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POBREZA: VISÕES OFICIAIS

No documento Poorism: a pobreza como atrativo turístico (páginas 30-36)

2 CONCEPÇÕES ACERCA DA POBREZA

2.1 POBREZA: VISÕES OFICIAIS

A pobreza é um fenômeno social que caracteriza o estado econômico no qual se encontra a maioria dos povos ou nações do mundo, ela não escolhe raça, sexo, país ou idade e, por tratar de um processo histórico que sempre existiu em todas as sociedades, suas causas são geralmente complexas e por isso, de difícil mensuração, variando de acordo com o conceito utilizado. (CRESPO E GUROVITZ, 2002).

Segundo Mattei (2009), a pobreza representa uma situação de escassez ou ausência que geralmente caracteriza-se pela privação de recursos, ou seja, de bens materiais ou imateriais, tais como: dinheiro, relações, influência, poder, qualificação profissional, estado de saúde, capacidade intelectual ou ainda como uma privação da condição de liberdade e dignidade.

De acordo com Santos (2007), na perspectiva da subsistência, o pobre é definido como o indivíduo cuja renda não é suficiente para obter o mínimo de alimentos necessários as suas necessidades básicas, essencialmente restringidas às necessidades físicas. Portanto, trata-se do indivíduo que se encontra desprovido dos direitos essenciais à vida em sua condição humana.

Segundo Barros et al. (2000), duas das possibilidades por meio das quais se podem decompor o grau de pobreza utilizadas no Brasil são: a renda per capita e o grau de desigualdade na distribuição de bens, sem deixar de citar a mensuração por meio do Produto Interno Bruto (PIB) per capita. Por exemplo, a análise anual do crescimento econômico do país e a distribuição de renda, apresentam-se como vias importantes na observação dos efeitos da pobreza.

31 Conforme observa Borges (2006), a pobreza é usualmente tratada como um problema, devido à complexidade de seus efeitos negativos, o que a torna uma ameaça à estabilidade e à sociedade, um desafio ao Estado, um empecilho para o crescimento e ao desenvolvimento humano, uma despesa a ser coberta por programas sociais.

No cenário mundial, a pobreza figura como um dos problemas mais antigos a acometer a humanidade e também, o mais duro de ser superado ou erradicado, tendo como característica o fato de uma minoria gozar de uma vida de extrema riqueza, enquanto que para a maioria das pessoas garantirem a sobrevivência ou simplesmente viverem com dignidade, torna-se um desafio diário.

A respeito do conceito de pobreza baseado na ausência de meios que possibilitem a sobrevivência humana, Crespo e Gurovitz observam que:

O enfoque de sobrevivência, o mais restritivo, predominou nos séculos XIX e XX, até a década de 50. Teve origem no trabalho de nutricionistas inglesas apontando que a renda dos mais pobres não era suficiente para a manutenção do rendimento físico do indivíduo. Essa concepção foi adotada na Inglaterra e exerceu grande influência em toda a Europa, sendo usada mais tarde pelo Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD) (2002 p. 4).

Nesse sentido, observa-se que por meio do enfoque da escassez de meios relacionados à sobrevivência, ocasionado em função da limitação da renda para a manutenção das necessidades básicas do indivíduo, foi possível delimitar uma forma de identificar aqueles que pertenceriam às classes pobres.

Para Codes (2008), existem as noções de pobreza absoluta, relativa e subjetiva. Ele argumenta que na primeira, ser pobre é ter menos do que um padrão de sobrevivência física; na segunda, é ter menos posses do que os demais membros da sociedade em que se vive, sendo que tal privação afeta questões de convívio social e depende do modo de vida da sociedade. Por fim, a terceira diz que cada indivíduo pode se autodenominar pobre, se sentir que não tem o suficiente para satisfazer as suas necessidades, nesse caso, funcionaria mais como uma forma de demonstrar como o indivíduo se enxerga no contexto social no qual está inserido.

32 De acordo com Santos (2007), a linha tradicional de pobreza está associada ao conceito de pobreza absoluta, a qual corresponde à ausência de atendimento no que diz respeito às necessidades mínimas vitais relativas à sobrevivência física do ser humano.

Acredita-se que a partir do capitalismo, a desigualdade tornou-se mais evidente na sociedade, o que fortalece a ideia de que a pobreza acentuou-se no século XVI com a dissolução do mundo feudal e o surgimento da ideologia capitalista, sendo responsável por fomentar as desigualdades entre as classes e assim, acentuando as diferenças sociais.

