2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.8. A lenha como combustível
2.8.2. Poder calorífico
É a quantidade de energia por unidade de massa que se desprende durante a combustão completa do combustível. Define-se poder calorífico superior (PCS), quando a água proveniente da combustão é considerada na forma líquida e poder calorífico inferior (PCI) quando a água proveniente da combustão é considerada na forma de vapor (SÁNCHEZ, 2005). O PCI é obtido a partir do PCS e utilizado nos cálculos de combustão, onde é subtraído o custo energético para a evaporação da água (o que ocorre com a queima direta da madeira ao ar livre).
O carbono e o hidrogênio são os elementos que mais contribuem para o poder calorífico dos combustíveis. Já a água, encontrada nos combustíveis diminui o poder calorífico dos mesmos, pelo fato de aumentar a energia necessária à pré-ignição e diminuir o calor liberado pela combustão (LOPES et al., 2001; SÁNCHEZ, 2005).
No Quadro 4 encontra-se o PCS de alguns combustíveis sólidos. Quadro 04: Poder calorífico da biomassa, em kJ.kg-1 (base seca)
Biomassa Poder calorífico superior (PCS) (kJ.kg-1)
Pinus1 20.020
Eucalipto1 19.420
Eucalipto2 18.420
Carvão2 30.900
Fonte: 1 = Jenkins (1990), LORA et al. (1997); 2 = LOPES (2002).
O valor do poder calorífico refere-se a determinada quantidade de energia liberada durante a combustão completa de uma unidade de massa ou de volume de um combustível. Esta energia é normalmente expressa em kJ.kg-1. Como exemplo dos combustíveis gasosos, WANDER (2001) cita que o PCI do gás liquefeito de petróleo (GLP), de um modo geral, é de aproximadamente 45.000 kJ.kg-1.
Segundo LOPES (2002), o poder calorífico superior é medido experimentalmente em calorímetro, entretanto, na ausência deste, pode-se estimar com boa aproximação o PCS a partir da composição elementar do combustível, na base seca, e da entalpia de reação dos elementos combustíveis com o oxigênio, utilizando-se a fórmula de Dulong (equação 5).
S 9.238 + ) 8 O - H ( 141.744 + C 33.774 = PCS 2 2 (5) em que
PCS = poder calorífico superior, kJ.kg-1
combustível seco;
C = fração de carbono do combustível, kg.kg-1
combustível seco;
H2 = fração de hidrogênio do combustível, kg.kg-1combustível seco;
O2 = fração de oxigênio do combustível, kg.kg-1combustível seco; e
S = fração de enxofre do combustível, kg.kg-1
combustível seco.
O poder calorífico inferior do combustível seco (PCI) é determinado analiticamente a partir da equação 6 (BAZZO, 1995 e CHANDRA e PAYNE, 1986), subtraindo-se do PCS a entalpia de vaporização da água devido ao vapor d'água formado na reação do hidrogênio com o oxigênio.
(
9 H)
h - PCS = PCI v 2 (6) em quePCI = poder calorífico inferior, kJ.kg-1combustível seco;
hv = entalpia de vaporização da água, kJ.kg-1 de água na
temperatura de referência de 25ºC, equivalente a 2.440; e
9H2 = fração de hidrogênio do combustível, kg.kg-1combustível seco.
Levando-se em consideração cálculos referentes à avaliação da eficiência térmica, com base no combustível úmido, o poder calorífico inferior deve ser corrigido para a composição elementar na base úmida (PCIu) considerando ainda a umidade presente no combustível, de acordo com a equação 7 (CAMARGO, 1990).
] U + ) U - (1 H 9 [ h - ) U - (1 PCS = PCIu bu v 2 bu bu (7) em que
PCIu = poder calorífico inferior úmido, kJ.kg-1combustível úmido.
2.8.3. Granulometria
A granulometria fornece as frações das dimensões características que compõem a biomassa. A análise granulométrica da amostra de partículas sólidas é feita classicamente por meio da utilização de um conjunto de peneiras padronizadas (SÁNCHEZ, 2004b), cuja função principal é a determinação do diâmetro das partículas.
2.8.4. Massa específica
É a massa do produto para um determinado volume incluindo os espaços vazios entre a lenha. Esta é variável devido aos espaços vazios contidos no volume do recipiente. Pode ser calculado segundo a norma da NBR 6.922 da ABNT (1981), utilizando-se uma caixa de dimensão conhecida (0,6 m x 0,6 m x 0,6 m) por meio da equação 8.
c c b + c b V M - M = Me (8) em que
Meb = massa específica da lenha, kg.m-3;
Mc+b = massa da caixa + lenha, kg;
Mc = massa da caixa, kg; e
Vc = volume da caixa (0,216), m3.
