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Diagrama 1 Estrutura funcional das empresas criminais

10 AS ARMAS DE FOGO

10.3 PODER DE FOGO, TIPOS DE ARMAS E REPUTAÇÃO

A utilização de armas de fogo para execuções foi relatada como a preferida por todos os entrevistados, pelo fato de causar lesões graves e letais. Ela faz com que o risco de reação da vítima diminua e reduz o tempo de interação entre vítima e agressor. (MATTHEWS, 2002) Esse tipo de utilização contribui para reforçar a organização, a reputação dos integrantes e aumentar o sentimento de masculinidade e virilidade, comumente relacionado ao poder nos contextos de pobreza e vulnerabilidade. (ZALUAR, 1985)

Aí vem a arma, você fica mais ainda [excitado], dá uma adrenalina... Aí vem a coisa de disputa, você tem que se proteger, não pode dar bobeira. Arma é fácil demais... Eles vêm mostrar, outros trazem, chega a você. Eu sei que tem outras, mas eu usava revólver sempre. Aí, não vou mentir não, tive que fazer [matar]... Senão era a minha [morte]... Se eu não fizer, vai ser a minha... (EMERSON, 22 anos, vendedor, Ilha de Itaparica)

O entrevistado fala do poder e da excitação provocados pelas armas de fogo, que potencializam a sensação de risco iminente ou adrenalina, característica de algumas atividades criminosas, da banalização do uso de armas e das mortes, como se fossem inevitáveis e esperadas. Além disso, ele atuava numa região onde o tráfico era bastante fragmentado e pouco capitalizado, sendo usadas apenas armas de pequeno porte, como revólveres velhos e armas artesanais. Nesses casos, muitos se mostram envergonhados, como se pertencessem a um grupo inferior, sempre menosprezando o tipo de arma que possuem, apenas um revólver, e não um fuzil.

Embora os tipos de armamento difiram entre os grupos, em ambos, erros de manejo ou exibição das armas podem ser fatais, contribuindo para uma reputação negativa e levando a uma cascata de problemas irreversíveis.

Hoje em dia, vagabundo anda com fuzil no peito, saco de droga na mão, no meio de criança correndo pra lá e pra cá, vendo isso... A comunidade não gosta não. Vai gostar de ver seu filho, seu neto, no meio daquilo? Aí qualquer coisa, isso aí atrai pessoas, todo mundo sabe que ali vende drogas, então não vá se meter lá... Então não precisa mostrar arma, fazer um baseado desse tamanho [grande] e ficar fumando na porta das mães de família. E tem uns que, quando reclamam, até mandam pra aquele lugar, dá com a mão [usa gestos e palavras obscenas]... Isso nunca acaba bem, doutora, nunca! Acaba tudo morrendo, criando problema... (SANDRO, 45 anos, dono de boca, Salvador)

O comportamento público francamente desrespeitoso, ameaçador e beligerante acumula ressentimentos e faz com que a comunidade passe a rejeitar o grupo e a criar situações difíceis para os envolvidos, como denúncias anônimas, contatos com policiais de outras corporações e pedidos de intervenção policial. Nesse sentido, percebe-se que as armas

ajudam a construir a reputação dos indivíduos e são cedidas com a observância de aspectos que minimizem perdas, danos e riscos para a organização.

Como é que a gente vai colocar um fuzil na mão de qualquer um, doutora? Não pode! É caro demais! Depois faz uma besteira... Revólver não. É pra segurança dele, aí dá, mas uma mais cara, uma ponto 40 [pistola]? Aí é um perigo... Dispara pra valer, aí o problema tá criado e não tem volta. (ENZO, 31 anos, Chefe, Salvador)

As armas são disponibilizadas segundo critérios, como autocontrole, risco de perda da arma, de munição, exposição desnecessária, ou seja, situações que podem significar mais problemas para a organização. Entretanto o porte de armas geralmente adquiridas com o dinheiro dos próprios operadores, para defesa pessoal, é permitido pelas organizações. Eles são cobrados pelo mau uso, mas não pelo porte e pelo uso devido.

Embora a letalidade das armas de fogo seja conhecida, os relatos em relação ao uso de armas mais baratas, como revólveres 38 e 22, sempre as consideravam como armas bobas, fracas, enquanto os depoimentos acerca de fuzis, pistolas e submetralhadoras enfatizavam que essas eram “armas de verdade”.

Eu nunca botei a mão num fuzil, nem pistola, eu nem sei como usa isso. Eu usava uma pequena, era só um 38 [fala sorrindo, como se não tivesse importância] e nem era novo. Eu comprei na mão do cara lá que leva pra feira. Era só pra me proteger, no caso de alguém tentar contra minha vida, querer levar o que é meu, eu não ia deixar. (OLAVO, 28 anos, vendedor, Salvador)

A diferenciação entre os tipos de armas foi bastante utilizada para minimizar a própria periculosidade, o envolvimento com as organizações, causar melhor impressão à pesquisadora, e também serviu como uma forma de mostrar a distinção entra a figura do traficante e a do vendedor, pois o primeiro porta armamento mais pesado, e os demais usam armas mais simples.

Diferentemente dos achados de Zaluar (1985), que aborda o tráfico de drogas em um bairro popular da cidade do Rio de Janeiro, onde os envolvidos não eram bem vindos às agremiações da escola de samba, porque portavam armas e poderiam criar problemas, hoje vemos que, mesmo com as armas, eles ocupam cada vez mais espaços, chegando a financiar eventos sociais e festivos. O tráfico movimenta a economia local em diversos setores, dando respostas imediatas às questões da população, acumulando poder, tornando-se peça-chave e construindo uma autoridade muitas vezes mais respeitada do que a do poder público.

Outras questões dizem respeito à existência de armamentos pesados, como lançadores de granadas, e armas capazes de derrubar aviões, apreendidos durante incursões da policia, o

que aponta para uma corrida armamentista que visa a demonstrar supremacia bélica e inibir ataques de grupos rivais. Os armamentos possuem um forte componente simbólico de poder, e sua simples presença provoca medo e intimidação, mesmo que as chances de uso sejam mínimas. Isso também pode funcionar de modo reverso e despertar a cobiça e o desejo de posse, e as armas podem ser tomadas à custa das mortes dos integrantes. A aquisição desse tipo de armamento pode ser uma estratégia dos mercados ilegais de venda casada, que consiste na negociação de vários tipos de produtos para reduzir o estoque e o preço de outras mercadorias de maior demanda, como fuzis, pistolas, quando compradas em conjunto.