Para adentramos na análise do PNAE, teceremos uma breve discussão acerca dos documentos institucionais do IFRN que possuem relação com a alimentação esco- lar. Esta etapa é importante para que possamos traçar o modo como a implementação do programa é tratada no aspecto organizacional da Instituição.
O IFRN deu início às atividades do PNAE nos Campi Natal-Central, Natal-Zona Norte e Currais Novos em abril de 2011 (TRIBUNA DO NORTE, 2011).
Pesquisando esse início de implementação, Azevedo (2012), ao promover um estudo sobre as dificuldades e perspectivas dos estudantes do ensino médio integrado do IFRN - Campus João Câmara que moravam no campo, os dados apontavam que 33% dos alunos disseram que nem sempre se alimentavam antes de sair para o cam-
pus e que 10% relataram não se alimentar antes do des-
locamento e estudos. Observou que os percentuais dos que nem sempre e nunca se alimentavam eram elevados, mostrando a importância de a política de alimentação do
campus garantir o acesso irrestrito à alimentação daque-
les que moram no campo. Também constatou que, além das horas de estudos, 54% dos estudantes viajavam de uma à cinco horas de suas casas até o campus, implican- do em desgastes físicos, psíquicos e biológicos que po-
deriam comprometer o seu desempenho no processo de ensino-aprendizagem. Ao perguntar se os estudantes se alimentavam durante o período em que estavam no cam-
pus, 51% afirmaram que nem sempre se alimentavam.
Por meio desses dados, Azevedo concluiu que a política de alimentação escolar implementada naquele campus desempenha uma função social indispensável junto aos estudantes, pois o exercício intelectual, físico e corporal também depende da alimentação regular dos estudantes nos horários corretos.
Na época em que desenvolvemos a pesquisa que deu origem a este livro, o IFRN contava com 5 nutricionistas em seu quadro de servidores lotados na Reitoria e nos
Campi Currais Novos, Natal-Central (2 servidores) e Pau
dos Ferros – atualmente, o Campus Nova Cruz também possui esse tipo de profissional. Esse quantitativo estava em meio a um universo de 20 campi que ofertavam ali- mentação escolar para cerca de 30.000 alunos, possuindo como média 1 nutricionista para cada 6.000 alunos. Cons- tatamos que apenas 15% dos campi do IFRN possuíam esse profissional, número bem aquém da média da Rede Federal de EPCT encontrada por Costa (2015) que foi de 36%. Ademais, para essa quantidade de beneficiários, a Resolução nº 465/2010 do CFN estabelece como parâme- tro numérico mínimo de referência 14 profissionais (CON- SELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS, 2010).
Com a finalidade de analisar em que se baseia a ofer- ta da alimentação escolar no IFRN, para fins de análise documental, utilizamos os seguintes documentos: Orga- nização Didática, Projeto Político Pedagógico (PPP), Pla-
nos de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2009-2014 e 2014-2018 (que são planos que detalham os objetivos e as metas estratégicas do IFRN), Regimentos Geral e Interno dos Campi, Plano de Assistência Estudantil e Relatórios de Gestão (2009 a 2015) (nos quais se apresenta à sociedade como a Instituição empregou os recursos públicos para o ano em análise).
Consideramos os documentos apenas a partir de 2009, pois os alunos da Rede Federal de EPCT somente passa- ram a ter a possibilidade legal de serem contemplados pelo PNAE a partir daquele ano.
Inserida no contexto da abrangência do educando em todos os seus aspectos, além de ser um elemento basilar da Instituição, destacamos a função social do IFRN, pre- sente em sua Organização Didática, que visa
[...] ofertar educação profissional e tecnológica – de qualidade referencia- da socialmente e de arquitetura po- lítico-pedagógica capaz de articular ciência, cultura, trabalho e tecnolo-
gia – comprometida com a formação
humana integral, com o exercício da
cidadania e com a produção e a so- cialização do conhecimento, visando, sobretudo, à transformação da reali- dade na perspectiva da igualdade e da justiça sociais. Desse modo, o IFRN contribui para uma formação omnila- teral que favorece, nos mais variados
âmbitos, o (re)dimensionamento qua- litativo da práxis social (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2012a, p. 8, grifo nosso). Outro de seus princípios, norteador dos currículos, que está presente na Organização Didática da Instituição, é o “desenvolvimento de competências básicas e profissio- nais a partir tanto de conhecimentos científicos e tecno- lógicos quanto da formação cidadã e da sustentabilidade ambiental” (Ibidem, p. 11).
