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Pluralidade e movimentos negros: uma reflexão

No documento Rio de Janeiro Fevereiro de 2010 (páginas 43-47)

II. Movimento, movimentos

2.1 Pluralidade e movimentos negros: uma reflexão

O “olho clínico” do “paradigma Morelli”, descrito por Ginzburg (1989), reformulou a questão da autoria das obras de arte e da autenticidade a partir da observação elementos aparentemente negligenciáveis marcados nas telas. É preciso não se basear, como normalmente se faz, em características mais vistosas. Assim, orienta o autor usando paradigma indiciário – um método ancorado no qualitativo, na diversidade da individualidade, no olhar sensível às diferenças – para apreciar o conjunto a partir dos pormenores.

43 Esta metodologia do olhar – paradigma indiciário – poderia ser utilizada

para perceber ineficácia de identificar os sujeitos e suas práticas culturais por categorias hierarquizadas. O conhecedor é aquele que percebe o que não é visto para a maioria. Assim, o recurso de um método interpretativo – centrado sobre os resíduos, normalmente achados sem importância, ou até triviais – poderia ser um caminho para tentar entender a individualidade inerente aos sujeitos que suponho estarem presentes nas práticas culturais e na atualização identitária.

O “olho clínico” seria uma forma de conhecer os cotidianos das populações subalternalizadas. Os sujeitos-praticantes, que inventam e reinventam no cotidiano o mundo, poderiam revelar outros usos da memória da escravidão. Quando penso nos movimentos negros no plural, estou usando o “olho clínico” e validando as escolhas, o campo de visão, as opções, as grades culturais, os paradigmas de cada sujeito. Sujeitos inventores nas artes de fazer, que reconfiguram “o tabuleiro” do jogo social vigente, que ao inventar se (re)inventam, e tornam possível compreender aquilo a que chamamos de realidade é muito mais complexo e inusitado do que se possa pensar (Passos & Silva 2009).

Ao usar o paradigma indiciário, Ginzburg (op.cit.) me ajudou a indagar as escolhas das escolhas, nas quais eu incluiria o pensamento ocidental, elaborando discursos que o legitimasse, como a única forma de produzir “verdades” ou como uma única forma de narrativa. O teórico dedicou-se a estudar outras formas de perceber o mundo. Voltar-se para o homem comum, o homem cotidiano como importante e produtor de conhecimento.

Em suma, pode-se falar de paradigma indiciário ou divinatório, dirigido, segundo as formas de saber, para o passado, o presente ou o futuro. Para o futuro – e tinha-se a arte divinatória em sentido próprio –; para o passado, o presente e o futuro – tinha-se a semiótica médica na sua dupla face, diagnóstica e prognóstica –; para o passado – e tinha-se a jurisprudência. Mas, por trás desse paradigma indiciário ou divinatório, entrevê-se o gesto talvez mais antigo de história

44 intelectual do gênero humano: o do caçador agachado na lama,

que escruta as pistas da presa. Ginzburg, 1989, p.154.

Esta forma de olhar, cujo modelo ensinou a lidar com as minúcias, me incita a ler e tentar narrar uma das muitas histórias e dos saberes que apontem para as classes subalternalizadas, em um diálogo no campo da cultura e com o cotidiano.

Não pretendo encontrar o geral nem seus arquétipos, mas produzir conhecimentos diferentes, fazer existir um terceiro conhecimento que não seja traduzido e descaracterizado em fantasia, que não seja da hegemonia ou da contra-hegemonia. A intenção é aprender com o cotidiano, com o modo como as populações afro-brasileiras continuam a fazer uso criativo e comunicativo da memória da escravidão.

