2.1 Do espaço ao território: as noções que substantivam a abordagem territorial
2.1.1 Poder e classes sociais na dinâmica do Estado Integral
Se a disputa de territórios que demarca o movimento da questão agrária em São Gabriel é delineada por relações de poder, pelo conflito de classe, pela mediação do Estado, trata-se de esclarecer conceitualmente essas três noções para posteriormente discutir de que maneira se manifestam no campo dos conflitos agrários. Como ponto de partida para essa reflexão aborda-se a problemática do poder na perspectiva genealógica19 de Foucault (2008), de onde se abstraem três aspectos: o poder como relação social, o papel positivo do poder, a presença do poder em diversas instâncias da vida social.
Com relação ao primeiro aspecto, Foucault (2008, p.175) afirma que “o poder não se dá, não se troca, nem se retoma, mas se exerce, só existe em ação”. Ele é visto como uma “relação de força”. No que diz respeito ao segundo aspecto, Foucault (2008) considera que o poder não pode ser reduzido às relações de repressão.
Quando se define os efeitos do poder pela repressão, tem-se uma concepção puramente jurídica deste mesmo poder; identifica-se o poder a uma lei que diz não. O fundamental seria a força da proibição. Ora, creio ser esta uma noção negativa, estreita e esquelética do poder que curiosamente todo mundo aceitou. Se o poder fosse somente repressivo, se não fizesse outra coisa a não ser dizer não você acredita que seria obedecido? O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. (FOUCAULT, 2008, p. 8)
O terceiro aspecto diz respeito ao poder constituir “uma rede produtiva que atravessa todo corpo social, muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir” (FOUCAULT, 2008, p.8). De acordo com Machado (2008) o interessante da análise é justamente que os poderes não estão localizados em nenhum ponto específico da estrutura social, mas funcionam como uma rede de dispositivos ou mecanismos a que nada nem ninguém escapam. Questão que demonstra a posição pós-estruturalista da filosofia de Foucault (2008).
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Para Foucault (2008, p. 171) a genealogia é “o acoplamento do conhecimento com as memórias locais, que permite a constituição de um saber histórico das lutas e a utilização deste saber nas táticas atuais. [...] Não é um empirismo nem um positivismo, no sentido habitual do termo, que permeiam o projeto genealógico. Trata-se de ativar saberes locais, descontínuos, desqualificados, não legitimados, contra a instância teórica unitária que pretende depurá-los, hierarquizá-los, ordená-los em nome de um conhecimento verdadeiro, em nome dos direitos de uma ciência detida por alguns.
Ao incorporar esses aspectos da genealogia do poder de Foucault (2008), compreende- se que a referida abordagem é importante, sobretudo para se perceber a existência de micro- poderes intrínsecos ao que Foucault (2008) denomina de corpo social. Através dessa abordagem também se reconhece, segundo Machado (2008), uma autonomia relativa da periferia com relação ao centro em virtude de considerar que as transformações ao nível capilar, minúsculo do poder, não estão necessariamente ligadas às mudanças ocorridas no âmbito dos aparelhos de Estado.
Entretanto, compreende-se essa visão como ponto de partida para situar o poder enquanto relação social, à dimensão das relações entre as classes sociais. Neste aspecto são incorporados elementos da perspectiva de Poulantzas (1977), que reconhece o poder como inerente às relações entre as classes sociais, relações que são marcadas pela luta e que levam a dominação e subordinação.
Nessa visão, o poder é “a capacidade de uma classe social de realizar seus interesses objetivos específicos” (Poulantzas, 1977, p.100), sejam estes econômicos, políticos ou ideológicos. Ainda se considera a existência de centros de poder, pois “este poder das classes sociais está organizado, no seu exercício, em instituições específicas, em centros de poder” (POULANTZAS, p.111). Eis o ponto divergente da análise, em outra obra Poulantzas (1980 p.49) apesar de reconhecer que “as relações de poder não englobam completamente as relações de classe e podem ultrapassar as relações de classe”, estabelece uma crítica à visão foucaultiana por essa privilegiar uma concepção que dilui e dispersa o poder em incontáveis micro-situações, subestimando consideravelmente a importância das classes e das lutas de classe, bem como o papel do Estado enquanto centro de exercício do político (POULANTZAS, 1980).
Entretanto, um aspecto convergente entre as duas abordagens é justamente a compreensão do poder enquanto relação social, bem como as suas diversas formas de ação. Se Foucault (2008) enfatiza o poder disciplinar, que age sobre o corpo social, formando os indivíduos e que incide diretamente na construção dos saberes, Poulantzas (1977, 1980) adere à concepção relacional de poder analisando-o ao nível das contradições de classe em suas dimensões econômica, política e ideológica.
Essa elaboração conduz a reflexão ao pensamento de Antônio Gramsci (1929-1935) na medida em que este procurou trabalhar os processos e relações culturais que se desencadeiam no plano das superestruturas, enquanto elementos importantes da formação de uma vontade coletiva, que representa, na sua visão, a formação de uma classe social. Para Gramsci (1987a) a ideologia é concebida enquanto uma visão de mundo que se manifesta implicitamente na
arte, no direito, na atividade econômica, e em todas as manifestações da vida individual e coletiva. Desta forma, as diferentes classes produzem diferentes visões de mundo e para que sua visão torne-se dominante fazem uso de dois elementos, o consenso e a força.
