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4.2 – Pobreza e Insegurança Alimentar: debate conceitual

Segundo Rocha (2006) a pobreza absoluta pode ser concebida “como a privação das condições de subsistência, considerando como pobres aquelas pessoas cuja sobrevivência esteja comprometida por não serem atendidas as suas necessidades vitais como, por exemplo, a satisfação de necessidades nutricionais, a mais básica das necessidades vitais” (2006:11).

33 Trecho do relatório do Brasil para a Cúpula Mundial de Alimentação, Roma – 1994.

Segundo Clay (2002), em 1963, tomando por base a concepção de pobreza absoluta, foi criado o Programa Alimentar Mundial (PAM), com o objetivo de erradicar a fome através da distribuição de alimentos e de assistência humanitária.

Mas, de acordo com Amartya Sen (1999), essa abordagem feita por Rocha (2006) pode ser aplicada em casos extremos de pobreza onde as necessidades de alimentos são fatores imperativos imediatos, mas, afirma que “essa concepção de pobreza absoluta apresenta três limitantes importantes: as variações relacionadas com as características físicas, condições climáticas e hábitos de trabalho”. A autora realça que

“a tradução das necessidades nutricionais mínimas em necessidades mínimas de alimentos dependem da escolha dos bens de consumo, assim como é difícil especificar quais são as necessidades mínimas para produtos não alimentares” (1999:27-28).

De acordo com Rocha (2006), as situações de privação onde as questões de sobrevivência não estão necessariamente colocadas levaram-no a considerar a concepção de pobreza relativa, “que define a pobreza de acordo com as necessidades que precisam ser satisfeitas em função do modo de vida predominante numa determinada sociedade”. O autor salienta que a partir dos anos 70, a concepção de pobreza relativa ganha apoio da comunidade acadêmica e de vários órgãos internacionais. Segundo o autor, Pesquisadores e Governantes

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, começaram a avaliar as condições de pobreza baseados no acesso das pessoas as necessidades básicas e não apenas relacionada ao fator econômico. De acordo com autor, “a análise das condições de pobreza precisam enfatizar parâmetros importantes de qualidade de vida como serviços básicos de saúde, água potável, saneamento, educação, habitação, vestuário, entre outros”

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. (2006:11).

A maior dificuldade nesse tipo de avaliação estava em encontrar indicadores adequados para uma análise multidimensional. Esses indicadores precisariam ser construídos com parâmetros específicos, onde fosse possível avaliar de forma adequada os níveis de pobreza do conjunto de determinada população.

Com isso, em 1990, após o lançamento anual do Relatório do Desenvolvimento Humano (RDH) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),

34 A partir da década de 70 o conceito de Rocha (2006) que relaciona pobreza ao acesso as condições básica que proporcionem qualidade de vida ganha mais consistência devido as discussões sobre a crise alimentar mundial, a redução dos estoques alimentares e o aumento dos preços de cereais em vários países como União Soviética, a Índia, a China e a Austrália (CLAY, 2002).

35 Rocha (2006) afirma que “Dessa forma consegue-se estabelecer objetivos para a sociedade como um todo, permitindo que os indicadores sejam analisados para o conjunto da população e não apenas para os pobres e por último realizando uma análise multidimensional da pobreza reconhecendo as inter-relações entre as diversas carências” (ROCHA, 2006:11).

foram realizados esforços significativos em busca da definição de indicadores mais adequados e completos. Dentre os vários indicadores formulados, o mais conhecido é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) que abrange várias dimensões da pobreza, considerando a esperança de vida ao nascer, o nível de educação e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, comparando e ordenando países em um ranking internacional (SEN, 2000).

Mas, de acordo com Sen (2000), é importante considerar o aspecto da condição de agente, ou seja, a autora afirma que “pessoas são agentes que ocasionam mudanças e cujas realizações podem ser julgadas de acordo com seus próprios valores e objetivos, agindo como membros políticos e como participantes das ações econômicas, sociais e políticas” (2000:33).

Assim ficou claro o desejo da autora em mostrar uma perspectiva de desenvolvimento baseado na participação da sociedade civil, na valorização das suas capacidades individuais e na percepção das oportunidades que dispõem.

Em 1974, a Agriculture Organization of the United Nations (FAO) organizou a 1ª Cimeira Mundial da Alimentação (CMA) da qual resultou um consenso sobre a necessidade de se assegurar uma disponibilidade de alimentos suficientes para toda a população do globo, levando os líderes mundiais a aceitarem pela primeira vez, a responsabilidade de acabar com a fome e a desnutrição. Clay (2002) realça que apesar do entendimento, por parte dos países, sobre os conceitos de pobreza e da importância de se avaliar o acesso das pessoas as necessidades básicas, os países mantiveram o foco na capacidade de produção agrícola como forma de assegurar a disponibilidade e a estabilidade dos preços dos alimentos ao nível internacional e nacional.