2.8.5. Ar estequiométrico ou teórico
O ar necessário, na quantidade exata, para proporcionar a combustão completa de carbono, hidrogênio, enxofre e de outros elementos presentes no combustível que possam se oxidar é denominado “ar teórico” ou estequiométrico (LOPES, 2002).
Ar estequiométrico é a quantidade de ar teoricamente necessária para a combustão total de um quilograma de combustível e se calcula a partir das reações de combustão dos elementos que o compõem (reações estequiométricas). Estas reações estequiométricas de combustão são as reações dos componentes elementares do combustível com o oxigênio (LORA e HAPP, 1997).
A determinação da quantidade mínima de oxigênio necessário e suficiente para oxidar completamente os elementos combustíveis é feita com base na análise elementar do combustível. Para um combustível isento de umidade e constituído por carbono, hidrogênio, oxigênio e enxofre, as equações químicas de reação estequiométrica entre estes elementos e o oxigênio conduzem a equação 9, que permite determinar a massa teórica do oxigênio necessário à combustão (PERA, 1990).
S + O - H 8 + C 12 32 = m 2 2 ts 2 O (9) em que ts 2 O
m = massa teórica de oxigênio, kg.kg-1combustível seco.
Como na prática o combustível apresenta certo teor de água, é comum expressar o consumo de oxigênio e de ar comburente por quilograma de combustível úmido, conforme a equação 10.
(
bu)
ts 2 O tu 2 O =m 1-U m (10) em que tu 2 Om = massa teórica de oxigênio, kg.kg-1
combustível úmido.
Segundo (SÁNCHEZ, 2004c), a maioria dos processos industriais de combustão utiliza o ar ambiente como fonte de fornecimento de oxigênio para a combustão, sendo que a sua composição volumétrica corresponde a 21 % de oxigênio e 79 % de nitrogênio.
A massa teórica de ar seco necessário para a combustão pode ser calculada por meio da equação 11.
ts 2 O ts ar.seco 23 m 100 = m (11) em que ts seco ar.
m = massa teórica de ar comburente seco, kg.kg-1combustível seco.
O consumo estequiométrico de ar comburente seco, por quilograma de combustível úmido pode ser obtido por meio da equação 12.
tu 2 O tu ar.seco 23 m 100 = m (12) em que tu seco ar.
m = massa teórica de ar comburente seco, kg.kg-1combustível úmido.
Como na composição do ar úmido existe vapor d'água, o consumo de ar teórico úmido, por unidade de combustível úmido, pode ser calculado por meio da equação 13.
(
1+W)
m = m tu ar.seco tu ar.úmido (13) em que tu úmido ar.m = massa teórica de ar comburente úmido, kg.kg-1combustível úmido;
e
W = razão de mistura do ar úmido, kg vapor d'água.kg-1ar seco.
2.9. Fornalhas
Fornalha é um dispositivo ou local onde ocorre a queima de um combustível, ou seja, onde a energia química potencial do combustível transforma-se em energia térmica (OLIVEIRA FILHO, 1986). Segundo FERREIRA (2004), as fornalhas são estruturas projetadas como objetivo de possibilitar a queima de combustíveis sólidos, líquidos ou gasosos por meio da combustão completa, garantindo o máximo de rendimento térmico.
As fornalhas são compostas de muitos elementos, e apesar de apresentarem características muito semelhantes, variam muito quanto a
forma, tamanho, localização de entradas de ar utilizado como comburente, e fluxo (descendente ou ascendente).
Normalmente as fornalhas são compostas de câmara de combustão, grelha, aberturas de entrada, aberturas de saída e cinzeiro.
Existem dois tipos básicos de fornalhas, uma para aquecimento direto do ar, conhecida como “fornalha de fogo direto”, e outra para aquecimento indireto do ar, conhecida como “fornalha de fogo indireto” (FERREIRA et al. 2006), sendo que o aproveitamento do gás da combustão varia conforme as necessidades de uso do ar quente gerado (LOPES, 2002).
Além do tipo de aquecimento do ar, outro fator que diferencia as fornalhas é a eficiência térmica, sendo maior nas fornalhas de fogo direto.
A eficiência térmica representa a relação entre a quantidade de energia térmica liberada pela fornalha em relação à quantidade total de energia térmica existente no combustível antes da combustão, na forma de energia química, que poderia ser liberada se a combustão fosse completa (FERREIRA, 2004).
