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O PODER SIMBÓLICO NAS ENTRELINHAS DISCURSIVAS DO CAMPO DA

No documento cassiavalelara (páginas 33-43)

Para ilustrar a ideia de campo em conflito, Lima (2001) faz referência à definição de campo de Pierre Bourdieu, sociólogo francês que centralizou sua observação nas formas de dominação legitimadas por mecanismos de reprodução social. O pesquisador Jairo Ferreira (2002) estuda a noção de campo a partir da sociologia crítica de Bourdieu, em que o conceito aparece como um espaço simbólico, no qual a luta dos agentes (indivíduos) determina

representações. É o poder simbólico, onde se estabelece uma classificação dos signos, do que é adequado, do que pertence ou não a um código de valores. O campo refere-se à sociedade e à relação de forças em disputa que nela existe. Os agentes concorrentes lutam por aquilo que consideram importante, na intenção de monopolizar os demais.

A partir desta definição, Lima (2001) relata o campo de estudo da Comunicação como um espaço de conflito entre as “autoridades” científicas. Quem tem o poder de fala, portanto, tem autoridade, o que indica disputa de poder simbólico entre os pesquisadores. Parece ser esta a relação que permeia a diversidade de nomes existentes para classificar a Comunicação Organizacional. Termos como comunicação corporativa, empresarial, institucional, estratégica, administrativa, integrada, pública, mercadológica, gerencial, cultural etc parecem ser aplicados com sentido convergente.

A crítica de Lima (2001) ao campo da Comunicação como cenário de conflito entre “autoridades” científicas encontra respaldo nos escritos de Bhabha (2001). Este aponta que “existe uma pressuposição prejudicial e autodestrutiva de que a teoria é a linguagem de elite dos que são privilegiados social e culturalmente.” (BHABHA, 2001. p. 43) E, por estarem em posições “privilegiadas”, pesquisadores e estudiosos do campo ganham legitimidade e força em seu discurso, chegando a competir entre si. À frente de uma visão crítica, em seu texto, Bhabha questiona se é preciso sempre polarizar para polemizar.

Tome-se como exemplo a superioridade do cinema ocidental, exemplo apresentado por Bourdieu para traçar aspectos do poder simbólico. Considerado o fórum da cultura, o fenômeno tem uma influência desproporcional em relação ao restante do mundo. O fato de ser o Ocidente lugar de exibição e discussão pública, julgamento e mercado, é a própria exploração do capital simbólico. De acordo com Bourdieu (2007, p. 10), esse efeito ideológico é produto da cultura dominante, de modo que a cultura que une é também a cultura

que separa. Isto compele todas as demais (sub)culturas a se definirem pela sua distância em relação àquela dominante.

Buscar as funções de uma cultura comprometida e identificar o lugar de onde fala a teoria dominante são as propostas de Bhabha (2001). Isto porque o conceito de diferença concentra-se na ambivalência da autoridade cultural. A tentativa de dominar em nome de uma supremacia cultural é, ela mesma, produzida apenas no momento da diferenciação, isto é, no âmbito do discurso dominante. No entanto, para o autor, é o entre-lugar dessas fronteiras que carrega o significado mesmo da cultura.

Assim, partindo do que consideram Bhabha (2001) e Braga (2009), este trabalho não defende a busca por uma teoria acima da diversidade, a fim de explicá-la. A explicação da diversidade levaria à harmonia, amenizando suas provocações. Ao contrário, “a ideia é colocar essa diversidade em agonística, em embate, pôr em conflito diferentes perspectivas.” (BRAGA, 2009, informação verbal)1 E agonística, segundo ele, não é buscar calmaria, mas polêmica, a fim de chegar ao entendimento. “É colocar em confronto a diversidade.” (Ibid, 2009)

Portanto, ao se voltar para os nomes existentes para a área da Comunicação Organizacional, busca-se o diálogo e o enfrentamento entre as diferentes posições. O que pôde ser constatado até aqui nos permitiu observar a ausência de um acordo terminológico entre os escritores da Comunicação Organizacional. Os termos são utilizados aleatoriamente, de acordo a preferência das “autoridades” do campo.

