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De acordo com Paulo Cezar Carneiro, o Poder Judiciário ocupa lugar de desta- que na busca para a realização dos direitos. São os direitos humanos objeto de 127 Décimo-oitavo relatório da pesquisa intitulada “A imagem do Judiciário junto à população brasileira”. In: http://cedes.iuperj.br/PDF/05maio/stf%20justica%20em%20numeros.pdf, consultado em 23 de julho de 2008.

128 Décimo-oitavo relatório da pesquisa intitulada “A imagem do Judiciário junto à população brasileira”. In: http://cedes.iuperj.br/PDF/05maio/stf%20justica%20em%20numeros.pdf, consultado em 23 de julho de 2008.

conl ito e necessitam de uma esfera estatal de conciliação e julgamento. Com- pete, portanto, ao Judiciário assegurar o exercício pleno da liberdade e também as condições materiais para esse exercício.129

A Rede Universitária de Direitos Humanos, SUR, publicou no terceiro nú- mero de sua Revista Internacional de Direitos Humanos uma matéria acerca de uma questão bastante delicada, porém essencial para o entendimento da atuação do Poder Judiciário brasileiro em relação aos direitos humanos: “Direitos Hu- manos e justiciabilidade: Pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro”.130

O referido artigo tem por objetivo investigar o grau de justiciabilidade dos direitos humanos na prestação jurisdicional dos magistrados de primeira instância da Comarca da Capital do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. O autor, José Ricardo Cunha, é o coordenador do grupo de pesquisa “Direitos Humanos no Tribunal de Justiça”.131

A proteção dos direitos humanos constitui o principal instrumento na de- fesa e promoção das liberdades públicas e das condições essenciais para uma vida digna, de acordo com José Ricardo. Os poderes Executivo e Legislativo são sempre solicitados a atuar conforme esses direitos. Contudo, é o Poder Judici- ário o “último guardião de tais direitos, e a esperança de proteção em relação a eles”, e para isso torna-se imprescindível lutar pela efetividade de sua tutela jurisdicional. Para a efetivação dos direitos humanos na esfera judiciária torna- se necessário averiguar a maneira pela qual os juízes concebem e aplicam as normas de direitos humanos.132

José Luiz Quadros de Magalhães também ressalta a necessidade de se pre- parar o Poder Judiciário para julgar de acordo com os direitos humanos. Explica ele, ainda, que a formação privatista dos juízes brasileiros, rel exo de um ensino jurídico também privatista e antiquado, leva a julgamentos de princípios bási- cos dos direitos humanos presentes no texto constitucional.133

Essa concepção deve ser avaliada, também, em relação ao âmbito interna- cional, ai nal, conforme Flávia Piovesan, o que a Constituição Brasileira de 1988 129 CARNEIRO, Paulo Cezar Pinheiro. Acesso à Justiça: juizados especiais cíveis e ação civil pública. Foren-

se, 2ª ed., Rio de Janeiro, 2000, p. 25.

130 A Revista Internacional de Direitos Humanos também pode ser acessada pela internet, no endereço eletrônico: www.surjournal.org.

131 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. SUR — Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, página 138, 2005 — São Paulo, Brasil.

132 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, p. 139, 2005. 133 MAGALHÃES, José Luiz Quadros de. Reforma e controle do Poder Judiciário. In: TRINDADE, Antônio Augusto Cançado (editor). A incorporação das normas internacionais de proteção dos direitos humanos no direito brasileiro. San José da Costa Rica, 1996, p. 706.

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assegura é a incorporação automática dos tratados internacionais de direitos hu- manos ratii cados pelo Brasil, que detêm aplicação imediata no âmbito nacio- nal. Quando ratii cados, os tratados internacionais irradiam efeitos de plano e asseguram direitos direta e imediatamente exigíveis no ordenamento interno.134

A primeira informação aplicável ao presente estudo trata do tema “direitos humanos” na formação dos juízes. Estes, quando questionados acerca da exis- tência de alguma cadeira de direitos humanos durante o curso de graduação, 84% dos magistrados responderam negativamente, e dentre as respostas posi- tivas apenas 4% dos juízes tiveram a disciplina como obrigatória, sendo 12% como disciplina opcional.135

O mais surpreendente, entretanto, trata do interesse dos magistrados pelo tema, haja vista a dii culdade de oferta de tal disciplina nas faculdades. Foi realizada uma pesquisa para saber se os juízes já tinham estudado direitos hu- manos, constatando-se que 42 magistrados (ou seja, cerca de 40% dos 109 ju- ízes entrevistados) nunca estudaram direitos humanos, ou, em outras palavras, quatro entre dez juízes não tiveram espaço formal para um aprofundamento das questões fundamentais relativas aos direitos humanos.136

