo  recomendações  da  medicina  popular  (Silva  Júnior  &  Vizzoto, 1996). Outros aspectos importantes que devem ser levados em consideração são as  informações botânico‐taxonômicas e químico‐taxonômicas (Cordell, 1995; Júnior & Scheffer,  1994). 

A  fitoterapia  constitui  uma  forma  de  medicina  que  vem  crescendo  visivelmente  ao  longo  dos  anos  onde  atualmente  o mercado  mundial  de  fitofármacos  gira  em  torno  de  15  bilhões  de  dólares.  Talvez  o  principal  fator  a  contribuir  consideravelmente  para  o  crescimento  em  questão  consista  na  evolução  dos  estudos  científicos,  particularmente  os  estudos  químicos  e  farmacológicos,  que  comprovam,  cada  vez  mais,  a  eficácia  das  plantas  medicinais,  principalmente  aquelas  empregadas  na  medicina  popular  com  finalidades  terapêuticas (Filho & Yunes, 1998). 

Entretanto,  a  necessidade  de  se  chegar  aos  compostos  puros  responsáveis  pelos  efeitos  biológicos  apresentados  pelos  extratos,  leva  a  uma  obrigatória  integração  entre  a  química e a farmacologia molecular, cujo elo pode levar à obtenção de substâncias naturais  ou sintéticas de grande interesse químico‐medicinal (Filho & Yunes, 1998). 

Em  nosso  país,  os  estudos  científicos  envolvendo  produtos  naturais  ativos,  suas  indicações  e  contra‐indicações,  podem  proporcionar  aos  fitofármacos  um  maior  nível  de  aceitação  médica,  respaldados  pela  comprovação  de  sua  eficácia  terapêutica  em  experimentos farmacológicos pré‐clínicos e clínicos (Filho & Yunes, 1998). 

Este  fato  é  de  extrema  importância,  considerando‐se  que  o  Brasil  se  encontra  atualmente  nas  primeiras  posições  no  mercado  mundial  de  fármacos,  necessitando  urgentemente  que  as  indústrias  de  fitofármacos  existentes  se  desenvolvam  para  competir  inclusive a nível internacional. A instalação de indústrias envolvendo a síntese de fármacos a  partir de produtos naturais poderia, assim, ser um considerável pólo de crescimento para a  química e a farmacologia (Filho & Yunes, 1998).      1.2. Plantas Medicinais      É provável que a utilização das plantas como medicamento seja tão antiga quanto o  próprio homem. Numerosas etapas marcaram a evolução da arte de curar, porém, torna‐se  difícil  delimitá‐las  com  exatidão,  já  que  a  medicina  esteve  por  muito  tempo  associada  a  práticas  mágicas,  místicas  e  ritualísticas.  Consideradas  ou  não  seres  espirituais,  as  plantas,  por  suas  propriedades  terapêuticas  ou  tóxicas,  adquiriram  fundamental  importância  na  medicina popular (Martins et al., 2000). 

Contudo,  as  civilizações  antigas  muito  contribuíram  com  o  conhecimento  das  propriedades  terapêuticas  dos  vegetais.  Fragmentos  de  papiros  médicos  contendo  instruções e receitas de como preparar vários medicamentos a partir de plantas medicinais  datam de cerca de 2400 a.C. (Almassy Júnior et al., 2005). As civilizações da China, Índia e  norte  da  África  deixaram  evidências  escritas  do  uso  de  plantas  para  o  tratamento  de  uma  grande variedade de enfermidades (Phillipson, 2001). No Brasil, o conhecimento do uso das  plantas  medicinais  é  o  resultado  de  uma  miscigenação  cultural  envolvendo  africanos, 

europeus e indígenas, com introdução de espécies exóticas pelos colonizadores e escravos,  (Engelke, 2003) desde seu descobrimento em 1500 (Petrovick, 1999).  

Assim,  os  africanos  utilizavam  muito  comumente  o  guiné  (Petiveria  alliacea  L.)  e  o  melão‐de‐são‐caetano  (Momordica  charantia  L.),  pois,  entre  os  negros,  quando  alguém  adoecia era porque estava possuído por espírito mau, e o curandeiro se encarregava, então,  de expulsá‐lo por meio de exorcismo e pelo uso destas plantas (Almassy Júnior et al., 2005). 

Já  a  influência  européia  no  Brasil  teve  início  com  a  chegada  dos  jesuítas,  que  trouxeram  várias  plantas  medicinais,  como  camomila  (Chamomilla  recutita  (L.)  Rauschert), 

melissa (Melissa officinalis L.), malva (Malva sylvestris L.), funcho (Foeniculum vulgare Mill.),  alecrim (Rosmarinus offcinalis L.), a bardana (Arctium minus (Hill) Bernh.) e o dente‐de‐leão  (Taraxacum officinale Weber). Por isso, a maioria das plantas medicinais de origem européia  foi adaptada e tem‐se reproduzido espontaneamente no Brasil (Almassy Júnior et al., 2005). 