A eficiência térmica para fornalhas de fogo direto e fluxo descendente que utilizam lenha como combustível, segundo GOMES (1988), varia entre os valores de 44,4 a 83,0%, em função do excesso de ar comburente na câmara de combustão.
SAGLIETTI (1991), encontrou eficiência energética média de 28% para fornalhas de fogo indireto a lenha. Já como uso de palha de café, usando o mesmo tipo de fornalha, VALARELLI (1991), encontrou eficiência energética de 54%.
O rendimento dessas fornalhas são menores, em relação as de fogo direto, pelas perdas de calor pela chaminé e trocador de calor.
De acordo com OLIVEIRA (1996), as fornalhas de fogo indireto destacam-se pelo fato de não contaminar o ar aquecido que será utilizado, por exemplo, para aquecimento de galpões ou na secagem de produtos agrícolas.
O contrário ocorre com as fornalhas de fogo direto, onde o gás resultante da combustão pode tornar-se indesejável nos casos em o processo de combustão seja incompleto, gerando compostos contaminantes (quando a queima não acontece com oxigênio suficiente).
2.10. Gaseificação de biomassa
2.10.1. Fundamentos
A gaseificação é definida como a conversão da biomassa, ou de qualquer combustível sólido, em gás energético, através da oxidação parcial a temperaturas elevadas. Esta conversão pode ser realizada em vários tipos de reatores, tais como de leito fixo e de leito fluidizado (LORA et al., 1997).
Segundo LORA, citado por SANTOS (2003), a quantidade de oxigênio fornecida ao sistema para que ocorra a gaseificação deve ser na ordem de 20 a 40% da necessidade estequiométrica. Este valor é conhecido como fator de ar, coeficiente estequiométrico, razão de equivalência ou taxa de equivalência. Assim, pode-se afirmar que a gaseificação difere-se basicamente da combustão pelo fato de não utilizar a massa de ar teórica necessária para a oxidação completa do combustível, ou seja, restringe-se a entrada de ar a certos valores de tal modo que ocorram além de reações de oxidação (completa e parcial), reações de redução, promovendo a formação do gás combustível, de amplo uso.
2.10.2. Usos
Dentre as pesquisas recentes sobre a utilização da gaseificação de biomassa, pode-se citar SANTOS (2003) e SILVA et al. (2000) onde foram testados gaseificadores de biomassa acoplados a combustores do gás produzido a fim de disponibilizar ar quente e limpo para a secagem de produtos agrícolas. Utilizando-se lenha de eucalipto com combustível, MARTIN (2005) e VIEIRA (2005) testaram um gaseificador de biomassa de fluxo concorrente associado a um combustor do gás produzido para aquecimento de ar para secagem de produtos agrícolas e outros fins, utilizando apenas lenha de eucalipto e lenha de eucalipto associada a briquetes, respectivamente. WANDER (2001) estudou a geração de energia elétrica com o uso do gás produzido em um motor de combustão interna a partir da utilização de resíduos de madeira e lenha.
2.10.3. Vantagens da gaseificação
A utilização de reatores para gaseificação de biomassa acoplados a combustores do gás produzido para aquecimento de galpões avícolas, baseia-se na hipótese desta tecnologia poder representar ao avicultor redução no custo de produção, comparativamente aos sistemas tradicionais de aquecimento de galpões avícolas. Isto tudo aliando-se a eficiência energética dos gaseificadores com o custo do combustível utilizado, podendo assim gerar ar quente para as aves.
Convém salientar que, as fornalhas de fogo indireto usualmente utilizadas para aquecimento de aviários, produzem ar quente próprio para tal isento de impurezas e odores. Todavia, apresentam baixa eficiência térmica e, muitas vezes, danos térmicos às grelhas e aos trocadores de calor, o que acaba onerando os custos de produção. Já os aquecedores a gás apresentam a desvantagem de apresentar um custo muito elevado, sendo assim utilizados por poucos produtores ou em situações estritamente necessárias.
2.10.4. Combustível
Diversos são os tipos de biomassa que podem ser utilizadas no processo de gaseificação. A exemplo, pode-se citar a lenha, o carvão vegetal, resíduos florestais, resíduos agrícolas, bagaço de cana e casca de arroz (CEMIG, 1986). Convém salientar que, segundo MENDES et al. (1998), em gaseificadores de fluxo concorrente só é possível gaseificar materiais com até 30% de umidade, uma vez que o excesso de água prejudica a qualidade do gás, tornando instável a zona de combustão.