Estudos de Ehlers (1999) demonstraram que entre os anos de 1960 a 1970, com a proposta de assegurar o acesso ao alimento para todas as pessoas e estabilizar os preços de mercado de forma global, foram desenvolvidas inovações tecnológicas no setor industrial agrícola e nos setores da química, genética e mecânica. Essas Inovações na área agrícola foram chamadas de “Revolução Verde”

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Clay (2002) afirma que as inovações tecnológicas propostas pela “Revolução Verde” marcaram o início do aumento da produção agrícola e dos estoques mundiais de

36 Segundo Ehlers (1994) a “Revolução Verde” foi um conjunto homogêneo de práticas tecnológicas que tinha como proposta a utilização de variedades de sementes geneticamente melhoradas, fertilizantes químicos, agrotóxicos, irrigação e mecanização do campo. Essas inovações foram chamadas de “pacote tecnológico”, que viabilizou, em larga escala, os sistemas de monoculturas. De acordo com Ehlers, diversas Instituições internacionais e Governos dos países subdesenvolvidos se lançaram nessa empreitada (EHLERS, 1994).

alimentos. Contudo, apesar do aumento da produção, os problemas da fome e da insegurança alimentar se agravaram, assim como se agravaram também os problemas ambientais e sociais decorrentes desse modelo produtivo.

No início da década de 1980, a condição do mercado internacional se reverte completamente e começa a enfraquecer a idéia de que a disponibilidade de alimentos resultante de incrementos na produção agrícola poderia resolver os problemas da fome.

De acordo com Sen (1981) essa situação foi o reflexo de sensível redução dos preços reais, principalmente dos produtos com maior demanda. Com isso, a visão de segurança alimentar começou a incidir mais sobre o lado da demanda, ou seja, sobre a capacidade de acesso aos alimentos pelos grupos mais vulneráveis.

Autores como Meneses (1996) e Pessanha (1998), afirmam que, “em 1989, em sua XII Conferência Mundial, a FAO propôs uma abordagem mais ampla sobre segurança alimentar, realçando que o objetivo final da segurança alimentar mundial é assegurar que todas as pessoas tenham, em todo momento, acesso físico e econômico aos alimentos básicos que necessitam [...] a segurança alimentar deve ter três propósitos específicos: assegurar a produção alimentar adequada; conseguir a máxima estabilidade no fluxo de tais alimentos e garantir o acesso aos alimentos disponíveis por parte dos que os necessitam” (2000: 55) - (1998: 58).

Na década de 1990, foi retomado o debate sobre pobreza e segurança alimentar, considerando a importância do acesso da população a necessidades fundamentais como nutrição, saúde, cultura, qualidade e inocuidade dos alimentos. Com esse objetivo foi realizada em 1996 em Roma a Cúpula Mundial sobre Alimentação, que segundo a Organização Foodfirst Information & Action Network (FIAN), a FAO (1999) estabeleceu objetivos ambiciosos sobre segurança alimentar e reafirmou a necessidade de se assegurar o acesso aos alimentos para todos e a todo o momento, em quantidade e qualidade suficiente para garantir uma vida saudável e ativa. Nesse evento estiveram presentes Organizações Não Governamentais que reforçaram a importância da participação das instituições da sociedade civil na busca da segurança alimentar.

Reafirmando essa posição da FAO na Cúpula Mundial sobre Alimentação, os

trabalhos de Hoddinott (2001) demonstraram a necessidade de se compreender que

apenas a disponibilidade e o acesso ao alimento não são suficientes para garantir uma

situação de segurança alimentar. Segundo o autor, é importante que se considere a

composição e a variedade da dieta, a sua qualidade química, física e biológica e a

inocuidade dos alimentos. Hoddinott (2001) realça que esses parâmetros são

importantes para uma análise mais completa sobre segurança alimentar e que a

assistência alimentar internacional precisa considerar e respeitar aspectos como a cultura, os hábitos e o contexto religioso que determinada população esta inserida. O autor afirma que a atenção deixou de estar focada apenas no contexto nacional ou familiar e passou a olhar também para o individuo e que algumas condições passaram a serem consideradas na análise de segurança alimentar: a avaliação do acesso aos serviços de saúde e a infra-estrutura das unidades de saúde como, por exemplo, a saúde materna infantil. Segundo o autor, ao abordar questões sobre saúde, tornou-se necessário analisar fatores como a forma com que o alimento é distribuído dentro da família, evitando o acesso desigual por seus membros, assim como é importante uma análise no processo produtivo desses alimentos e como eles são assimilados pelo organismo.

Estudos de Pessanha (1998) identificaram, dentro dessa abordagem multidimensional, quatro condições distintas para que se possa conceituar a segurança alimentar: a garantia de conservação e o controle da base genética dos alimentos; a garantia de qualidade sanitária e nutricional dos alimentos; a garantia do direito de acesso aos alimentos, relacionado à distribuição desigual de alimentos nas economias de mercado; e a garantia da produção e da oferta agrícola, relacionada ao problema de escassez da produção e de oferta de produtos alimentares. Contudo, o autor realça que essa garantia de oferta e de qualidade dos alimentos esta relacionada com o sistema produtivo e seu complexo agroindustrial. A superação desses problemas conduz a necessidade da construção de políticas públicas por parte dos governantes.

