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PODER/ EXCESSO

No documento O incesto : discurso e ideologia (páginas 172-178)

6 CRIANÇA: SUJEITO DE DIREITOS

7.2 PODER/ EXCESSO

Denominamos incesto polimorfo um tipo de relações sexuais que alguém se aproveita do cargo ou função que exerce para se impor sexualmente a um subalterno. Este tipo de situação já é previsto no nosso código penal e é considerado um agravante dos crimes contra os costumes. Nós consideramos como um equivalente do incesto pois consideramos que neste tipo de relação sexual está envolvida a questão do poder do mais forte sobre o mais fraco, não sendo portanto uma opção sexual, mas sim uma aceitação pela

imposição do poder. Sempre existe por trás destas relações fantasias

incestuosas, embora em muitos casos não haja consciência disto por parte do autor ou da vítima162.

Incesto Simbólico: toda atividade de caráter sexual envolvendo uma criança ou adolescente de 0-18 anos e um adulto que tenha para com ela uma relação de responsabilidade profissional de cunho: espiritual (religioso(a) x crente); padrinho/madrinha x afilhado(a); pedagógico (professor(a) x aluno(a)); técnico-profissional (terapeuta x cliente; médico(a) x paciente; antropólogo(a) x indígena, etc. A literatura tem dedicado muito pouco espaço a essa problemática, contando-se nos dedos os estudos relacionados ao que se convencionou chamar “sexo na zona proibida”163.

O primeiro fato a ser destacado nas análises sobre o poder/excesso por via dos enunciados, seria o de um “abuso de poder” que se apresentaria disseminado em todos os domínios sociais onde um poder hierárquico se mantém. Nota-se que o incesto propriamente dito (o que se realiza no âmbito das relações familiares, especialmente, o

161 CENTRO DE REFERÊNCIA E AÇÕES SOBRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Fundamentos e políticas contra a exploração sexual e o abuso sexual de crianças e adolescentes. Relatório de estudo

Brasília, 1997. Disponível em: <http//:www.cecria.org.br/pub/livro_fund_e_politicas_publicaçoes.rtf> Acesso em: 05 de jan 2006.

162 COHEN, Cláudio. Incesto. In______.AZEVEDO, M. Amélia & GUERRA, Viviane Nogueira de

Azevedo (Org.). Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. São Paulo: Cortez, 1993: 217.

163 AZEVEDO, Maria Amélia. Infância/adolescência e violência sexual: o escândalo dos profissionais

mais comum – pai/filha) vincula-se simbólica e formalmente a um universo social dominado pelos abusos de poder. Um plus de poder do qual o “mais forte” se utiliza contra o “mais fraco”. Em seções anteriores, fiz uma incursão em temáticas que por estarem em estreita relação com o vínculo social, serviram de parâmetros para a demonstração de que modificações na tessitura ideológica que sustentavam as representações tradicionais acerca do trabalho, da família, da criança e da violência, teriam reverberado sobre o interdito do incesto. Faço atentar novamente para o fato de que o interdito do incesto tem um caráter positivo (LÉVI-STRAUSS, 1982), pois funda a aliança com o Outro, institui as relações de reciprocidade e de deveres mútuos nos quais os sujeitos sociais participam trocando – menos que objetos – símbolos (mulheres e palavras) –, fundando o domínio propriamente humano: a ordem simbólica. Essa estrutura demonstraria a dependência do humano às formações culturais que constroem o sentido da vida em sociedade, campo estruturante das relações de divisão do trabalho, sexuais e morais.

Todo o cerceamento e discussão desses fatos tinham como intuito demonstrar a instauração de uma outra ordem de relações que se estabelecem em relação à Lei na sociedade contemporânea. Uma outra lógica simbólica que atua pautada fundamentalmente na produção de imagens cujo efeito maior seria o de “virtualizar” a realidade, transformando a relação que teríamos com o tempo e o espaço, quase fundindo-os, elidindo a lacuna entre a representação e a coisa, entre a palavra e o objeto, levando a uma outra forma de relação com os outros. A própria construção em torno da sexualidade na qual a diversidade de posturas e valores revela nossa condição de seres assujeitados à cultura: se casamos ou não; quantas famílias constituiremos ou não ao longo de nossa existência; se teremos ou não filhos e se os queremos e não os podemos ter – que técnicas reprodutivas nos utilizaremos; se casamos com pessoas do mesmo sexo, ou se constituiremos uma relação a três164.

