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Essa fase de transição, como já aqui mencionada, traz grandes mudanças estruturais na comédia, uma delas decerto a principal é a mudança da participação do coro, que é reduzida, inclusive há o desaparecimento da parábase e, conforme também já foi observado, em Pluto só nos restou uma seção coral completa, o párodo. Essas e outras mudanças para Sommerstein (1996, p. 253) representam uma demonstração de crise na produtividade e uma diminuição da criatividade do poeta, mas, segue-se aqui a ideia de que é uma questão de funcionalidade, já que o poeta usa os recursos cênicos que lhe são disponíveis e até dispondo de sua criatividade para fazer o novo quando assim foi pedido (DRUMOND, 2010, P. 18-19).

Então, é importante ratificar aqui que se segue a produção de Aristófanes que foi apresentada após a Guerra do Peloponeso. Assim, Segal (1996 apud DRUMOND, 2010, p. 23) observa que o nome “Comédia Intermediária” indica as peças entre a derrocada de Atenas no ano 404 a.C. e a batalha de Queroneia no ano de 388 a.C. Dessa maneira, ele afirma que a acepção da comédia na Antiguidade liga-se apenas ao modelo menandriano, que coloca a comédia de Aristófanes como um grupo de degraus e períodos que conduzem à Comédia Nova, especialmente Menandro e os poetas romanos.

Essas duas, portanto,

[...]são peças de transição para a comédia intermediária, caracterizando-se por um incremento do diálogo em detrimento da lírica coral, uniformização da linguagem e concentração no universo doméstico. É a oportunidade para discutir os fatores que progressivamente calaram a voz do coro e, consequentemente, foram determinantes para o fim da parábase, entre os quais estão o crescimento de um mercado internacional para o drama ático, a influência da tragédia de Eurípides e Agatão na consolidação de novos padrões estéticos e, algo mais discutível, o reflexo de uma certa apatia dos cidadãos numa Atenas desprovida das glórias do passado. (DUARTE, 2000, p. 11)

A autora delineia traços que identificam esse momento da poética de Aristófanes e ainda ressalta a importância de se investigar os motivos de alguns fatores, como a diminuição da voz do coro e o fim da parábase, isso para estruturar o momento cultural da comédia. De outra maneira, Fernández (2002, p. 362), afirma que não se pode considerar de todo modo que Pluto apresenta uma fase intermediária, porque essa peça ainda tem uma grande relação com as outras do modelo antigo. O escravo Carião, por exemplo, tem sua proximidade em certos pontos com os demais escravos da comédia aristofânica.

Dessa forma, em Assembleia de mulheres e em Pluto, a redução da participação do coro provoca uma mudança na estrutura das peças e projeta um formato novo de caracterização dos personagens. Já que no lugar da parábase e em outras seções que estavam destinadas ao coro e a função que era dada a ele na relação com os personagens ou com o público passa a ter forma diferente, ou mesmo é assumida por algum ou alguns dos personagens.

Ademais, até a metade das peças desse período, o coro de alguma maneira tem semelhança com o das outras anteriores, mas em Assembleia de mulheres na segunda metade, “ele perde bastante de sua função e não tem fala nem canto vinculado à ação, apenas há marcas de sua participação com a indicação choroû, “do coro”, em momentos que, provavelmente, o coro performava dança e/ou canto” (OLIVEIRA, 2009, p. 171), como já foi mostrado anteriormente. Isso é mais forte ainda em Pluto, em que até mesmo na primeira parte da comédia, o coro se mantém frágil e pouco interfere no plano heroico.

Também, quando Praxágoras, em Assembleia de mulheres, propõe um regime nos moldes de um comunismo, e Crêmilo, em Pluto, quer fazer o deus da riqueza ser curado da cegueira, observa-se que a questão de economia verdadeiramente não é somente formal, como se observou em relação ao coro, não obstante, essas são propostas de solução a todo um problema econômico que se apresenta na cidade. Porque, segundo Duarte (2000, p. 217), em relação às questões políticas, Atenas se manteve equilibrada “entre a queda do regime dos Trinta Tiranos (403 a.C.) e a submissão a Antípater (322 a.C.)”, mas pelo lado econômico houve momentos difíceis como a Guerra de Corinto, entre 396-395 a.C., por exemplo.

