2 O PLURALISMO RELIGIOSO COMO VALOR POSITIVO DA DIVERSIDADE
2.2 Pluralismo Religioso como Legitimação da Diversidade Religiosa
A situação diversificada está na Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural da Unesco, pela qual reafirma seu compromisso com os direitos humanos e as liberdades fundamentais, refletindo o pluralismo como legitimação da diversidade. A Unesco faz uma espécie de celebração da diversidade, uma exaltação da diferença cultural e identitária dos povos e nações vistas em sua singularidade, e que a humanidade acolhe essa diversidade como um valioso patrimônio (CECCHETTI et al., 2013).
Apesar de a Unesco reconhecer que as sociedades estão velozmente se tornando diversificadas, complexas e dinâmicas, ela ainda chama a atenção para uma passagem da diversidade cultural para um pluralismo cultural: “[...] em nossas sociedades cada vez mais diversificadas, torna-se indispensável garantir uma interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tempo plurais, variadas e dinâmicas, assim como sua vontade de conviver” (CECCHETTI et al., 2013, p. 22).
Nessas palavras, identificam-se, pelo menos, duas dimensões: a primeira é que a diversidade por si só, mesmo tratada como uma riqueza que deve ser preservada e promovida, não sustenta nem fomenta “[...] a compreensão intercultural e a harmonia racial e étnica na sociedade” (LEFEBVRE; COUTURE; CHAKRAVARTY, 2014, p. 8). A segunda é uma consequência da primeira: a diversidade exige um outro nível para que seja legitimada em sua própria condição, ou seja, o pluralismo cultural. Nessa visão, ocorre que a aceitação das tradições fomenta os sentimentos de confiança e paz entre os cidadãos.
Percebe-se aqui a transição da pura e simples diversidade cultural para o pluralismo cultural, isto é, uma passagem do fenômeno empírico das várias culturas para uma convivência pacífica, estabelecendo a forma inseparável de um contexto democrático estar no pluralismo cultural (CECCHETTI et al., 2013).
Com a Unesco (2002), esse contexto dá ênfase de que o pluralismo legitima a diversidade. Faz um elo entre o pluralismo cultural e o pluralismo religioso, em suas linhas gerais do plano de ação para a aplicação da Declaração Universal da diversidade cultural. Traz-se a ideia de conscientização de todos sobre o valor positivo da diversidade cultural.
Diante colocações da Unesco, a realidade diversificada das culturas apresenta o significado do pluralismo religioso enquanto uma tomada de consciência para reconhecer o valor positivo da diversidade religiosa. Com as iniciativas de favorecer axiologicamente a diversidade religiosa, os debates sobre o ecumenismo, algumas atividades inter-religiosas, o multiculturalismo, a teologia do pluralismo religioso, o fomento legal da liberdade religiosa, “[...] analisam e/ou defendem o respeito pelo valor positivo da diversidade religiosa em si ou como um meio para obtenção de coesão e harmonia social e cultural” (BERCKFORD, 2014, p. 22).
A reflexão de Beckford (2014) revela a semelhança nas palavras e também a referência positiva dos termos. A Declaração exemplifica o valor positivo da
diversidade cultural. O teórico atesta sobre o valor positivo da diversidade religiosa. Ambas são valorizadas por suas características positivas de serem diversas.
Entretanto outra analogia é cabida sobre os pluralismos cultural e religioso estão dentro de um contexto democrático. Por um lado, o pluralismo cultural visa garantir uma interação harmoniosa entre pessoas e grupos. Por outro, o pluralismo religioso empenha-se para obter a coesão e a harmonia social e cultural. Assim, da mesma forma que o pluralismo cultural legitima, valoriza e reconhece a diversidade cultural, o pluralismo religioso é uma visão normativa, positiva e valorativa da diversidade religiosa.
A diversidade cultural e a diversidade religiosa se tornam um desafio a ser levado em conta por suas influências mútuas entre as coletividades religiosas. Há de igual modo a realidade das reconfigurações em que essas religiões são expressivas para a construção do campo religioso aberto e relativamente competitivo: “[...] sempre houve muitas religiões, mas as pessoas nem sempre foram constantemente desafiadas por alternativas” (TRIGG, 2014, p. 1).
A leitura de Trigg (2014) é sobre os processos da globalização na sociedade contemporânea. Ele identifica alguns resultados que influenciaram os rápidos processos de transformações culturais como o crescimento econômico, os movimentos migratórios e as interações interculturais pela facilidade das comunicações midiáticas. Ressalta as culturas e as religiões diferentes que possuem contato diário entre si.
No mundo moderno, diversidade pode ser também vista como meio de provocar problemas, mesmo sendo vista como de valor para a sociedade. A convivência de suas relações importa ter políticas importantes para que possam viver juntas, “[...] sem o conflito que parece muito evidente em muitas partes do mundo contemporâneo?” (TRIGG, 2014, p. 2). Para isso, os desafios para as coletividades religiosas são ora preocupantes, ora sutis. Os debates apontam que vários casos mostram o turbilhão da diversidade cultural e religiosa que se mobiliza para a sua legitimação.
