AÇUDE: OS NEGROS DO CANDOMBE
PLANTANDO , COLHENDO E CANTANDO
As atividades agrícolas das famílias da Comunidade do Açude se deram historicamente em terras de terceiros, em sua maioria, herdeiros da Fazenda Cipó. Após o fim do sistema escravista, a maioria das famílias passou a trabalhar como meeiros nas terras da Fazenda, visto que as terras doadas aos ex-escravos eram suficientes basicamente para a construção das moradias, formação de pequenas hortas e criação de animais de pequeno porte, como porcos e galinhas. A comunidade se dedicava especialmente ao cultivo das roças de arroz, cana, feijão e batata-doce. Como dito anteriormente, durante o período colonial, a Serra do Cipó foi um importante centro produtor de alimento para cidades como Diamantina e Ouro Preto e quase todo cultivo de mamona da região destinava-se a produção de óleo utilizado na iluminação pública destes centros urbanos. Nas áreas hoje ocupadas pelo PARNA Cipó se encontravam as principais lavouras de arroz, cultivado nas áreas de inundação do Rio Cipó, na região conhecida como Areias (Figura 09)
Atualmente, a criação
de gado é uma atividade pouco desenvolvida na região, mas segundo o relato da comunidade, havia extensas boiadas, destinadas tanto a produção leiteira como para o abate. Até a implantação do Parque, na década de
Figura 09. Na imagem vê-se o leito do Rio Cipó e as diversas lagoas temporárias formadas no período "das águas". É nessa região, conhecida como Areias que as comunidades cultivavam o arroz nas regiões de vargem.
1980, o gado utilizava as pastagens naturais, especialmente de capim espeto (NI) tanto nas regiões mais baixas, como no alto da Serra. Havia até mesmo variedades de gado adaptadas as regiões mais altas da Serra que não se davam bem quando criadas nos pastos das terras baixas. Queimadas sazonais eram realizadas para a renovação das pastagens. Segundo um dos informantes, antes não havia braquiária (Brachiaria spp.) na região. Além das espécies nativas de gramíneas, extensas áreas eram cobertas por capim meloso (Melinis minutiflora), utilizadas como locais de nidificação por aves como macucos (Tinamus sp.) e inhambus (Crypturellus sp.). Devido a proibição do uso das pastagens naturais, a braquiaria passou a ser utilizada como forrageira alternativa. Hoje a braquiária é uma das principais espécies invasoras da região e um grave desafios para a conservação, especialmente no interior do PARNA Cipó (Filippo et al. 2009).
Os sistemas de cultivo da comunidade eram adaptados a elevada heterogeneidade das formações vegetais da região, permitindo um melhor aproveitamento dos recursos distribuídos de forma desigual ao longo do ano. Os depoimentos de membros da comunidade indicam que as áreas de Cerrado eram raramente utilizadas para a produção agrícola, com exceção de alguns cultivos, como abacaxi e mandioca, menos exigentes em relação a qualidade nutricional dos solos. Além da percepção da baixa fertilidade dos solos do Cerrado, havia também uma crença de que queimar ou derrubar "pau de casca grossa" trazia azar para quem o fizesse, o que tornava essas áreas, culturalmente imunes ao corte. Uma das espécies indicadas como exemplo relacionado a essa crença é a sete-casacas (Campomanesia sp.), cuja queima é percebida como forte atrativo para maus acontecimentos. Não foi possível verificar a extensão e efetividade deste tabu no comportamento da comunidade, mas é possível que de fato tenha contribuído para a manutenção das áreas de cerrado da região.
As terras de cultura por outro lado, correspondiam as áreas com solos mais férteis e que apresentavam formações florestais, denominação também encontrada por Ribeiro (2006), em várias comunidades do Cerrado mineiro. Eram nessas áreas que a maior parte das roças era formadas, após a
derrubada e queima da vegetação original. Diferentemente do que ocorre nas comunidades que ocupam as formações florestais na Mata Atlântica e na Amazônia, não há um sistema típico de corte e queima associado a rotação das áreas de cultivo. As áreas derrubadas e queimadas eram cultivadas por longos períodos, se estendendo por mais de 10 ou 15 anos de cultivo.
As vargens, correspondendo as zonas de inundação do Rio Cipó, eram utilizadas para o cultivo de arroz e algumas variedades de feijão. Uma observação interessante feita por alguns informantes é que nos "tempos antigos", quando havia mais roças e os arrozais, havia mais bichos, especialmente pássaros. "Hoje
os bichos não tem o que comer". A maior disponibilidade de alimentos nestes tempos é vista pela comunidade
como um fator que favorecia não só o aprovisionamento das comunidades humanas como também a fauna local.
Os principais cultivares da comunidade eram o arroz, feijão, cana, milho, mandioca, batata-doce, mamona, amendoim e abacaxi. Algumas espécies eram plantadas em consórcio como o milho e o feijão. Na Tabela 02, é apresentado o antigo calendário agrícola da comunidade. O plantio de grande parte das espécies era feito um pouco antes do início do período chuvoso, por volta de setembro a outubro e as colheitas se estendiam até por volta de abril. Como explicitado por uma das informantes, nos tempos antigos não se usava plantar em mês sem R (maio, julho, julho, agosto). Percebe-se, no entanto, uma mudança nesse comportamento como resultado das alterações dos regimes de chuva ao longo do ano. Segundo a comunidade, há uma tendência de se adiar o plantio já que as chuvas também "hoje em dia demoram mais a
cair" (IA2313).
