6. STAKEHOLDERS E O DESENVOLVIMENTO DA INFRAESTRUTURA DE CRUZEIROS
6.2. Poder e interesse entre stakeholders
6.2.3. Poder público portuário
A pesquisa identificou como entraves para o desenvolvimento da infraestrutura de cruzeiros pelo Poder Público Portuário, representado pela SEP/PR, os seguintes fatores: (I) incertezas sobre o futuro do setor: o planejamento das armadoras prevê a atividade para até dois anos somente, não estabelecendo-se planos a longo prazo sobre a movimentação do mercado no Brasil; (II) Crise política: a atual questão política do país tem provocado uma onda de cortes de gastos e retraído investimentos tanto públicos quanto privados; (III) Decrescimento do mercado de cruzeiros: os cruzeiros marítimos têm registrado uma queda consecutiva na oferta de navios no Brasil desde temporada 2010/2011, e esse quadro tem impacto negativamente a visão do governo com relação a potencialidade da atividade no Brasil, especialmente diante dos investimentos na construção dos terminais no Nordeste e melhorias no Sudeste do país.
Figura 1. Entraves para o interesse no Poder Público Portuário
Fonte: Elaboração própria.
Dentre as ações de intervenção e também coalizão do stakeholder, citam-se: a construção dos terminais de Fortaleza, Recife, Salvador e Natal no Nordeste do país e a melhoria na infraestrutura do terminal de Santos e do Rio de Janeiro, esta última embargada por questões paisagísticas e arquitetônicas. Como ações futuras está a concentração dos esforços para promover a parceria público-privada, como forma de coalizão entre o então governo e as administradoras dos portos.
No quadro Quadro 15 são correlacionadas as variáveis de intervenção e coalizão analisadas a partir da aplicação da entrevista com o representante SEP:
Quadro 15. Evidências e variáveis no interesse do poder público portuário
INTERVENÇÃO COALIZÃO A Ç Õ ES PA SS A D A S
Licitação e construção de terminais
Então a gente teve a nossa copa do mundo aqui em 2014 e antes da copa foi feito um planejamento geral onde tem infraestrutura carente e o que podíamos fazer para melhorar. Infelizmente só foram olhadas as cidades que foram sede lá da Copa do Mundo (...) Foi Fortaleza, Natal, Recife e foi Salvador. Foi feito mais um investimento lá no cais em Santos que essa obra está ainda em andamento, que não foi terminado e tinha plano de investir também no Rio e esses investimentos foram investimentos tirados do programa da Copa e colocados nos investimentos das Olimpíadas do Porto Maravilha.
A Ç Õ ES F U T U R A S
Não previsão para novos projetos
E agora ninguém quer investir todo mundo está esperando. (...) todo mundo está só pensando em limitar prejuízo não estou sabendo de nenhum projeto em andamento pelo menos pelo lado público .
Parceria público-privada
Agora a estratégia nova do governo são as parcerias público-privadas (...) foi o segundo o Decreto que o Temer lançou foi sobre isso. Então agora tem uma Secretaria de parcerias público-privadas que cuida desse assunto (...) já foi licitado o Terminal de Salvador, o de Recife será em agosto.
Fonte: Elaboração própria.
Poder Público Portuário DESENVOLVIMENTO DA INFRAESTRUTURA ENTRAVES
Incertezas sobre o futuro do setor; Crise política;
Decrescimento do mercado de cruzeiros.
A SEP/PR, apesar de ter como principal competência a infraestrutura portuária (como canais de navegação, calado e infraestrutura aquaviária de acesso ao porto), também investiu na construção de terminais de cruzeiros marítimos, além de realizar melhorias em portos já construídos. Zindel (SEP/PR), em entrevista, explica que a verba fez parte do programa do PAC para a Copa do Mundo e beneficiou apenas as cidades-sede do megaevento.
Todavia, comenta-se algumas inconsistências no processo de planejamento das intervenções, devido à algumas questões quanto a viabilidade dos terminais:
[...] antes da Copa foi feito um planejamento geral onde tem infraestrutura carente e o que podemos fazer para melhorar. Infelizmente, só foram olhadas as cidades que foram sede da Copa do Mundo [...] foi feito dessa maneira mais ou menos sem fazer um estudo de viabilidade onde não faria sentido colocar o terminal de passageiros. Eu até esperava, Salvador eu esperava que ia licitar sim, Recife talvez, mas os outros já é mais problemático achar alguém que quer tocar isso por 25 anos, com esse futuro tão incerto. E Natal tem um grande problema que é a ponte lá na entrada do Porto. Lá a maioria dos navios não entram [sic], Fortaleza fica longe demais de Santos e do Rio, então os armadores não querem mandar os navios até lá em cima. Fortaleza está sustentando como salão de festas basicamente lá. A Docas do Ceará está fazendo basicamente um monte de festas, conseguindo pagar as contas desse jeito.
