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Pluriatividade e novas dinâmicas no meio rural

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2.1 Agricultura Familiar, Territorialidade e Turismo: a Nova Configuração do Rural

2.1.3 Pluriatividade e novas dinâmicas no meio rural

O conceito de pluriatividade ainda não é consensual, assim como também não o é a natureza de sua inserção. Nascimento (2005) aponta que a pluriatividade se apresenta de forma singular, considerando que cada família tem uma forma de ser, que está diretamente relacionada às condições do entorno social e econômico, vinculada a uma unidade familiar econômica que desenvolve atividades além da agricultura, e que, se expressam a partir de outras explorações agrárias; como atividades de transformação de alimento no interior da propriedade ou, (no dizer do autor), atividades “para-agrárias”; emprego fora do meio rural, além de atividades não relacionadas à agricultura que se desenvolvem dentro da propriedade rural, a exemplo do turismo e do artesanato.

Em linhas gerais, a discussão acerca desse tema no Brasil, se apresenta em duas correntes que se consideram antagônicas. A tese de Graziano da Silva (2003), Projeto Rurbano, defende que o rural é um continuum do urbano e que a pluriatividade é um processo transitório entre a atividade agrícola e a não agrícola. Nessa direção, a agricultura familiar não se sustenta tampouco assume importante relevância no meio rural e a mecanização da agricultura alcançou na década de 1970 uma produtividade (alimentos e matéria-prima) capaz de atender a

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necessidade/demanda do país. Assim, a agricultura familiar perdeu sua importância na produção de alimentos e de matéria-prima (SOUZA; SOUZA, 2008).

Essa situação condiciona o agricultor a vender sua força de trabalho em outras atividades no campo que seriam atividades não-agrícolas ou trabalho acessório, utilizado para ampliar sua renda e se manter no meio rural, caracterizando-se em uma luta de resistência para permanecer na terra, visto que não dispõe de outras possibilidades para seu sustento e de sua família. Nessa direção, estudos realizados por Nascimento (2005) e Matei (1999) também fortalece a tese de que a pluriatividade estaria reforçada nas condições social e econômica do entorno, portanto, mais vinculada ao ambiente do que na estratégia das famílias para ampliar sua renda (SOUZA; SOUZA, 2008).

Para Graziano da Silva (2001a), as políticas públicas não podem ser formuladas de forma homogênea. Considerando o processo de transitoriedade da atividade agrícola para a não agrícola, o autor defende que as políticas sejam desenhadas de forma a contemplar o meio rural com a possibilidade de atividades não agrícolas; que a reforma agrária se fortaleça através da política, mas não inclua, necessariamente, a questão agrícola. Defende a implantação de política de urbanização do rural para suprir a necessidade de vias e transportes, além de água tratada, energia, educação e saúde; política de geração de renda e ocupação a fim de reforçar a pluriatividade, estimulando o espaço rural para o desenvolvimento de outras atividades. O autor cita o turismo como possibilidade para o meio rural e que, em linhas gerais, defende o surgimento de “um novo rural” brasileiro, onde a produção agrícola nas pequenas propriedades não representa muita importância, uma vez que a modernização da agricultura produz alimento e matéria-prima suficiente.

Por outro lado, Schneider (2000) defende que a pluriatividade é um processo permanente que desempenha importante papel social no meio rural, fortalecendo a agricultura familiar e que, em muitos casos, a renda proveniente de atividades não-agrícolas ‘financia’ a agricultura na unidade familiar. Argumenta o autor que a pluriatividade representa a busca de trabalho não-agrícola, no entanto, não significa um rompimento com as relações do campo, ao contrário, as atividades não agrícolas possibilitam e fortalecem a relação com o campo. Portanto, salienta o autor que a busca por diversificar atividades não-agrícolas no meio rural não se dá de forma esporádica, visando somente à complementação da renda, mas de forma contínua o que favorece a heterogeneidade no meio rural.

