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O PODER DA ESCRITORA QUE ORA: STORMIE OMARTIAN E SUAS

No primeiro capítulo, discutimos a influência da tradição no cristianismo e as tecnologias de gênero construídas na longa duração. Essa tradição se faz presente na atualidade com uma roupagem estruturada em novas estratégias de divulgação por parte das lideranças evangélicas. Também destacamos que as estratégias das religiões no tempo presente são inúmeras, e as mídias digitais têm se colocado como uma das principais formas por meio das quais igrejas e segmentos religiosos mantém seu lugar de fala em uma sociedade onde a religião não mais possui a hegemonia de antes. As lideranças analisadas encontram historicamente a base de sustentação de seus discursos acerca das relações de gênero e sexualidade na moral e na tradição, de modo que o casamento e a família são considerados como os principais canais da propagação desse sistema moral.

A busca dessa premissa normativa é analisada nas práticas discursivas da escritora cristã Stormie Omartian. Essa personagem, por meio de seu discurso, traçou práticas e representações do comportamento feminino, da família e da sexualidade para os grupos evangélicos em sua obra. Nesse movimento, os textos presentes em inúmeros livros da autora, assim como suas postagens em mídias sociais entre os anos de 2000 e 2017, são os objetos centrais de um exercício de pesquisa. Por ora, apresentamos a escritora cristã americana, sua biografia, seu processo de conversão, a construção de sua retórica discursiva, bem como as temáticas abordadas pela religiosa em seus livros de autoajuda e aconselhamento. Também analisamos as mídias da escritora e como essas são utilizadas para divulgar mensagens.

O discurso de Omartian encontra-se estruturado em sua experiência intelectual/religiosa de profunda leitura das Sagradas Escrituras, método pelo qual seu processo de conversão ocorreu. Dessa maneira, percebe-se que Stormie é fortemente vinculada à tradição cristã de sexualidade e relações de gênero. Muitos de seus aconselhamentos remetem-nos à tradição ascética e estóica do início da era cristã, bem como aos escritos de um dos principais teólogos do cristianismo, Santo Agostinho.

Em uma das principais obras de Agostinho, Confissões, a sexualidade foi apresentada como algo pregresso quanto aos seus excessos. Dessa forma o filósofo

cristão apresenta sua própria trajetória na juventude como algo que deveria ser evitado. Agostinho esteve entregue aos prazeres da carne, pois durante esse tempo obteve satisfação sexual com muitas mulheres. Todo esse processo mudou profundamente após a sua conversão e Agostinho passou a condenar seu passado em prol de uma vida casta, voltada à oração e a satisfação intelectual.133

Segundo Peter Brown, quando era Bispo de Hipona, no ano de 405, já convertido e estabelecido como autoridade eclesiástica, passou a defender posturas bastante austeras em relação às permissividades morais. Nesse momento, reforçou a autoridade institucional familiar e religiosa:

[...] por volta de 405, Agostinho admitiu que o Estado Romano poderia fazer valer a sua força e de suas leis para reunir as congregações donatistas à Igreja sob a ameaça de punição. Ao fazê-lo Agostinho defendeu a visão de que as estruturas de autoridade que davam coesão à sociedade leiga poderiam ser convocadas para dar apoio à religião. Imperadores deveriam comandar seus súditos, senhores de terra seus lavradores, e os chefes de família suas mulheres e filhos a fim de trazê-los de volta para a unidade da Igreja.134

A questão da autoridade é bastante visível em Agostinho na fase final de sua vida. A partir de seus escritos, denota-se que a família recebe destaque nesse processo, mais especificamente a autoridade masculina sobre a mulher e os filhos. Era o início da consolidação de uma tradição no cristianismo, que por séculos contribuiria com a construção de relações sólidas no que tange a moral e costumes. Uma curiosidade importante na biografia de Santo Agostinho é que sua conversão foi muito influenciada por sua mãe, Santa Mônica, algo que a Igreja Católica institucionalizada soube utilizar para reforçar o papel da mulher no “árduo” trabalho de desviar a família dos males e tentações do mundo. Essa característica do papel feminino na família até hoje é comumente explorada e reiterada nos manuais de aconselhamento e nos discursos de lideranças religiosas. Tal “papel feminino” é reforçado nos livros em que Stormie Omartian discute a relação entre pais e filhos, bem como a função das mães em relação à educação e formação dos rebentos, desviando-os das tentações do mundo.

