• Nenhum resultado encontrado

POBREZA E DESIGUALDADE DE RENDA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES

A pobreza define-se, normalmente, como a insuficiência de recursos para assegurar as condições básicas de subsistência e de bem-estar, segundo as normas da sociedade. É considerado pobre aquele que possui más condições materiais de vida, que se refletem na dieta alimentar, na forma de vestir, nas condições habitacionais, no acesso à assistência sanitária e nas condições de emprego. Para além do conceito baseado nas condições materiais, existem ainda definições mais amplas que levam em conta não apenas as características baseadas no nível de rendimento ou consumo. Definem a pobreza como a falta de capacidades humanas básicas, refletidas pelo analfabetismo, pela má nutrição, pela mortalidade infantil elevada, pela expectativa de vida reduzida, pela falta de acesso a serviços e infraestruturas necessárias para satisfazer necessidades básicas (saneamento básico, água potável, energia, comunicações, ou seja, acesso a bens e serviços de uso coletivos), mais genericamente, pela incapacidade de exercer os direitos de cidadania. A pobreza é, portanto, uma situação de privação e de vulnerabilidade material e humana.

Os pobres também são vulneráveis a situações de crises políticas ou econômicas, além de se encontrarem extremamente susceptíveis a doenças e a catástrofes naturais. A pobreza exerce influência na personalidade do indivíduo, em função da intensidade e da persistência dessa situação de privação, com consequências para a estabilidade e bem-estar global da sociedade.

Apesar do conceito (ou conceitos) de pobreza ser universalmente aceito, ele pode variar de acordo com as normas da sociedade e as condições locais específicas. As percepções de pobreza e as características que qualificam os pobres são diferentes no Brasil relativamente a um país desenvolvido onde o rendimento médio per capita e o nível de desenvolvimento dos serviços (e da infraestrutura) sejam muito superiores. Por outro lado, mesmo dentro do território nacional, as percepções de pobreza são diferentes, fruto do desenvolvimento e da ocupação desigual do território nacional, consubstanciada em fortes assimetrias regionais. Do mesmo modo, as percepções de pobreza são diferentes também entre os espaços urbano e rural, onde os padrões e hábitos de consumo e de comportamento social são distintos. Neste sentido, apreender as várias dimensões da pobreza, considerando as especificidades históricas, econômicas, sociais e culturais demanda um grande esforço investigativo.

Chambers (2006 apud OLIVEIRA, 2010) classificam os critérios de definição da pobreza em quatro grupos:

a) primeiro é renda/pobreza, muitas vezes expressa como consumo/ pobreza devido à dificuldade de mensuração da renda real das famílias pobres. A definição de pobreza segundo a renda ou consumo não exige nenhum esforço conceitual, já que é baseada em um valor preestabelecido para a renda ou nível de consumo. A polêmica se refere à determinação do valor de corte;

b) segundo agrupamento de significados vincula-se a carências materiais e remete à dimensão subjetiva do desejo. Além da renda, que está na origem da maioria das carências, a pobreza pode se referir à falta ou insuficiência de riqueza, assim como à falta ou baixa qualidade de outros ativos como casa, roupa, mobiliário, meios de transporte pessoal, rádio, televisão e assim por diante;

c) um terceiro agrupamento de significados deriva da visão de Amartya Sen, e se expressa como privação de capacidade para realizar projetos pessoais, ou simplesmente para desenvolver-se como ser dentro das possibilidades que estão ao alcance de outros na mesma sociedade. Esta categoria vai além da falta de material ou de capacidades humanas, e envolve uma evidente dimensão social e histórica que baliza a importância da privação e qualifica a própria capacidade;

d) um quarto grupo leva em conta a natureza multidimensional da pobreza, assumindo que o status sendo influenciado por um ou mais fatores.

Diferentes perspectivas conceituais delinearam a trajetória do pensamento científico sobre a pobreza ao longo do tempo e inspiraram as ações e programas de queda da pobreza. Segundo Codes (2008, p. 10) são cinco as perspectivas principais:

a) a da subsistência: conceito que atualmente corresponde à de pobreza absoluta, define a pobreza com base no critério da renda necessária para a sobrevivência exclusivamente física do indivíduo;

b) a das necessidades básicas: se apresenta como uma extensão do de subsistência. Inclui os requerimentos mínimos de uma família (por exemplo: comida, abrigo, roupas, e necessidades referentes aos serviços essenciais (por exemplo: saúde, educação, transporte); c) a da pobreza como privação relativa: a pobreza deve ser definida

socialmente. As pessoas pobres são aquelas que não podem obter, de todo ou suficientemente, recursos e condições de vida;

d) a da pobreza como privação de capacidades: se caracteriza por desenvolver uma reflexão de caráter mais abstrato sobre a natureza do objeto, remetendo a discussão aos campos da justiça social, da política, das desigualdades e da subjetividade;

e) a da perspectiva da multidimensionalidade: concerne a situações em que as necessidades humanas não são suficientemente satisfeitas e em que diferentes fatores estão interligados.

De acordo com Hagenaars e De Vos (1988 apud KAGEYAMA; HOFFMAN, 2006, p. 81), os conceitos de pobreza podem ser classificados em três categorias:

a) pobreza é ter menos do que um mínimo objetivamente definido (pobreza absoluta);

b) pobreza é ter menos do que outros na sociedade (pobreza relativa); c) pobreza é sentir que não se tem o suficiente para seguir adiante

(pobreza subjetiva).

Nessa mesma linha, Demo (2006 apud Possani 2007, p. 174), que distingue pobreza relativa – aquela que se refere à distância existente entre ricos e pobres – e pobreza absoluta – aquela que se refere às condições objetivas vividas por aqueles que estão na pobreza. Segundo esse autor, o Banco Mundial se concebe como o guardião das políticas de combate à pobreza absoluta, enquanto o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da ONU, tende a realçar a necessidade de combate à pobreza relativa. De acordo com o autor, para acabar com a pobreza absoluta, políticas distributivas são suficientes, mas para acabar com

a pobreza relativa são necessárias políticas de desconcentração de renda, ou seja, políticas redistributivas.

Rocha (2006 apud LEMOS, 2012, p. 71) apresenta uma síntese do que seriam estes dois conceitos de pobreza, absoluta e relativa:

[...] a pobreza absoluta está estreitamente vinculada às questões de sobrevivência física; portanto, ao não-atendimento das necessidades vinculadas ao mínimo vital. Enquanto a pobreza relativa define necessidades a serem satisfeitas em função do modo de vida predominante na sociedade em questão e implica, consequentemente, delimitar um conjunto de indivíduos relativamente pobres em sociedades onde o mínimo vital já é garantido a todos.

Nas próximas seções será feita uma explicação mais detalhada sobre os conceitos de pobreza relativa e absoluta.