Aponta ainda, possibilidades de atividades para além da agricultura no meio rural, dentre elas, destacam-se o turismo rural na perspectiva de promover o desenvolvimento rural aliado aos aspectos da cultura, do meio ambiente e a inserção da comunidade local. A agricultura familiar, nessa perspectiva assume papel relevante no desenvolvimento do turismo no meio rural, fortalecendo os laços de identidade do campo (os costumes, os fazeres e os saberes do campo - os modos de vida) e a autoestima dos moradores que devem assumir o papel de atores nesse processo.

Para Wanderley (2000, p. 123), a pluriatividade é uma forma de estratégia que o agricultor adota para ampliar a renda e as relações sociais, diversificar as atividades e a produção no campo. Esse fenômeno se reforça tanto na possibilidade de aumentar a renda familiar, como fortalecer o elo com a propriedade rural. O agricultor necessita atender as necessidades do mercado e diversificar a renda, quer seja na atividade agrícola ou em outras atividades dentro ou fora do espaço rural, mas para isso, ele precisa ser mais competente e polivalente, culminando com o desempenho de outras atividades. A pluriatividade, nessa perspectiva, favorece a sua permanência no campo, como uma escolha do modo de vida.

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Diversas são as formas de atividades (plurais) que se desenvolvem nas unidades familiares além da agropecuária. Schneider (2000) argumenta que, além do turismo no meio rural, atividades como construção civil, órgãos públicos e a agroindústria vem surgindo como possibilidades de atividade no meio rural. O turismo rural surge como uma atividade social e econômica que agrega valor ao ambiente rural além de resgatar e fortalecer as tradições do campo, contribuindo com a preservação dos recursos naturais, fortalecendo a cultura que se constitui na principal atração para o turismo rural. O autor reforça que “[...] o ambiente rural também vem incorporando aspectos relacionados ao lazer e ao ludismo que, em grande medida, estão contribuindo para redefinição de percepções simbólicas da população de extração urbana”, além de uma fonte de renda para os trabalhadores rurais (SCHNEIDER, 2000, p. 17). Portanto, a pluriatividade, na concepção de autores como Wanderley, Schneider, Favareto, dentre outros, pode favorecer o desenvolvimento rural com foco no desenvolvimento humano quando contribui para atender as necessidades essenciais da população rural. O turismo rural se constitui em uma atividade que pode favorecer esse desenvolvimento tanto pelas possibilidades de gerar renda para as famílias rurais, através da comercialização de produtos rurais (produtos do campo - pães, doces, compotas, além do artesanato) como também reforçar a identidade e elevar a autoestima das famílias com o meio rural. Tudo isso dá a este espaço uma nova configuração e dinâmica que favorece uma interação entre campo e cidade numa relação de troca e complemento.

Na contemporaneidade, é cada vez mais comum as pessoas que vivem nos centros urbanos buscarem, na interação com os espaços rurais, novas experiências e relação com a natureza, apreciar a paisagem do campo e conhecer o modo de vida de sua população. Nessa direção, Wanderley e Favareto (2013) apontam que essa dinâmica é alimentada também pelos habitantes do campo que buscam manter relações com o meio urbano, numa relação de complementaridade, sem que isso comprometa sua condição de rural. Reforçam que “[...] essa integração não expressa nenhuma perda de referência do mundo rural; as trocas entre campo e cidade fazem plenamente parte da vida rural e sua intensificação não aponta, necessariamente, para uma urbanização antagônica e esvaziadora do mundo rural” (WANDERLEY; FAVARETO, 2013, p. 439).

Essa dinâmica entre o rural e o urbano é motivada por atividades diversas que na atualidade se respaldam, se fortalecem e se intensificam por políticas governamentais voltadas para atender pequenos produtores, com intuito de favorecer melhores condições de vida. Dentre as políticas voltadas para o meio rural brasileiro, destaca-se o PRONAF, como uma política que, conforme estudos já publicados, apresenta significativa relevância na (re) configuração do “novo” rural brasileiro, considerado, para Wanderley (2013, p. 436), “[...] meio de vida e de trabalho”, possibilitando atividades plurais e o fortalecimento da agricultura familiar e do turismo rural, conforme já mencionado. Este tema (PRONAF) será tratado no tópico seguinte.

2.2 Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e sua

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