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133 PESSANHA, José Américo Motta. Vida e Obra de Santo Agostinho. In: SANTO AGOSTINHO.

Confissões. Tradução de J. Oliveira dos Santos e Ambrósio de Pina. São Paulo : Editora Nova

Cultural, 2004, pp. 5-30

O discurso de Omartian pode ser analisado também por meio do ganho, pois, ao negar as práticas “mundanas” e silenciar a carne, a mulher cristã ganharia em virtude, em contemplação espiritual e em reconhecimento nas esferas de poder dominantes. Lideranças evangélicas, ao exemplo de Stormie, sabem fazer isso muito bem, ao defender pontos de vista conservadores no que concerne aos papéis de gênero. Em consequência, a escritora ganha muitos admiradores, pois boa parte de seus leitores e seguidores compartilham desse pensamento. Afinal, tratam-se de valores morais que no imaginário religioso acerca do corpus social feminino possibilitam a conquista de reconhecimento e respeito.

Por essa via, podemos analisar o gênero não somente como corpo e da sexualidade, mas também como uma forma de pensamento, de visões de mundo, de linguagens de filosofias, é a uma das chaves de interpretação da realidade135, uma das formas pelas quais as sociedades são constituídas. Gênero constitui a socialização e as interações entre os sujeitos, e pela via religiosa é possível analisarmos como essas interações constituíram-se historicamente dentro de uma premissa normatizadora.

Desde o início do cristianismo, as normatizações se constituíram pela via das relações de gênero. Contudo, pela bibliografia consultada nota-se que a “hipótese repressiva” da sexualidade atribuída ao cristianismo não foi uma característica essencial da religião, pois trata-se de um elemento que já se encontrava presente nas culturas a partir das quais o cristianismo se consolidou, ou seja, na cultura judaica e greco-romana. Uta Ranke Heinemann afirma que:

[...] não é verdade que o cristianismo construiu o autocontrole e o ascetismo se comparado ao mundo pagão que se deliciava com os prazeres e com o corpo, pelo contrário, a hostilidade ao prazer e ao corpo é um legado da antiguidade, que foi preservado até hoje no cristianismo. Os cristãos não ensinaram os pagãos, licenciosos e dissolutos a odiarem o prazer, e a se controlarem. Foram os pagãos que tiveram que reconhecer que os cristãos eram tão adiantados quanto eles próprios.136

Para Heinemann, o pessimismo sexual da Antiguidade não deriva da mesma forma que no cristianismo, por meio do pecado original, da problemática da carne, mas, sobretudo das considerações médicas e filosóficas. No século IV a.C., _______________

135 SILVA, Ariana Kelly Leandra. Diversidade sexual e de gênero: a construção do sujeito social.

Revista NUFEN. v.5, n.1, p. 12-25, 2013.

136 HEINEMANN, Uta Ranke. Eunucos Pelo Reino de Deus. Mulheres, Sexualidade e Igreja Católica. Tradução de Paulo Froes. Rio de Janeiro. Editora Record, 1996, p.29-30

pensadores como Pitágoras afirmavam que o sexo era importante no inverno, mas deveria ser evitado no verão, enquanto Diógenes Laércio considerava o sexo um sinônimo de enfraquecimento do corpo. Nesse período, o ato sexual foi apresentado como perigoso quando fora do controle137.

