3 CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ENVELHECIMENTO E DAS POLÍTICAS SOCIAIS
3.3 Pobreza e envelhecimento no Brasil: a outra face da melhor idade
3.3.2 Pobreza e envelhecimento da classe trabalhadora
Muitos idosos e idosas do país que compõe a classe trabalhadora estão com o cotidiano atravessado pela pobreza. Teixeira (2017) já alertava que está sociedade é regida pelo trabalho abstrato, na qual condena o trabalhador a antecipação da depreciação natural e a processos de exclusões por critérios de idade, pobreza e desvalorização social. E complementa,
A grande maioria dos trabalhadores idosos, no Brasil, vive de mínimo sociais, sendo alta a incidência de pobres e de indigentes, idosos sem nenhuma renda; eles ainda estão inseridos em atividades produtivas,
mesmo que marginais, depois de aposentados, principalmente entre os mais pobres; chefiam suas famílias; têm baixo nível de escolaridade e maior incidência de doenças e dificuldades funcionais. (TEIXEIRA, 2008, p. 136).
Para Barros, Mendonça e Santos (1999, p. 01) Os idosos, pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho, constituem uma parcela da população potencialmente vulnerável a estar em estado de pobreza, dado que características como produtividade e empregabilidade declinam com a idade a partir de um determinado momento do ciclo de vida. A pessoa idosa tem cada vez ganhado espaço na família em relação a contribuição econômica, já que em muitos lares é sua renda que sustenta toda família isso quando não é a única fonte de sustento.
Assim, na velhice, a classe trabalhadora poderá sofrer com o agravamento das manifestações da questão social, decorrência de toda exploração e expropriação do trabalho sofrida durante a trajetória de vida e com as mudanças do capitalismo que reduzem os direitos conquistados. (SANTOS, et. al., 2017, p. 83-85).
É necessário considerar o envelhecimento da classe trabalhadora em assentamentos rurais que é cravado por inúmeras vulnerabilidades sociais como ausência de saneamento básico, habitação e até mesmo a ausência de luz elétrica além da dificuldade em muitos casos em acessar as políticas sociais locais em virtude do isolamento geográfico, sendo também um uma área de exclusão da sociedade capitalista e com lugares esquecidos pela intervenção do Estado. Em nosso país esses espaços rurais, principalmente, no Nordeste são escassos de um período chuvoso e isso acarreta momentos de seca comprometendo a renda de famílias inteiras que dependem da agricultura tanto para alimentação quanto para a venda desta. Idosos e idosas brasileiras que vivem no meio rural tem um cotidiano de dificuldades para sobrevivência marcados pela supressão de direitos sociais e no acesso a recursos socioculturais. Na concepção de Peres (2011, p. 639),
O meio rural pode ser, assim, definido como uma tradicional “área de exclusão”, onde o sistema capitalista mantém formas arcaicas e extremadas de exploração da classe trabalhadora, com o desrespeito, até mesmo, aos direitos socialmente instituídos (dentre eles, o direito à educação, à saúde e à CLT, por exemplo), configurando uma “questão social agrária” bastante problemática.
Peres (2011) também faz ponderações importantes sobre o acesso que a população idosa teve a educação, na verdade, a incidência do analfabetismo de
idosos e idosas no Estado do Rio Grande do Norte (RN). Para o autor o Estado do RN é uma das regiões com os maiores índices de analfabetismo do país e argumenta que “O problema do analfabetismo atinge principalmente as populações mais idosas, de cor negra e parda, do sexo feminino, e os residentes nas áreas rurais”. (PERES, 2011, p. 631).
E ainda acrescenta que,
Sabemos que, segundo o IBGE (Censo 2000), a maioria da população não-alfabetizada no Brasil é composta por pessoas de idade mais avançada, ou seja, idosos e adultos mais velhos, especialmente as mulheres, os negros e afrodescendentes, os indígenas e os residentes nas áreas rurais e na região Nordeste
Na verdade, Peres (2011, p. 636) entende que a sociabilidade do capital “[...] estruturou um sistema educacional e produtivo coerente aos seus interesses, relegando os idosos ao esquecimento”. Assim para esse sistema baseado na exploração do trabalho a pessoa idosa com o estabelecimento da aposentadoria ocorre uma retirada do sistema produtivo, portanto passa a ser excluído processo capitalista para abrir espaço a novos exércitos industriais de reserva. Dessa forma, o velho “[...] deve ser expulso, retirado do mercado de trabalho. A aposentadoria, de certa forma, assume, simbolicamente, o significado de retirada ou saída da vida produtiva”. (PERES, 2011, p. 636).