Os  índios  utilizavam  ipecacuanha  (Psychotria  ipecacuanha  (Brot.)  Stokes),  jaborandi  (Pilocarpus jaborandi), guaraná (Paullinia cupana Kunth), taiuiá (Cayaponia spp.) e a erva‐de‐ bugre (Casearia sylvestris Sw.) na cura dos enfermos (Almassy Júnior et al., 2005). 

Dessa  forma,  por  meio  da  tentativa  e  do  erro,  pouco  a  pouco,  os  povos  mais  primitivos  da  história  humana  passaram  a  conhecer  as  plantas  de  seu  ecossistema  e  a  reconhecer  suas  propriedades,  inclusive  as  medicinais.  Tal  conhecimento  era  repassado  sucessivamente entre as gerações, principalmente pela tradição oral, fato este que continua  ocorrendo  até  hoje  em  comunidades  mais  isoladas,  ou  que  não  desenvolveram  a  escrita  (Almassy Júnior et al., 2005). 

Esta  relação  entre  povos  e  plantas  é  denominada  de  etnobotânica,  que  pode  ser  definida como o estudo das sociedades humanas, passadas e presentes, e todos os tipos de  inter‐relações: ecológicas, evolucionárias e simbólicas; reconhecendo a dinâmica natural das  relações entre o ser humano e as plantas (Azevedo & Kruel, 2007). 

Comumente,  as  pesquisas  etnobotânicas  além  de  abordarem  populações  tradicionais, como indígenas e caiçaras, também se concentram em populações de cidades e  de pequenos núcleos urbanos com origem rural. Nestas populações, tem sido observada a  utilização das plantas como um dos poucos recursos terapêuticos para tratar suas doenças  mais freqüentes (Pilla et al., 2006). 

Atualmente, o tratamento das enfermidades humanas a partir de plantas medicinais,  ou  seus  derivados,  encontra‐se  em  expansão  por  todo  o  mundo  (Farnsworth,  1997).  Entretanto, durante muitos anos a pesquisa com plantas medicinais foi subestimada no meio  científico, só tomando impulso recente e gradualmente, à medida que alguns estudos foram  se mostrando promissores. Mas o número de espécies estudadas no Brasil, ao longo de mais  de  40  anos  de  pesquisas  com  plantas  medicinais  ainda  é reduzido  (Pavan‐Fruehauf,  2000).  Apesar do aumento de estudos nessa área, os dados disponíveis revelam que apenas 15  a  17% das plantas foram estudadas quanto ao seu potencial medicinal (Soejarto, 1996).  

A  Organização  Mundial  da  Saúde  estima  que  80%  das  pessoas  dependam  da  medicina tradicional, em especial nas nações em desenvolvimento (Farnsworth, 1997). O uso 

de  plantas  medicinais,  conhecido  hoje  como  fitoterapia  (Almassy  Júnior  et  al.,  2005)  tem  ressurgido como uma opção medicamentosa bem aceita e acessível aos povos, e no caso do  Brasil  é  adequada  para as  necessidades  locais  de  centenas  de  municípios brasileiros  no  atendimento  primário  à  saúde. A  expansão  da  fitoterapia  pode  ser  atribuída  a diversos  fatores  tais  como:  aos  efeitos  adversos  de  fármacos  sintéticos,  a  preferência  dos  consumidores  por  tratamentos  “naturais”,  a  validação  científica  das  propriedades  farmacológicas  de  espécies  vegetais,  o  desenvolvimento  de  novos  métodos  analíticos  colocados  à  disposição  do  controle  de  qualidade,  o  desenvolvimento  de  novas  formas  de  preparações e administrações de produtos fitoterápicos, um melhor conhecimento químico,  farmacológico e clínico das drogas vegetais e seus derivados, além, também, do menor custo  se comparado com os fármacos sintéticos (Melo et al., 2007). 

Além  disso,  o  Brasil  possui  uma  farmacopéia  popular  muito  diversa  baseada  em  plantas  medicinais,  visto  que,  o  país  é  possuidor  da  maior  diversidade  vegetal  do  planeta,  aproximadamente 55 mil espécies de plantas superiores (Engelke, 2003). Dentre as inúmeras  plantas utilizadas na medicina popular a CEME (Central de Medicamentos do Ministério da  Saúde)  realizou  a  inclusão  de  dezenas  de  plantas  brasileiras  mais  usadas  popularmente. 

Documentos relacionados