Na verdade, para Bourdieu (2007), não basta notar que as relações de comunicação são relações desiguais, dependentes do poder acumulado pelos agentes ou instituições. A supremacia do cinema ocidental, por exemplo, explica-se no fato de estarem

1

Informação obtida na palestra "O campo comunicacional: dilemas metodológicos e de abordagem", ministrada por José Luiz Braga no II ECOMIG, Encontro dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação de Minas Gerais, realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, em 19 de setembro de 2009.

diferentes classes envolvidas numa luta simbólica, para impor a definição do mundo social conforme seus interesses. “O campo da produção simbólica é um microcosmos da luta simbólica entre as classes.” (BOURDIEU, 2007. p. 12). A distinção entre os sistemas simbólicos ocorre conforme sejam produzidos e, ao mesmo tempo, apropriados pelo conjunto do grupo, discursivamente.

O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão de mundo e, desse modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força graças ao efeito da mobilização, só se exerce se for „reconhecido‟, quer dizer, ignorado como arbitrário. (BOURDIEU, 2007. p. 27).

Com isso, o poder não reside nos sistemas simbólicos, como, por exemplo, a mídia ou o cinema ocidental. Ele se encontra em uma relação determinada entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos. Encontra-se na própria estrutura do campo do saber em que se produz e se reproduz a crença. Para o teórico, o limite de um campo é o limite dos seus efeitos. Um agente ou instituição dele faz parte à medida que nele sofre efeitos ou nele os produz. As estratégias discursivas dos diferentes atores e os efeitos retóricos que pretendem produzir dependerão, assim, das relações de forças simbólicas que lhes conferem pertença neste campo.

De acordo com Bourdieu (2007, p. 69), compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, “tornar necessário”, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado os atos dos produtores e as obras por eles produzidas, e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir. Braga (2010) compartilha este argumento, na defesa de que compreender a dispersão do campo da comunicação significa “pôr a conversar” entre si os diferentes ângulos e aportes

teóricos, as diferentes definições e preferências por objetos bem como as diversas experiências metodológicas.

Não para forçosamente obter harmonia e eliminação de atritos, não para verificar qual ou quais sobrevivem ao enfrentamento mútuo – mas sim para que possam se desafiar e, no enfrentamento dos desafios, desenvolvam suas próprias perspectivas para além de mera reiteração das posturas assumidas.(BRAGA, 2010, p. 15).

Isto nos permite entender os discursos como uma população de acontecimentos dispersos, que encontram sentido na dispersão dos objetos a que se referem. A proposta de Braga (2007) é buscar sentido na diversidade, acreditando ser esta uma maneira de entender a consolidação da identidade do campo. Tal diversidade, como visto em Bourdieu (2007), possui o aporte do poder imaterial entre os sujeitos que posicionam sua voz no campo. A propriedade discursiva entre os teóricos parece ser a grande marca desta relação desigual.

Para entender os processos de apropriação do discurso, que fazem aparecer batalhas simbólicas entre os pesquisadores, este trabalho encontra fundamento em Foucault. Discutindo a modernidade e herdeiro da filosofia Nietzschiana, Foucault considera as verdades como fruto de posicionamentos de poder.

Em nossas sociedades, (e em muitas outras, sem dúvida), a propriedade do discurso – entendida ao mesmo tempo como direito de falar, competência para compreender, acesso lícito e imediato ao corpus dos enunciados já formulados, capacidade, enfim, de investir esse discurso em decisões, instituições ou práticas – está reservada de fato (às vezes mesmo, de modo regulamentar) a um grupo determinado de indivíduos. (FOUCAULT, 2009, p. 75).

E esse grupo, em suas formações discursivas, forma e delimita os objetos de que fala. Ilustrando seu argumento a partir do objeto da “loucura”, Foucault (2009, p. 36) explica que a unidade desse objeto não nos permite individualizar um conjunto de enunciados e estabelecer entre eles relações descritíveis e constantes. A doença mental foi constituída pelo

que foi dito no grupo dos enunciados que a nomeavam, recortavam, descreviam, articulando, em seu nome, discursos que deveriam passar por seus.

Da mesma forma, não se pretende, aqui, individualizar um conjunto de discursos para estabelecer o que é a Comunicação e quais seriam suas possíveis identidades. “A unidade dos discursos sobre a loucura não estaria fundada na existência do objeto „loucura‟, ou na constituição de um único horizonte de objetividade.” (FOUCAULT, 2009. p. 37). Tal unidade seria o jogo das regras que definem as transformações desses diferentes objetos, sua não- identidade através do tempo, a ruptura que neles se produz, a descontinuidade que suspende sua permanência.

