3. DESCENTRALIZAÇÃO NO ESTADO UNITÁRIO E ATUAÇÃO DOS PODERES LOCAIS EM MOÇAMBIQUE NA REDUÇÃO DA POBREZA
3.2. DESCENTRALIZAÇÃO NO ESTADO UNITÁRIO
3.2.2 Poder local
Nesta seção cabe destacar, num primeiro momento, o conceito de poder local, que é considerado por Fischer (1992, p. 106) como sendo resultante de relações construídas socialmente num território localizado, que exercem o poder econômico, social, cultural e simbólico. Para Daniel (1988), o poder local é constituído no âmbito das relações que delimitam o poder entre os diferentes grupos sociais. Sendo assim, a autora Fischer T. (1992) afirma, com referência ao poder local, que:
Alude-se ao conjunto de redes sociais que se articulam e se superpõem, com relações de cooperação e conflito, em torno de interesses, recursos e valores, em um espaço cujo contorno é definido pela configuração desse conjunto (FISCHER, T., 1992, p. 106).
Feita essa consideração, pode-se dizer que, nas comunidades mais populosas em que se encontram as comunidades locais, os chefes tradicionais têm por função exercer o poder local. Mas a descentralização em Moçambique não reconhece esse espaço, na medida em que não existem mecanismos institucionalizados, como ressaltam Chichava e cols. (1999):
Atualmente não existe um mecanismo institucionalizado de envolvimento das comunidades na resolução dos seus problemas diários ou de participação coletiva. Há ações planificadas muitas vezes organizadas pelas ONGs ou instituições estatais para o debate de um determinado assunto. É o exemplo da lei da terra cujo debate popular foi organizado pelas ONGs aos vários níveis com apoio e colaboração de parlamentares (CHICHAVA et al., 1999, p. 14).
17 Zaqueu, L. (2010) patrimonialismo emerge da oligarquia, vigorou até o final do século XIX e caracteriza-
se pelo uso privado da coisa pública. Este modelo é próprio de sociedade pré-capitalista e pré- democrática. Ainda, pela incapacidade ou a relutância de distinguir entre o patrimônio público e os bens privados. Fadul e Souza (2006, p. 4) caracterizam o patrimonialista por fazer-se: (1) confusão daquilo que é público com o privado; (2) predomínio da vontade unipessoal do dirigente; (3) práticas de nepotismo e relações de compadrio; (4) cargos públicos como prebendas; (5) corrupção; e (6) servilismo.
Portanto, para Chichava et al. (1999), a participação das comunidades locais não deveria limitar-se aos órgãos consultivos, de forma que haja maior inserção, evitando que a comunidade seja marginalizada. Pois essa população marginalizada no âmbito político, econômico e social, nos programas eleitorais, é considerada influente e participativa só para interesses de voto. Mas, em termos de necessidades básicas, essa população é a mais prejudicada vivendo na seca, sem acesso à água tratada, e percorrendo distâncias para aquisição de qualquer tipo de serviço. Nesses locais as ONGs são mais reconhecidas, devido à maior participação. Moçambique tem apoios internacionais dos doadores, em programas de Apoio Programático (PAPs), que atuam no âmbito da descentralização inserido no processo de Reforma Global do Setor Público (RGSP), que ajudam na superação das desigualdades em Moçambique.
Em termos de descentralização, os conselhos consultivos distritais foram criados, mas não suficientemente depressa para alcançar a meta. Parte do orçamento foi descentralizada, mas a revisão conjunta concorda que grande parte ainda é controlada a nível central e provincial. Os doadores estão preocupados com falta de transparência na afetação dos fundos de desenvolvimento do distrito (AWEPA, 2009, p. 2).
É verdade que os doadores têm o lado negativo de imposição na estratégia de funcionamento no país, segundo destaca o relatório AWEPA (2009). Assim como se realça que as metas alcançadas com o apoio internacional não tiveram efeitos positivos, porque é crescente a percentagem da desigualdade econômico-social e de conflitos entre partidos em Moçambique, como realça Soiri (1999):
Relativamente às políticas da descentralização, o relatório defende que a presente falta de consenso político entre o partido no poder, a Frelimo, e a principal força da oposição, a Renamo, limita seriamente o processo de descentralização e o papel dos atores locais. É opinião mais ou menos generalizada que a principal razão que impediu um processo de descentralização democrática, conforme inicialmente planejado, foi o receio por parte do governo de pôr em causa a unidade nacional e territorial de Moçambique e de perder o controlo sobre os recursos naturais e econômicos do país. Contudo, ainda que modesto, o presente processo de descentralização é amplamente considerado como uma via de reforço da democratização política em Moçambique e de abertura a uma futura partilha do poder (SOIRI, 1999, p. 2).