Faleiros (2017) ponta que cerca de 17% da população idosa brasileira vive abaixo da linha de pobreza, além 23% de idosos/idosas viverem na condição de analfabetos e isso para autor acentuaria uma má qualidade de vida. Corroborando com esses dados Santos, Lopes e Neri (2007, p. 76) e com base numa pesquisa realizada pelo SESC e a Fundação Perseu Abramo apontam que a baixa escolaridade e a situação de pobreza são acentuadas com idosos/idosas negros. Os autores ainda expõem que a pesquisa relata que entre a faixa “[...] dos 60-69 anos, 72% dos homens e 75% das mulheres iniciaram e 8% e 7%, respectivamente, terminaram o ensino fundamental”. Assim, muitos desses sujeitos não tiveram acesso à educação ou tiveram e não conseguiram continuar acarretando dificuldades no acesso ao mercado de trabalho, restando apenas em algumas situações o desenvolvimento de atividades informais e precarizadas, sem garantias legais o que ocasiona uma vida marcada de dificuldade de subsistência das
condições mínimas. Berzins (2003) assevera que a inclusão da pessoa idosa em níveis de escolaridade é um dos grandes desafios para as políticas sociais.
Esses apontamentos teóricos acerca do acesso à educação para as pessoas idosas coadunam com nossa pesquisa empírica, caso o leitor não se recorde, dos nossos 12 idosos/idosas entrevistados 09 não conseguiam concluir o ensino fundamental, os outros três restantes apenas 01 tem ensino superior, outro tem ensino médio completo e por fim 01 não tem alfabetização. Esses dados retrataram o cotidiano de muitos idosos/idosas brasileiros que tiveram dificuldades e ainda tem no acesso à educação como um requisito básico para consolidação da cidadania, mesmo que nos limites do capital.
- Nesse tempo não estuda não era só para ajudar os pais e trabalhar. (Elis
Regina, CRAS Bom Jesus).
Haddad (2016) entende que a velhice da classe trabalhadora é permeada pelo desemprego, subalternidade, resistência e pobreza. Dessa forma a classe trabalhadora sofre com as consequências de uma política econômica excludente e geradora das desigualdades sociais, dentre elas o envelhecimento empobrecido. Para Santos et. al. (2017, p. 83),” [...] é apenas a velhice trágica (pobre, doentia, em instituições de acolhimento, dentre outras) que deve ser entendida como uma expressão da questão social, ou seja, a velhice da classe trabalhadora [...]”. Não significa afirmar que todos os idosos e idosas do país estão em situação de pobreza, mas de reconhecer que uma parcela desse segmento está submetida e exposto a diversas vulnerabilidades sociais seja no contexto familiar ou comunitário.
[...] observa-se que a maioria do contingente do idoso brasileiro sobrevive de mínimo sociais, visto que há uma grande parte de pessoa idosas em situação de pobreza, e ainda há um número considerável na indigência e sem recursos financeiros. (SANTOS, et. al., 2017, p. 89).
Portanto, a vivência do envelhecimento empobrecido tem sido uma realidade para a maioria dos idosos/idosas brasileiros. O cotidiano marcado pelas desigualdades sociais, miséria, violência, radicalização da exploração e pela má distribuição de riquezas, ou seja, é um público que sofre com o rebatimento das diversas expressões da questão social. De acordo com Arcoverde (2008) estamos diante de um cenário de perplexidades no qual impera a lógica permeada pela
exclusão, miserabilidade e de violências contra mulher, criança, adolescentes e idosos. E a velhice não tendo “utilidade produtiva” e sendo uma mão de obra que perde sua funcionalidade para a sociedade capitalista passa a ser “[...] fadada à pobreza e à dependência dos recursos da família e sociedade, como está sujeita a uma desvalorização social [...]”. (TEIXEIRA, 2008, p.135).
Na concepção de Arêas e Bernardo (2019, p.261) existe uma interligação entre o processo de envelhecimento da classe trabalhadora e a questão social,
As reflexões realizadas até aqui nos dão base para consideramos o envelhecimento e a velhice da classe como uma das expressão da questão social na sociedade contemporânea, visto que carregam determinações impressas na condição de exploração e subjugação que a classe trabalhadora sofre sob o domínio do capital.