Como constatamos pelo exposto anteriormente, o IFRN, com vistas à formação humana integral, propõe- -se a promover uma educação pautada em aspectos para além do conteúdo acadêmico tradicional, cuja proposta é a atuação na vida em sociedade de um ser compreendi- do na completude dos elementos que o envolvem. Além disso, a sustentabilidade ambiental perpassa por formas de prover alimentos que vão de encontro aos moldes dita- dos pelas grandes indústrias de alimentos atuais. Nesse mote, a alimentação, fator primordial para a existência, que influencia e sofre influência dos mais diversos fatores políticos, culturais, sociais, econômicos, etc., não poderia ou, ao menos, não deveria ser ignorado desse modelo de processo formativo.
Abordando a influência do aspecto socioeconômi- co na aprendizagem, no PPP do IFRN destaca-se que o acesso, a permanência e a conclusão de cursos sofrem a interferência das diversas questões sociais (como, por
exemplo, pobreza e insegurança alimentar) nas condições de vida dos estudantes. Dificultam-se, assim, o desem- penho acadêmico, a inclusão social e a qualidade de vida dos discentes, na perspectiva de uma formação integral (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TEC- NOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2012b).
Dessa forma, consta no PDI 2009-2014, que o IFRN tem, ao longo dos anos, implementado ações, pro- gramas e projetos que vêm ao encontro das necessidades sociais de seus alunos por meio de estratégias de acesso e permanência na Instituição, principalmente daqueles oriundos de classes menos favorecidas socioeconomica- mente, contribuindo, assim, para a efetivação da edu- cação como um direito social (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2009b).
Convergindo para essas ações, foi aprovada a Re- solução nº 23/2010-CONSUP (Conselho Superior), de 17 de dezembro de 2010, que instituiu o Plano de Assis- tência Estudantil do IFRN. Percebemos que essa política deve estar relacionada ao aspecto formativo uma vez que, no Relatório de Gestão 2010, afirma-se que:
[...] a efetivação de uma política de assistência aos estudantes não deve se restringir apenas ao atendimento de necessidades básicas referentes à subsistência. Urge o fortalecimento de uma formação ética, humanista e crítica, condição imprescindível
para a inserção e as transformações sociais desejáveis (INSTITUTO FE- DERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010a, p. 207).
Ainda quanto ao Plano de Assistência Estudantil, existe a menção de que, referente aos estudantes do ensi- no básico, o MEC desenvolve algumas ações, programas e projetos no país, os quais a Instituição acredita estar na esfera da assistência estudantil, mas não são reconheci- dos e formalizados como tal, dentre eles estaria o PNAE. Nessa perspectiva, a política de assistência estudantil do IFRN é constituída por um conjunto de ações e possui, dentre suas modalidades, o Programa Alimentação Es- colar, composto pela oferta de refeições (café da manhã, almoço e/ou jantar), e a alimentação escolar (composta por lanches nos intervalos de cada turno) que é ofertada por meio do PNAE.
De volta à análise da Política de Assistência Estudan- til do IFRN, percebemos que, segundo o PDI 2014-2018, nela estão agrupadas diversas ações vinculadas ao ensi- no, à pesquisa, à extensão e às atividades de assistência ao estudante, que são desenvolvidas por profissionais de várias áreas do conhecimento, incluindo os nutricionis- tas, e que trabalham de forma integrada em várias verten- tes, dentre elas, a da prevenção de doenças e recuperação da saúde em nível de baixa complexidade. Para isso, cada
campus do IFRN conta com um serviço de saúde composto
atividades educativas tanto individuais quanto coletivas e a prestar atendimentos ambulatoriais e assistenciais aos discentes no âmbito da atenção primária (INSTITU- TO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLO- GIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2014). Desse modo, as práticas relacionadas ao PNAE, inclusive de EAN, sob a perspectiva desse documento, extrapolariam as ações da assistência estudantil e também abrangeriam a tríade ensino, pesquisa e extensão, além de envolver outros pro- fissionais, fora o nutricionista, cujas atuações ocorreriam de forma integrada.
Também encontramos no Plano de Assistência Estu- dantil do IFRN que o Programa Alimentação Escolar visa garantir a permanência dos alunos em seu curso, aten- dendo suas necessidades básicas de alimentação me- diante o fornecimento de alimentos por meio da contrata- ção de refeições que é direcionado a alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, integrantes dos pro- gramas institucionais de bolsas e das equipes desporti- vas e dos grupos artístico-culturais (INSTITUTO FEDE- RAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010c). Apesar da ampliação no atendimento e na quantidade de refeições contratadas, ressalta-se no Relatório de Gestão de 2009 que ainda se faz necessária a ampliação na quantidade de refeições, pois muitas vezes o Serviço Social se depara com um con- tingente de alunos que demandam por esse benefício em função de necessidades concretas. No entanto, devido à falta de condições em atender a todos, são selecionados os de situação socioeconômica mais precária (INSTITUTO
FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2009a). Dessa forma, percebe- mos como essa Instituição ainda não possui uma oferta universalizada de refeições contratadas a todos ou a uma parcela de alunos de determinado curso, selecionando os mais socioeconomicamente vulneráveis.
