As condições apresentadas por Dahl têm grande influência nas condições para o estabelecimento ou a manutenção de poliarquias, apesar de sua teoria da democracia ser um modelo ligado a questões procedimentais, não ignora questões substanciais como participação e fontes alternativas de informação, avançando a teoria da democracia mínima apresentada por Schumpeter.
Na década de 1990, Dahl (2001) revisitou sua teoria na obra
Sobre a democracia, atento às novas configurações políticas,
econômicas e sociais que se formaram no final do século. Novamente o autor distingue entre democracias ideais – com objetivos distantes da prática – e reais – as democracias existentes. Em termos ideais, o autor coloca como requisito indispensável para as democracias a exigência de que todos os indivíduos estejam igualmente capacitados a participar nas decisões políticas, propondo a plena inclusão na participação.
O corpo dos cidadãos num estado democraticamente governado deve incluir todas as pessoas sujeitas às leis desse estado, com exceção dos que estão de passagem e dos incapazes de cuidar de si mesmos. (DAHL, 2001, p. 92)
Para que os indivíduos sejam considerados politicamente iguais e estejam igualmente capacitados a participar das decisões políticas, são necessários cinco critérios que o autor aponta: a) participação efetiva – oportunidades iguais e efetivas para que todos conheçam as políticas oferecidas; b) igualdade de voto – oportunidades iguais e efetivas de votos, com todos os votos contados como iguais; c) entendimento esclarecido – oportunidades iguais e efetivas de conhecer as políticas alternativas; d) controle do programa de planejamento – os indivíduos devem ter a oportunidade de decidir quais as questões devem ser colocadas no planejamento; e) inclusão dos adultos – todos os residentes permanentes adultos deveriam ter o pleno direito de cidadãos (DAHL, 2001).
Para o autor o respeito aos critérios acima é que irão permitir um processo democrático que possibilite o exercício político em termos de igualdade, se uma das exigências for violada, os membros não serão politicamente iguais.
Em defesa da democracia, Dahl (2001) acredita que há pelo menos dez razões para escolhê-la em relação a qualquer outro regime político, uma vez que apresenta consequências desejáveis como: evitar a
tirania, garantir direitos essenciais, a liberdade geral, a
proteção dos interesses pessoais essenciais, a igualdade política, além de apresentarem como objetivos a busca pela paz e pela prosperidade.
Já em termos reais, ou seja, no sentido de arranjos, práticas ou instituições públicas que se aproximem dos critérios democráticos ideais, o autor aponta para os critérios necessários para estabelecer democracias em grande escala, como: a) funcionários eleitos; b) eleições livres, justas e frequentes; c) liberdade de expressão; d) fontes de informação diversificadas; e) autonomia para as associações; f) cidadania inclusiva (DAHL, 2001).
Mais uma vez, o autor chamará de poliarquias as democracias representativas contemporâneas que possuam os seis critérios democráticos já listados. Essas seis instituições aparecem de maneiras distintas e em graus variados nos Estados, relevando o grau de democratização do país. O conhecimento sobre as instituições poderiam ajudar a informar sobre quais critérios precisam ser reforçados, aprofundados e consolidados para realizar uma transição para a democracia em países não democráticos, ou consolidar instituições democráticas em países recentemente democratizados e nas democracias mais antigas, auxiliaria a pensar em como ultrapassar o nível existente de democracia73.
Na revisão de sua teoria, Dahl enfatiza dois elementos que não apareciam com o mesmo vigor em sua obra precedente: a igualdade política e a cidadania inclusiva, a participação ativa e ampla de todos os indivíduos aparecem como um processo de empoderamento dos cidadãos no processo político democrático74.
73
Alguns autores como Pipa Norris (1999) e, Nye Jr., Zelikow e King (2000) apontam que o grande problema que se coloca nas democracias atuais é o grau de desconfiança dos indivíduos no projeto democrático.
74
Para o autor, os interesses fundamentais das pessoas a quem são negadas as oportunidades de participar do governo, não são devidamente protegidos e promovidos pelos que governam. Assim, “[...] é que há enormes chances de que os interesses das pessoas privadas de voz igual no governo de um estado não recebam a mesma atenção que os interesses dos que têm uma voz. Se não tem essa voz, quem falará por você? Quem defenderá os seus interesses, se você não pode? E não se trata apenas dos seus interesses como indivíduo: se por acaso você faz parte de todo um grupo excluído da participação, como serão protegidos os interesses fundamentais desse grupo? [...] A mesma pergunta serviria para os escravos em repúblicas antigas e modernas, para as mulheres por toda a história até o século XX, para muitas pessoas
O princípio da ampla participação política com grau satisfatório de igualdade entre os indivíduos participantes desse processo se eleva como a pedra angular da teoria democrática de Dahl. O princípio da igualdade intrínseca – igual peso ao bem e interesses de todas as pessoas envolvidas nas decisões políticas – e a ampla participação – de todas as pessoas sujeitas às leis de um determinado governo – são as exigências mínimas para um governo democrático.
Ante todo o exposto, pode-se inferir que o liberalismo, por meio de suas revoluções, reivindicou os direitos do indivíduo contra o poder estatal e a sua participação na tomada das decisões políticas. Num primeiro momento dá-se a luta da razão e da natureza contra os poderes estabelecidos, é a luta pela não intervenção do Estado nas liberdades individuais, para depois exigir do Estado a participação efetiva, a liberdade positiva que proporciona efetivamente o exercício da democracia.
Ao longo dos séculos discutiu-se a ampliação da participação e a forma como ela deveria ser realizada. Pode-se dizer que as teorias
democráticas liberais em algum momento trouxeram como
características:
a) A exigência dos valores da liberdade e da igualdade75, a liberdade – nos sentidos da liberdade de expressão e realização dos direitos de cidadania, a igualdade – no sentido da equalização formal perante a lei.
b) O respeito ao Estado de direito – no sentido de obediência as leis e as regras do jogo democrático, como eleições periódicas, livres, justas e limpas, com sufrágio universal. c) O controle de abuso do poder – pela separação de poderes, pelo voto, pela periodicidade das eleições.
São, portanto, características que se apresentam em modelos de governos democráticos, notadamente, de concepção liberal.