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Capítulo IV – OS DEUS DAS GUERRAS RELIGIOSAS – HISTÓRIA DO CERCO

4.3 O poder da palavra

“O que escrevi, escrevi”.

Pilatos, São João 19:22

Na História do Cerco de Lisboa temos alguns fios narrativos que se entrelaçam na diegese. Cerdeira esclarece:

Há um primeiro nível fora do narrado: o cerco de Lisboa, acontecimento a que hoje, evidentemente, só temos acesso através da História. Há depois um segundo nível referido no discurso ficcional:

uma história do cerco de Lisboa escrita por um senhor doutor em ciências históricas, cujas provas estão a ser ‘corrigidas’ pelo revisor Raimundo Silva. Dela não temos conhecimento textual, a não ser a frase que provocará a voluptuosidade de todo o destino ou de toda a História portuguesa. O terceiro nível é o da história do cerco escrita pelo revisor a partir do ‘não’. Mas, para que esta se concretize, desencadeia-se um novo processo narrativo, cuja ação decorre no presente: o do envolvimento amoroso entre o revisor e sua editora. (1999a, p. 259).

Para nossas considerações o que nos interessa é o terceiro nível, o da história do cerco escrita pelo revisor, já que ali encontraremos o relato das guerras religiosas, especificamente entre os seguidores de Alá e os seguidores de Jeová. Antes, porém, um esclarecimento. Quando o personagem Raimundo Silva se transforma no escritor, tem-se a imprensão de que o narrador cede a ele a narração. Mas não é isso que ocorre. É Amorim quem complementa:

Quando Raimundo Silva torna-se, por sua vez, escritor, o narrador

do romance desdobra-se: sua atenção (e seu discurso) parece alterar

a narração da vida do protagonista (presente da ação) com a do cerco de Lisboa (passado). Nesta segunda série de fatos, o narrador também é sincrético: ora assume a onisciência neutra, mostrando os acontecimentos de caráter histórico sem interferência direta, ora torna- se onisciente intruso, e ora assume a onisciência seletiva, centrando-se no ponto de vista de Mogueime, soldado que luta ao lado dos portugueses.

No entando, é preciso acentuar que, mesmo com o desdobramento

da personagem em escritor, não passa a haver no romance dois narradores. É o narrador que se desdobra, assumindo diferentes

pontos de vista, e, para isso, apropria-se da narrativa da sua personagem. (1994, p. 128)

Complementando as colocações acima, poderíamos dizer que o narrador não cede o foco narrativo a Raimundo Silva. A visão do narrador em relação ao personagem, seguindo a classificação de Jean Pouillon é a visão com,

ou seja, o ponto de vista do narrador coincide com a visão de Raimundo Silva. Exemplo disso é que tanto o protagonista e revisor/escritor como o narrador se preocupam até que ponto é possível, através da palavra criadora, fundar um novo mundo de verdades ficcionais.

Saramago ficcionista cria um personagem – Raimundo Silva - e permite que ele não se conforme apenas em revisar um texto de outrem, mas também se torne autor de outra história.

O revisor decide deliberadamente colocar um não no livro que revisa e que narra a história do cerco de Lisboa, uma negativa que muda a história das Cruzadas. É Broering que afirma:

José Saramago com sua escrita pós-moderna provoca a dúvida e estimula o pensamento através da negação. Se a História afirma os fatos da tomada de Lisboa aos Mouros no ano de 1147, a ficção propõe um encontro amoroso na Lisboa contemporânea e, assim,

ficção e História se misturam e formam um novo uno: A obra. Uma palavra - Não - é a base do conflito que constrói o livro sob a forma de recriação. (1999, p. 1)

