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6. Processo social: recolocando os desafios explicativos do trabalho

6.1. Pluralidade do trabalho e fetiches territoriais

Abordar os processos sociais e deles extrairmos os conteúdos dos fenômenos investigados, ou as diferentes formas geográficas de explicitação dos fenômenos do trabalho, na perspectiva dos significados espacial e territorial do metabolismo da sociedade do capital, requer que o território seja visto no âmbito do espaço, e o espaço como instância na qual vai se mover o ato analítico do território.

Em outros termos, o espaço na sociedade burguesa está fundado na sua geometrização, intimamente ligada ao controle da propriedade privada e, por consequência, sobre a

condição (geral) da produção. Como vimos nos capítulos anteriores, a burguesia reinventa o espaço

para legitimar, pela via da metrificação, a própria estrutura da propriedade privada e a revitalização constante do capital (SANTOS, 2002), pretextando o exercício do controle sobre o tecido social, particularmente sobre o trabalho.

Dessa forma, por se tratar de assunto polêmico, ao assumirmos essa posição, não estamos ignorando as demais, tampouco os autores proponentes das mesmas, mas sim estamos

141 considerando os limites deste estudo, neste momento. Basta ilustrar essa preocupação por meio das nossas experiências de pesquisa, o que nos autoriza a adiantar, a título de exemplo, que, quando apreendemos os vínculos entre a cidade e o campo (formas espaciais), o rural e o urbano (conteúdos sociais das formas espaciais), ou, no âmbito do que nos interessa diretamente, as formas de realização do trabalho, nos propomos entender que não se trata de igualar uma à outra, mas de enxergarmos/apreendermos a plasticidade do urbano no rural e vice-versa. Não é o caso, igualmente, de estabelecer a prevalência ou a determinação desta sobre aquela ou vice-versa, de forma

unilateral, tal como as formulações “o campo acabou” ou “está em vias de acabar”217, sem antes focar

o processo social, a estrutura espacial, os conflitos territoriais.

Para fazer valer essa boa máxima, é necessário que levemos em conta as diferenças

no tocante às especificidades das relações de trabalho, da relação metabólica que o homem estabelece com o meio, com a natureza e consigo mesmo, a identidade do sujeito que trabalha, que está envolvido na lavra cotidiana e se territorializa enquanto (re)configuração geográfica e espacial dos processos sociais, e os desdobramentos para a luta de classes, mais propriamente, para a classe trabalhadora.

Portanto, o rural não deixou nem deixará de existir, uma vez que as modificações em curso têm alterado seus significados, redefinido mudanças espaciais e recriado novas

funcionalidades, sem que seja desnaturalizado por decreto ou por vocação alheia ao processo

histórico concreto e ontologicamente vinculado ao desenvolvimento contraditório do capitalismo. Desse modo, não é o caso de estabelecermos as pífias comparações entre o rural como sinônimo de

atraso, de natural, e o urbano como locus do moderno, das técnicas sofisticadas. Ao contrário, temos

que edificar nossa “leitura” sobre os referenciais da identidade do sujeito que trabalha, sob quais condições e relações de trabalho e os seus significados nos diferentes lugares, ou seja, posicionamento político-ideológico e de classe. O constante fluxo de relações, de trocas (econômicas, ideias) que ocorrem por meio de diferentes formas de expressão e territorialização do trabalho entre o rural e o urbano e, consequentemente, todo o empreendimento da dominação do capital e da resistência dos trabalhadores repõe esse assunto em lugar privilegiado na nossa caminhada de pesquisa. Neste texto de reflexão crítica, priorizamos sediá-lo no cerne das limitações da “leitura” geográfica ainda presa às demarcações prévias do(s) recorte(s) temáticos e, portanto, distanciada da compreensão crítica do movimento contraditório que redefine os papéis dos sujeitos sociais do trabalho.

Assim, podemos enriquecer nossas análises de elementos sociais vivos, ou atores

sociais diretamente envolvidos nos processos produtivos e as respectivas bases territoriais de

realização, não definidos a priori, não esvaziados quanto aos conteúdos de classe, mas no ambiente

contraditório da realidade do trabalho, seja nos campos, seja nas cidades, aqui e ali.

