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Ao trazer a discussão dos estudos feministas, somos capazes de perceber que, apesar de todas as lutas, há ainda uma forte pressão do poder patriarcal em nossa sociedade. Fomos criadas dentro de uma cultura opressora, em que aos homens é dado o direito ao espaço público, enquanto a mulher deve ficar reservada ao espaço privado. Ao sair do espaço privado, por necessidade do sistema econômico capitalista, a mulher deve aceitar os cargos de menor prestígio, aquele que os homens não pretendem assumir ou, em funções iguais, receber menos.

Ao analisar os dados estatísticos de gênero, é possível observar que, apesar de sermos maioria populacional, as desigualdades referentes a gênero e raça são muito evidentes. Laís Abramo (2007) salienta que essas desigualdades devem ser consideradas nos processos de formulação, implementação e avaliação das políticas públicas em geral, e, em particular, das políticas de emprego, inclusão social e redução da pobreza.

Então, discutir a questão da mulher e as diferenças de gênero é pensar, inevitavelmente, em relações de poder. Para Ana Alice Costa (2000), esses problemas relacionados ao poder são as principais barreiras para projetos de desenvolvimento. E esses problemas não se referem exclusivamente a hierarquia funcional ou às esferas de decisão. Fazem parte do cotidiano do trabalho, nas relações entre os técnicos, entre técnicos e a comunidade e dentro da própria comunidade.

[...] a sociedade através de suas instituições (aparelhos ideológicos), da cultura, das crenças e tradições, do sistema educacional, das leis civis, da divisão sexual e social do trabalho, constroem mulheres e homens como sujeitos bipolares, opostos e assimétricos: masculino e feminino envolvidos em uma relação de domínio e subjugação. (COSTA, 2000, p.38).

Ao discutir, analisar ou implementar uma política pública cultural, no caso específico deste trabalho, é necessário pensar em mecanismos e formas de diminuir as desigualdades existentes entre homens e mulheres, ou seja, de dar maior poder às mulheres (empoderá-las).

Parece-nos então, impossível falar de uma política pública, que pretende dar poderes à sociedade, como é o caso da PNCV, que estamos discutindo, sem levar em consideração a existência de poderes que impedem o pleno exercício das atividades da mulher nesse contexto, em especial, as mulheres em cargos de liderança. Com isso, iremos discutir nesse trabalho os conceitos de

empoderamento, mas especialmente no que diz respeito ao empoderamento feminino, compreendendo-o, como uma das principais categorias de análise desta pesquisa.

Empoderar, segundo o dicionário Aurélio, significa “dar ou adquirir poder ou mais poder”. Apesar de encontrarmos diversos significados para o termo, o fato é que a ele está inevitavelmente associada a questão do poder. E, quando falamos em poder, estamos necessariamente falando em relações. Não existe relação de poder estabelecida de uma pessoa apenas.

Para Marcela Lagarde (apud COSTA, 2010), o poder é a capacidade de decidir sobre a sua própria vida, mas também na vida do outro. Para ela, quem exerce o poder se coloca no direito de decidir sobre castigos, bens materiais ou simbólicos e, dessa posição, domina, julga, sentencia e perdoa, acumulando e reproduzindo esse poder. Sendo assim, é necessário compreender que empoderar, não está relacionado apenas com uma pessoa tendo poder sobre ela mesma, mas em reconhecer o poder que exerce sobre os outros e é exercido por ela. Retomando o trabalho de Paulo Freire, não é possível empoderar, sem antes conscientizar.

Naila Kabeer (1997), por exemplo, afirma que as relações de poder são mantidas porque os vários atores envolvidos nesta relação (sejam eles os dominadores como os dominados), acabam por “aceitar” as versões da realidade social de forma a negar a existência de desigualdades.

Em um dos trechos de seu livro “A Pedagogia da Esperança”, Paulo Freire (1997), em que o autor relata a sua primeira experiência na sala de aula na Zona da Mata em Pernambuco. E no diálogo que ele apresenta, demonstra como, numa conversa com a classe a respeito de conhecimento, os alunos começam a perceber que as diferenças nas oportunidades que eles tinham em relação ao professor não ocorreram porque Deus quis, como assim inicialmente justificaram, mas sim seus patrões. E, com isso, a relação de poder existente anteriormente acaba sendo percebida através da consciência de classe.

Da mesma forma que Ana Cristina Casali Cruz (2008, p. 14), entendemos que o “Empoderamento é o mecanismo pelo qual as pessoas, as organizações, as comunidades tomam controle de seus próprios assuntos, de sua própria vida, de seu destino, tomam consciência da sua habilidade e competência para produzir e criar e gerir”.

Segundo Ana Alice Costa (2000), o uso do termo “empoderamento” começou a ser usado pelas feministas ainda nos anos setenta, significando “a alteração radical dos processos e estruturas

que reduzem a posição de subordinada das mulheres como gênero”. Sendo assim, as mulheres tornam-se empoderadas a partir de ações coletivas e de mudanças individuais.

Cecília Sadenberg (2006) aponta que:

Para nós, feministas, o empoderamento de mulheres, é o processo da conquista da autonomia, da auto-determinanação. E trata-se, para nós, ao mesmo tempo, de um instrumento/meio e um fim em si próprio. O empoderamento das mulheres implica, para nós, na libertação das mulheres das amarras da opressão de gênero, da opressão patriarcal.

Para a autora, no caso das latino-americanas, o maior objetivo para o empoderamento das mulheres é questionar, desestabilizar e, por fim, acabar com o a ordem patriarcal que sustenta a opressão de gênero. Ela argumenta que isso não significa um interesse em acabar com a pobreza, com as guerras etc. Mas que, para nós, “empoderar” é destruir a ordem patriarcal vigente nas sociedades contemporâneas, para que possamos assumir controle sobre “nossos corpos, nossas vidas” (grifos da autora).