É em torno dessas relações que se estrutura o Estado que, para Gramsci (1968, p. 87), “é todo o complexo de atividades práticas e teóricas com as quais a classe dirigente justifica e mantém, não só seu domínio, mas consegue obter o consentimento ativo dos governados”. Portanto, nesta perspectiva teórica, o conceito de Estado é definido em um sentido integral, o qual abrange a sociedade política e a sociedade civil. Segundo Glucksmann (1980), a sociedade política representa o Estado em um sentido estreito, como aparelho de ditadura de classe, na medida em que possui funções coercitivas. A dominação se estabelece através do aparelho de Estado em seu sentido clássico (exército, polícia, administração, burocracia). Já a sociedade civil representa os meios de difusão da cultura, os meios de direção intelectual e moral das classes sociais. Na sociedade civil vigora a hegemonia, enquanto capacidade de direção de classe através da produção do consenso ativo ou passivo entre governantes e governados (GRASMCI, 1968).
Por sua vez, Bourdieu (2005) identifica uma dimensão simbólica na luta de classes ao afirmar que
[...] as diferentes classes e fracções de classe estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo de forma transfigurada o campo das posições sociais. (BOURDIEU, 2005 p.11)
Essa luta simbólica contribui para a criação de hierarquias e distinções entre as classes sociais. No Estado integral, de acordo com Gramsci (1968), a sociedade política e a sociedade civil estão articuladas em maior ou menor grau a depender das características das formações econômico-sociais. A materialidade da sociedade civil se manifesta nos aparelhos privados de hegemonia, enquanto a materialidade da sociedade política situa-se nos aparato burocrático do Estado. É a partir da dinâmica contraditória das classes sociais, na esfera da sociedade civil, que se identifica a formação dos movimentos sociais, pois,
[...] embora as pessoas se encontrem, de saída, numa estrutura já de maneira determinada, a constituição das classes depende da experiência das condições dadas, o que implica tratar tais condições no quadro das significações culturais que as impregnam. E é a elaboração dessas experiências que se identificam interesses, constituindo-se então coletividades políticas, sujeitos coletivos, movimentos sociais. (Certamente, na medida em que sem tais movimentos constituem um agente ativo na
formação social, mesmo aquela estrutura “já dada” é também, produzida pelas interações e lutas de classe) (SADER, 1988, p.45)
Dessa forma, os movimentos sociais configuram-se como “processos sociopolíticos e culturais da sociedade civil, num universo de forças sociais em conflito” (GOHN, 2004, p. 245). Nos movimentos sociais, segundo Gohn (2004), os atores desenvolvem ações coletivas que possuem um sentido de luta social. Observa-se, assim, que na definição de movimentos sociais surgem duas categorias novas: atores sociais e luta social. A categoria ator social não se contrapõe à classe social, uma vez que “todo ator pertence a uma classe social. Mas, os atores muitas vezes se envolvem em frentes de luta que não dizem respeito, prioritariamente, as problemáticas de classe social” (GOHN, 2004, p. 249). Daí emerge a centralidade da categoria luta social, que não se contrapõe a categoria luta de classes, mas que, no processo de organização de um movimento social, pode expressar ou não esta dimensão, a depender da composição do movimento e do caráter de suas reivindicações. Neste aspecto, também não se pode negar a imbricação entre o aspecto social e político das lutas protagonizadas pelos movimentos sociais, pois, como já enunciava Marx (1846/2007, p.155), “não se diga que o movimento social exclui o movimento político. Não haverá nunca movimento político que não seja ao mesmo tempo social”.
Ainda cabe destacar o papel do Estado enquanto instituição na dinâmica dos conflitos entre forças sociais divergentes, que representam as classes e movimentos sociais. Neste ponto, Poulantzas (1980 p.16) afirma que “não se pode falar de uma natureza de classe, mas de uma utilização de classe do Estado”.
Compreender o Estado como condensação de uma relação de força entre classes e frações de classe tais como elas se expressam, sempre de maneira específica, no seio do Estado, significa que o Estado é constituído-dividido de lado a lado pelas contradições de classe. Isso significa que uma instituição, o Estado, destinado a reproduzir as divisões de classe, não é, não pode ser jamais, como nas concepções do Estado-Coisa ou Sujeito, um bloco monolítico sem fissuras, cuja política se instaura de qualquer maneira a despeito de suas contradições, mas ele é mesmo divido. Não basta simplesmente dizer que as contradições e as lutas atravessam o Estado, como se se tratasse de manifestar uma substância já constituída ou de percorrer um terreno vazio. As contradições de classe constituem o Estado, presentes na sua ossatura material, e armam assim sua organização: a política do Estado é o efeito de seu funcionamento no seio do Estado. (POULANTZAS, 1980 p.152)
Dessa maneira, torna-se possível reconhecer o estabelecimento de uma política de Estado como resultado das contradições de classe. O que torna evidente o papel das políticas públicas
enquanto instrumento de mediação de interesses, em uma sociedade divida em classes sociais.
2.2 A formação do campo dos conflitos agrários em São Gabriel: agentes, concepções,