PARTE III O PLANO DO DEVER-SER NA REALIDADE CONCRETA
1.1 Poder Público
O entrevistado responsável pelo poder público foi nomeado no termo de degravação por “secretário” (referente à pauta 1). Iniciou-se o diálogo questionando se existe um sistema de coletiva seletiva para os materiais eletroeletrônicos em Santa Maria. Relatou, o entrevistado, que não existe uma coleta de resíduos eletroeletrônicos por parte do poder público, porque a responsabilidade é da empresas que promovem a venda e, depois, dos usuários, os quais têm que levar ou fazer o descarte na empresa onde adquiriu. Referiu que as empresas têm dificuldades de implantar a logística reversa tendo em vista que não tem onde descartar, sendo que os fornecedores, muitas vezes, não são de Santa Maria; que estão dialogando com as empresas para que elas tenham responsabilidade com aquilo que colocam no mercado; que o poder público não chega a ter uma política de responsabilidade nesse sentido, mas tem uma ação fiscalizadora, no sentido de que, detectada a situação, vão verificar, embora muitas vezes não se consiga identificar os culpados. Quanto aos resíduos eletroeletrônicos, o entrevistado afirmou que, obrigatoriamente, as empresas que fazem a comercialização desse material, têm compromisso para resolver e que o poder público não tem, que o poder público não tem estrutura. E, quando questionado, se existia um compromisso por parte do poder público, mencionou que “compromisso tem para fazer com que a coisa na área pública não seja essa disseminação de irresponsabilidades, inclusive, temos a legislação ao nosso lado que permite punições”.
Não existe uma coleta de resíduos eletroeletrônicos por parte do poder público, entretanto, discorda-se do entrevistado de que essa responsabilidade é apenas das empresas e dos usuários, sendo que a Lei é clara no sentido de que há uma responsabilidade compartilhada de todos, inclusive, do poder público. Quanto à falta de estrutura alegada, salienta-se que a administração pública não pode se eximir de sua responsabilidade sob esse argumento.
A implantação da logística reversa enfrenta diversos desafios, inclusive, dos fornecedores serem de fora da cidade, mas o principal e mais conflituoso tem a ver com a viabilidade econômica, os custos que serão despendidos com a criação e manutenção do instrumento na empresa. Embora o entrevistado tenha mencionado que o poder público está conversando com as empresas, para que elas tenham responsabilidade com aquilo que colocam no mercado, não foi o constatado a partir das entrevistas, inclusive, percebeu-se uma ausência por parte do poder público.
Questionado se existe um plano de gestão integrada de resíduos sólidos na cidade, não respondeu a pergunta, informando, apenas, que tem uma organização que faz o recolhimento dos resíduos recicláveis, uma associação de catadores, contratada através de licitação, e que foi através de licitação para dar maior segurança e ser da forma mais transparente possível. Disse que não há nenhum projeto ou proposta de lei municipal quanto a temática de resíduos eletroeletrônicos e que há, apenas, um “pré plano” de gestão integrada de resíduos em andamento; que o poder público se prepara muito vagarosamente para tudo, ele anda devagar e a legislação atropela e que não estão preparados para assumir determinadas situações. Mencionou, ainda, “que tomar uma decisão federal em relação a cinco mil municípios, eu acho meio complicado também. Mas são desafios”.
Observa-se que na cidade de Santa Maria, ainda não há um plano de gestão integrada de resíduos sólidos, mesmo passados quatro anos da publicação da Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Segundo o entrevistado, existe um plano em tramitação. De outro lado, sabe-se que existe um longo processo entre a legislação e a realidade dos municípios, mas, para isso, existe o período previsto na legislação para adequação, que pode ser prorrogado se houver necessidade, como ocorreu com os prazos de implementação de alguns instrumentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Quanto à viabilidade de instituir medidas como a implantação de um sistema de coleta de eletroeletrônicos em toda área urbana, o entrevistado, disse ter interesse, “mas esbarra na estrutura, hoje é na estrutura”, e que “depende de outras secretarias para responder isso”. Acerca da “cobrança” das empresas por parte do poder público, quanto à implantação da logística reversa e do melindre político de “bater de frente” com a empresa, mencionou que “político não gosta de entrar em rota de colisão”. Ainda, mencionou que existe um bloqueio, “eu vou discutir com o meu colega secretário de desenvolvimento econômico, ele quer o desenvolvimento das empresas. A empresa que vem pra cá, se não comercializar, então ela não vai vir pra cá. É uma equação difícil de ser tratada, mas são realidades”. Questionado a respeito do interesse e viabilidade da prefeitura em instituir medidas como incentivar a população a redução da geração de resíduos, referiu que é impraticável e uma questão bem mais sociológica; que temos que educar o povo a consumir aquilo que lhe é necessário.
A redução da geração de resíduos é impraticável, na visão do entrevistado. E, a falta de estrutura e a dependência de outras secretarias não permitem a implantação de um sistema de coleta para resíduos eletroeletrônicos, por parte do poder público. Quanto à fiscalização do desenvolvimento da logística reversa na empresas, há um embate político entre secretarias, porque de um lado tem questões ambientais e de outro o desenvolvimento econômico.
O entrevistado, quando questionado, relatou que não existe contrato ou parceria com a empresa que coleta eletroeletrônicos na cidade, que é uma atitude de boa vontade, por parte deles. Ao final, disse que esse tipo de trabalho torna um alerta às autoridades, aos setores que têm responsabilidades; e que o produto final deste trabalho só vem a fazer um alerta.
A empresa que coleta resíduos eletroeletrônicos na cidade de Santa Maria não tem relação contratual ou parceria com o poder público, realizando a coleta de boa vontade. O entrevistado percebeu uma das propostas da pesquisa, que é justamente alertar à sociedade (governos, empresas, cidadãos e catadores) quanto aos problemas ambientais, especialmente, em relação aos resíduos eletroeletrônicos e, sendo estes resíduos o foco da pesquisa, passa-se a dialogar, na próxima etapa, com empresas do setor de eletroeletrônicos de Santa Maria.