Na verdade, as repostas do Estado às diversas manifestações a questão social são limitadas e não conseguem ultrapassar o assistencialismo, clientelismo e marcadas pelo conservadorismo. Conforme Santos et. al. (2017, p. 86) a pessoa idosa sofre “[...] por não possuírem os meios de produção e a riqueza socialmente produzida, capazes de garantir uma velhice digna, são submetidos à pobreza [...]”. E complementa,
[...] a referida sociabilidade sentencia a pessoa idosa da classe trabalhadora além da pobreza- na medida em essa sociabilidade acumula riquezas nas mãos de poucos, que mesmo velhos têm valor, riqueza, bens, participação política, econômica, artísticas- também a reclusões em instituições de acolhimento, solidão e isolamento pela desvalorização da vida, da ausência de sentido para a vida fora dos circuitos da produção.
Cabe dizer que mesmo com obtenção da aposentadoria a pessoa idosa não garante, em muitos casos, condições dignas de sobrevivência e de qualidade de vida. A renda de um salário mínimo ou mais não será suficiente para a realidade vivenciada por sujeitos que precisam pagar plano de saúde, já que infelizmente teremos um Sistema Único de Saúde (SUS) em colapso (como apresentaremos de forma detalhada mais adiante), além do investimento em medicamentos, e as vezes como já mencionamos a contribuição na renda familiar. “[...] A renda dos idosos representa a única fonte de renda segura de muitas famílias e em muitos municípios já é a maior fonte renda local”. (GIACOMIN, 2014, p. 02).
A crise econômica e de desemprego que o país vem sofrendo nas últimas décadas tem provocado alterações nas condições de vida das famílias.
Muitos filhos casados com suas famílias brasileiras têm voltado a morar com seus pais, por não terem condições de arcar com despesas do orçamento. Como resultado desta crise econômica os pais/avós têm se responsabilizado pelo orçamento ou auxílio aos filhos e netos, participando com uma elevada contribuição no orçamento familiar. (BERZINS, 2003, p. 30).
Essas situações particulares adiam a saída da pessoa idosa do mercado de trabalho mesmo que informalmente. Para Teixeira (2008) essa reinserção no mercado de trabalho ocorre em virtude dos baixos rendimentos das aposentadorias e da concentração de renda. Dessa maneira os valores dos benefícios e aposentadorias não seriam suficientes para manutenção das condições mínimas de sobrevivência, com isso a volta ao mercado de trabalho passa a ser uma alternativa para complementação da renda.
O idoso aposentado necessita, muitas vezes, permanecer trabalhando por necessidade financeira, considerando-se que, para grande maioria dos brasileiros, os valores recebidos como aposentadoria não cobrem as suas necessidades de manutenção e de seus dependentes, principalmente quando cabe ao idoso o papel de mantenedor do grupo familiar. (BULLA; KAEFER, 2003, p. 5).
Cabe ressaltar que a volta ao mercado de trabalho será atravessada pela informalidade e precarização dos postos de trabalho e redução de salários, isso ocorrem em virtude do ideário neoliberal que é marcada pela acumulação flexível. Essa tem sido a tendência a todas as faixas em decorrência das transformações ocorridas no mundo do trabalho como já apontava Antunes (2011) em relação as mutações ocorridas com a classe trabalhadora, principalmente, em virtude de trabalhos parciais, temporários e precarizados.Na concepção de Antunes (2011, p. 103, grifos do autor) na cena contemporânea “[...] cada vez mais homens e mulheres trabalhadores encontram menos trabalho, esparramando-se pelo mundo em busca de qualquer labor, configurando-se uma crescente tendência de precarização do trabalho em escala global [...]”.
De acordo com Paiva (2014) a entrada no mercado de trabalho da pessoa idosa e o interesse do mercado capitalista ocorre em decorrência desse sujeito apresentar algumas vantagens, como o fato de proporcionar uma subcontratação em decorrência de não ter mais responsabilidade com os direitos trabalhistas, além de: ter acesso gratuito ao transporte público e não necessitar de ajuda de custo da empresa para o deslocamento, atendimento preferência em filas, como isso gerado
o que a autora classifica como de office old ou office velho. Nas afirmações das assistentes sociais entrevistadas também percebemos esse retorno ao mercado de trabalho nesse período da vida que teoricamente deveria ser voltada ao descanso, porém acabam tendo de buscar uma atividade para complementação a renda.
