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Plasticidade Neural: algumas considerações

CAPÍTULO 1: CORPO TEÓRICO PARA ESTUDO DO CASO DE JS:

1.5. Plasticidade Neural: algumas considerações

Conforme vimos anteriormente, em uma concepção de cérebro como um sistema funcional que trabalha de maneira dinâmica e integrada, em casos de lesão, as áreas não lesionadas têm sua participação durante uma determinada atividade lingüístico-cognitiva, dado que as funções mentais não estão localizadas em áreas circunscritas; esse é um princípio que orienta a neuropsicologia luriana, sendo crucial para o trabalho clinico- terapêutico pós-lesão. Vale ressaltar que o caráter sistêmico e multicêntrico do funcionamento cerebral durante as atividades cognitivas tem sido confirmado pelos estudos

do fluxo sangüíneo e metabolismo cerebral utilizando técnicas de neuroimagem tais como a gama-câmara, SPECT e PET-SCAN (DAMASCENO, 1990).

Uma argumentação de base biológica para a dinamicidade do funcionamento cerebral é que as células do sistema nervoso são dotadas de plasticidade (LENT, 2001); segundo KANDEL (2000/2003), a hipótese da plasticidade foi primeiramente sugerida na virada do século XIX por Ramón y Cajal, sendo que uma visão moderna dessa hipótese foi aprimorada pelo psicólogo Jerzy Konorski. KONORSKI11, citado por KANDEL (2000/2003, p. 34), afirma que:

A aplicação de um estímulo gera dois níveis de mudanças no sistema nervoso (...). A primeira propriedade, em virtude da qual as células nervosas reagem ao impulso que chega, (...) nós chamamos de excitabilidade, e (...) mudanças que emergem (...) por causa desta propriedade chamaremos de mudanças devido à excitabilidade. A segunda propriedade, em virtude da qual certas transformações funcionais permanentes emergem em sistemas particulares de neurônios como resultado de estímulos apropriados ou sua combinação, chamaremos de plasticidade, e as mudanças correspondentes, de mudanças plásticas (KONORSKI apud KANDEL, 2000/2003, p. 34).

Vejamos também o conceito de plasticidade exposto por LENT (2001, p. 135) em que relaciona organismo-ambiente:

A capacidade de adaptação do sistema nervoso, especialmente a dos neurônios, às mudanças nas condições do ambiente que ocorrem no dia-a-dia da vida dos indivíduos, chama-se neuroplasticidade, ou simplesmente plasticidade, um conceito amplo que se estende desde a resposta a lesões traumáticas destrutivas até as sutis alterações resultantes dos processos de aprendizagem e memória. Toda vez que alguma forma de energia proveniente do ambiente de algum modo incide sobre o sistema nervoso, deixa nele alguma marca, isto é, modifica-o de alguma maneira (LENT, 2001, p. 135).

Os estudos sobre a plasticidade do sistema nervoso são classificados como pertencentes à categoria daqueles denominados de recuperação de função (enfatizam as mudanças comportamentais após traumatismos ou lesão do sistema nervoso) ou à categoria daqueles que manipulam o ambiente e analisam as modificações morfológicas e/ou funcionais em circuitos neurais (KOLB & WHISHAW, 1989).

11

KONORSKI, J. Conditioned reflexes and neuron organization. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1948.

A interação sistema nervoso-ambiente resulta na organização de comportamentos simples ou complexos que modificam tanto o ambiente como o próprio sistema nervoso; segundo ROSENZWEIG (1996), as situações de exposição à estimulação ambiental e as situações de aprendizagem resultam em alterações no comportamento e nos circuitos neurais; e o reconhecimento da capacidade de modificação do sistema nervoso em função de suas experiências ocorreu nas últimas décadas.

Um experimento que mostra alterações das características morfológicas e funcionais das áreas corticais em função da exposição e da interação com o ambiente foi o de ROSENZWEIG et al.(1962). No experimento foram utilizadas gaiolas-viveiro grandes, como ambiente, em que estão presentes objetos de variadas formas, espelhos, escadas, além de diferentes possibilidades para acesso aos alimentos, o que é muito diferente das gaiolas- viveiro comumente encontradas em biotérios, em que os animas são alojados em conjunto ou individualmente. Com esse experimento foi observado um aumento na espessura das camadas do córtex visual, no tamanho de corpos neuronais e de seus núcleos, no número de sinapses e na área das zonas de contato sináptico, no número de dendritos e de espinhas dendríticas, no volume e no peso cerebral e alterações nos níveis de neurotransmissores.