Saramago também recria um outro texto, jamais reproduz qualquer história, mas sim recria a História a partir da matéria-prima oferecida por ela. Ele retorce, distorce até chegar ao que procura68, numa arquitetura da palavra. O revisor coloca um não no lugar do sim e dessa forma recria a História dos portugueses. É o poder criador da palavra; a palavra institui o real, a palavra cria o mundo e é a palavra que pode também negar a criação. Ora se relembrarmos que o mundo foi criado por meio da palavra, podemos afirmar que Raimundo quer ser criador. O revisor é um transgressor que só na transgressão vê a saída

68 STAM. R., em O Espetáculo Interrompido, p. 84 afirma, citando algumas idéias de Sartre, que “a

História é impossível”, que “a História é uma fabricação deslavada” já que, segundo os modernistas, todos os historiadores, como todas as pessoas, são “narradores em quem não se pode confiar”.

para o homem alcançar a liberdade, já que “a verdade literária não se situa em sua exatidão histórica, mas na busca e compreensão do sentido da vida e do homem” (Manzatto, 1994, p. 26). Ao resolver, por influência de Maria Sara, reescrever a sua versão dos fatos, nela revelará outra face do Deus – o das guerras religiosas.

É Calbucci quem afirma que as duas narrativas – a de Raimundo e a de Saramago - misturam-se, criando um discurso polifônico, de vozes diferentes, que pouco a pouco chegam aos limites da criação ficcional.69 O narrador nos informa quais seriam as regras a que o revisor estaria sujeito ao corrigir a versão da história do cerco de Lisboa:

Mas Raimundo Silva não emenderá, o uso faz alguma lei, quando não fez toda, e, acima de tudo, primeiro mandamento do decálogo do

revisor que aspire à santidade, aos autores deve-se evitar sempre o

peso de vexações. (HDCL, p. 36)

O narrador faz uma analogia crítica dos dez mandamentos bíblicos com um provável decálogo da revisão. Ironiza os dez mandamentos da revisão. Segundo ele, a lei existe para ser quebrada. O discurso literário corrói o discurso religioso pelo uso da paródia e da ironia, retirando o entulho ideológico deste. O discurso do narrador é um discurso demolidor dos dogmas do cristianismo, demolidor dos deuses, desmitisficador do discurso religioso. O narrador questiona o que os homens são capazes de fazer in nomine Dei, questiona as verdades religiosas, o discurso dogmático da verdade. É ainda Amorim quem acrescenta:

Raimundo Silva, ao introduzir o Não no texto da História do Cerco de Lisboa, infringe o código que o impede de mudar o texto que tem

obrigação de corrigir. Com isso, institui a possibilidade de criar um outro texto, uma outra história, uma outra realidade. Torna-se então escritor, ou seja, tem a capacidade de mudar a face do mundo (da história); seu poder é divino – assim como o do narrador, que

ironicamente emprega um discurso ‘bíblico’ ao enumerar as possíveis realizações dos revisores. Ou seja, Raimundo Silva torna-

se uma espécie de alter-ego do narrador. (1994, p. 131)

Raimundo não fará pequenas revisões no texto principal (como, por exemplo, substituir baler por baleárica), afinal são detalhes que não alteram o conteúdo, mas negará o episódio central do livro que está a corrigir, e o não acrescentado no texto será o ato mais importante de toda a sua vida. Comportar- se-á como o sapateiro que, solicitado por Apeles a dar parecer sobre as sandálias em seu quadro, criticou não só as sandálias como todo o quadro, pelo que Apeles disse: O sapateiro não julgue mais que a sandália. O revisor não ousará apenas dar opiniões sobre o texto central, mas colocará uma negativa que mudará completamente o desenrolar da trama, o que de certa forma o transforma de revisor em autor:

É a visão de quem escreve que faz a História acontecer. Quem escreve interfere no valor da verdade e da informação. Raimundo diante dos ‘buracos da História’ escreve outra e tenta torná-la verossímil, ou seja, a partir do momento em que houve a negação do fato, tudo se modifica e o revisor passa a se sentir poderoso, um escritor ou,

mais que isso, um autor. (Broering, 1999, p. 2)

Não nos cabe aqui discutir as diversas relações entre História e Literatura na obra do autor português, já que sobre esse aspecto há excelentes trabalhos. Mas nesse livro Saramago afirma que as ficções "fazem-se todas com uma continuada dúvida”. Para ele, "a História é parcial e é parcelar"70, ou seja, o

escritor entende a ficção como eventual correção ou compensação da história – reinvenção e reinterpretação dela. Para Saramago, "a única verdade absoluta é que toda ela é relativa"71 e a literatura é também, à sua maneira, uma versão da história.

