rigorosa significação do nobilíssimo termo, um homem que, cons
cientemente, abdicou do seu individualismo intelectual nas máos
amantíssimas da Igreja Católica" (p. 9).
172 LÚCIA LWPI OLIVEIRA
o pensamento nacionalista de Jackson de Figueiredo já
foi diagnosticado:
Jackson de Figueiredo acredita, como Joseph de Maistre, nos "dogmas nacionais" , fruto de uma realidade nacional, de uma consciência nacional. Sem chegar ao extremo do nacionalismo integral de Maurras ou ao culto estetizante da nação, à maneira de Barres, o pensador brasileiro acredita na idéia de nação, na medida em que ela tem um passado comum, tradições, crenças, valores e mitos, figuras e fatos que venera. Tata-se de idéia comum entre os ideólogos da direita, como se vê sobretudo na França. Defendendo-a, Jackson de Figueiredo identifica o naciona lismo, aqui, com o passado católico, com uma tradição que vê ameaçada pelo protestantismo, pelo ianque , ou pe lo que chama de metequismo, de invasão da maçonaria e
do judaísmo do capitalismo internacional.
É
interessantelembrar que, além dessas ameaças ao nacionalismo brasi leiro ( . . . ) foi criar problema ante a ameaça do lusitano. ( . . . ) Em campanha pela imprensa, principalmente antes da conversão ao catolicismo ( . . . ) atacou o elemento luso
de certos setores no Brasil" (Iglésias,
1962,
p.42).
Em relação à questão da nação estamos ainda dentro da visão de Júlio Maria. Nossa pátria, nossas tradições caracteri zam o Brasil como "terra de Santa Cruz". Catolicismo e na cionalismo são aqui sinônimos. Todas as esferas de ação hu mana estão subordinadas à nacionalidade que está plantada so bre o catolicismo.
Podemos nos perguntar, para entender melhor o argumen
(O do discurso católico, o que diria este pensamento se o Bra
sil não tivesse sido colonizado por católicos. Ainda continua ria a defender a procura das bases tradicionais da pátria? Não
creio. O discurso, certamente, teria que apelar para outras fon
tes universais da experiência do catolicismo.
O que quero reafirmar é que o nacionalismo destes auto res decorria do fato de a pátria brasileira ser resultante da his
tória, entendida como plano de Deus.
É
este plano divino quehomogeiniza catolicismo e nacionalidade, favorecendo as coinci dências entre o discurso religioso, o nacionalista e o conservador.
Como já dissemos, o pensamento de Jackson de Figueire
TERRA DE SANTA CRUZ 173
o poVO, nascido católico, sofre ameaças advindas de outras elites, racionalistas, . leigas, estrangeiras.
A questão da singularjdade brasileira leva diferentes au tores a participar de um tema subjacente ao pensamento social e político da Primeira República: o confronto com os Estados
Unidos. Alceu Amoroso Lima, que a partir de
1928
se integrana militância católica, também dá sua contribuição a este de bate, atualizando a vertente de Eduardo Prado.
Participando do pensamento nacional-católico de Jackson de Figueiredo, Alceu procurou integrar catolicismo e moderni dade. Para ele, não haveria "incompatibilidade alguma entre a estrutura religiosa, sobre a qual deve assentar a nossa forma ção tocial COmO povo que ainda está em busca de si mesmo, e a criação de uma literatura e de uma arte impregnada de todo o movimento mais moderno de renovação dos espíritos" (Li ma,
1934,
p.283).
Não vamos aqui desenvolver as semelhanças e as diferen ças entre Alceu e Jackson em suas visáes sobre o mundo mo derno. Queremos apenas compreender o modo pelo qual o confronto com os Estados Unidos faz sua reentrada no pensamen to católico e fornece fundamentação ideológica para o combate ao estrangeiro.
Para Alceu Amoroso Lima, o mundo moderno não deve ser visto como uma luta entre civilização e cultura, mas coma o embate entre dois tipos de civilização. Haveria duas moderni dades em jogo. Uma, buscada pelo autor, tem a ver com a re novação espiritual do mundo. A outra, por ele recusada, está construída sobre o pragmatismo, nova face do materialismo.
"Se o século XIX foi, entre nós, o século da França e da Inglaterra, parece que o século XX se anuncia como o sé
culo dos Estados Unidos e da Rússia" (p.
197).
Estes são ospólos de atração sobre os homens que crêem no progresso da humanidade. A sedução pelos Estados Unidos é enorme, "faz se pelo automóvel, faz-se pelo cinema, sobretudo" .
A experiência norte-americana, todavia, deve ser observa da com atenção. Os Estados Unidos viviam um processo de reforço de sua personalidade coletiva, o que devia ser imitado. Assim como eles repudiaram a civilização de origem latina, da qual fazemos parte, devíamos fazer o mesmo, repudiando os não-latinos. Quais seriam as distinçóes entre as civilizações norte e sul-americanas? ' "A civilização norte-americana
174
LÚCIA LlPPI OLIVEIRAassenta hoje em dia em dois cultos SOCiaIS: a
grande proprie,
dade
e aassociação.
A civilização sul-americana e, portanto, a civilização brasileira, assenta (. . . ) e deve assentar por orientação em dois cultos sociais diversos: a
pequena propriedade
e afamília"
(p.204).
Estes dois elementos constituem ideãrios de uma civilização de base católica distinta da civilização de base protestante. Nesta, a grande propriedade garante a eficiência, o crescimento da produção, o que faz o homem perder o cen tro familiar para se integrar nas associações.Atualizando a perspectiva de Eduardo Prado e a singulari
dade da civilização católica, Alceu afmna que o Brasil deveria
compreender sua própria tradição moral, religiosa e social, em tudo distinta da norte-americana.
Assim, a afinnação do nacionalismo no discurso católico tem características muito particulares. O nacionalismo é o cami
nho específico, natural e divino do Brasil na trajetória da cris
tandade, caminho este que foi muitas vezes ameaçado pelas idéias e prãticas racionalistas, liberais, agnósticas e céticas das elites brasileira�, influenciadas por doutrinas originãrias de ou tros contextos. A Igreja cabia a vigilância, a cruzada restauradora.
9. Apogeu e declínio da
República das Letras
no Rio de Janeiro
o pensamento brasileiro dos anos
20,
preocupado em reflerir sobre a nação, discutiu uma questão central que pode ser sintetizada no combate à imitação. Ponte dos males que afli giam a nação, o "vício da imitação" nos impedia de construir uma identidade nacional - assim pensavam muitos intelectuais da época.
As condições naturais do território e das raças - valoriza das pelo ufanismo - não eram mais suficientes para garantir uma auto-interpretação positiva do ser nacional. Da mesma forma como era importante libertar o corpo das doenças que o atacavam, a mente deveria se libertar dos males que a manti nham atrasada.
Os anos
20
foram férteis em balanços, em retratos doBrasil, nos quais eram elaborados os diagnósticos sobre o "atra
so" brasileiro. Em
1922,
comemorou-se um século da constituição política do país como nação independente, o que propi ciou um momento de avaliação não só do passado e do pre sente, como também das perspectivas para o futuro. Por ter reunido manifestaçóes que expressavam as diferentes vertentes
da vida político-cultural do país, o ano de
1922
tem sidoapontado como data simbólica deste movimento em que predo minaram os balanços e as propostas de renovação.
Um exempl!1 significativo do balanço de idéias então rea
lizado é o livro
A margem da história da República
l, coletâneade artigos de diferentes autores publicada em
1924.
A perspecti176 LÚCIA LIPPI OLIVEIRA