Um outro experimento foi o de HUBEL & WIESEL (1965) em que se pretendia observar se o mundo visual dos animas interfere no crescimento dos axônios de representação monocular (LENT, 2001). Os autores tomaram animais recém-nascidos, realizaram uma sutura permanente nas pálpebras de um dos olhos logo após o nascimento e concluíram que: 1) em condições normais, sob estimulação visual natural, os axônios de representação monocular de cada olho tem território cortical durante o desenvolvimento ontogenético, e como apresentam condições equivalentes de estimulação visual, separam-se ocupando territórios do mesmo tamanho; 2) quando a estimulação visual é desequilibrada pela sutura palpebral, o olho estimulado “vence” a competição e ocupa a maior parte do território cortical (LENT, 2001).

Um fator que demonstra a plasticidade neural é a complexa interação neurônio-glia. Até pouco tempo as células da glia eram consideradas como células de suporte estrutural e metabólico para o neurônio; apenas recentemente surgiu uma maior compreensão das complexas interações neurônio-astrócito/microglia e de sua participação nos processos de

plasticidade neural e de aprendizagem (MOONEN, et al., 1990; CERUTTI & FERRARI, 1995; ALDSKOGIUS & KOZLOVA, 1998).

Uma passagem de MACHADO-VIEIRA, SOUZA & KAPEZINSKI (2002) mostra, sucintamente, as funções gliais decorrentes da interação com o neurônio:

Foram descritos efeitos relacionados à modulação da fisiologia sináptica por meio da conhecida capacidade [das células gliais] de regular o meio iônico extraceleular e de metabolizar neurotransmissores. Essas células respondem a neurotransmissores liberados em terminais sinápticos ativos sob o controle dinâmico da atividade neuronal. Em resposta a esta atividade neuronal, os astrócitos podem, por meio de oscilações nos níveis citosólicos de cálcio, enviar retroativamente ao neurônio uma mensagem estimulando a liberação de vários neurotransmissores, como por exemplo, o excitatório glutamato. O glutamato despolariza o astrócito, induzindo um aumento nos níveis de cálcio intracelular, que, por sua vez, induz a liberação de neurotransmissores pelos neurônios. (...) As funções gliais decorrentes da integração com o neurônio incluem a regulação neuronal dos níveis extracelulares de potássio, e esta regulação está associada à atividade sensória, ao aprendizado e aos estados motivacionais.

Em suma, “as interações astroglia/microglia exercem papel fundamental em mecanismos tróficos de neurônios do SNC (Sistema Nervoso Central). [No caso de lesões], os neurônios que sofreram danos liberam secreções que estimulam as microglias que, por sua vez, interagem com os astrócitos e induzem a produção de outras substâncias tróficas” (FERRARI, TOYODA, FALEIROS & CERUTTI, 2001).

Um importante aspecto a destacar sobre a plasticidade é que os bilhões de neurônios e correspondentes conexões sinápticas, associadas às células da glia, formam uma rede neural complexa que faz a integração funcional de estruturas neurais diferentes e, muitas vezes, distantes (MOONEN et al., 1990). Ao sofrer traumatismos ou acidentes vasculares, por exemplo, podem ocorrer perdas neuronais e alterações funcionais nessa rede neural; vale destacar que tais alterações ocorrem não apenas nas áreas diretamente afetadas, mas também em outros locais neurais, direta ou indiretamente conectados a elas, resultando em alterações comportamentais e cognitivas (CUELLO, 1997).

Para encerrar as considerações sobre a plasticidade neural no interior de uma neurolingüística discursivamente orientada, segue uma passagem de KANDEL & HAWKINS (1992, p. 86) sobre as constantes modificações ocorridas no córtex:

Merzenich examined the representation of the hand in the sensory area of the cerebral cortex. Until recently, neuroscientists believed this representation was

stable throughout life. But Merzenich and his colleagues have now demonstrated

that cortical maps are subject to constant modification based on use of sensory pathways. Since all of us are brought up in somewhat different

combinations of stimuli and are likely to exercise our sensory and motor skills in different ways, the architecture of each of our brains will be modified in

slightly different ways. This distinctive modification of brain architecture, along with a unique genetic makeup, contributes to the biological basis for the expression of individuality. Grifos meus.

Para encerrar este item chamo atenção para os efeitos que um ambiente discursivamente orientado podem ter na plasticidade do SNC, ou seja, nos arranjos e rearranjos neurais que ocorrem. É característica desse ambiente que os sentidos não se estabelecem previamente, que a interlocução seja vivida, que o funcionamento lingüístico seja heterogêneo e incompleto, que outros sistemas de base semiótica circulem pelo espaço discursivo, que o jogo de imagens entre os interlocutores não seja fixo. A relação entre discurso e plasticidade é uma “via de mão dupla”. O próprio cérebro precisa de um ambiente sempre desafiador para que suas potencialidades se apresentem e para que os processos cognitivos funcionem em toda sua complexidade. Esse ambiente que afeta o cérebro, por sua vez, também afeta a linguagem e sua relação com tais processos.