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3. ELEMENTOS DO PROCESSO FORMATIVO

3.5 Poética

A arte poética tal como conhecemos (trágica, lírica, cômica e épica) é

distinguida por Aristóteles na obra Poética:

Falemos da poesia – dela mesma e das suas espécies, da efetividade de cada uma delas, da composição que se deve dar aos mitos200.

197

BERTI, Enrico. Perfil de Aristóteles. São Paulo, 2012. p. 90. 198

Idem. Ibidem. Perfil de Aristóteles. São Paulo, 2012. p. 90.

199 ARISTÓTELES. Retórica. I, 2,1355b. Editora WMF Martins Fontes, 2012. p. 12.

200 ARISTÓTELES. Poética. I, 1, 1447a, 1. São Paulo: Nova Cultura, 1987. (Os Pensadores). p. 201.

Percebe-se de antemão que existem várias formas ou espécies de poesia: epopeia, tragédia, comédia201.

Parece-nos ser possível inferir que a poesia trágica também tem

potencial para auxiliar na formação moral do cidadão202.

Aristóteles lhe atribui elevado grau de importância:

a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por “referir-se ao universal” entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convêm a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens; particular, pelo contrário, é o que fez Aleibíades ou o que lhe aconteceu203.

A poética tem uma aproximação maior da filosofia que a história por apresentar situações e decorrências que podem vir a acontecer conforme a necessidade de cada personagem, pois o poeta, nas perspectivas e nas possibilidades da representação, tem o poder de “modelar das possibilidades

humanas”204.

Sobretudo, o que nos interessa observar na tragédia é a ação, sua decorrência e o seu componente moral, ou seja, uma possível orientação para

201

Idem. Ibidem. Poética. p. 233. O livro de Aristóteles Poética, dedicado à poesia esteve, segundo Berti, por longo tempo esquecido ou ignorado durante a antiguidade, sendo retomado a partir da Idade Média. BERTI, E. Perfil de Aristóteles. p. 94. Para Chauí, podemos perceber que existe na Poética “dois tipos de prova ou demonstração: a filosofia, de um lado, e a história, de outro; e o restante trata da tragédia, uma vez que as outras partes da obra se perderam”. CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. 2002. p. 483.

202 “Do ponto de vista do conteúdo, as tragédias teriam um claro papel de educação política do povo. Como apontado por Aristóteles, nem todos os cidadãos recebiam a educação moral e ética necessária para o exercício político – motivo, aos olhos de Aristóteles, da fragilidade do regime democrático. Aos comerciantes, artesãos e pequenos agricultores faltava a paidéia

artística e moral recebida pelos filhos da aristocracia desde a infância. Segundo Meier, a encenação da tragédia servia à finalidade de preencher o vácuo deixado pela ausência da

paidéia infantil e juvenil e educar os adultos politicamente”. Segundo Humberto Brito, todas as formas de poesia exercem algum papel formativo. “assistir a boas tragédias permite que os espectadores treinem as suas emoções e aptidões intelectuais e morais que os prepara para a vida moral”. Brito, H. A Poiêtikê Technê como instrumento meta-filosófico. Kriterion, Belo Horizonte, nº 125, Jun./2012. p. 43. Ver também CARVALHO, João B. Educação, ética e tragédia: ensaios sobre a filosofia de Aristóteles. João B. Carvalho e Susana de Castro. – Rio de Janeiro: Nau, 2009. p. 100.

203 ARISTÓTELES. Poética. IX, 50, 1451b, 36. São Paulo: Nova Cultura, 1987. (Os Pensadores). p. 209.

204

a conduta a partir da encenação das peripécias dos personagens tem o poder

de demonstrar até que ponto o ser humano pode chegar205.

A encenação da tragédia permite que os espectadores viagem num

mundo de peripécias, vibrando e se emocionando em cada momento206. O ideal

nessa dimensão da viagem trágica é que não exista nada irracional, e se houver que seja fora da tragédia, exemplo disso vem do próprio Aristóteles: “o irracional também não deve entrar no desenvolvimento dramático, mas se

entrar, que seja unicamente fora da ação, como no Édipo de Sófocles207.

A tragédia está relacionada ao sofrimento humano dramatizado, do qual sempre podemos extrair lições de vida: “em resumo, a função da tragédia seria

alcançar um entendimento e uma ‘clarification’ no que se refere às experiências

lamentáveis e assustadoras.”208.

A poesia é, para Aristóteles, a arte da imitação que simula as características das paixões e ações por meio das narrativas na poesia e dos gestos no teatro. Posta como formativa, a poesia trágica é a representação do sofrimento humano dramatizado, do qual é possível extrair lições morais de vida a partir das experiências das pessoas. Segundo Aubenque, Aristóteles

encontra o trágico nos limites entre a metafísica e a ética209, o que nos permite

sugerir a tragédia como componente formativo na pólis na medida em que

pode colaborar na educação das emoções e das aptidões intelectuais e morais; e mais, colaboração essa que se dá de forma não repressiva e repetitiva:

É pois a tragédia imitação de uma ação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes [do drama],

205

“numa boa tragédia, tal corresponde a uma viragem da felicidade para a infelicidade dos caracteres produzida por uma “mudança dos acontecimentos para o seu reverso”, a que Aristóteles dá a designação técnica de peripécia, peripeteia.”. BRITO, H. A Poiêtikê Technê como instrumento meta-filosófico. Kriterion, Belo Horizonte, nº 125, Jun./2012, p. 47. O conceito de “peripécia” é definido por Aristóteles como “mutação dos sucessos no contrário, efetuado do modo como dissemos; e esta inversão deve produzir-se, também o dissemos verossímil e necessariamente”. ARISTÓTELES. Poética. XI, 60, 1452a, 21. São Paulo: Nova Cultura, 1987. (Os Pensadores). p. 210.

206

BRITO, H. A Poiêtikê Technê como instrumento meta-filosófico. p. 47. 207

ARISTÓTELES. Poética. XV, 89, 1454b, 33. São Paulo: Nova Cultura, 1987. (Os Pensadores). p. 215.

208 CARVALHO, João B. Educação, ética e tragédia: ensaios sobre a filosofia de Aristóteles. 2009. p. 31.

209

[imitação que se efetua] não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terro e a piedade, tem por

efeito a purificação dessas emoções210.

210

ARISTÓTELES. Poética. VI, 27, 1449b, 24. São Paulo: Nova Cultura, 1987. (Os Pensadores). p. 28.

CAPÍTULO IV

“Educar em conformidade com o regime consiste em atingir não o que satisfaz as veleidades dos oligarcas ou dos partidários da democracia, mas atingir, sim, o que capacita aqueles a governar de modo oligárquico, e estes democraticamente”. (ARISTÓTELES. Política. V, 9, 1310a, 20, p. 401).

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