A desvinculação da sexualidade da procriação através dos avanços da biomedicina tornou evidente que a sexualidade humana não é “natural”, não visaria a procriação, mas o prazer, ou seja, seria eminentemente simbólica. Acontece que o fundamento do interdito do incesto é justamente a regulação social em torno da

164 Nos Estados Unidos duas séries televisivas causam polêmica e chamam a atenção da sociedade: Big

Love e Lworld. A primeira se fundamenta na relação que um homem possui com três mulheres, tendo constituído família com as três (HBO); a segunda trata do universo feminino homossexual (Warner) e das várias constelações de relacionamento que são constituídas. A partir desses exemplos, dentre muitos outros que se poderia citar, como a introdução de temáticas como essas nas novelas, por exemplo, começam a se tornar recorrentes no domínio das produções culturais: cinema, literatura, novelas, etc.

sexualidade. Quando Lévi-Strauss postula a interdição como positiva, refere-se ao fato de que ao abdicar da sexualidade natural, a aliança com o Outro se tornou possível. Por isso, o campo da sexualidade se funda em torno de normatizações que possibilitariam as trocas sexuais. Estas normatizações regulariam primeiramente a divisão do trabalho a partir de funções e papéis sociais atribuídos a um e outro sexo, sustentadas por construções coletivas naturalizadoras dos corpos. Os discursos coletivos que se erigem a partir daí definem toda relação sexual enquanto natural ou divina. A ideologia possibilitaria a cristalização das representações na concretude das relações cotidianas – a sociedade se organizaria então em torno do sexual – estamos no plano do pacto social e da ideologia enquanto estrutural e estruturante. Qualquer transgressão aos ditames normativos da sexualidade acarretaria algum tipo de reação e “correção” social.

Sendo assim, fundamentalmente, a sexualidade se estrutura a partir do Outro e da Lei (do interdito do incesto). Demonstrei anteriormente, a partir de vários fatos, a dissipação do campo do Outro e o descentramento da Lei. Ora, seguindo esta lógica argumentativa, a ideologia que sustentava toda uma série de representações em torno da sexualidade, ruiu. Como então, normatizar a sexualidade, partindo de uma conjuntura social na qual sexo e procriação estão desvinculados, na qual o sagrado perdeu sua aréola? Como estabelecer um limite sobre o certo e o errado acerca da sexualidade quando o segredo e a vergonha não são mais mecanismos simbólicos eficazes no controle dos discursos? Como coibir os excessos presentes nas relações entre os sujeitos, nas quais o poder separa hierarquicamente os indivíduos, quando a Lei se fragiliza?

Partindo do pressuposto de que a sociedade contemporânea incentiva um tipo de individualismo narcisista através da produção de “bio-identidades”, e na qual o laço com o outro se fragiliza, não seria necessário a instituição de uma moral que convocasse cada sujeito a uma sensação de pertencimento ao social? Esse sujeito, centrado em si mesmo, seria levado a assumir as responsabilidades sobre o seu fracasso ou sucesso no momento mesmo em que as “narrativas tradicionais” não garantiriam mais amparo frente às ameaças da vida.

Denominamos incesto polimorfo um tipo de relações sexuais que alguém se aproveita do cargo ou função que exerce para se impor sexualmente a um subalterno. [...] Nós consideramos como um equivalente do incesto pois consideramos que neste tipo de relação sexual está envolvida a questão do

poder do mais forte sobre o mais fraco, não sendo portanto uma opção sexual, mas sim uma aceitação pela imposição do poder165.

