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Pluralismo Religioso

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A religião cristã ainda dava seus primeiros passos na caminhada apostólica, quando se viu obrigado a enfrentar suas primeiras contendas. O pluralismo religioso ali já se manifestava e a mensagem cristã conhecia seu primeiro embate, justamente com o judaísmo. Logo, religiões outras se colocaram em campos de oposição, mostrando que não estavam dispostas ao acolhimento de uma religião que tinha como líder, um crucificado, e como seguidores, homens

extremamente devotados, que não hesitavam encarar o suplício da morte em nome de seu Deus.

O cristianismo, principalmente no transcurso do 1º milênio contendeu ao longo de sua história com uma vasta onda de heresias, representadas por doutrinas contrárias às verdades de fé esposadas pelos cristãos. Além disso, três grandes cisões abalaram o cristianismo nos séculos V, XI e XVI, as duas primeiras envolvendo os cristãos ortodoxos e a última, a Reforma Luterana que deu origem ao protestantismo.

Além do pluralismo religioso as religiões de um modo geral vez por outra enfrentaram e enfrentam dissidências que sensivelmente alteram seu curso, causando-lhes um oneroso abalo.

O início da chamada Idade Moderna marca a imagem do pluralismo religioso, o qual a princípio teve um desenvolvimento paulatino, acentuando-se entretanto a partir da 2ª metade do século XX, quando passou a ser objeto de estudos e pesquisas. Apesar das distâncias, das dificuldades de comunicação à época, já se fazia sentir a necessidade de aproximação das diversas tendências religiosas.

A diversidade de teorias religiosas pode ser representada por peças de mosaicos variegadas, com diferentes desenhos sem qualquer relação um com o outro, quer em tamanho, quer em forma. Como harmonizá-las, como enquadrá-las para obter alguma simetria em suas combinações? Parece-nos ser um encargo completamente impossível. E o é. Transpondo-se a imagem para o campo do pluralismo religioso, a resposta há que ser positiva, mesmo considerando-se as dificuldades como uma tarefa impossível.

Há que prevalecer a grandeza de seu objetivo: juntar peças de tão diferentes doutrinas, religiões e tradições, buscando a formação de um verdadeiro mosaico de religiões. Tarefa difícil, mas que requer muito esforço em razão de um alcance maior. Caso haja um comum trabalho artesanal poder-se-á chegar a um resultado, não justaposto, harmônico, ao contrário, com contornos arestados mas não invasivos, porém com reflexos luminosos nas trilhas paralelas utilizadas por contingentes religiosos que precisam dialogar, para que melhor possam se entender.

Em última análise, aqui reside a profecia de H. Küng, destacada no início deste capítulo. Apesar das diversidades doutrinárias, teológicas, culturais e políticas, o animus não hostil, a busca amistosa fundada num diálogo onde não existem apenas idéias e sentimentos arraigados e contraditórios, mas também o exercício do respeito e convencimento dos lídimos propósitos do outro e da sua religião, resultará na paz entre as religiões, haverá paz no mundo. Tudo isso decorrente do exercício do diálogo inter-religioso.

Vivemos hoje num mundo no qual nada mais é necessário e urgente

que a paz. Sem paz não há alegria, justiça e amor, além de tantas outras condições que os homens necessitam para a vivência de seu dia-a-dia. A ausência de paz incide com maior violência justamente sobre os menos favorecidos. A inexistência da paz anula o ser humano, por lhe impingir, seja qual for sua classe social, o direito de viver, de pensar, de produzir fisicamente e intelectualmente, causando-lhe um empobrecimento que lhe tira o sentido de vida.

Até certo ponto inadmissível, em razão de seus fundamentos, é a clara participação de grupos religiosos que fomentam a discórdia, outros que participam ativamente em conflitos com atitudes beligerantes que levam à destruição, tudo em nome de um Deus, que é Amor.

Não há paz sem religião. Não há vida sem paz.

Entendemos que na práxis do Diálogo Inter-Religioso, uma convicção interior perpassa seus dialogadores, em última análise, suas lideranças. “Minha religião é verdadeira, creio nos seus princípios, nos seus ditames”. Tudo certo, mas a certeza nos princípios que abraçam não deve se constituir em óbice à práxis dialogal.

O diálogo inter-religioso enquanto expressão viva da relação entre tradições religiosas distintas é um fenômeno relativamente recente, já que até o ano de 1945 não havia sinais explícitos sobre este procedimento.

Um tanto irresolutas no início, aos poucos as grandes tradições religiosas foram compreendendo a necessidade da busca de uma aproximação. O Concílio Vaticano II deu um grande impulso a essa concretização.

Interessante observarmos que hoje a presença de outras religiões não mais se circunscreve em países distantes. No continente americano, particularmente no nosso Brasil, até à metade do século passado apenas alguns vestígios sinalizavam sua presença, tão ínfima era sua penetração e tão inexpressiva era sua atuação eclesial. À época, um maior conhecimento sobre uma religião fundada numa outra tradição era de difícil alcance, em razão da escassez de especialistas sobre tão desconhecidas expressões religiosas. O avanço dos meios de comunicação, mormente a TV e a internet; a simples ida a uma livraria especializada traz ao consulente todas as informações necessárias, de acordo com a formação do interessado. O mundo globalizado que hoje vivemos exige uma maior incursão no campo do pluralismo religioso, em razão dos interesses mútuos existentes, os quais não se restringem às suas próprias convicções teológicas e eclesiológicas, mas à busca de um diálogo centrado na cosmovisão, com todas suas intercorrências.

Doravante a vida religiosa da humanidade, se é que ela de algum modo há ser vivida, o será em um contexto de pluralismo religioso [...]. Isso é verdadeiro para todos nós; não apenas para a “humanidade” em geral, abstrata, mas para você e eu como pessoas, indivíduos. As pessoas de outras crenças religiosas não são mais periféricas ou distantes, fúteis curiosidades de histórias de viajantes. Quanto mais despertos estamos e quanto mais envolvidos com a vida, mais descobrimos que eles são nossos próximos, nossos colegas, nossos concorrentes, nossos companheiros. Confucionistas e hindus, budistas e muçulmanos estão conosco não só nas Nações Unidas, mas descendo a rua. Cada vez mais, não só o destino de nossa civilização é influenciado por suas ações; mas temos com eles também a intimidade de tomar um cafezinho juntos (KNITTER apud Smith, 2008, p.21).

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