A primeira parte da abordagem de Uta Ranke Heinemann elenca justamente a contribuição dessas culturas para o cristianismo dos primeiros séculos, no qual uma base teológico-filosófica assentou-se sobre a carne com base em estruturas culturais vigentes. Essa discussão também encontra-se presente no segundo e terceiro volumes da História da Sexualidade, de Michel Foucault. Nessas obras, o filósofo buscou ouvir as vozes da Antiguidade justamente nos dois primeiros séculos da nossa era, sendo que nesse momento a sexualidade foi julgada com uma severidade bastante significativa.138

Conforme as discussões de Foucault, podemos citar os filósofos estóicos como pensadores que condenavam o prazer no sexo extraconjugal, e também exigiam a fidelidade dos cônjuges. Os estóicos também condenaram as relações entre pessoas do mesmo sexo, que passaram a ser vistas de forma menos positiva que antes. Durante os dois primeiros séculos cristãos, o casamento foi fortalecido e as relações sexuais válidas foram as existentes somente dentro do matrimônio.139

Muito embora a maioria dos filósofos gregos anteriores à era cristã enxergassem o prazer de forma positiva e como parte de um ideal humano de vida, os estóicos, a partir do século I, mudaram totalmente essa perspectiva, pois rejeitaram a procura do prazer. O efeito dessa virada filosófica foi o aprisionamento da sexualidade no casamento, contudo, o prazer carnal por si só tornou-se cada vez mais suspeito e a virgindade cada vez mais valorizada noinício do cristianismo.140

Para além da filosofia estóica do século I, Peter Brown apresenta movimentos religiosos como o ascetismo nos séculos II ao IV, que pode ser classificado como parte de uma tendência pedagógica pela contenção dos prazeres terrenos. O ascetismo tinha como meta a contemplação espiritual, ou seja, o ideal religioso desse movimento não estaria nesse mundo e sim na vida eterna, logo os prazeres _______________

137 Ibidem.

138 FOUCAULT, Michel. A História da Sexualidade Vol. 2. O Uso dos Prazeres. Tradução de Maria Theresa da Costa Albuquerque. 12ªed. Rio de Janeiro: Graal, 2007.

139 FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade Vol. 3. O cuidado de si. Tradução de Maria Theresa da Costa Albuquerque. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

terrenos deveriam ser deixados de lado. Todo esse processo obteve uma significativa influência na teologia cristã, pois, para Brown, fugir do mundo e suas tentações se colocou como uma norma para os ascetas:

[...] fugir do mundo era trocar uma estrutura social precisa por uma alternativa igualmente precisa, e igualmente social. O deserto era um contramundo, um lugar onde podia crescer uma cidade alternativa. Assim Pacômio, o fundador dos primeiros grandes mosteiros do Egito, que morreu em 346 pode criar uma cadeia de “desertos”, feitos pelo homem em meio aos povoados rurais miseráveis do Médio Nilo. [...] entre os monges os problemas da tentação sexual eram vistos na maioria das vezes, em termos da imensa antítese entre o “deserto” e o “mundo”. A tentação sexual era frequentemente tratada de maneira descuidada, apresentada como se não passasse de um impulso, em direção às mulheres, ao matrimônio e por conseguinte a um recrutamento fatídico através do casamento para as estruturas das terras povoadas. [...] mudando-se para o deserto o asceta mobilizava sua pessoa física como um todo; e na imagem da pessoa que era corrente nos círculos ascéticos, o alimento e a interminável batalha com a dor do jejum tinha muito mais importância do que o impulso sexual.141

O ascetismo foi uma filosofia que buscou uma vida voltada às práticas de desenvolvimento espiritual, pois muitas vezes essas buscaram refrear os prazeres com austeridade. Os defensores dessas práticas defendiam-nas como virtuosas e necessárias para atingir um elevado nível de crescimento espiritual. Pensadores como Gregório de Nissa, João Crisóstomo, João Clímaco, entre outros, buscaram viver, constituir e defender um ideal de vida ascética.