13 Ao longo do texto, todas as citações de falas dos entrevistados serão acompanhadas de um código (IA= informante do Açude; IC = informante do Camburi, seguido do número do informante) em lugar do nome do informante, preservando assim a identidades dos mesmos.
Ao final do período "das águas", realiza-se grande parte das colheitas, como do a batata-doce e o milho. Na seca, também se colhe o amendoim, laranja, bem como a cana para fazer a cachaça e a rapadura, dois importantes produtos em praticamente todas comunidades rurais do Brasil. A colheita da batata-doce coincidia com o período da quaresma e da semana santa: "a quaresma era a época do doce de batata-doce" (IA3). Após a colheita, a palhada era queimada para "escurecer a terra", sua aplicação junto a adubos químicos foi o único manejo mencionado pela comunidade para a manutenção da fertilidade do solo.
O período da colheita também era marcado por um grande número de rituais coletivos que evidenciam o caráter de produção não apenas material, mas simbólico e social das atividades agrícolas. Um dos rituais recorrentes na memória da comunidade era a entrega do pé-de-milho. Após o longo dia de trabalho, todos os companheiros que trabalharam na roça seguiam em direção a casa do dono das terras nas quais trabalhavam e entoando as boiadeiras - os cantos típicos do ritual - entregavam a ele a primeira espiga da colheita.
Todo o sistema de produção agrícola seguia desta forma um calendário sazonal, também atrelado aos ciclos lunares (Quadro 1). Apesar de receber pouca atenção de grande parte dos estudos etnoecológicos, a atenção dada pelas comunidades rurais a influência da lua sobre suas vidas é um aspecto extremamente relevante para a compreensão de seus sistemas de manejo (Ribeiro 2006)14. A lua exerce influência desde o crescimento do cabelo, como a época para colheitas e plantios. No Açude, as fases da lua interferem principalmente no período destinado a retirada de madeira e coleta de plantas medicinais. Para essas duas atividades, a fase preferida é a da lua minguante.
14 "A Lua, em resumo, "governa" sobre diferentes esferas do mundo natural, que ao ser apropriado também afeta o fazer humano na agricultura, na pecuária, na extração vegetal e mineral, na caça, etc.; bem como, influi sobre as próprias pessoas, percebidas como integrando um mesmo cosmos. As diferentes fases lunares criam ciclos que regulam e regularizam a natureza e a vida humana em períodos sucessivos , os quais a experiência vai indicando e ensinando a respeitar para melhor se harmonizar com o universo. Se é possível alcançar pela observação do céu a regularidade de suas tramas, ele também reserva-se o direito à surpresa, ao imprevisível, à desordem com iguais consequências para o mundo natural e os homens nele inseridos." (Ribeiro 2006, p.70)
Figura 10. Siriema (Cariama
cristata) Umas das espécies
de aves mais conhecidas pelas populações do Cerrado. Sua vocalização característica está sempre associada a "adivinhações do tempo."
Essa atenção conferida a influência da lua sobre os fenômenos biológicos também ocorre na observação dos "sinais de chuva". O comportamento de animais é um dos principais indicadores das mudanças no tempo: o canto na siriema (Cariama cristata) (Figura 10) e a migração de passarinhos para áreas de mata são sinais de que as chuvas estão chegando. O início das secas é acompanhado pelo aparecimento dos bichos-de-pé e dos carrapatos. O início da estiagem
também é marcado pela "chuva de carrapato", quando se planta o feijão da seca, também chamado de roxinho. Mas para saber se o ano seria "bom de
chuva", era preciso observar a lua na virada do ano. Se a lua estivesse
"tombada", sinal porque estava cheia de água, podia-se esperar um ano de "muita água."
Além dos sistemas de cultivo, o extrativismo vegetal continua sendo uma atividade importante para a comunidade. O Cerrado oferece um grande número de espécies utilizadas como alimento, especialmente frutos (mangaba, araticum, cagaita, coco macaúba, gabiroba), além de dezenas de plantas utilizadas no tratamento de doenças e para construção. As espécies utilizadas como lenha provêm essencialmente das formações florestais, as matas, na classificação local, incluindo desde as Florestas
Estacionais Semideciduais, as Florestas Deciduais ou Matas Secas e Matas Ciliares.
A extração de mel é outra atividade que guarda grande importância na história da comunidade. São reconhecidas pelo menos oito espécies de abelhas (mandassaia, arapuá, cachorra, preta, europa, timirim,
produtoras de mel. Além do uso na alimentação, o mel também é largamente utilizado no cuidado com a saúde, seja in natura ou no preparo de xaropes e garrafadas.
TABELA 02- CALENDÁRIO AGRÍCOLA DO AÇUDE