No caso dos países do sul da África, essa garantia de acesso ao alimento de qualidade permanece como tema de extrema importância, visto que nesses países as questões relacionadas à desigualdade na distribuição podem são dificultadas pela falta de oferta e de um sistema de vigilância que controle a qualidade e a inocuidade dos alimentos

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Pessanha (1998) afirma que para minimizar esse cenário, torna-se necessário a adoção pelos governantes de políticas que possam contribuir com o aumento da produção e da produtividade agrícola e que esse aumento pode ser alcançado através de medidas que estimulem a sustentabilidade da produção doméstica.

37 Atualmente um grande debate na África é a entrada de produtos geneticamente modificados, como o algodão na África Ocidental. Segundo Amílcar Henrique Dunduma, da Seção Alimentar de Angola, “para Angola, interessa travar os alimentos convencionais mediante a criação de mecanismos de controle na produção agrícola e na circulação mercantil. Esse aspecto impede a entrada de produtos geneticamente modificados no país, com o objetivo de se estabelecer o direito do consumidor” (Jornal de Angola, Luanda, 24 de março de 2005).

Contudo Pain (2007) chama a atenção para o fato de que a implantação de políticas voltadas para dinamizar a auto-suficiência de um país encontra alguns obstáculos como a liberalização e o ajuste estrutural das economias. O autor explica que essa liberalização e ajuste na economia impactam diretamente na maneira de operar os processos de produção dos alimentos nos diversos países. Nos países em desenvolvimento, observou-se que a falta de regulação dos mercados refletiu em um aumento significativo das desigualdades sociais, o que tornou ainda mais difícil o acesso do povo ao alimento.

De acordo com Pain (2007) a produção, a distribuição e o consumo de alimentos constituem um sistema alimentar de âmbito mundial, que têm como características a prevalência de um padrão de produção agrícola intensiva, mecanizada, com elevada utilização de produtos químicos e fortes impactos sociais e ambientais. De acordo com o autor, o processamento crescente dos produtos muitas vezes leva a perda da qualidade original dos alimentos, a crescente padronização de hábitos alimentares promove a difusão de produtos típicos de determinadas regiões e finalmente esse padrão produtivo proporciona a um elevado controle no abastecimento alimentar doméstico pelo comércio internacional

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Esse padrão agrícola intensivo é característico do modelo produtivo deixado pela Revolução Verde. De acordo com o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Brasil (CONSEA), esse padrão tem um perfil excludente, visto que apesar do aumento na produção de alimentos a quantidade de pessoas que sofrem de fome e desnutrição no mundo vem aumentando. Com isso, o CONSEA (2004) propõe a especialização da produção agrícola de alguns itens de exportação e a importação de alimentos sempre que ela for mais barata que a produção doméstica.

O pesquisador Renato Maluf (2000) afirma que “a produção doméstica de alimentos sempre foi econômica e politicamente relevante mesmo nos países dependentes do comércio exterior, assim como as exportações de alimentos fazem parte do abastecimento de todos os países, em maior ou menor grau, como recurso permanente ou eventual” (2000: 38-39).

No entanto, Maluf (2000) questiona esse falso dilema de “produzir internamente todo alimento necessário versus especializar-se em produtos mais competitivos”.

Segundo Maluf (2000), o fato de se adotar uma economia aberta não implica em

38 Para Mc Michael, em nome da idéia de segurança alimentar global é postulada a eliminação de agriculturas existentes e modelos agro-ecológicos alternativos. No entanto, resistências para a interpretação global de segurança alimentar estão crescendo rapidamente (Mc Michael, 2003: 11).

abandonar à auto-suficiência produtiva e aderir ao enfoque da auto-capacidade (2000:

59-60).

Segundo Alejandro Schejtman (2000), para que se possa fortalecer a produção doméstica, torna-se importante considerar pontos importantes nesse sistema produtivo como a disposição do pequeno agricultor em vender seus produtos com valores inferiores ao dos produtores capitalistas, a valorização de recursos que a agricultura empresarial não concebe como terras de boa qualidade, a não transferência da força de trabalho, o baixo custo de produção, a baixa energia exigida para o funcionamento da agricultura campesina quando comparada ao gasto de energia que necessita diretamente ou indiretamente a agricultura empresarial e finalmente, o emprego de mão de obra nas unidades campesinas, que conduz, em épocas de desemprego, a um produto maior por pessoa ocupada e economicamente ativa.

Contudo, surge na Cúpula de Roma (1996), um importante debate sobre a relação entre a soberania alimentar de uma nação com o seu grau de acesso a Educação.

Esse questionamento foi trazido para o debate na Cúpula de Roma por algumas Organizações não Governamentais (ONGs), entre elas a Via Campesina. Essa questão também foi abordada no fórum de ONGs para a soberania alimentar (NGO / CSO, 2002).

Os debates concluíram que a soberania alimentar está diretamente relacionada

com o direito dos países e dos povos ao acesso a uma educação básica que permita cada

país definir as suas próprias políticas agrícolas, pesqueiras e alimentar, de forma que

sejam ecológicas, sociais, econômicas e culturalmente apropriadas.