Esses filósofos foram considerados parte dos primeiros padres da Igreja, contribuindo para a constituição da teologia cristã. Por meio deles, o ideal de virtude, de uma vida regrada e de controle dos impulsos foram defendidos como necessários para a vivência da fé. Assim, o ascetismo influenciou parcialmente a vida dos primeiros cristãos e a problemática cristã da carne. Embora esse ideal não tenha sido hegemônico no pensamento cristão, ele afirmou a penitência e produziu um modo novo de relação do sujeito consigo mesmo: a direção da consciência, o exame de si, a busca pelos erros que estão escondidos, a operação de levar a luz até o lugar mais escuro de si, a constituição de si como objeto de investigação e discurso.142

_______________ 141 BROWN, op. cit., p.185

142 DIAS, Diego Madi. FOUCAULT, Michel. 2018. Histoire de la sexualité IV: Les aveux de la chair. Sex, Salud Soc. (Rio J.) n. 28, 2018

Michel Foucault argumenta que o sistema de códigos morais apresentados nos primeiros séculos do cristianismo, e que perpassa os padres ascetas do século II e chega aos escritos de Santo Agostinho no século IV, são códigos teológicos que reforçam as interdições em relação às práticas sexuais. Para entender essas mudanças, o filósofo estuda, nos capítulos II e III do quarto volume da História da

Sexualidade, como os rituais cristãos instituídos pela Igreja Primitiva, tais como o

batismo e as penitências, e as primeiras experiências monásticas, construíram a maneira pela qual os cristãos passaram a encarar os prazeres. Essa situação teve forte impulso através da renúncia de si, o reforço das práticas confessionais e a projeção no interior de cada cristão de um exame de suas práticas143.

Todas essas influências, principalmente voltadas à renúncia do prazer, são visíveis nos escritos de Stormie Omartian. A renúncia de si em prol da espiritualidade encontra-se presente de forma significativa nos seus aconselhamentos para mulheres. Nessa lógica, a espiritualidade cristã é colocada como uma sabedoria para a condução da família e do matrimônio na concepção da escritora. O espaço da família é um lugar sagrado, e nesse lugar, a normatização das relações de gênero devem se conduzir dentro de uma profunda naturalidade. Nesse espaço gendrado, que constitui o discurso da religiosa, permeiam ações femininas, e essas propiciam às mulheres um protagonismo, pois, ao liderarem o lar em sua conduta moral, essas mulheres teriam a possibilidade de também exercerem poder e influência, o que se realizaria sobretudo por meio da maternidade e casamento.

3.1 - STORMIE OMARTIAN: BIOGRAFIA, VIDA E OBRA.

Quando os historiadores buscam trabalhar com sujeitos e trajetórias pessoais, é de suma importância a compreensão das características e peculiaridades de um trajeto biográfico. As circunstâncias em que as biografias e autobiografias são escritas levam consigo intenções do biografado, pois ao escrevê-la é comum o destaque a determinadas características que constroem essas trajetórias pessoais.

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143 FOUCAULT, Michel. Histoire de la sexualité: Vol. 4. Les aveux de la chair. Paris: Gallimard, 2017.

Em linhas gerais, a escrita biográfica busca construir uma unidade e uma coerência na vida do biografado, e os sentidos de suas ações e práticas.

Essas observações são perceptíveis na escritora cristã Stormie Omartian, cuja história é relatada no livro Uma história de perdão e cura, publicado no Brasil pela editora Mundo Cristão no ano de 2007144. Nesse texto, Stormie Omartian escreve sua própria trajetória e enfatiza o antes e depois de sua conversão. A escritora aponta as tintas de seu passado como um exemplo a não ser seguido pelo público leitor, pois, segundo ela, sua juventude se caracterizou por um estilo de vida indesejável, em contraponto ao seu presente, no qual a contemplação da vida religiosa, casta e solene se fez como o “caminho verdadeiro”.

Sabina Loriga afirma que todos os historiadores que trabalham minimamente com fontes biográficas e autobiográficas precisam compreender o quanto é frustrante buscar uma sequência linear para trabalhar a trajetória do sujeito pesquisado. Para a historiadora italiana, os estudos concernentes à trajetórias de vida devem levar em consideração a multiplicidade de experiências sociais do sujeito analisado.145 Neste caso, a biografia de Omartian nos possibilita uma mescla de detalhes e uma riqueza de análises, visto que sua trajetória passa por inúmeros momentos até o alcance de seu objetivo final na narrativa, isto é, mostrar ao leitor a contemplação de sua vida após um processo de conversão ao cristianismo evangélico. Trata-se de uma estratégia utilizada para reafirmar necessidades e vantagens de uma vida perpassada pela experiência religiosa em que os vícios são eliminados, e a castidade é posta como uma meta a ser atingida para o alcance da verdadeira felicidade.