Atualmente a administração dos terminais está sob responsabilidade das respectivas Autoridades Portuárias locais. De acordo com Zindel (SEP/PR), a SEP/PR tem usado como principal estratégia a licitação dos novos terminais para a iniciativa privada. Até o momento desta pesquisa, somente o terminal de Salvador havia sido licitado, enquanto o Terminal de Recife encontrava-se com previsão para o fim de agosto de 2016.
Natal e Fortaleza ainda não possuem previsão para a licitação de seus terminais, devido a não viabilidade direta para o mercado de cruzeiros. Os terminais estão sendo avaliados pela SEP/PR, que tem buscado alternativas para despertar o interesse dos investidores. Nesse aspecto, o entrevistado comenta: Fortaleza e Natal, eles estão pensando em talvez separar as partes, os navios com administração do Porto e só solicitar a parte comercial, as lojas,
estau a tes,àosàe e tosà ... .
A alternativa mencionada por Zindel (SEP/PR) preservaria a administração da área do terminal de passageiros com a Autoridade Portuária, enquanto seriam repassadas para os investidores interessados apenas a área referente aos serviços dos terminais.
Além dos terminais do Nordeste, a SEP/PR também previu melhorias para os terminais de passageiros de Santos e do Rio de Janeiro. Em Santos, a obra ainda está em andamento e
propõe a derrocagem de pedras do canal de navegação, de modo a aumentar o calado atual do porto (Concais, 2011). No Rio de Janeiro a obra foi embargada a pedido do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio, que contestou o impacto da obra na paisagem local, à época ainda em processo de requalificação pelo Projeto Porto Maravilha (G1Rio, 2013).
Entretanto, tendo a parceria público-privada como uma das estratégias do governo vigente, criou-se uma secretaria voltada para tais parcerias, denominada Secretaria de Parcerias Público-privadas. Para o entrevistado este será um stakeholder importante para futuro do setor, apesar de, no momento, o órgão ainda estar em processo estruturação organizacional para sua plena atuação.
Além disso, mencionam-se a possibilidade de prorrogação dos contratos das atuais concessionárias que administram os homeports nacionais: Píer Mauá S.A e Concais S.A.
[...] a Pier Mauá e a Concais, todos os dois, têm os pleitos de prorrogação dos contratos aqui na SEP neste momento, então SEP está apostando na estratégia de investimentos para a prorrogação dos contratos, então os dois tiveram que entregar plano de investimento que poderia ser feito para melhorar a infraestrutura [...].
As organizações têm em contrato a vigência do arrendamento para o período de 25 anos. Caso aceitas as propostas, que incluem melhorias na infraestrutura, conforme mencionado, as organizações poderão estender o seu direito de exploração para o mesmo período de 25 anos.
Além das licitações e a possibilidade de renovações contratuais de terminais, Zindel (SEP/PR) afirma que, até o momento da entrevista, não haviam informações sobre novos projetos ou parcerias para o futuro, voltadas para a infraestrutura de cruzeiros marítimos. Dentre os motivos estão a atual crise política no país, criando um cenário de incertezas para os investimentos em todos os setores, tanto do lado público quanto privado. Segundo o entrevistado, o governo atualmente tem focado principalmente em li ita àp ejuízosàeà o ta à gastos , tal como justifica-se a atual queda na oferta de navios para Brasil na diminuição do interesse público de intervenções futuros.
Zindel (SEP/PR), ao comentar o pensamento do poder público sobre o setor atualmente, exemplificando: "[...] vocês estavam dizendo tanto que não tinha terminal e agora vocês não mandam navios". O entrevistado utiliza a sentença de maneira a explicar o impasse criado na relação entre o poder público e as armadoras com a construção dos novos terminais
e a não contrapartida do mercado, apesar da ciência sobre os problemas encontrados na viabilidade desses terminais.
Na seção subsequente, apresentam-se as perspectivas das armadoras sobre o desenvolvimento da infraestrutura de cruzeiros marítimos.