3 SOCIEDADE, HISTÓRIA E SENTIDOS
3.2 PODER NAS RELAÇÕES SOCIAIS E NO DISCURSO
Para Orlandi (2001), a Análise de Discurso tem como um de seus objetivos, tornar visível os mecanismos de textualização do político7. Em outras palavras, ela objetiva compreender a forma como as relações de poder são simbolizadas no discurso.
Visando dar mais subsídios a esta compreensão, vamos aqui introduzir os conceitos sociológicos de Norbert Elias a fim de pontuar a estruturação das rela- ções de poder na sociedade, para então demonstrar como estas são simbolizadas discursivamente.
Ao pensar sobre a existência humana, Elias (1994, 2014) compreende co- mo essencial o caráter relacional entre os diferentes sujeitos, bem como a inter- dependência funcional existente entre os mesmos: um ser humano depende de outros para todas as suas atividades diárias, desde se alimentar e tomar banho, até estudar e trabalhar, isto porque ele não provê por conta própria todos os re- cursos necessários em cada atividade da vida diária. Hoje, por exemplo, aquele que consome um pão não tem nenhum conhecimento sobre a origem do trigo u- sado para o mesmo, mas depende deste alimento para sobreviver. E esta inter- dependência não se limita a bens de consumo, mas perpassa toda a estrutura cultural da sociedade, inclusive, o aprendizado e uso da língua, dos costumes, dos valores, entre muitos outros.
O “jogo” de relações que advém desta interdependência é tão amplo que se torna impossível ter conhecimento de todas as ações individuais sobrepondo- se a todo o momento no movimento do social. Esta constante sobreposição gera um movimento com direcionamento específico e regulado pelo próprio conjunto das relações entre os seus membros, mas não necessariamente premeditado. Com em um jogo de cartas, cada sujeito fica dependente das decisões de outros para tomar as suas e realizar alguma ação. Tamanha interdependência entre os diferentes sujeitos é o que constitui a sociedade (ELIAS, 2014).
7 O político para a Análise de Discurso em Orlandi (2001) é discutido no sentido de relações sociais entre sujeitos, não no sentido da política governamental.
A sociedade é, portanto, formada a partir da multiplicidade de relações es- tabelecidas entre os sujeito – sua figuração social -, sendo assim supra individual, não planejada, dotada de estrutura e regularidade próprias, com alto poder coer- civo sobre os sujeitos que a compõem e que independe do sujeito em si, mas que sofre influências de cada um de nós (ELIAS, 2014).
Nessa perspectiva, a sociedade é também dinâmica. Uma rede de relações que cria tensões irresistíveis, direcionamentos surgidos na dinâmica do jogo soci- al de ações individuais interdependentes. Tais tensões atuam também entre os grupos aos quais os sujeitos se filiam e, portanto, as relações entre os grupos re- percutem na estrutura social como um todo (ELIAS; SCOTSON, 2000).
Para Elias (2014), cada sujeito influencia o conjunto das relações sociais que estabelece por conta do processo de interdependência funcional da sociedade, contudo, há diferentes níveis de influência. Privilégios concentrados por causa de uma posição social de prestígio e/ou pela posse de objetos de poder como a violência ou dinheiro, possibilitam que o sujeito galgue maior poder social em relação aos demais e, consequentemente, tenha maior influência na dinâmica social.
Um sujeito que detenha, por exemplo, maiores recursos materiais como um senhor feudal ou um empresário, terá maior poder social em relação aos seus servos ou empregados. Seu poder social se estabelece pela dependência que os servos/empregados têm em relação as suas decisões e ações, o que dá às pes- soas nesta posição uma maior influência na sociedade, e ao mesmo tempo, maior prestígio pela posição que ocupam.