- A maioria dos idosos são aposentados como agricultores outros recebem BPC e alguns idosos trabalham ainda, são bem ativos porque assim é bem difícil pra eles receber somente o BPC então eles também trabalham, porque agora tá bem difícil pra eles se aposentarem como agricultores, então a maioria trabalha. (Olga Benário, CRAS Bom Jesus).
Uma parcela da população idosa do país vive apenas com o BPC, que também contempla pessoas com deficiência, o perfil deste público consiste em sujeitos que comprovem não ter meios de prover os meios de subsistência nem ser provido pela família. O BPC é regulamentado pela Constituição Federal de 1988 no art. 203 quando expõe que Assistência Social11 será destinada para quem necessita e independente de contribuição, sendo um benefício individual. No inciso V determina “a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei”. (BRASIL,1988).
O Benefício de Prestação Continuada (BPC) constitui importante mecanismo da proteção social brasileira no enfrentamento à pobreza e à desigualdade social. Instituído pela Constituição Federal de 1988 (CF), o BPC garante uma renda mensal de cidadania no valor de um salário mínimo aos idosos (com 65 anos ou mais) e às pessoas com deficiência (PcD) vivendo em situação de extrema vulnerabilidade. (SILVEIRA, et. al., 2016, p. 4).
A LOAS regulamentada em 1993 e que representa um marco regulatório no reconhecimento da Política de Assistência Social enquanto dever do Estado e direito do cidadão também reafirmará o que já foi exposto na CF/88, no sentido, de reconhecer e garantir um salário mínimo como benefício para pessoa idosa e pessoa com deficiência que não tem condições de prover o sustento, além de proporcionar uma tentativa de distribuição de renda. Importante destacar que esse benefício tem como finalidade de proteger o sujeito da velhice em situação de
11 A Assistência Social é parte das três políticas da Seguridade Social brasileira. Informamos ao leitor que adentraremos de forma mais aprofundada sobre esta política em nosso próximo capitulo.
vulnerabilidade social/ pobreza, ou seja de baixa renda, sendo um benefício operacionalizado pelo Instituto Nacional de Seguro Nacional (INSS), este tem função de conceder, cessar e suspender o benefício que fica vinculado a Secretaria Especial do Desenvolvimento Social, sendo que seu recurso advém da Seguridade Social. De acordo com o decreto nº 8.805/2016 torna-se obrigatório a inscrição no Cadastro Único (Cadastro Único de Programas Sociais do Governo Federal), tendo um prazo de dois anos para que todas as famílias com beneficiários do BPC estejam inclusão, o ano de 2017 foi destinado ao cadastramento da pessoa idosa.
O BPC, para além de melhorar o patamar de renda visando garantir condições básicas de vida, opera com a estabilidade de renda, imprescindível para fazer frente às necessidades de acesso a serviços, insumos e cuidados no âmbito da saúde e assistência frequentes tanto entre as pessoas com deficiência como entre os idosos em situação de extrema vulnerabilidade.30 as recorrentes decisões do Poder Judiciário apontam também a necessidade de ampliar tais garantias para famílias com renda acima da linha fixada pela LOAS. Expressam um reconhecimento da necessidade de aporte e solidariedade pública nos casos de aguda vulnerabilidade onde a superposição de pobreza e de presença de deficiências severas ou de idade avançada aprofunda agravos e fragilidades, quando não potencializa situações de exclusão e violação de direitos. (SILVEIRA, et. al. 2016, p. 12).
O BPC é direcionado, justamente, para pessoa idosa em situação de pobreza e vulnerabilidade social, que acordo com o Manual do Pesquisador: Programa de Benefícios de Prestação Continuada, elaborado no ano de 2018 pelo Ministério do Desenvolvimento Social, teremos cerca de 4,5 milhões de beneficiários, desse total 2 milhões de idosos/idosas, sendo destinado para esse benefício 46 bilhões, este é considerado como o maior programa de transferência de renda do Brasil em relação a orçamento. Ou seja, a partir desses dados entendemos que um número elevado de idosos/idosas dependem, exclusivamente, do BPC e, portanto, são sujeitos em situações de vulnerabilidade social e expostos a condições precárias de sobrevivência. É oportuno ressaltar que segundo o Boletim BPC 2015 informava que a região nordeste tinha um total de 617.286 de idosos/idosas que recebiam o benefício, sendo o Estado do Rio Grande do Norte contava com 23.869 beneficiários, desses sendo a maioria do sexo feminino e com maior número de beneficiários entre as idades 65 a 69 anos. Importante frisar que a partir de uma pesquisa realizada junto a Gerência de Proteção Básica de identificamos 15.162 beneficiários do BPC em 2019 no município.