Esses são os parâmetros fundantes da estrutura espacial e que podem nos revelar as travagens políticas, ideológicas e territoriais que obstaculizam as vias de comunicação e as capilaridades internas às diversas expressões do trabalho ou, mais propriamente, às formas

217 Cf. GRAZIANO DA SILVA, 1999.

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específicas de externalização (assalariados puros, informalizados, por conta própria, camponeses

etc.) e a complexa composição da classe trabalhadora.

Em torno desse cenário e tendo em vista o peso decisivo do estranhamento e da alienação, ampliam-se as travagens que determinam a (des)identidade de classe do trabalho, ou a noção de pertencimento ao universo simbólico de classe, também internamente ao próprio mundo do trabalho. O não reconhecimento da autenticidade e legitimidade das formas de organização/representação dos trabalhadores que não sejam os sindicatos, as federações, as confederações, as centrais e, de outra parte, as associações, as cooperativas, as organizações, no âmbito dos movimentos sociais, e vice-versa, nos põe preocupados diante dos desafios que se apresentam para a classe trabalhadora.

Os trabalhadores inseridos na seara sindical têm dificuldades ou resistências para entender e aceitar a existência das demais formas de organização da classe trabalhadora, sendo o contrário também verdadeiro. Isto é, os trabalhadores vinculados aos movimentos sociais e demais estruturas organizativas não reconhecem os trabalhadores e suas entidades sindicais, como aliados etc.

A convivência internamente aos marcos da classe trabalhadora é conflituosa e fundada, em grande medida, nas disputas corporativas e politicamente orientadas para os trâmites

legais da justiça do trabalho218, como é o caso das entidades sindicais que, historicamente,

absorveram como leito privilegiado da luta política as imposições das prerrogativas da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Esta, antes de ser somente um código normativo da relação capital-trabalho é, sobretudo, um referencial inspirador da ação política para a grande maioria das entidades sindicais, ainda que aceito com restrições.

Mesmo entendendo que os sindicatos, enquanto estrutura orgânica e institucional de representação dos trabalhadores, tiveram, desde a origem, a atribuição de órgão de colaboração de classe ou de colaboração direta dos trabalhadores para com o Estado (como prescrito na própria CLT), a história mostra que, apesar de não podermos esperar dos sindicatos ações mais arrojadas, transformadoras, é sobejamente conhecida do público a importante participação destes e de seus

líderes e militantes para a resistência e formação política dos trabalhadores brasileiros219. Foram

inicialmente inspiradas nos ideais libertários do anarco-sindicalismo, nos primórdios do século XX, e, depois, pela democratização e conquistas sociais de vulto para os trabalhadores, em particular, e para a sociedade brasileira, em geral, especialmente a partir de 1980.

Entretanto, desde então, esse desenho histórico demarca claramente a transmutação do embate operário, isto é, da dimensão da luta salarial que ganha rapidamente a dimensão da contestação ao regime militar e autoritário de controle social, inclusive com potencialidades para alavancar um salto para a organização dos trabalhadores como classe antagônica ao capital, nos

moldes da revolução pacífica220. Essa linha de atuação reacendeu expectativas animadoras na

sociedade e, particularmente, para a militância, numa conjuntura de luta pela reposição das perdas

218 Vasapollo (2007) também reconhece esse aspecto, todavia somente pelo papel de liderança da classe operária, aceitando a

presença de intelectuais, as novas expressões do trabalho negado, do não trabalho, quando aponta a necessidade da superação dos conflitos sociais entre a classe operária propriamente dita (p.24).

219 Esse assunto, na atualidade, pode ser encontrado em Ariovaldo Oliveira Santos (2001, 2004). 220 Em referência à tese de Gramsci, formulada nos

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salariais e pela redemocratização221, o que ficou conhecido como novo sindicalismo222. Da fase

combativa para a fase hegemonizada pelo neocorporativismo e pelo ideário da concertação social,

apesar de haver alguns cuidados para precisar essa fronteira, pouco mais de quinze anos demarcam mudanças significativas do ponto de vista político, ideológico e organizativo da classe trabalhadora, no Brasil.