Seguindo a mesma perspectiva, Elias e Scotson (2000) expressam as dife- renças de poder como constitutivas das relações entre grupos sociais. Segundo os autores, o grupo que detém um poder social, seja por tradição, coesão, valor social ou posição econômica, é chamado establishment, ou estabelecido8. Man- tendo relação com este, em caráter de interdependência com menor poder social, temos os demais sujeitos, identificados como outsiders, reconhecidos como infe- riores ao grupo estabelecido e que tendem a ser excluídos ou postos à margem
8 Para os tradutores de Elias e Scotson (2000), como os termos establishment e outsiders são de origem inglesa e retratam um significado cultural muito específico, preferiram a sua utilização no original inglês visto não haver correspondente direto na língua portuguesa. Para facilitar a compreensão do presente tra- balho, ao longo do texto poderemos substituir o termo establishment por estabelecidos ou grupo estabele- cido.
de sua sociedade. Os outsiders são sempre identificados no plural, contudo, não necessariamente constituem um grupo social, mas sim um conjunto de sujeitos e/ou grupos nos quais podemos localizar as ditas “minorias” sociais, que incluem a pessoas com deficiência.
Elias (2014) esclarece que um grupo só pode existir em relação ao outro e, portanto, cada posição assumida na sociedade só faz sentido e pode existir por- que existem outras posições/sujeitos que a sustentam. A relação estabelecidos- outsiders é dinâmica e se dá na forma que as relações sociais se estruturam, ou seja, dependem da figuração social a qual estudamos.
Mais ainda, o poder social só existe na interdependência, portanto, mesmo os outsiders com menor poder social, podem exercer certa influência sobre o gru- po estabelecido. A balança de poder pode ser alterada a favor de qualquer um deles por meio de qualquer mudança na figuração social, seja aprofundando ou minimizando as diferenças (ELIAS, 2014).
Como bem observa Elias (1997), ao longo do século XX vivenciamos a di- minuição do diferencial de poder entre certos grupos sociais em relação de polari- dade como homens e mulheres, pais e filhos, negros e brancos, etc. Mais recen- temente, podemos observar o mesmo entre as pessoas com e sem deficiência.
No caso do presente estudo, as pessoas com deficiência estão na posição outsider por serem colocadas à margem de um modelo social dominante, o das pessoas sem deficiência, que aqui se constituem como establishment (CIDADE, 2000). As pessoas com deficiência constituem um conjunto no rol de sujeitos que compõem os outsiders, e só podem ser localizados nesta posição graças ao re- corte sócio-histórico que aqui analisamos na educação superior. Em outras análi- ses e recortes, tal posição poderia ser outra.
Ao atentamos para a relação discursiva estabelecida entre sujeitos em po- sições de diferentes gradientes de poder e na forma como estes se subjetivam, é possível observar uma influencia direta deste poder na dinâmica do discurso.
Orlandi (2013) observa que o sujeito no discurso não é ele em si, mas sim, uma posição-sujeito que ocupa um lugar imaginário imbuído de significados espe- cíficos. Esta posição é imbuída de valor e de poder dependendo da materialidade que a constitui.
Em Cavallari (2005) podemos exemplificar essa relação do sujeito com su- as posições no discurso ao observarmos a posição-sujeito de professor em rela-
ção à posição-sujeito de aluno. A posição-sujeito de professor tem sido constituí- da sócio-historicamente como uma posição de poder, de verdade e de julgamento (avaliação) sobre a posição-sujeito de aluno, daquele que deve ser ensinado, moldado, avaliado. A assimetria de poder que constitui as duas funções sociais de professor e aluno, se reflete na força do discurso, fazendo com que o discurso do sujeito-professor seja tomado como a verdade sobre o sujeito-aluno, o qual cons- titui sua identidade com os sentidos deste discurso.
A posição social de establishment mobiliza sentidos específicos sobre a- queles a quem tal posição é atribuída. O mesmo ocorre para a posição de outsi- der. Os sentidos dessa posição no discurso é que constituem uma posição-sujeito de maior ou menor poder. Dessa forma, para compreender quais sentidos são mobilizados em cada uma delas, precisamos voltar o nosso olhar para sua mate- rialidade social, histórica e ideológica.