O termo legitimação carrega a ideia de algo que traga à luz uma consciência do valor positivo de uma determinada realidade em meio a muitas. Trigg (2014) levanta a questão se a diversidade religiosa é uma coisa boa. Cada religião tem seu devido valor, de forma que reconhecer as características mais profundas de suas tradições traz o reconhecimento que é o tema essencial da política moderna
(OLIVEIRA, 2015). O pluralismo religioso não vem apenas substituir categorias hermenêuticas para a explicação de fenômenos contemporâneos ligados à sociedade e à religião, mas surge como uma construção hermenêutica idealizada a ser alcançada e apropriada para responder à pergunta.
Acredita-se que, nas sociedades pluralistas com seu ambiente pós-moderno, a pluralidade pode existir, em que religiões convivem umas ao lado das outras (GRENZ, 2008). A pluralidade traz experiências, revela tradições religiosas que coincidem “[...] com uma consciência muito mais viva da relatividade da religião” (GEFFRÉ, 2013, p. 6). Mas tal consciência está no plano da relativização que remonta o “[...] esforço de contextualizar um ato ou elemento cultural-religioso, não tomá-lo como algo absoluto, é não transformar as diferenças em hierarquia” (ORO, 2013, p. 22).
Leva-se em consideração que a diversidade religiosa se tornou um assunto oportuno para ser debatido nas ciências sociais da religião e em outras esferas acadêmicas e intelectuais, por sua denominada legitimação e por “[...] muitas questões de interesse conceitual e prático são levantadas pelo pensamento sobre a diversidade religiosa” (GRIFFITHS, 2001, p. 11). Consubstanciando com ela, o pluralismo religioso se revela uma chave de interpretação imprescindível para explicar os vários fenômenos em que a religião se desdobra atualmente (GIORDAN, 2014).
O contexto democrático atual “[...] exige a existência de determinadas condições sociais que possibilitam a prática religiosa e a expansão destas” (SANCHEZ, 2010, p. 39). As sociedades são marcadas pela questão da diversidade cultura, e reivindicam o reconhecimento da não homogeneidade (BINJA, 2015). O pluralismo religioso aparece para a coexistência das coletividades.
O pluralismo religioso tem sido o que legitima a diversidade religiosa. A coexistência infere a diversidade religiosa, as inter-relações dentro do círculo democrático de convivência. A democracia é um regime de acordos relativamente pacíficos entre partes, com interesses comuns ou opostos, sendo pertinente pensar que diversidade e democracia andam juntas (TRIGG, 2014).
O pluralismo religioso lida com as inter-relações harmoniosas entre as religiões, ou seja, traz em seu núcleo os aspectos mais finos da ideia de democracia que visam pacificar conflitos, aproximar as diferenças e respeitar as liberdades, visto que, em uma ambiência de interações religiosas diversificadas, a “[...] diversidade de
crenças fornece o contexto que torna as formas democráticas de resolver disputas desejáveis” (TRIGG, 2014, p. 12). No entanto, a diversidade religiosa por si mesma justifica apenas a sua coexistência em sociedade, não levando em conta os fatores democráticos que estão implicados nas relações, sendo ela um indicador de diversidade em qualquer país (BECKFORD, 2003).
A ideia democrática de administrar desacordos entre a diversidade e o pluralismo religioso, em sua forma analítica e normativa mais geral, refere-se a “[...] um ideal poderoso destinado a resolver a questão de como se dar bem em um mundo assolado por conflitos” (BECKFORD, 2014, p. 16).
Na dinâmica da Sociologia do conhecimento, Berger (2014) afirma que essa deve tratar da construção da realidade. Esse construcionismo social é o ponto de partida de suas análises do fenômeno religioso atual, procurando revelar que o pluralismo religioso é uma categoria analítica para a diversidade religiosa presente no mundo: “[...] essa é uma perspectiva que prioriza questões sobre os processos envolvidos na negociação do significado dos fenômenos sociais” (BECKFORD, 2003, p. 193).
Os elementos que evidenciam as ideias do pluralismo com sua legitimação revelam que a diversidade de coletividades está dentro das análises do pluralismo religioso. A reflexão sobre tal legítima corrobora o fato de que o pluralismo religioso e acolhe a diversidade religiosa como boa e desejável.l A singularidade cultural e a especificidade de cada tradição religiosa devem ser reconhecidas (GEFFRÉ, 2013).
O pluralismo religioso não somente legitima a diversidade religiosa em sua dimensão moral e axiológica, ou seja, que ela é boa e possui valor, mas, também consubstanciado com a diversidade religiosa, encontra o seu significado dentro de um nível normativo para além de um plano descritivo. O globalizado e modernizante contribui para a compreensão dos desdobramentos e do reconhecimento do pluralismo religioso como legitimação da diversidade religiosa. De uma diversidade religiosa fenomenologicamente presente éi preciso passar pelo pluralismo religioso reconhecido como um ideal positivo e respeitoso entre as religiões. É preciso levar em consideração a possibilidade de romper com os desafios de convivência que a diversidade religiosa enfrenta em uma dada sociedade. Assim, se o pluralismo religioso reconhece o valor e acolhe a diversidade religiosa como boa em seu aspecto normativo e ideológico, logo ele é princípio legitimador e paradigmático para as religiões.