Por meio da blindagem do legalismo e das noções de parceria, podemos compreender os aspectos mais significativos utilizados pelos setores outrora mais combativos do sindicalismo brasileiro, hoje “chapa branca”, especialmente os sindicatos filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) e envolvidos no governo Lula, desde 2003. No início do segundo mandato, a Força Sindical também foi atraída para a composição que dá sustentação ao governo no Congresso, mediante o apoio do Partido Democrático Trabalhista (PDT), o qual abriga as principais lideranças dessa central e que, da cota que dispõe no governo, controla o Ministério do Trabalho e Emprego e vários cargos do segundo e terceiro escalões da administração pública federal. De mais a mais, a base do governo migrou dos setores organizados para os segmentos da classe trabalhadora instalados nos grotões. Quer dizer, a base política do governo, nesse particular, foi transferida dos trabalhadores, que, ao longo dos anos 1970 e 80 se envolveram em construir novos referenciais para o sindicalismo e para a classe trabalhadora, organizados nos sindicatos, assalariados e funcionários públicos, para a classe trabalhadora mais pauperizada/precarizada, que se insere em atividades temporárias, com baixa remuneração.

De outra parte, as demais centrais (CGT, CAT, SDS) se juntaram e criaram, em novembro de 2005, a Nova Central Sindical – historicamente se mantiveram subordinadas às

exigências do capital e do Estado. A título de exemplo, em torno do conformismo necessário à

adaptação da força de trabalho aos ditames do novo padrão produtivo, aos objetivos do PLANFOR

(Plano Nacional de Formação do Trabalho) e do PNQ (Plano Nacional de Qualificação), do governo Lula.

Resta, pois, nos últimos três anos, a resistência e a oposição, aos encaminhamentos monopolizadores do Estado e cultura sindical subserviente, da CONLUTAS (Coordenação Nacional

221 Cf. SADER, 1995.

222 Essa experiência marcou não somente a vida sindical, mas todas as demais vivências e sociabilidades dos trabalhadores e

da sociedade em geral. As primeiras mobilizações, já em 1978 e 1979, tais como a dos professores, em Belo Horizonte, dos metalúrgicos, no ABC Paulista, e outras patrocinadas pelos estudantes em conjunto com trabalhadores, no Rio de Janeiro, trabalhadores rurais, cortadores de cana-de-açúcar, em Pernambuco, e tantas outras, colocaram em “xeque” todo o período de exceção e inseriram na agenda política a necessidade de publicizar a resistência e amplificar o coro em favor da abertura política. A contraposição dos trabalhadores às arbitrariedades da ditadura militar, as insatisfações, em sentido amplo do termo, não somente no tocante à castração das liberdades democráticas, mas às perdas salariais, às diferentes formas de superexploração do trabalho, assim como as mobilizações que, na sequência, romperam os limites sindicais, tais como os movimentos pelas Diretas Já, pela Anistia, já na primeira metade da década de 1980, garantiram liderança ao movimento sindical. Suas principais lideranças eram também as que mais se destacaram para o conjunto da sociedade que também clamava por mudanças e pelo fim da ditadura militar. É nesse momento e como produto dessas lutas que se dá a fundação do Partido dos Trabalhadores, da Central Única dos Trabalhadores, CONCLAT/CGTs e que despontaram lideranças como Lula, Djalma Bom, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, e, nesse entorno, um conjunto de estudantes, intelectuais e pessoas comuns se juntam para fazer valer os propósitos de construção de novos referenciais organizativos dos trabalhadores etc. E é logo em seguida que, ocupando a cena dos movimentos sociais, ocorrem as primeiras ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), ainda de forma parcelária e localizada, o Movimento de Guariba, em 1984, as paralisações e greves em diversos segmentos e porões do território. Até a primeira metade da década de 1990, há certa coincidência entre alguns autores que refletiram e debateram as experiências do que ficou conhecido como novo sindicalismo, ainda que outra parte seja o final da década de 1980, com a marca do esfriamento anunciado desse período. Foi

no interior desse processo que aconteceram avanços marcantes para a classe trabalhadora, particularmente a politização, a ampliação dos horizontes dos insatisfeitos, a própria presença dos partidos políticos, as eleições diretas etc. Para esse período da história recente do Brasil, valem as seguintes indicações: Rodrigues (1991); Antunes (2001); Frederico (1993); Boitto Junior (1993), Almeida (1996).

144 de Lutas) e dos sindicatos e organizações sociais populares que seguem suas deliberações e propostas de ação política, vinculadas à estrutura orgânica do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados).