Incesto polimorfo, sexo na zona proibida, o poder hierárquico que leva o mais forte a abusar sexualmente de seus subalternos. Desenvolvi a hipótese do incesto enquanto um sintoma contemporâneo de uma sociedade que vivencia um estado anômico em relação com a Lei. A outra hipótese discorre sobre o fato dos discursos sobre violência contra crianças terem um cunho ideológico, surgindo como resposta às demandas de ordem. Nessa sociedade na qual o sujeito se acha “livre” dos constrangimentos coletivos que outrora organizavam as relações entre os indivíduos, as duas hipóteses com as quais trabalho me levam a seguinte constatação: a Lei não encontraria ancoramento nas imagos paternas, surgindo enquanto falha, desamparando o sujeito; e, no outro extremo, apresentar-se-ia em um contexto de onipresença, sem falhas, através da representação do pai totêmico – do pai da horda. Trate-se então, de fato, de que a problematização da violência na sociedade e da violência sexual contra crianças, representados simbolicamente pelo incesto, decorreria da fragilização dos laços sociais, das representações ideológicas que garantiriam um sentimento de pertença ao mundo e de ligação (deveres) com os outros.

Faz-se perceptível então, através das relações que os sujeitos estabelecem uns com os outros, neste lugar onde o pacto social deveria se estabelecer (fazer valer os ditames da Lei social), a fragilidade da relação estabelecida pela sociedade contemporânea com a Lei. Transformações nos campos da sexualidade, do trabalho (universo profissional) da família, reverberariam sobre o interdito. É nesta conjuntura social que a criança passa à categoria de sujeito em risco social e por outro lado, sujeito de direitos. O incesto como um problema contemporâneo sinalizaria para um ambiente simbólico no qual o “abuso” seria uma constante em vários níveis sociais. Crianças, incesto, abuso de poder (violência), “desaparecimento da infância”... O “sujeito livre” em pleno exercício de sua “individualidade”, ao que parece, estaria em conflito e se apresentaria entre duas posições simbólicas: a onipotência (desconhecimento da Lei) ou o desamparo; o abusador (algoz) ou a vítima.

165 COHEN, Cláudio. Incesto. In______.AZEVEDO, M. Amélia & GUERRA, Viviane Nogueira de

Azevedo (Org.). Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. São Paulo: Cortez, 1993: 217.

Nomeamos esse tipo de relação como incesto polimorfo pelo fato de que existem muitas formas diferentes de poder e do exercício deste poder sobre outra pessoa, como por exemplo, a professora com o aluno, o patrão com a empregada, o médico com a sua paciente, o líder do grupo com um de seus seguidores etc166.

Incesto Simbólico: toda atividade de caráter sexual envolvendo uma criança ou adolescente de 0-18 anos e um adulto que tenha para com ela uma relação de responsabilidade profissional de cunho: espiritual (religioso(a) x crente); padrinho/madrinha x afilhado(a); pedagógico (professor(a) x aluno(a)); técnico-profissional (terapeuta x cliente; médico(a) x paciente; antropólogo(a) x indígena, etc167.

Através dos discursos que se erigem em torno da violência sexual contra crianças essas oposições tornam-se mais claras: o homem – o abusador; as mulheres e crianças – as vítimas. Esta disposição seria justificada através da vertente sócio-histórica do patriarcalismo. Espero ter demonstrado as razões pelas quais essa explicação não se justificaria. O fato seria que o “mal” social se faria localizar na figura do homem e de uma sexualidade perversa que teria amparo nos valores patriarcais. O pedófilo e o pai abusador seriam os representantes maiores da violência, dos abusos: violação de direitos. Mas nesta sociedade, os excessos se apresentariam em vários domínios sociais.

O “abusador” seria um cidadão comum, “normal”, inserido invisivelmente em qualquer domínio da sociedade. Assim, as crianças não estariam mais seguras nos seus lares, na escola, no consultório médico, no grupo de escotismo, na igreja... A construção da criança enquanto sujeito de direitos demanda então uma contrapartida: seria preciso vigiar agressores e vítimas para que a violência não aconteça. Essa vigilância torna-se mais aguda em relação aos homens, em uma sociedade na qual o velho aforisma: um homem é inocente até que se prove o contrário, inverte-se – um homem é culpado até que se prove o contrário. Se durante séculos a sexualidade feminina foi negada, perseguida, vigiada, sendo a mulher sempre culpada de conter no corpo o excesso de uma sexualidade perigosa, a fórmula parece se inverter na sociedade contemporânea, deslocando-se para os homens.