Embora relativamente afastados da temática “direitos humanos”, cerca de 73% dos entrevistados estariam dispostos a estudar o tema. Infelizmente, 43% (ou seja, a maioria) só gostariam de estudos de curta duração. E quando indaga- dos sobre algum tipo de vivência pessoal que pudesse fornecer uma experiência prática em relação aos direitos humanos, apenas 6% (seis por cento) dos entre- vistados ai rmaram terem tido algum tipo de posicionamento nesta área, o que mostra uma distância ainda maior entre os magistrados e os direitos humanos.137

Destaca-se que, “analisando os dados aqui expostos, é possível compreen- der, ao menos preliminarmente, a pouca utilização das normativas de direitos humanos dos sistemas das Nações Unidas (ONU) e da Organização dos Esta- dos Americanos (OEA) nas sentenças dos magistrados. Resta prejudicada a apli- cação de normas referentes a um tema tão afastado da realidade dos juízes”.138

134 PIOVESAN, Flavia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: Saraiva, 7ª edição, 2006, p. 91.

135 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, p. 142, 2005. 136 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de

Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, 2005, p. 143. 137 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de

Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, 2005, p. 142. 138 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de

Um outro ponto imprescindível da pesquisa tratou do conhecimento dos magistrados a respeito do funcionamento dos Sistemas de Proteção da Organiza- ção das Nações Unidas (ONU) e da Organização dos Estados Americanos (OEA). A pesquisa constatou, ainda, que 59% dos magistrados têm um conheci- mento superi cial, enquanto 20% sequer sabem como funcionam os Sistemas de Proteção, o que demonstra que 79% dos magistrados não estão informados a respeito dos Sistemas Internacionais de Proteção dos Direitos Humanos.139

Acerca do conhecimento sobre as decisões das cortes internacionais de pro- teção dos direitos humanos, 56% dos magistrados responderam que eventual- mente possuem tais informações, 21% raramente as têm, 10% nunca obtiveram, e apenas 13% disseram que frequentemente têm alguma informação. Resultado muito reduzido para uma profusão real da cultura dos direitos humanos.140

Em relação ao Sistema Interamericano de Direitos Humanos, especii camente, uma das questões versava sobre o conhecimento dos magistrados acerca da Conven- ção Americana de Direitos Humanos. O resultado foi desastroso: 66% ai rmaram nunca utilizarem a referida Convenção. Apenas 9% declararam utilizá-la com fre- quência. Essa constatação revela que, apesar dos esforços feitos pela comunidade internacional em estabelecer um consenso mínimo sobre os direitos humanos e, ainda, ferramentas normativas para assegurá-los, a maioria dos magistrados ignora esse processo e as conquistas realizadas em prol do fortalecimento da democracia141.

Boaventura de Souza Santos ai rma que

... é necessário aceitar os riscos de uma magistratura culturalmente esclareci- da. Por um lado, ela reivindicará o aumento de poderes. Por outro, ela ten- derá a subordinar a coesão corporativa à lealdade a ideias sociais e políticas disponíveis na sociedade. Daqui resultará certa fratura ideológica que pode ter repercussões organizativas. Tal não deve ser visto como patológico, mas como i siológico. Essas fraturas e os conl itos a que elas derem lugar serão a verdadeira alavanca do processo de democratização da justiça142.

O que se pode perceber é que os três Poderes do Estado brasileiro não estão acostumados a lidar com a legislação dos tratados internacionais. O princípio 139 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, 2005, p. 152. 140 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de

Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, 2005, p. 152. 141 CUNHA, José Ricardo. Direitos Humanos e Justiciabilidade: pesquisa no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. São Paulo: SUR - Revista Internacional de Direitos Humanos, Número 3, Ano 2, 2005, p. 154. 142 SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução à sociologia da administração da justiça. In: FARIA, José

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cogente do pacta sunt servanda muitas vezes é desprezado tanto pelo legislador ordinário quanto pela maioria de nossos tribunais.143 A pesquisa demonstra que

nossos tribunais não têm sequer conhecimento dos tribunais internacionais, quiçá de sua aplicação junto ao Direito Interno.

No entanto, esse peri l deve urgentemente ser modii cado. Ora, não adian- ta um trabalho isolado de cada Poder Público, mas uma atuação em conjunto, com uma efetiva participação do Judiciário frente às questões dos tratados in- ternacionais de direitos humanos.