A historicidade das populações afro-brasileiras passa pelos discursos da modernidade que apagam a existência de uma civilização negra/africana anterior a ela própria. Participo do pensamento de Gilroy (op.cit.) de que a ideia de tradição possui um estranho poder hipnótico no discurso político negro. A ideia de tradição reforça o conceito de continuidades históricas e, às vezes, legitima uma cultura política negra cuja postura é a defesa contra os poderes injustos da supremacia branca. Penso que a postura defensiva deve existir, mas creio esta deveria ser pensada de maneira plural. Considerando que a todo instante os sujeitos reinventam seus mundos, reinventam essa postura por meio da afirmação de outros saberes, de outras culturas e de outros valores (Oliveira, 2008).

Gilroy (op.cit.) observa que entrada dos negros no mundo moderno se dá via escravidão. É uma porta que permanece constantemente aberta, resultando na sede de vitimização negra, em que a ideia do apagamento identitário é mais forte do que sua efetivação.

O apagamento da reminiscência africana anterior à modernidade e o desejo de lembrar a escravidão em si se tornam um obstáculo identitário. O

45 jogo social e o discurso da igualdade racial não me deixam esquecer a

experiência escrava sempre iniciadas como a imagem de negros em um navio. No entanto, esta memória é uma aberração semelhante aos relatos místicos da grandeza na história da África cujo conteúdo parece ser indiferente à diversidade cultural existente no continente africano. Nenhuma das duas memórias citadas se preocupa com os fluxos, com as trocas e com os elementos intermediários que podem colocar em questão o próprio desejo de ser centrado, de ter tradição, de ser hegemônico cultivado no seio de algumas ideologias antirracistas.

Gilroy(op.cit.) sugere que seria mais eficiente a inversão da relação entre margem e centro do que a inclusão de comentários sobre os negros na modernidade, como corretivo à negligência há toda uma história cultural. A visão da modernidade como ruptura com o seu passado seria negar a possibilidade de um eu moderno e do reexame das condições em que os debates sobre a modernidade em relação a escravidão. Não entender a história como progresso propiciaria uma oportunidade de reperiodizar e reacentuar e

reconceituar narrativas (op.cit. p.125).

A narrativa da emancipação indica que

essas formas de saber eram mais ricas do qualquer codificação escrita; não eram aprendidas nos livros mas a viva voz, pelos gestos, pelos olhares; fundavam-se sutilezas certamente não- formalizáveis, frequentemente nem sequer traduzíveis em nível verbal; constituíam o patrimônio, em parte unitário, em parte diversificado de homens e mulheres pertencentes a todas as classes sociais. Ginzburg (op.cit. p. 167)

Do patrimônio em parte unitário, em parte diversificado poderia constar da experiência de como essas pessoas ricas de outras formas de saber desenvolvem no cotidiano as suas táticas que deflagram movimentos (organizações constituídas em práticas cotidianas) outros, não-hegemônicos que pressupõem uma estética e uma ética diferenciadas ou a reversão de uma hegemonia.

46 Pretendo aprender com praticantes que fazem o quiproquó (Certeau,

op.cit.): pessoas que contam a história a contrapelo, que desconstroem o

discurso de que as populações negras maculam a cultura brasileira, mas que vivem a participação positiva dos negros na cultura brasileira.

Todos os dias histórias nascem e morrem de mobilizações que em suas táticas, me conduzem a contar as emergências de práticas que desmitificam uma memória afro-brasileira servil. Ensinam-me em seus espaços-tempo que nunca estiveram passivos à força do pensamento dominante que os pretendia em silêncio, conectados por uma imagem romântica da África. Na perspectiva de Jesus (2004), trago a proposta de romper com esta história de apagamento identitário e da comunidade imaginária, da padronização estética e do ideário de tradição africana e refletir a negritude no jogo social impondo, atualizando e submetendo o sentimento de pertencimento.

Busco o lugar onde atua a pluralidade, distante de uma lamentação social, do sentimento de despertencimento, da perda, conforme os estudos de Certeau(op.cit.) que ensina a perceber os pormenores – no cotidiano há mil

formas de fazer – dessas mobilizações outras que não sucumbiram ao

pensamento hegemônico.

No documento Rio de Janeiro Fevereiro de 2010 (páginas 43-47)