No entanto, constatamos o equívoco na generalização do discurso do direcionamento do Programa Alimentação Escolar apenas aos alunos em vulnerabilidade socioeco- nômica, pois o PNAE, que está inserido nesse programa, ao contrário, atende à universalidade dos alunos dos cur- sos técnicos integrados e subsequentes indistintamente.
Com relação ao PPP, a alimentação aparece como um indicador social da assistência estudantil vinculado à área de acesso e permanência do aluno. Contudo, na área relativa ao desempenho acadêmico, não é feita men- ção à alimentação (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2012b). Como explicitamos anteriormente, dentre os ob- jetivos do PNAE que constam na Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009, estão a contribuição na aprendizagem e no rendimento escolar do beneficiário (BRASIL, 2009c). Ape- sar do programa não abranger todos os alunos do IFRN, posto que somente os alunos do ensino médio são con- templados, acreditamos que a alimentação, de uma forma geral, também deveria ser mencionada na área referente ao desempenho acadêmico, tendo em vista que a própria legislação sobre a alimentação escolar e autores como Sig- man et al. (2014), citados anteriormente, ratificam a rela- ção existente entre a aprendizagem e a alimentação.
Ainda conforme determina o PPP, a Diretoria de Ges- tão de Atividades Estudantis (DIGAE) é o órgão respon- sável e estruturante da execução da maioria das políti- cas e dos programas de assistência ao discente, inclu- sive do PNAE (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2012b). De acordo com o Regimento Geral do IFRN, a DIGAE é um órgão executivo da administração geral e uma Diretoria Sistêmica da Reitoria do IFRN (INSTITU- TO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLO- GIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010b). Já nos cam-
pi, a gestão do PNAE fica a cargo da Coordenação de
Atividades Estudantis (COAES) e, no caso específico do
Campus Natal-Central, da Diretoria de Atividades Estu-
dantis (DIAES) (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2011).
Também no IFRN, de forma diferenciada da maioria das instituições de educação, há a produção de parte de sua alimentação escolar em um projeto que integra seus
campi. O projeto consiste na produção do leite na fazen-
da escola do Campus Ipanguaçu e seu processamento na Usina Escola do Campus Currais Novos, com a produção de iogurtes e outros derivados do leite. No Relatório de Gestão 2010, inclusive, há referência ao preparo da ali- mentação escolar pela Usina Escola do Campus Currais Novos tanto para o consumo de seus alunos quanto para ser distribuída com a escola adotada pelo campus (INS- TITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNO- LOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010a).
No Relatório de Gestão 2012, há a menção de que mais de 5 mil alunos por dia foram atendidos pelo PNAE, ademais, ao comparar o ano de 2011 com o de 2012, ele relatou um aumento do número de estudantes que demandaram por programas de assistência estudantil por apresentarem dificuldades de permanência durante o período de seus respectivos cursos, ao mesmo tempo em que verificou uma ampliação dos auxílios concedidos. Argumentou que isso ocorreu devido à expansão da Rede Federal de EPCT e ao processo de democratização do en- sino vivenciado pela sociedade brasileira, o que ratificou a importância da implantação de ações de assistência es- tudantil pela Instituição (INSTITUTO FEDERAL DE EDU- CAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2012b).
Tratando do aspecto da renda, o Relatório de Gestão 2014 ressaltou que, observando o perfil socioeconômico dos estudantes regularmente matriculados e caracteri- zados da Instituição, 91,2% detiveram renda per capita familiar de até um salário mínimo e meio, que é o perfil prioritário para inclusão nas ações de assistência estu- dantil, segundo parâmetro estabelecido pelo Decreto nº 7.234, de 19 de julho de 2010, que instituiu o Progra- ma Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) (BRASIL, 2010a). Um dos fatores que explicariam esses dados se- ria o processo de expansão da Rede Federal de Educação Profissional Técnica (EPT), como também a democratiza- ção do ensino, por meio das políticas de ações afirmativas (sistema de cotas), que estariam ampliando o acesso à instituição de um público antes excluído. Também cons-
ta nesse Relatório que somente um percentual de 42,91% dos inscritos na assistência estudantil, na situação de vulnerabilidade social, buscaram os meios de atendimen- tos (INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2014). Des- sa forma, percebemos que a demanda ao menos dupli- caria caso os demais 48,29% dos discentes com perfil socioeconômico vulnerável procurassem pelas políticas, programas e projetos da assistência estudantil.
Assim, verificamos como os documentos do IFRN abordam de maneira superficial os aspectos relacionados direta ou indiretamente à alimentação escolar. No entan- to, seja pela vinculação ao acesso e à permanência do aluno elencada pelo PPP, ou mesmo como fator intrínseco à formação humana, como presente na Organização Di- dática, a alimentação ofertada na Instituição é de grande importância, sobretudo para o grande público em situa- ção de vulnerabilidade social, como exposto no Relatório de Gestão 2014.