Por outro lado, a pobreza não pode ser vista, apenas, como uma limitação do indivíduo a seus recursos financeiros, pois, pobre também pode ser aquele desprovido de liberdade, do direito de decidir, do direito de ir e vir, de se sentir incluso e opinar nas questões sociais, sobretudo, opinar a respeito de sua própria vida.

Segundo Santos (2007), evidências empíricas têm demonstrado que nem sempre o aumento da renda está associado à melhoria do bem estar humano, demonstrando a subjetividade da pobreza, uma vez que os recursos monetários não são capazes de comprar tudo aquilo que propiciará felicidade.

Para Codes (2008), atualmente, o fenômeno da pobreza tende a ser percebido como uma questão multidimensional e complexa, que não somente diz respeito às situações em que as necessidades humanas não são suficientemente satisfeitas, mas nas quais também diferentes fatores estão interligados. Ele observa que o tema emergiu com maior força em outras partes da Europa e nos países em desenvolvimento no final do século XX, pois naquele período, ficou evidente que questões relacionadas às desigualdades sociais e à pobreza não estavam sendo equacionadas como frutos do crescimento econômico, tanto nos países ricos como nos pobres.

Todavia, com o decorrer do tempo, a preocupação com a pobreza ganhou centralidade nas pautas de governos nacionais e nos debates acadêmicos e sociais. Sua gravidade chamou a atenção das lideranças do mundo inteiro, que perceberam que para alcançar bons níveis de desenvolvimento social, seria preciso amenizar os efeitos da pobreza.

33 Em 2002, a Organização das Nações Unidas (ONU) em um de seus relatórios anuais observou a acentuação das disparidades sociais entre ricos e pobres no mundo. Foi constatado que a pobreza, a falta de saúde e as taxas de fecundidade são usualmente mais elevadas nos países mais pobres.

Observou-se que em nível mundial, as disparidades de renda e de acesso aos diversos recursos, haviam se acentuado. No mundo, a diferença entre o rendimento per capita dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres aumentou de 30 para 1, em 1960, para 78 para 1, em 1994.

De acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), o número de mulheres que vivem na pobreza é superior ao de homens, sendo que a disparidade entre os gêneros teve um aumento na última década. (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2002).

Consequentemente, essa condição, também as deixa vulneráveis a outras situações de insegurança, como, por exemplo, aos abusos sexuais. Nesse sentido, Crespo e Gurovitz explicam que:

A insegurança também está relacionada ao sentimento de vulnerabilidade. Relaciona-se ao mundo externo, ao indivíduo e à família: a exposição a choques, a situações de estresse e a riscos que aumentam a imprevisibilidade e a instabilidade. Ela também é a experiência da preocupação e do medo. Mesmo onde a pobreza diminuiu, a maioria das pessoas pobres diz que a vida tornou-se instável e incerta, particularmente como resultado do crime crescente, da violência e da corrupção. (2002 p. 10).

Além das mulheres, os mais afetados com os efeitos da pobreza e da segregação social, são as crianças, os incapacitados, os marginalizados e as etnias, os quais se tornam mais vulneráveis aos efeitos devastadores das múltiplas crises que impactam o mundo. Geralmente, eles são os mais atingidos por situações oriundas de guerras, desastres climáticos, crises financeiras, além da volatilidade nos preços da comida e energia.

De acordo com Borges (2006), as linhas de pobreza são construídas a partir de juízos de valor, refletindo os métodos adotados para a sua construção. Sendo assim, para medir a pobreza, geralmente utiliza-se o método das condições de vida, também chamado de necessidades básicas insatisfeitas.

34 Segundo Mattei (2009), baseando-se nas pesquisas feita pelo Banco Mundial em 2008, 1.4 bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, dentre essas pessoas, a maioria vive com menos de US$ 1,25/dia. Essa linha de pobreza deriva do cálculo do custo de uma determinada cesta de bens e serviços, resultando no método dos “custos das necessidades básicas”, além de fazer referência ao patamar estabelecido para verificar se indivíduos estão em situação de pobreza.

Mattei (2009) explica que esse valor foi restabelecido pelo Banco Mundial em 2008, quando o mesmo reconheceu que havia bem mais pobres no mundo, comparativamente aos números indicados pela linha de pobreza definida de acordo com os preços de 1993. Por isso, os indicadores da pobreza mundial foram calculados a partir de uma nova linha com base nos preços de 2005, que considerou o valor de US$ 1.25/dia.