Outra importante característica desse período é a diminuição do interesse por questões políticas e o consequente direcionamento para o privado, como observa Francisco de Oliveira em relação a esse período:

[...] a Comédia Nova conhece, de facto, uma clara focalização da acção na esfera do interesse individual e da vida privada. Não nego, sequer, que algumas comédias de transição e da Néa ainda tenham vestígios de ataque nominal e sátira e temática política, como é o caso do Pluto de Aristófanes e do Díscolo de Menandro. Simplesmente, como foi referido, o herói da Comédia Nova, a exemplo do Crémilo do Pluto, já não procura a sua soteria ao nível do seu enquadramento solidário com a polis. Este é o verdadeiro problema, um problema de consciência política e de formação cívica. E, todavia, a época em que se desenvolveu a Comédia Nova nem sequer foi de inactividade política, antes de crise e de sublevações. O próprio Menandro foi amigo de Demétrio de Faléron (319-307), correu perigo de morte na revolta de 307, e a guerra civil terá impedido a realização de um festival onde devia representar uma comédia. (OLIVEIRA, 1993, p. 82)

Destarte, as questões sociais, bem diferente do que se poderia imaginar em Assembleia de Mulheres e em Pluto, não são colocadas no âmbito político, referem-se às demandas no âmbito da vida privada. Como também, de alguma forma, os princípios em Menandro retomam a Homero, e a pólis é trocada pelos relacionamentos entre células familiares ligadas por uma amizade e solidariedade.

De maneira semelhante é o que acontece com as personagens, algumas delas não têm nome, em Assembleia de mulheres, existem três velhas: a primeira velha, a segunda velha, a terceira velha e uma moça que disputam pelos favores amorosos de um rapaz; em Pluto, há uma cena semelhante, em que uma velha também busca o amor de um rapaz. Segundo Oliveira (2009, p. 170), o interessante nesse modelo, em processo de formatação, é o que os personagens podem contribuir para o enredo e a construção da comicidade na comédia.

Outro ponto relevante, em Pluto especificamente, é que além da questão geracional, já vista n’As Nuvens, em um momento anterior, envolvendo um pai que quer educar um filho e planeja uma forma para isso, há também o valor do mundo rural para esse momento histórico. Porque Crêmilo, o protagonista é um lavrador e o coro mesmo que apático é de lavradores e a sua coreografia inicial não deixa de ser justamente um sinal de fraqueza e como afirma Silva (2015, p. 26) “em vez do Corifeu, seja uma personagem, o escravo Carião, a conduzir-lhes a marcha”. Isso tudo indica no texto que é no campo que encontramos as pessoas dignas e não na cidade, mas, mesmo assim, os campesinos precisam de mais força e valor, que é afirmado por Crêmilo, pois

É verdade, como observam Konstan e Dillon, 1981: 385, que Crémilo advoga agora uma outra causa que não a que vinha defendendo, a de uma distribuição justa do Dinheiro, e partilha de uma euforia universal perante um bem-estar abundante para todos, no retorno a uma idade impoluta e perfeita. (SILVA, 2015, p. 29)

Ou seja, o herói, um agricultor, empreende a defesa da cura de Rico, e esse deus deve fazer a distribuição da riqueza (no agon) contra a Pobreza. Nesse momento, mesmo a deusa tendo um melhor argumento que Crêmilo, já que ele propriamente não é da cidade, nem político237, Aristófanes dá a vitória a ele e enxota a deusa, como sendo atitude

necessária.

237 A palavra político aqui é relacionada à palavra grega ῥήτορες (rhétores), que nesta tradução é colocada

Então, a comédia grega como se pôde observar tem uma relação íntima com a vida política da cidade de Atenas, externamente com as guerras e internamente com as repercussões que essas tiveram na pólis. Dessa maneira, as apresentações teatrais não mostram um mundo contrário ao que está ali revelado, mas paralelo (HENDERSON, 1990 apud FERNÁNDEZ, 2002, p.299). Assim, não se pode considerar uma falta de vontade do cidadão do século IV sobre a política, a diminuição desse assunto em Pluto, ou mesmo, quando essas duas comédias finais deixam de lado a sátira nominal e o trabalho com o coro. Contudo, há com certeza, como afirma Fernández (2002, p. 310), uma mudança lenta e gradual de padrão do gênero que segue, provavelmente, o gosto do público e que as motivações ainda não são claras.

6. ESTUDO DA ESTRUTURA FORMAL E FUNCIONAL DA COMÉDIA