5 A LIBERDADE DE REUNIÃO NA CONSTITUIÇÃO DE 1988
5.3 ELEMENTOS DA LIBERDADE DE REUNIÃO
5.3.1 Pluralidade de Participantes ou Elemento Pessoal
O primeiro elemento que caracteriza o exercício da liberdade de reunião é sem dúvida a pluralidade de participantes. Esse elemento está presente na grande maioria das definições em torno do tema, como pode ser observada nas transcrições acima, motivo que ensejou os nossos grifos.
Com efeito, não há falar-se em reunião de uma pessoa. A própria unicidade exclui a capacidade de reunião em razão da sua incompatibilidade lógica, já que ninguém pode reunir- se consigo mesmo.
Portanto, mesmo reivindicando ou protestando sobre assunto de interesse coletivo, não haverá configuração do exercício da liberdade de reunião caso seja verificada a presença de apenas uma pessoa a tratar do respectivo tema.
Dessa forma, o direito de reunião pressupõe um agrupamento de pessoas, que segundo Gilmar Mandes pode, também ser considerado como um elemento subjetivo.
No entanto, ainda com base no referido autor, não será todo agrupamento de pessoas que dará lugar a uma reunião, protegida constitucionalmente. Nas palavras de Gilmar Mendes: “O ajuntamento espontâneo em torno de um acontecimento inesperado na rua não espelha a figura protegida constitucionalmente. A reunião deve ostentar um mínimo de coordenação (elemento formal).”152
Portanto, mesmo reivindicando ou protestando sobre assunto de interesse coletivo, não haverá configuração do exercício da liberdade de reunião caso seja verificada a presença de apenas uma pessoa a tratar do respectivo tema.
Assim, o indivíduo que porta um cartaz com a palavra de ordem à frente de uma multidão que sai de uma estação do metrô não está participando de uma reunião e pode até ser chamado a, por exemplo, desobstruir uma passagem, sem poder invocar o exercício do direito constitucional em estudo.
Tampouco é exercício da liberdade de reunião o encontro casual de automóveis em ruas e pistas, em que habitualmente os carros afluem para, com buzinas, comemorar algum resultado esportivo. Não se exige, de toda sorte, para caracterizar uma reunião, que se perceba
152 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de
no grupo uma estrutura organizada em pormenores, como é o caso quando se cogita da existência de uma associação.
Esse elemento é de ordem pessoal e não possui outro propósito senão garantir o exercício da liberdade de reunião conferida na Constituição, bem como identificá-lo e caracterizá-lo em face de outros direitos fundamentais, principalmente daqueles decorrentes da liberdade, conforme afirma o próprio Celso Ribeiro quando utiliza esse elemento para diferenciar o direito de reunião do direito de manifestação do pensamento, posto que nesse caso, o exercício do direito do indivíduo se dá de forma isolada153.
5.3.1.1 Número de Participantes
Conforme restou demonstrado, no item anterior, a unicidade está completamente excluída da caracterização do exercício da liberdade de reunião.
No entanto, Fernando Dias Menezes154 destacou o fato de que, apesar da exigência, de um lado, concernente à pluralidade de participantes, o ordenamento jurídico pátrio não fixou número suficientes de pessoas.
Complementando sua constatação, o referido autor manifesta-se afirmando que ante a omissão a respeito no Direito brasileiro, parece que a concorrência de duas pessoas já basta para caracterizar a reunião.
Nesse sentido Pontes de Miranda, ao comentar a Constituição anterior, deixa claro entender possível a reunião de duas pessoas, conforme se verifica no trecho abaixo:
A primeira e mais simples das liberdades corporativas é a liberdade de reunião. Vem logo após a liberdade geral de ir e vir. O único elemento novo é a convergência de pessoas. Duas ou mais pessoas, exercendo o direito de ir, ficar e vir, vão ao mesmo lugar, ou à mesma casa; ou alguma ou algumas vão, ou vêm, para se encontrarem, ou se encontrarem com outra ou outras. (Aí, a espacialização existe, mas já é conseqüência, portanto – elemento secundário: só se trata de espaço porque duas ou mais pessoas não podem ocupar o mesmo espaço). O que importa é o fato de se reunirem as pessoas, porque, se se quer apreciar o conteúdo do que se discute, ou o que vão ou vêm fazer, já se introduz elemento novo.. entra em causa, forçosamente, outra liberdade, e.g., a de pensamento, ou a de não emitir o pensamento, a de fazer ou não fazer, a de ensino, etc.155
No entanto, apesar de existir coerência semântica nos pontos de vista acima explicitados
153
Cf. BASTOS; MARTINS, 2004, p. 91.
154 Cf. ALMEIDA, 2001, p. 145. 155 MIRANDA, 1987, p. 558.
acerca da presença mínima de apenas duas pessoas para que seja possível identificar o exercício da liberdade de reunião, não parece ser concreta, do ponto de vista prático, a possibilidade de se atingir um objetivo comum contando com um número tão pequeno de participantes.
O que parece, na verdade, é que questões desse tipo ensejam muito mais a aplicação do bom senso do que a aplicação de regras, de um modo geral. Assim, é somente por meio da avaliação do caso concreto que se poderá analisar a existência ou não do exercício desse direito. Senão vejamos os exemplos hipotéticos.
Duas pessoas resolvem protestar às 10:00 horas, em plena Avenida sete de setembro, nessa Capital, contra o dúplice descumprimento da Secretaria de Saúde no que tange ao fornecimento de medicamentos utilizados mensalmente por ambas.Imagine essas duas, juntas e unidas em prol de uma finalidade comum, gritando e protestando sem utilizar qualquer instrumento apto a respaldá-las, como apitos, cartazes ou até mesmo microfones.Certamente passarão despercebidas pela multidão que as cercam ou poderão até mesmo serem consideradas como “malucas”.A Liberdade de reunião de ambas, sem dúvida, está presente, e, portanto, protegida constitucionalmente. No entanto do ponto de vista prático e real, esse protesto não importará em qualquer impacto ou desdobramento capaz de possibilitá-las reconhecimento.
Assim, há que se considerar, ainda, que mesmo diante da existência da pluralidade de participantes, ou seja, mesmo contando com apenas duas ou três pessoas, outros aspectos também se tornam importantes na análise do contexto de um modo geral, pois o que se pretende alcançar a partir desse exercício é o que realmente deve ser considerado e não o exercício por si só.