O narrador questiona por intermédio da atitude do revisor o poder da palavra:

Os revisores, se pudessem, se não estivessem atados de pés e mãos por um conjunto de proibições mais impositivo que o código penal, saberiam mudar a face do mundo, implantar o reino da felicidade

universal, dando de beber a quem tem sede, de comer a quem tem fome, paz aos que vivem agitados, alegria aos tristes, companhia aos solitários, esperança a quem a tinha perdida, para não falar da

fácil liquidação das misérias e dos crimes, porque tudo eles fariam

pela simples mudança das palavras, e se alguém tem dúvidas sobre estas novas demiurgias não tem mais que lembrar-se de que assim mesmo foi o mundo feito e feito o homem, com palavras, umas e não outras, para que assim ficasse e não doutra maneira. Faça-se, disse Deus, e imediatamente apareceu feito. (HDCL, p. 50)

Novamente, o narrador utiliza a estilização do discurso bíblico – o

reino da felicidade universal, dando de beber a quem tem sede, de comer a quem tem fome... o que nos remete às bem-aventuranças do Novo Testamento,

relatadas em São Mateus 5:1 a 12:

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem- aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos...

Se o mundo foi formado pela palavra, segundo o primeiro capítulo de Gênesis - No princípio criou Deus os céus e a Terra, E disse Deus: Haja Luz. E

houve luz, o revisor fundará uma nova realidade através também da palavra, com

seu poder demiúrgico: os cruzados não ajudarão os portugueses na reconquista de Lisboa.

Outrossim, esclarecemos que a estilização do discurso bíblico é quase uma constante no livro, como nos exemplos abaixo:

Tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei. (HDCL, p. 90)

Candeia que vai adiante alumina duas vezes. (HDCL), p. 253

Está demonstrado, portanto, que o revisor errou, que se não errou confundiu, que se não confundiu imaginou, mas venha atirar-lhe a

primeira pedra aquele que não tenha errado, confundido ou

imaginado nunca. Errar, disse-o quem sabia, é próprio do homem, o que significa se não é erro tomar as palavras à letra, que não seria

verdadeiro homem aquele que não errasse. (HDCL, p. 25)

Esta apropriação de provérbios que lembram os textos bíblicos

concede uma aura sagrada à narrativa.72 Além de estilizar o discurso bíblico, o narrador ironiza as bem-aventuranças bíblicas, uma vez que com o poder da palavra os revisores se igualariam a Deus. Mas ao contrário das bem- aventuranças bíblicas destinadas ao futuro dos homens nos céus, as bênçãos dos revisores seriam para os homens na terra. Portanto, o poder da palavra tornaria os revisores divinos.

Ironicamente, o narrador afirma que o poder da palavra tornaria os revisores divinos, ortorgando-lhes características divinas como possuidores de

72 Para uma análise mais apurada da função dos provérbios no texto, consultar o livro Saramago e

um "código deontológico" e de "novas demiurgias”. O revisor, ao reorganizar o mundo através da palavra, mesmo que negativa, seria aquele que recriaria o universo e toda a matéria preexistente - demiurgo - como também seria aquele que possui os verdadeiros princípios e fundamentos da moral: deontólogo. Se Deus instaurou o mundo mediante a palavra e por meio dela fez todas as coisas, ao revisor caberia refazer e repensar as coisas realizadas pelo autor da verdadeira história do cerco de Lisboa, remendando o mundo existente; afinal, "o ofício de revisor pertence ao reino da liberdade" (HDCL, p. 77), podendo livremente atentar contra os fatos históricos. Ou seja, o narrador concede três características básicas da divindade aos revisores: demiurgia, deontologia e livre arbítrio, a suprema liberdade de poder dizer não.