Stormie Omartian nasceu em Brentwood, Tennessee nos Estados Unidos em 1953. Em sua página na internet146 ela relata que, antes de tornar-se conhecida no mundo por seus best-sellers cristãos, vivia “uma vida no avesso”, ou seja, longe da palavra de Deus, a qual atualmente credita seu trabalho cotidiano. Quando criança, Omartian sofreu com a violência doméstica e os castigos constantes de sua mãe, _______________

144 Título original da obra: Stormie: A Story of forgiveness and healing. Harvest House Publishers: Oregon, 1998.

145 LORIGA, Sabina. A biografia como problema. In: REVEL, Jacques (Org.). Jogos de escala: a experiência da microanálise. Tradução de Dora Rocha. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp.226-227

146Site de Stormie Omartian. Disponível em<https://www.stormieomartian.com/> Acesso em: 03/04/19

categorizada retrospectivamente pela escritora como “doente mental”. Em suas memórias, descreve seu pai como o “provedor” da família, sustentando-a com seu trabalho árduo, e, em consequência disso, sem tempo para ela e seus irmãos, mantendo assim uma relação distante com os filhos em casa.

Os detalhes de sua vida pregressa são relatados em sua autobiografia, Uma

história de perdão e cura, que contém ao todo 17 capítulos, e possui 237 páginas.

Neste livro, Stormie faz um exercício que é comum entre as lideranças religiosas, pois coloca o testemunho de conversão em destaque, compara a vida de antes e depois, e busca construir uma narrativa convincente sobre o bem de converter-se à fé cristã. Contudo, o excesso em relação à vida mundana muitas vezes está presente como uma estratégia discursiva para convencer o leitor dos perigos existentes nos caminhos traçados fora da religião.

A partir da trajetória biográfica de Stormie Omartian, é possível analisar sua experiência de conversão à luz do que Michel de Certeau147 compreende por estratégia. Para o historiador francês, a estratégia tem o papel de postular um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e, podemos compará-la a uma base em que os sujeitos podem gerir suas relações buscando atingir exterioridades contidas em alvos e ameaças. No caso de Omartian e da religião seguida por ela, essas ameaças estariam no mundo secular e tudo o que ele representa, e os alvos a serem atingidos são seus leitores, principalmente aqueles que ainda não fazem parte do universo simbólico da religião.

Essa estratégia torna-se nítida por meio da busca do convencimento pelas palavras, em especial no discurso de Stormie acerca de sua trajetória de conversão. Os leitores atentos à narrativa facilmente identificam o apelo colocado pela autora quando ela defende uma vida contemplada pela religião e as benesses que essa pode propiciar ao sujeito. Stormie esforça-se para construir um discurso estratégico ancorado em condutas opostas: um modelo indesejável antes de sua conversão, e um exemplo virtuoso a ser seguido após converter-se.

Nesse sentido, sua autobiografia também pode ser considerada um texto de aconselhamento, pois emite ao leitor mensagens curtas e diretas sobre o que viria a ser uma vida regrada e ao mesmo tempo desregrada. Omartian transporta o leitor _______________

147 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano vol. I. As artes de fazer: Tradução de Ephraim Ferreira Alves. 19ªed. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 93.

para a sua história pessoal de forma surpreendente, incitando-o a construir um pequeno filme mental sobre a vida da biografada, algo que transcorre aos olhos do espectador a cada passagem relatada.

Benito Schmidt aponta que, ao analisar as trajetórias biográficas, uma questão importante a ser levada em consideração é que os historiadores devem entender a própria concepção do indivíduo biografado, ou seja, como ele se vê como sujeito na construção de sua trajetória? O indivíduo é fruto de inúmeras práticas discursivas e não-discursivas que constroem trajetos e formas de identificação consigo mesmo. Ao compreender essa faceta ao analisar a história de vida de determinados indivíduos, o historiador pode construir uma narrativa biográfica rica, segura e coerente148.

Já Pierre Bourdieu149 faz uma profunda crítica sobre os historiadores que

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