3.3 Concepções de pobreza
3.3.5 Pobreza numa perspectiva multidimensional
Conforme visto nos itens anteriores, as formulações e análises científicas sobre a pobreza foram sendo acrescidas ao longo do tempo por diversas e múltiplas dimensões (não apenas econômica, mas cultural, moral, ética, espiritual, identitária, etc.), caminhando no sentido de ampliação da percepção desse fenômeno por meio do acréscimo de fatores de ordem pessoais ou subjetivos, sociais ou objetivos, ampliando seus indicadores para incluir elementos biológicos, econômicos, jurídicos, políticos, ou sociais na sua compreensão.
De uma perspectiva reducionista da pobreza como impossibilidade de subsistência até a “teoria das capacidades” de Sen, a evolução mostra que o conceito não é estático e permanece em constante aperfeiçoamento. Prevalece, então, o entendimento de que a pobreza
é um fenômeno social, dinâmico, complexo e multidimensional, o que também torna mais difícil a tarefa de sua aferição.
Nas sociedades atuais – da modernidade pós-industrial –, altamente complexas e contingentes, a pobreza, conforme Wilber (1975, p. 3), transformou-se num verdadeiro sistema, uma “abstração-imensurável” por si mesma, composta por múltiplas propriedades que podem e devem ser medidas e quantificadas. Nessa perspectiva, a análise do fenômeno sob o enfoque unidimensional da renda, não obstante sua importância, torna-se parcial.
Além disso, há um certo consenso entre estudiosos de que a pobreza é sim um fato social complexo, não podendo ser exprimida apenas na ausência da posse de bens primários ou de renda necessários ao bem-estar, pois também aponta para uma negação de oportunidades a qual resulta na impossibilidade de levar uma vida dentro de padrões sociais aceitáveis.
Essa perspectiva leva ainda em consideração a situação de como o próprio indivíduo percebe sua situação social (autoavaliação), de modo que as impressões pessoais acerca da sua situação de pobreza podem aumentar ou diminuir em milhares o número de pessoas consideradas pobres (perspectiva subjetiva). Além disso, passa se definir segundo a capacidade de exercício das liberdades, não só por meio do acesso a bens da vida primários ou de serviços públicos essenciais (v.g saúde e educação), mas também através da luta pela expansão do exercício de seus direitos, não apenas os sociais, mas também os diretos civis e políticos (SEN, 2010).
Nessa esteira, os esforços para captar o grau de bem-estar e a liberdade das pessoas, levou ao desenvolvimento de índices ou medidores da pobreza que levassem em conta esse enfoque multidimensional. Assim, fazendo uso da abordagem das capacidades, o PNUD apresentou em 1990 um novo indicador multidimensional, o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH (criado por SEN, em colaboração).
O objetivo do IDH é a avaliação dos elementos fundamentais para a “inserção social” dos indivíduos e avaliação do nível de bem-estar, sendo obtido a partir da média aritmética simples que leva em conta três variáveis: (1) saúde/longevidade; (2) nível de educação; (3) PIB real em dólares por paridade poder de compra.
Ressalte-se a grande dificuldade de se criar um índice que, na prática, meça o desenvolvimento humano77. Um dos principais problemas é definir quais capacidades básicas
77 Apesar de estar fora do escopo deste trabalho, vale salientar que atualmente pesquisas envolvendo análise
devem compor o cálculo do índice. Outro deles é determinar como se deve mensurar cada uma delas (SILVA; LACERDA; NEDER, 2011, p. 24).
Posteriormente, em 1997, a ONU apresentou um novo índice multidimensional, o Índice de Pobreza Humana – IPH78, o qual utiliza em seu cálculo três dimensões
fundamentais: (1) longevidade – representada pelas percentagens de pessoas que morrem antes dos 40 anos; (2) conhecimento – representado pela percentagem de adultos analfabetos; (3) nível de vida – representado pela percentagem de pessoas com acesso a serviços de saúde, a água potável e de crianças subnutridas.
Em 2001, esse índice foi subdividido em IPH-1 e IPH-2, o primeiro voltado para países em desenvolvimento, notadamente da África, América Latina e Ásia, e o segundo voltado para os países membros da OCDE.
O conceito multidimensional é também passível de algumas críticas. Como se trata de um conceito dinâmico, uma vez que a percepção de seus múltiplos fatores variam no tempo e no espaço, torna-se muito difícil determinar quem pode, na atualidade, ser considerado como pobre, pois “[...] volatilidade das diversas carências, as flutuações dos modos de vida dos ‘pobres’, a imbricação dos estados de maior ou menor pobreza no tempo, no espaço e no corpo social, a diversidade dos estados qualificados de pobreza, segundo os períodos, os lugares e as pessoas implicadas” (SALAMA; DESTREMAU, 2001, p. 107).
Há também restrições quanto a aferição da “pobreza relativa”, uma vez que os indicadores usados pelos índices multidimentsionais aferem as condições de bem-estar apenas na perspectiva da “pobreza absoluta”, abstraindo ou negligenciando questões referentes a desigualdade e justiça social.
Apesar disso, a perspectiva multidimensional ao ampliar os horizontes de análise da questão permite uma melhor elaboração de políticas públicas visando combater ou atenuar as situações de indigência. Assim, ao ser analisada sob diversos prismas, seja quantitativo por meio da renda, seja qualitativo/seletivo por meio da aferição do atendimento das necessidades
categóricas em vez de apenas variáveis contínuas. Alguns exemplos são os índices P e M. (SILVA; LACERDA; NEDER, 2011, p.25)
78 O Índice de pobreza humana (IPH) foi dividido no Relatório do PNUD (2001) em IPH-1, destinado aos países
em desenvolvimento e o IPH-2, destinado aos países da OCDE. O IPH-1 “aborda as privações em três dimensões: longevidade, medida pela probabilidade à nascença de não ultrapassar os 40 anos; conhecimento, medido pela taxa de analfabetismo de adultos; e aprovisionamento econômico global, público e privado, medido pela percentagem de pessoas que não utilizam fontes de água melhoradas e pela percentagem de crianças menores de cinco anos com peso deficiente”. O IPH -2 “aborda a privação nas mesmas três dimensões que o IPH-1, e numa adicional, a exclusão social. Os indicadores são a probabilidade à nascença de não ultrapassar os 60 anos, a taxa de analfabetismo funcional dos adultos, a percentagem de pessoas que vivem abaixo da linha de privação de rendimento (com rendimento disponível das famílias inferior a 50% do valor médio) e a taxa de desemprego de longa duração (12 meses ou mais)” (PNUD, 2001).
básicas e/ou acesso à realização das capacidades, a visão multidimensional permite a identificação de diversas formas de manifestação do fenômeno.