De olho na conjuntura atual, nos desafios para os trabalhadores e nos embates que transcorrem no âmbito das centrais sindicais, a cena político-sindical é dominada pelos dissabores em torno da Emenda 3 à Lei 11.457/07, ou seja, os princípios defendidos pela manutenção do veto,

que instituiu a Super Receita, e a criação do caixa único do governo federal, representado pela

Receita Federal e Previdência223. Na verdade, essas providêncas impedem a atuação fiscalizadora do

Ministério do Trabalho, quando constatada relação de trabalho fraudulenta224, e, concebidas

formalmente com base em texto genérico, além das situações de empregados contratados como

pessoa jurídica e, portanto, sem os direitos trabalhistas225, ficam legalizadas daqui por diante as

falsas cooperativas e as situações assemelhadas de trabalho semi-escravo que ainda incidem em várias regiões do país.

Os posicionamentos entre as principais Centrais conserva inclinação favorável à manutenção do veto, todavia os acordos que perpassam as negociações no âmbito da CUT e Força Sindical, mediatizados pelos interesses governistas, põem em risco a manutenção da defesa dos direitos trabalhistas conquistados ao longo de décadas de lutas.

A defesa pública, por parte da CONLUTAS, desses princípios também demarca outro campo divisório presente no contexto sindical, em relação às organizações próximas ou orgânicas à composição política do governo, como é o caso da CUT e CONTAG, que defendem a Medida Provisória 410, de 27/12/2007, que se propõe criar o contrato de trabalho rural por pequeno prazo (até dois meses) e inserir modificações na Lei 5889/73 (do trabalho rural), a qual abre as portas para a ilegalidade na área rural. A dispensa da obrigatoriedade de registro em carteira para os trabalhadores (boias-frias) que atuem por até dois meses em colheitas abre brechas para a retirada de direitos do trabalhador rural e impossibilita os agentes do governo de verificarem o cumprimento

da lei por parte do empregador226. De fato, a MP-410 impede a ação do Auditor Fiscal do Trabalho,

facilitando o descumprimento da legislação e o incremento das formas degradantes e assemelhadas de trabalho escravo.

Na prática, o que nos interessa é compreender as alternativas que o Estado, em conluio com o capital, vem apresentando aos trabalhadores brasileiros, em respeito à intensa

223 Há duas ordens de preocupação que norteiam o posicionamento político da CONLUTAS. O primeiro é que a Emenda 3

desloca a cobrança e a administração da contribuição previdenciária sobre a folha para esse Ministério da Previdência, retirando-a, portanto, do INSS e ameaçando os recursos que pertencem aos trabalhadores. O segundo efeito é a possibilidade de que a Desvinculação das Receitas da União (DRU) aumente seu campo de influência sobre os recursos do INSS, o que poderá significar maior desvio de recursos da Previdência para o pagamento da dívida pública, ou para o setor financeiro, aprofundando a política fiscal em curso no país.

224 Somente a Justiça do Trabalho é que poderá examinar as situações irregulares, sendo que os fiscais estarão impedidos de

autuar as empresas fraudadoras.

225 Na prática, todo e qualquer empregador poderá trocar empregados fixos por autônomos e não estará sob a fiscalização do

Estado. Não haverá como exigir as férias, 13º salário, FGTS, cumprimento das normas de segurança e saúde, aposentadoria, licença-maternidade, pagamento de horas extras etc.

226 A esse respeito, o procurador do Ministério Público do Trabalho, Jonas Ratier Moreno, entende ser lícita a permissão ao

produtor rural, pessoa física, para não assinar a carteira de trabalho dos empregados que trabalhem até dois meses, permitindo que firmem apenas um contrato escrito, que podem ficar assinados em branco, sendo preenchidos do modo que

melhor lhes aprouver, para descaracterizar a existência de trabalho escravo (Diário do Comércio, 11/01/2008, Brasília). Até a

Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por meio de seu representante no Conselho Federal da entidade, Ophir Cavalcante Junior, afirma que a MP-410 é uma medida altamente discriminatória dos trabalhadores rurais, sobretudo porque garante ao produtor rural a não assinatura da carteira de trabalho, e a diferenciação em relação aos trabalhadores urbanos, que fere o princípio constitucional da isonomia (O Globo, 16/01/2008).

145 precarização seguida de elevados patamares de informalidade e despossessão, bem como as disputas internas ao trabalho ou suas organizações políticas.