O sujeito (o homem) passa a ser vigiado em casa, nos ambientes profissionais, pelos vizinhos, pelos amigos. Mas não seria apenas essa vigilância exterior que se

166 COHEN, Cláudio. Incesto. In______.AZEVEDO, M. Amélia & GUERRA, Viviane Nogueira de

Azevedo (Org.). Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. São Paulo: Cortez, 1993: 217.

167 AZEVEDO, Maria Amélia. Infância/adolescência e violência sexual: o escândalo dos profissionais

exerce, o sujeito deve se submeter a uma verdadeira ortopedia moral e psicológica “perseguidora” dos excessos. Nenhum desvio seria permitido e a idéia do que seria um sujeito normal e socialmente adaptado se definiria pelas condições neurofisiológicas (hormonais, cerebrais, genéticas, corporais) e psicológicas (temperamento, possíveis traumas, categorias nosológicas). O sujeito passa a ser esquadrinhado, analisado, submetido a exames e análises. Sua normalidade ou anormalidade devem ser constatadas a partir de qualquer sinal ou sintoma, indicativos de desvio. Em uma sociedade na qual se produz a “liberdade” e o “individualismo” e na qual o sujeito passaria a ter reconhecida sua singularidade, ele também passa a ser responsabilizado por sua própria saúde mental e psicológica. O sujeito seria convocado ao controle dos excessos sobre si mesmo. Esses fatos levam a constatação de que apesar da sensação de maior liberdade que se teria na sociedade contemporânea com o “reconhecimento” das individualidades (do sujeito e seus direitos); essa individualidade e essa liberdade são extremamente perigosas e devem sofrer um controle freqüente: o corpo e a alma passam por uma ortopedia individual na qual a liberdade e a individualidade só podem ser exercidos pelo sujeito dentro de um paradigma “civilizatório” e politicamente correto. Nesse sentido, Zizek (2003, p. 17) ratificaria essa constatação:

Num diálogo clássico de uma comédia de Hollywood, a mocinha pergunta ao namorado: “Você quer se casar comigo?”. “Não”. “Ora, pare de enrolar! Quero uma resposta direta”. De certa forma, a lógica subjacente está correta: a única resposta aceitável para a moça é “Quero!”, e, assim, qualquer outra coisa inclusive um “Não!” definitivo, é percebida como evasão. A lógica oculta é evidentemente a mesma que está por trás da escolha imposta: você tem a liberdade de escolher o que quiser, desde que faça a escolha certa.

A violência enquanto um tabu para a sociedade contemporânea, desenvolve tanto uma “hiper-sensibilidade” (tabu da violência) em relação a qualquer ato que possa parecer um indício de agressividade quanto produz um “consumo” estético dessa violência168. Desse modo, através da justificativa que vivemos em uma sociedade violenta e da vivência de uma sexualidade também excessiva (abusiva), os valores “civilizatórios” e “politicamente corretos” instauram representações e fazem circular discursos e dispositivos de controle difuso e invisível, pois se sustentariam em uma ética do “bem” coletivo. Ser contrário ao politicamente correto torna o sujeito suspeito. Dessa forma, para poder integrar-se e ser reconhecido socialmente, o sujeito deve

manter-se submisso aos discursos. Os movimentos em torno dos direitos civis (principalmente de combate à violência contra crianças) parecem se estruturar segundo este paradigma. O sujeito se torna preso a uma teia discursiva, uma espécie de camisa de força moral que não permite nenhuma contestação, nenhuma outra afirmação ou resposta que não a esperada.

Neste sentido, a transgressão não pode ser admitida, a violência não pode ser tolerada (ou a pressuposição do que seria uma conduta violenta) em uma sociedade cada vez mais laica. O sentido da transgressão se perde enquanto se produz em larga escala uma “higienização” dos comportamentos. O estatuto simbólico, metafórico do incesto, demonstraria essa necessidade. A Lei se apresentando ora sob a forma da onipotência do sujeito, ora falha, desamparando o sujeito (um indivíduo entregue a “si mesmo”), provocaria certa disposição social à vigilância. Talvez, quem sabe, descobrir o criminoso antes que cometa o crime.

No documento O incesto : discurso e ideologia (páginas 172-178)