Todavia, apesar de relevante, a renda, sozinha, não consegue captar as expressões da pobreza. Embora alguns países experimentem crescimento econômico nos últimos anos, nem sempre esse desenvolvimento vem acompanhado de melhorias em múltiplas áreas, como, por exemplo, na saúde pública e na educação. Além disso, é importante frisar que os próprios pobres descrevem sua experiência como de privação multidimensional e não apenas como uma ausência de recursos financeiros.

A Organização das Nações Unidas no Brasil (Programa das Nações Unidas, 2010) chama atenção em suas pesquisas para a existência de outras metodologias para o estudo da pobreza, como, por exemplo, o Índice de Pobreza Multidimensional (IPM). Esse índice aborda uma metodologia baseada em múltiplos critérios, indicadores, pesos e cortes, que permitem apropriações para atender às demandas de acordo com a realidade do território a ser estudado.

O índice publicado no Relatório de Desenvolvimento Humano (2010) analisa as dimensões da pobreza para além da questão puramente econômica, levando em conta as variáveis das privações de direitos sociais. Por meio dele, é possível identificar privações sociais em educação, saúde e padrão de vida dos domicílios. Sua concepção é baseada na ideia de que pobreza é uma expressão de várias privações sociais e não apenas de uma (renda, por exemplo).

35 A metodologia do Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) identifica os domicílios que sofrem várias privações, simultaneamente, e conforme o percentual de privações enfrentadas, esses domicílios são classificados como pobres. É por isso que esse índice é chamado de multidimensional, visto que os métodos tradicionais, em sua maioria, consideram apenas a renda como medida, ou seja, são metodologias unidimensionais.

Assim, é necessário compreender a relevância da pobreza como uma questão social, caracterizada como um fenômeno multifacetado. Nesse sentido, é preciso entender que o parâmetro da renda, por si só, não é capaz de expressá-la completamente.

Para a Organização das Nações Unidas (ONU, 2013), apenas o crescimento econômico não necessariamente gera o fim da pobreza, uma vez que as causas da mesma são muito complexas e vão muito além de fatores meramente econômicos. A respeito disso, são observados os exemplos dos países da América do Sul que, mesmo com economias que crescem a ritmo acelerado, ainda não foram capazes de retirar a maior parte de sua população da extrema pobreza.

A respeito da multidimensionalidade da pobreza, Narayan et al. (2000) comentam que apesar da falta de acesso à comida ser uma das características básicas para delimitá-la, a privação de poder, a ausência de voz ativa na sociedade, a dependência do Estado, a vergonha e a humilhação diária, também caracterizam a condição de vida do chamado pobre.

Crespo e Gurovitz (2002) salientam que essa privação de poder pode ser descrita como a incapacidade de autocontrole do indivíduo em relação ao que lhe acontece, em consequência da pobreza que lhe acomete.

De acordo com Narayan et al. (2000), os pobres raramente são ouvidos ou os seus interesses chamam a atenção da sociedade. Suas vozes são silenciadas pela minoria que detém o poder, consequentemente, tornando-os as maiores vítimas da corrupção. Os programas sociais, por exemplo, contribuem em uma porcentagem muito pequena, eles não são capazes de fazer com os que os pobres possam escapar da condição da pobreza.

Todavia, é importante comentar que no Brasil o número de pobres está diminuindo. Conforme dados divulgados no site do Programa das Nações Unidas

36 para o Desenvolvimento (2013) o Brasil já cumpriu o objetivo de reduzir pela metade o número de pessoas vivendo em extrema pobreza até 2015: de 25,6% da população em 1990 para 4,8% em 2008. Todavia, até 2008, 8,9 milhões de brasileiros ainda tinham renda domiciliar inferior a US$ 1,25 por dia. Isso significa que em relação ao crescimento populacional do país, em 2008, o número de pessoas vivendo em extrema pobreza era quase um quinto do observado em 1990 e pouco mais do que um terço do valor de 1995.

Finalmente, é preciso entender que as definições da pobreza e suas causas são complexas, variando de acordo com gênero, idade, cultura e outros contextos sociais e econômicos, não podendo ser definida de forma única e universal.

No documento Poorism: a pobreza como atrativo turístico (páginas 30-36)

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