Apesar de não visível, a reconstrução do país desenvolveu-se em um esforço no sentido de conceder o poder real aos atores da descentralização (governadores, administradores distritais e os presidentes de municípios), em coordenação com os chefes tradicionais e os membros consultivos. O poder local tem um papel extremamente importante, porque contribui para o desenvolvimento de ações geradoras de mudanças sociais, econômicas e políticas no contexto do mundo globalizado. E esse papel do poder local não se restringe à atuação do líder comunitário no âmbito de sua comunidade, também se desenvolve de forma articulada com as diferentes instituições até no poder central. O poder local em Moçambique surge no fim da guerra de resistência entre a Renamo, o partido atualmente na oposição, e a Frelimo, partido no poder, e com a ascensão do sistema multipartidário, que, por sua vez, culminou com a aprovação das autarquias locais. Segundo a CRM (art. 271, 2004),consagrada no no1, o poder local tem como objetivo organizar a participação dos cidadãos na solução dos problemas próprios na comunidade e promover o desenvolvimento local, o aprofundamento e a consolidação da democracia. Esse poder local torna-se relevante para as unidades internacionais de apoio a projetos de combate à
pobreza em Moçambique, na medida em que, para os doadores, fica clara a definição e o controle das suas estratégias em prol do desenvolvimento das comunidades carentes.
Prazeres (2007, p. 3), na sua concepção, apresenta níveis que envolvem diferentes estágios de envolvimento político e de conscientização, que podem se adequar à realidade moçambicana:
a) a consciência cívica, que se expressa na simples participação na vida do movimento associativo e das coletividades, com a preocupação de intervir no bem-estar;
b) a consciência democrática, que se expressa no envolvimento numa força política ou num órgão de poder;
c) a consciência de apoio à comunidade, de acordo com o interesse coletivo e não com os interesses partidários;
d) construção da ideia de participação da população, que deve ser reconhecida não só no momento do voto, mas também na sua atuação ativa e na melhoria da infraestrutura e das condições de vida.
Além disso, o poder local constitui-se em um polo que deve ser reforçado pela integração de gestores públicos formados, de maneira a conduzirem as suas experiências fundamentadas no aprofundamento da participação das comunidades, alargando seu espaço de participação e de contribuição no empoderamento das comunidades locais. Empoderamento das comunidades locais é visto por Paulo (2007) e Zamora (2006) como o aumento do poder e da autonomia de indivíduos e grupos sociais nas relações interpessoais, buscando soluções de forma participativa, a partir dos recursos disponíveis na comunidade. Trata-se de um processo em que a população deve ser valorizada pelo gestor em apoio às comunidades locais, o qual deve auscultar seus anseios e adaptar as suas práticas, baseadas no conhecimento formal, à realidade do lugar, considerando o saber local.
No imaginário político brasileiro construído por Costa (1996, p. 113), retorna a significação da estrutura do poder local, que é relevante na medida em que traz consigo a ideia de relações construídas no âmbito dos pequenos e médios municípios de relações populosas em grandes cidades. Onde os poderes locais encontram espaços para implementar as suas experiências democráticas com capacidade de inovar, de forma a oferecer qualidade de serviços públicos eficientes. Portanto, verifica-se esse espaço como de privilégio, de exercício da democracia, de participação do cidadão nas iniciativas econômicas e sociais, assim como em atividades políticas. A partir da década de 1980, o local passa a ter uma imagem diferenciada e representativa e é prescrito na Constituição de 1988 nos estatutos jurídicos. A participação desses órgãos locais vem sendo disseminada através das mídias as inovações e as soluções criativas dos órgãos e as soluções criativas das próprias prefeituras nas áreas de saúde, educação, moradia. Este espaço do poder local veio, com o tempo, se incorporando às agendas políticas, combinadas à democracia e à descentralização, a participação da população. Incorporando, dessa forma, novos atores provenientes das comunidades religiosas, associação de moradores; portanto, uma ação de polarização entre o Estado e a sociedade civil (Sader, 1989 apud Costa, 1996, p. 114). Sendo este um exemplo de atuação participativa do poder local.
São experiências que podiam servir de exemplo, para o contexto atual do país, na criação de estratégias de governação adequada dos poderes locais, que pudesse ser participativa nos Orçamentos Públicos18 (OP), abrindo espaço para maior participação do público, independentemente de escolaridade. Afinal, o fato de o cidadão não saber ler não lhe limita a capacidade de interpretar, ou de definir o que pode melhorar o seu bem-estar social. É com esse OP na ótica de Renzio (2009, p.1), que se constitui o “instrumento fundamental de política pública”, para o desenvolvimento nacional e de manuseio dos poderes locais.