OBJETIVOS 2.1 GERAL
3.4 PLASTICIDADE E REGENERAÇÃO NO SNC
O SNC possui uma rede robusta de conexões entre neurônios e células gliais que evoluíram e estabeleceram relações de marcante dependência visando o aprimoramento do processamento neural (XAVIER et al., 2014). A plasticidade neural, também conhecida como neuroplasticidade ou plasticidade cerebral, define-se como a habilidade do SN em mudar sua atividade em resposta a estímulos, sejam eles intrínsecos ou extrínsecos, reorganizando estruturas, funções ou conexões (APARÍCIO; MORENO, 2019). Trata-se de uma habilidade que assume caráter amplo em virtude do desenvolvimento embrionário, embora no indivíduo adulto o SN também a exiba em certo grau, contrariando o que se supunha há muito tempo (ZHANG et al., 2014). Assim, é um erro pensar que o SN é uma estrutura estática e incapaz de ativar uma cascata de mudanças. Este modifica-se continuamente e a plasticidade enquadra-se como uma consequência obrigatória de cada input sensorial e de cada atividade motora por ele exercida (PASCUAL-LEONE et al., 2005).
O termo “plástico” se origina da palavra latina “plasticus”, oriunda do termo grego “plastikós” ou “plastos”, que significa “moldado” (APARÍCIO; MORENO, 2019). Fazendo um referencial histórico, antes do século XIX, o cérebro era principalmente contemplado por filósofos (MARKRAM et al., 2011) e, na última década desse século, vários cientistas fizeram contribuições relevantes para a nossa compreensão moderna da plasticidade. O neuroanatomista espanhol Santiago Ramon y Cajal foi quem primeiro definiu o neurônio como a unidade anatômica, fisiológica, genética e metabólica do SN (RAMÓN; CAJAL, 1899/1904; MAZZARELLO, 2016). Portanto, as ideias de Cajal sobre plasticidade cerebral foram essenciais para o desenvolvimento do conceito moderno de plasticidade (BERLUCCHI, 2002; STAHNISCH; NITSCH, 2002; JONES, 2004; DEFELIPE, 2006; BERLUCCHI E BUCHTEL, 2009; MARKRAM et al., 2011).
Cajal foi um visionário e sugeriu que a capacidade do cérebro poderia ser aumentada pelo aumento do número de conexões (DEFELIPE, 2006) e ainda modificou tal conceito, através de estudos anatômicos utilizando a técnica de Golgi, que o fizeram descrever o crescimento de axônios no córtex motor de cães adultos após uma lesão (CAJAL,1913-14). Assim, é indubitável que Cajal estimulou e influenciou as primeiras teorias sobre sinapses, transmissão sináptica e plasticidade embora não fique claro ainda quem primeiro cunhou tal termo (APARÍCIO; MORENO, 2019).
As inúmeras descobertas sobre a plasticidade avançaram consideralmente, mas ainda é sabido, entretanto, que o SNC é muito sensível a lesões e sua capacidade regenerativa
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é um processo complexo e limitado (MORAN; GRAEBER, 2004). O próprio microambiente da ME após uma lesão, por exemplo, desfavorece a regeneração axonal, pois há secreção de moléculas inibitórias por astrócitos e oligodentrócitos. Além disso, há interrupção no fornecimento de fatores neurotróficos (TERENGHI, 1999) e formação de cicatriz glial, que age física e quimicamente no tecido levando à morte neuronal. É a carência de fatores neurotróficos apropriados em um padrão temporal que afeta a sobrevivência e inibe a reconexão das sinapses dos neurônios lesionados (SCHWAB; BARTHOLDI, 1996; TATOR, 1998).
Assim, a ideia de que uma lesão no SNC traria como consequência a sua incapacidade de se recompor persistiu por muito tempo e foi justamente Santiago Ramón y Cajal, juntamente com Camilo Golgi na virada do século passado, que arriscaram em conjecturar sobre a capacidade regenerativa do SNC, embora de forma limitada. Nesse sentido, Cajal realizou experimentos onde encontrou pouca resposta regenerativa e, em alguns casos, ausente, após realizar a transecção de axônios do SNC (STAHNISCH; NITSCH, 2002). Por conseguinte, ele postulou que a capacidade regenerativa dos neurônios depende muito do seu microambiente, sendo este um dos fatores primordiais de diferenciação entre as capacidades regenerativas do SNC e SNP (ZAGER; BLACK, 1988).·.
Nos anos 80, Aguayo e colaboradores comprovaram a existência de capacidade regenerativa considerável dos neurônios centrais desde que condições apropriadas fossem fornecidas para que o processo de crescimento axonal, uma vez iniciado, pudesse continuar (AGUAYO et al., 1981). Através do enxerto de um segmento de nervo ciático entre as duas extremidades da ME do rato completamente seccionada e, decorridas algumas semanas, os autores demonstraram no interior da ponte de nervo, a presença de axônios pertencentes a neurônios localizados proximal e distal ao local da lesão.
É incontestável que os neurônios do SNC têm uma capacidade regenerativa intrínseca, embora raramente isto ocorra de forma plena. Ainda, além de mudanças que ocorrem diretamente no local da lesão, essa organização pode ocorrer em dois níveis distintos: nos circuitos pré-existentes através de modificações nas conexões sinápticas, evento conhecido como plasticidade sináptica; ou devido à formação de novos circuitos através do brotamento axonal e dendrítico, estes conhecidos como plasticidade anatômica (RAINETEAU; SCHWAB, 2001). Existem na literatura inúmeros trabalhos avaliando os processos regenerativos dos neurônios do SNC após lesões medulares (YOUNG, 1996; BREGMAN et al., 1997; GRILL et al., 1997; GUEST et al., 1997; NOVIKOVA et al., 1997; ROSENBLUTH et al., 1997; XU et al., 1997; DIENER; BREGMAN, 1998), os quais
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corroboram que o uso de enxertos de pontes de nervos periféricos, de suspensão de células de Schwann, de populações celulares de origem fetal, da glia olfatória e de células gliais centrais cultivadas associadas ou não à infusão de fatores neurotróficos são as abordagens mais utilizadas nestes estudos (BREGMAN et al., 1997; GUEST et al., 1997; ROSENBLUTH et al., 1997; XU et al., 1997; MENEI et al., 1998; OORSCHOT; MCLENNAN, 1998; RAMON-CUETO et al., 1998).
Portanto, é valido lembrar, no entanto, que a regeneração do SNC envolve várias etapas onde primeiro as células nervosas precisam sobreviver ao trauma, e então os axônios lesados devem re-crescer em direção à sua célula alvo original. Uma vez que o contato foi estabelecido, este axônio precisa ser mielinizado e sinapses funcionais precisam se formar (HORNER; GAGE, 2000).