Tanto a Teologia como a Literatura possuem uma mensagem que encontra expressão por intermédio da palavra escrita aos mesmos destinatários – os homens. Cuppit em seu livro Depois de Deus é quem afirma que “todo o mundo sobrenatural da religião é uma representação mítica do mundo da linguagem” (1999, p. 14).

O maniqueísmo que caracteriza o cristianismo é denunciado pelo narrador:

...assistimos a mais uma luta entre o campeão angélico e o campeão demoníaco, esses dois de que estão compostas e em que se dividem as criaturas, referimo-nos às humanas, sem exclusão dos revisores. Mas esta batalha, desgraçadamente, vai ganhá-la Mr. Hyde...(HDCL, p. 49)

Há uma luta interna do revisor que se divide entre Dr. Jekil e Mr. Hyde, o médico e o monstro, mas o narrador, utilizando uma prolepse, informa que desgraçadamente o monstro vencerá e que será colocado um não - pautado pela ironia - numa história que não é sua. O revisor deve reconhecer o seu lugar,

respeitar o texto, só se meter com as chinelas, nunca com os joelhos, pois o artista ou o escritor não apreciaria tal intromissão:

Para o revisor que conhece o seu lugar, o autor, como tal, é infalível. Sabe-se, por exemplo, que o revisor de Nietzsche, sendo embora fervoroso crente, resistiu à tentação de introduzir, também ele, a palavra Não numa certa página, transformando em Deus não morreu

o Deus está morto do filósofo. (HDCL, p. 50)

O narrador explicita a relação entre a figura do revisor e a Filosofia, ao mencionar acima a confusão que teria ocorrido, se o revisor da obra de Nietzsche tivesse colocado também um não na frase famosa do filósofo: Deus

está morto. Provavelmente este não teria mudado a história da Filosofia e o

pensamento moderno ocidental.

O narrador continua a espalhar o seu não à figura central do Velho Testamento no decorrer da diegese:

...como a prova pela contingência do mundo de Leibniz ou a prova cosmológica de Kant, com o que em cheio nos encontraríamos a

perguntar a Deus se existe realmente ou se tem andado a confundir-nos com vaguidades indignas de um ser superior que

tudo deveria fazer e dizer muito pelo claro...(HDCL, p. 120)

Após uma série de ponderações, Raimundo Silva aceita o conselho e desafio de Maria Sara e resolve, ele mesmo, escrever a sua versão da história do cerco de Lisboa. Em sua versão, as elucubrações a respeito dos deuses continuam: “...duvidando-se em todo o caso se sob o olhar do Deus dos cristãos ou do Alá dos mouros, se é que não estariam juntos a gozar do espetáculo e a combinar apostas” ( HDCL, p. 127).

Os macrotemas centrais de História do Cerco de Lisboa são os seguintes: as relações entre História e Literatura, os tênues limites História e

Literatura, o labor do escritor na composição da obra, o poder criador da palavra, a relatividade das verdades históricas. Nessa obra os fatos históricos são enredados no tecido ficional que se manterá predominante, mas há momentos em que as fronteiras tênues e nebulosas se esgarçam por completo, em que não sabemos ao certo se a História virou ficção, ou então, pelo contrário, se a ficção passou a fazer parte da História.

Existe, porém, um tema que se desenvolve paralelamente às temáticas mencionadas acima, e ele está presente primeiro no discurso paródico e irônico do narrador demiurgo e depois, como veremos a seguir, quando Raimundo Silva se transforma em escritor. Esse tema é Deus.