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MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO:

2.3 O PODER NO CONTEXTO MILITAR

Na sociedade humana, a palavra “poder” é utilizada de formas diversas para expressar dominação, autoridade, superioridade. Quando tratamos o poder nas organizações, neste estudo, é imprescindível trazer para nossa pesquisa a reflexão de Max Weber (1991, p. 175):

Toda ordem jurídica (não só a “estatal”), por sua configuração, influencia diretamente a distribuição do poder dentro da comunidade em questão, tanto do poder econômico quanto de qualquer outro. Por “poder” entendemos, aqui, genericamente, a probabilidade de uma pessoa ou várias impor, numa ação social, a vontade própria, mesmo contra a oposição de outros participantes desta.

Poder é justamente a capacidade que possuem os indivíduos e grupos sociais de modificar o comportamento de outro indivíduo ou de outros grupos sociais. E ele está presente em todas as relações sociais, pois não é um fenômeno individual, sua característica

fundamental é a capacidade que tem um indivíduo ou um grupo social de afetar o comportamento dos outros, portanto, é um fenômeno social.

No entanto, poder não significa necessariamente dominação. Segundo Max Weber, nem toda ação social caracteriza-se como dominação, e a dominação nada mais é do que um tipo especial de poder. O autor lista numerosos tipos possíveis de dominação, mas destaca dois tipos radicalmente opostos:

Por um lado, a dominação em virtude de uma constelação de interesses (especialmente em virtude de uma situação de monopólio), e, por outro, a dominação em virtude de autoridade (poder de mando e dever de obediência). O tipo mais puro da primeira é a dominação monopolizadora no mercado, e, da última, o poder do chefe de família, da autoridade administrativa ou do príncipe (WEBER, 1991, p. 188).

No caso em estudo, trata-se da dominação em virtude de autoridade. Quando o poder é exercido por uma autoridade, pode ser considerado legítimo. Trata-se de uma forma de dominação racional, pois foi aceita pela sociedade, ou melhor, aceita em virtude da posição ocupada pela autoridade na cadeia de comando, estando o exercício da autoridade vinculado ao tempo de ocupação do cargo para o qual foi nomeada. O domínio legal fundamenta-se na validade dos regulamentos estabelecidos e na legitimidade do chefe amparado pela lei. A obediência não é a uma pessoa, mas à regra (OLIVEIRA, 2015, p. 5).

Mas o poder pode ser, ainda, transmitido à autoridade de forma tradicional (com base na crença, nas normas e tradições sagradas às quais as pessoas obedecem em virtude da tradição, não há necessidade de legislação, a obediência à autoridade é devida à tradição e aos costumes) ou carismática (com base nas qualidades pessoais excepcionais do indivíduo – um líder, ao qual se obedece em função do carisma). Como bem define Weber (1991, p. 324), “o portador do carisma assume as tarefas que considera adequadas e exige obediência e adesão em virtude de sua missão”.

Nos quartéis, o poder manifesta-se muitas vezes pela combinação de dois componentes: a força e a autoridade. É o caso das prisões feitas por policiais. Nesse caso, está presente a figura da autoridade policial com a aplicação da força coercitiva na execução da prisão.

Mas o poder pode manifestar-se por meio da influência, que é a habilidade para afetar as decisões e ações dos outros, mesmo não se possuindo autoridade ou força para assim proceder. Pode-se considerar influente aquela pessoa que, mesmo sem ocupar um cargo público ou privado, e mesmo sem utilizar nenhuma forma de coerção física, modifica o comportamento de outra pessoa, de acordo com sua vontade. É o poder essencialmente

considerado como “a habilidade de um indivíduo para induzir ou influenciar outro a seguir suas directrizes ou quaisquer outras normas por ele apoiadas” (ETZIONI, 1974, p. 32).

Essa situação está ligada, muitas vezes, ao poder econômico, à posse de meios materiais ou até mesmo de informações privilegiadas, ou ao acesso a essas informações. Manipulam-se opiniões em troca de favores; dessa forma, adquirem-se maiores parcelas de poder, devido à habilidade de manipulação do que se possui. Exemplo disso são as trocas de interesses que hoje constituem uma manifestação de poder massacrante em nossa sociedade.

Na estrutura de funcionamento das organizações, a questão do poder é fundamental, pois se trata de um sistema de relações sociais difundidas numa hierarquização, vinculadas à posição ocupada na cadeia de comando. Como uma das características do poder é a capacidade que possuem os indivíduos de modificar o comportamento de outro ou de outros, podemos representar a hierarquia do poder na figura de uma pirâmide. O fluxo de comandos dentro da organização é vertical, unidirecional e descendente; já o fluxo de execução dos comandos na base da pirâmide é horizontal. Explica Moura (2009, p. 95):

O conhecimento e as informações relevantes para o funcionamento das organizações com essa estrutura piramidal de poder era concentrado no topo, diluído e desidratado em seu conteúdo estratégico à medida que sai da cúpula para a base que deve executar as ordens. O indivíduo da base da pirâmide não precisa e não deve conhecer as razões que originaram a ordem e nem os objetivos gerais que a orientam. Deve ter conhecimentos elementares, parciais, parcos e suficientes para a execução repetitiva de tarefas sincronizadas com outros integrantes de seu nível de estrutura hierárquica da organização.

Portanto, na pirâmide de poder da organização militar, prevalece o poder institucional, que está diretamente ligado à graduação ou ao posto militar que o integrante da organização possui. Existe um sistema organizado de mando e de subordinação. O mando é vertical e descendente, a forma hierárquica estabelece que, no topo da pirâmide, há uma só pessoa, e os estratos subsequentes decaem de poder até alcançar a base, onde estão os membros de execução.

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