E o retrato de 2007 é o da composição da PEA, com 83 milhões de trabalhadores(as), dos quais 60% não têm carteira de trabalho assinada. De outro lado, o próprio governo federal assume publicamente que 30% dos servidores federais estão vinculados ao serviço público (ministérios, secretarias etc.) por meio do agenciamento de empresas terceirizadas (em grande medida, de fachada) e, portanto, não têm os direitos sociais assegurados.

As disputas internas ao cenário sindical são o termômetro político-ideológico dessas

mudanças, que nada mais expressam do que as diferentes compreensões e caminhos a serem construídos para a edificação da sociedade, sem contar, em alguns casos, os interesses particulares e pessoais dos próprios dirigentes, os quais demarcam as idas e vindas do sindicalismo brasileiro, as fragmentações intracorporativas e a demarcação de interesses estranhos à luta pelos interesses de classe dos trabalhadores.

Generalizadas para significativa parcela do sindicalismo, é importante asseverar que as disputas internas ao universo do trabalho e as dissensões resultantes fragilizam as ações políticas,

os planos de luta e, principalmente, a fundamentação dos sindicatos como verdadeira escola de

socialismo, numa alusão à formulação de Lênin – e instância da formação política dos trabalhadores enquanto entidade de classe, para a confrontação com o capital e com o Estado.

Nesse sentido, poderíamos lembrar as marcas das fragmentações internas aos trabalhadores rurais, no âmbito da CONTAG/CUT, que, tendo a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de São Paulo (FETAESP) como instância de organização superior, no plano regional, em São Paulo, instaura-se em 1989 a constituição dos Sindicatos dos Empregados Rurais (SERs) e a FERAESP (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo), como instância federativa (reconhecida juridicamente em 1997), que, desde 1993, também se filiou à CUT227.

Ainda na década de 1990, comparecem em cena novas formas de organização dos trabalhadores rurais, oriundas das instâncias já existentes, como os Sindicatos dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (SINTRAFs), que são os sindicatos vinculados à estrutura orgânica da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (FETRAF), e que apostam na inserção do agricultor familiar no mercado e secundarizam as formas alternativas de organização autônoma. Há ainda as experiências do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC); Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), mas que não faziam parte da estrutura orgânica da CUT, da mesma forma que os SINTAGRO’S (Sindicatos dos Trabalhadores nas Empresas Agrícolas, Agroindustriais e Agropecuárias).

As pesquisas têm evidenciado, a título de exemplo, que a complexa questão da “leitura” e compreensão corporativa do trabalho, especialmente por meio do cenário sindical, é amplificada com a fragmentação (subcorporativa), adicionando elementos novos à magnitude e ao

227 Cabe o registro da Federação dos Empregados Rurais no Setor Canavieiro do Estado de São Paulo (FERCANA), que,

desde meados de 2001, tentou institucionalizar seu registro, assim como o SINTAGRO, em 2003, que não obteve reconhecimento do Ministério do Trabalho, da mesma forma que a FERULCASP (Federação dos Empregados Rurais da Lavoura Canavieira do Estado de São Paulo).

146 conteúdo das tensões existentes entre as entidades representativas dos trabalhadores urbanos e rurais. Poderíamos ilustrar esse fato com o que se expressa no interior da CONTAG/CUT, considerando, pois, todo o arco das dissensões e das contradições internas, em relação ao MST e vice-versa – mas, valendo, a rigor, para todo o Brasil –, no que se refere à luta pela terra e pela reforma agrária.

Todavia, mais recentemente, as divergências e disputas internas a essas organizações ganham novos elementos, particularmente em torno da questão da participação ou não dos assentados e demais produtores familiares camponeses da alternativa produtiva do biodiesel, ou seja, no plantio de culturas oleaginosas e as vinculações ao esquema da integração, velho expediente do capital para controlar a sujeição da renda da terra e das famílias camponesas à sua lógica (Eixo 1.2).

Assim, de um lado, para a grande maioria dos sindicatos (tanto com enraizamento no campo, quanto na cidade), mas, especialmente, os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STR’s) e, em menor intensidade, os SERs, os trabalhadores envolvidos na luta pela terra, particularmente no âmbito do MST, são radicais, porque não se propõem ao diálogo, não respeitam as leis e o território

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