Nesse caso, é importante destacar que as relações de gênero devem estar baseadas na busca pela “igualdade entre”, pois ela se apresenta de maneira recíproca e se constitui de forma horizontal entre indivíduos do mesmo nível. Isso é diferente da “igualdade para”, que adota um sentido único e sugere hierarquias ou relações verticais (DEERE e LEÓN, 2002). Então, podemos entender que uma condição prévia para que exista a “igualdade entre”, é o processo de empoderamento, já que é através dele que se pode pensar em uma igualdade com resultados concretos, que vai além da igualdade formal (direitos).

Assim, não podemos pensar em políticas culturais, como no caso desta tese, que não se destaque uma busca pelo empoderamento das mulheres, pois sem isso, não haverá igualdade de gênero e sem essa igualdade, não podemos falar em justiça, nem cidadania ou equidade social. Nesse aspecto apresentamos o quadro proposto por Munique de Oliveira e Temes Parente (2017), onde estas apresentam alguns fatores internos e externos, que podem inibir ou impulsionar o empoderamento das mulheres, tomando por base o trabalho de Emma Zapata Martelo (2003):

Quadro 4 – Fatores Inibidores e Impulsionadores do Empoderamento das Mulheres

Fatores Inibidores Fatores Impulsionadores

Responsabilidade doméstica Poupança suficiente e renda

Opressão Redes de relações sociais

Dependência econômica Desenvolvimento do conhecimento

Falta de apoio Informação

Falta de formação Confiança e autoestima

Falta de uma participação maior Reforço das competências Desenvolvimento de liderança Fonte: OLIVEIRA, PARENTE (2017, p. 15)

Com base neste Quadro, é possível identificar que, nesta caminhada por se sentirem empoderadas, as mulheres artesãs podem apresentar, a partir do relato de suas experiências, diversos fatores que podem contribuir (impulsionar) ou dificultar (inibir) esse processo. Sendo assim, buscaremos compreender o empoderamento não apenas a partir apenas do tomar consciência de si, mas também com os usos que se faz a respeito dessa tomada de consciência e, ao mesmo tempo, faremos essa análise a partir da política pública cultural que, em seu discurso, tem o objetivo de empoderar essas organizações aprovadas pelos editais. Acreditamos que isso só é possível a partir do conhecimento do espaço social em que esta organização atua, bem como o conhecimento dos diversos agentes que compõem o seu funcionamento.

Além disso, destacamos também a proposta de Katiane Oliveira (2017), baseada em Cristina Bruschini, quando elabora a Figura 1, em que são dispostas as fases do empoderamento feminino a partir de sua participação em pequenos grupos com demandas coletivas, que pode ser criados ou beneficiados por políticas públicas, como o exemplo desta tese.

Figura 1 – Fases do Empoderamento Feminino

Fonte: (OLIVEIRA, 2017).

Nesta Figura, percebemos que a participação das mulheres nesses grupos, acaba por fazê-las compreender a dominação que as oprime e, com isso, passarem a se organizar de forma a conseguir maior uma demanda política em que, no nível macro, acabe atuando sobre uma agenda política mais ampla, acordos coletivos ou alterações na forma de se enxergar a noção de cidadania. Mas também desempenham ações de mudanças em nível micro em que lhes dá maior liberdade e um sentido de competência pessoal, onde valores maternos e a renegociação das atividades domésticas começam a ganhar espaço.

Para Bourdieu (2001), como já passamos por uma época em que não se queria reconhecer o poder nas situações em que ele existia, tentando dissolvê-lo através da observação de que ele está em toda parte e em parte nenhuma, é preciso descobri-lo onde ele menos salta aos olhos, onde ele é mais completamente ignorado ou reconhecido: no poder simbólico. Segundo ele, este poder invisível “só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (p.8).

Portanto, partimos para o que Stwart Clegg e Cintia Hardy (1998) consideram uma visão crítica sobre o poder, e recorremos ao trabalho de Pierre Bourdieu (1996), que identifica que a noção

de sociedade é substituída pela noção de campo e de espaço social, e que estes só podem ser compreendidos através da identificação do princípio gerador que funda diferenças na objetividade – a estrutura de distribuição de formas de poder (tipos de capital) eficiente no universo social considerado, e que estes variam de acordo com lugares e momentos.

As lutas inerentes aos campos sociais, e a consequente mobilização dos tipos de capital (de poder), ocorrem pela existência de interesses em jogo. Interesse é “estar em”, é participar, é admitir que o jogo merece ser jogado e que os atores envolvidos existem na relação com um espaço social no interior do qual certas coisas são importantes e outras são indiferentes para os agentes socializados, constituídos de maneira a criar diferenças correspondentes às diferenças objetivas nesse campo. Ao mesmo tempo, querer fazer parte das mudanças na estrutura de poder em um campo é ter em comum com os componentes a concordância com o fato de que “vale a pena lutar a respeito das coisas que estão em jogo no campo”, “o essencial do que é tacitamente exigido por esse campo, a saber que ele é importante” (VIEIRA e MISOCKZKY, 2000, p.11).

Dessa forma, para se analisar o campo do poder existente no espaço social em que operam as diferenças de gênero existentes no campo da cultura popular, acredito ser necessário analisar as disputas entre os diferentes grupos que compõem o campo e, por estarmos falando em campo cultural, entendemos ser importante descrever o que entendemos por cultura popular nesta tese e, ao mesmo tempo, trazer a relação entre cultura popular e educação.