Outro dado relevante que o Boletim BPC 2015 também informa é o elevado número de pessoas que tem o acesso do benefício via decisão judicial, ou seja, recorrem a justiça para garantia do direito, os números informam que 52.050 mil foram concedidos nesse formato. Sendo uma tendência na cena contemporânea o processo judicialização da questão social no atendimento de suas expressões, como infere Barison (2014, p. 24) “[...] a judicialização da questão social se evidencia na medida em que as funções do Poder Executivo são transferidas para o Poder Judiciário no trato da questão social”.
A autora ainda acrescenta,
O Poder Judiciário tem sido acionado para ser um protagonista importante no enfrentamento das expressões da questão social vivenciadas pelos sujeitos e ainda na efetivação de dispositivos de atenção no campo das políticas sociais ofertadas pelo executivo. Os sujeitos quando não encontram respostas para suas necessidades sociais e\ou para a garantia de seus direitos no Poder Executivo procuram (ou são levados para) o campo do Poder Judiciário. (2014, p. 24).
Nessa perspectiva, o Poder Judiciário tem exercido na atualidade de forma isolada o papel no enfretamento das expressões da questão social, à medida que ocorre por outro lado a desresponsabilizarão estatal, sobretudo dos poderes executivos e legislativos. Sousa Santos (apud SIQUEIRA, 2013, p. 103) as desigualdades sociais e injustiças sociais exigem uma postura proativa para resolver as demandas relativas aos direitos violados e a substituição do sistema da administração pública do Estado pelo Judiciário. Nesse caso, o autor citado corrobora com a transferência da responsabilidade de outros poderes para a resolutividade por parte da judiciário. É evidente que o BPC passa a ser um dos mecanismos utilizados para o processo de combate a pobreza, numa sociedade capitalista marcada pela desigualdade social e radicalização da questão social, embora seja também um benefício permeado pelo processo da seletividade, uma vez que se o sujeito não estiver no padrão de critérios estabelecidos de rendimentos não terá direito ao acesso, no entanto, não significa que a renda da família dará conta do sustento e promoção da qualidade de vida da pessoa idosa. Assim os critérios (principalmente da renda per capita) estabelecidos para o BPC assumem características cada vez mais seletivas tornando-se um benefício extremamente restritivo que não consegue contemplar todos os idosos que vivem em situação de pobreza no país.
Também no que compete à proteção afiançada pelo BPC, há necessidade de conceder um olhar mais atento às situações de perda de autonomia e riscos de dependência dado ao seu potencial de agravar a pobreza monetária. Uma pessoa com deficiência severa ou uma idoso dependente demanda cuidado adicionais das famílias e, de acordo com o grau de comprometimento ocasionado pela doença ou velhice, haverá a necessidade da mobilização de um adulto em idade ativa – frequentemente a mãe, a filha ou a esposa – para prover os cuidados necessários. Trata-se de um contingente de famílias que, ao serem privados da renda de um dos seus membros no sustento financeiro, viverão no limiar da pobreza, mesmo que esta não se encaixe a priori nos critérios de ¼ de renda domiciliar per capita para acesso ao BPC. (SILVEIRA, et. al. 2016, p. 15).
Defendemos a importância e permanência do BPC como uma forma de atender esses segmentos vulneráveis que dependem, muitas vezes, exclusivamente do benefício. Corroboramos com o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) quando elaborou em 2017 uma Nota Técnica em que se posiciona em defesa do BPC como um instrumento importante para o enfretamento da pobreza e desigualdade social da pessoa idosa numa sociedade capitalista que atua numa lógica mercantilizadora.
Por fim, gostaríamos de destacar que estamos prestes a presenciar um desmonte do BPC através da proposta em curso de reforma da previdência no atual de Jair Messias Bolsonaro. Entre as propostas deste (des) governo está a de conceder o benefício ao idoso/idosa a partir de 60 anos um valor apenas de 400