O presente trabalho considera os discursos como o local da articulação entre poder e saber e adota uma postura não-essencialista ao se referir às identidades e aos sujeitos. Mantém este mesmo posicionamento ao tratar de construções discursivas, como, por exemplo, as noções de saber e verdade. Em “A arqueologia do saber”, Foucault (2009) procura mostrar como se constituem os saberes (Artístico, Biológico, Histórico, Científico etc) e quais as possíveis relações entre eles. Ele defende uma regularidade permeando as formações discursivas, um processo que é, por vezes, interrompido e retomado.

O que se pretende realçar é o aspecto discursivo dos saberes. Tomemos como exemplo a História, ou melhor, o discurso da História. Michel de Certeau explica que “o próprio termo „História‟ já sugere uma particular proximidade entre a operação científica e a realidade que ela analisa.” (CERTEAU, 2000. p. 32). Isso significa que se trata de um discurso sobre o real. “A espessura e a extensão do „real‟ não se designam, nem se lhes confere sentido senão em um discurso.” (Ibid.)

Segundo ele, os modos de contar, nomear e designar resultam de uma certa práxis, que é, ela própria, o signo de um ato. Esta práxis é a afirmação de um sentido resultante dos procedimentos que permitiram articular um modo de compreensão num discurso de “fatos”.

Voltando ao exemplo da História, Certeau acrescenta que ela é uma manifestação do inconsciente dos historiadores ou do grupo ao qual pertencem. “A vontade de definir „ideologicamente‟ a História é particularidade de uma elite social.” (Ibid. p. 40). O termo elite é carregado de sentido e indica hierarquia, autoridade, poder. Trata-se de relações de poder entre quem tem propriedade sobre o discurso, que, por sinal, não pode ser desligado de sua produção.

Neste ponto, Certeau (2000) dialoga com Foucault (2009), ao voltar sua atenção para as condições de produção de um discurso ou enunciado e para as posições assumidas pelos sujeitos. Esse processo está tomado por disputas simbólicas, descontinuidades e rupturas. O primeiro ilustra seu argumento a partir da noção de História e do trabalho do historiador, que

não pode, entretanto, fazer abstração dos distanciamentos e das exclusividades que definem a época ou a categoria social à qual pertence. Em sua operação as permanências ocultas e as rupturas instauradoras formam amálgama. A história o mostra tanto mais quanto tem por tarefa de as diferenciar. (CERTEAU, 2000. p. 48).

A prática do discurso está relacionada, assim, ao contexto de sua produção, o que aponta para relações de poder entre os grupos produtores. Para se referir à produção das formações discursivas, Foucault (2009) utiliza-se de saberes como a Medicina, a História Natural, a Economia e a Gramática. Uma série de exemplos permite compreender a relação discurso-objeto e as descontinuidades que atravessam esse contexto.

No caso da Medicina clínica, ressalta, deve ser considerado o relacionamento, no discurso médico, de elementos distintos: o status dos médicos, o lugar institucional de onde falam, a posição que adotam como sujeitos que percebem e descrevem. O discurso clínico, enquanto prática, instaura entre esses elementos “um sistema de relações que não é „realmente‟ dado nem constituído a priori.” (FOUCAULT, 2009. p. 60)

Assim, observa Foucault, o que permite delimitar o grupo de conceitos, embora discordantes, que são específicos de uma formação discursiva, é a maneira pela qual esses diferentes elementos se relacionam. Perceber as relações que emergem nos discursos identitários do campo da Comunicação é o foco desta dissertação. Os discursos são feitos de signos, mas o que fazem é mais que designar coisas. “É esse „mais‟ que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse „mais‟ que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever.” (FOUCAULT, 2009. p. 55)

Assim, os sistemas de formação não têm sua origem no pensamento dos teóricos, tampouco no jogo de suas representações. Eles residem, conforme Foucault (2000, p. 83) no próprio discurso, ou antes, em suas fronteiras, nesse limite em que se definem as regras que fazem com que exista como tal. É nesse espaço, ou nesse entre-lugar, como prefere Bhabha (2007), que se manifestam as interpretações acerca das identidades, em núcleos dispersos pelo campo da Comunicação.

4 CAPÍTULO 3 - O ATO DE CLASSIFICAR COMO ATRIBUIÇÃO DE PODER

“Nada há de mais divertido, no trabalho intelectual, que descobrir a mesma ideia, com poucas diferenças de forma, em autores diferentes.” (BOURDIEU, 2007. p. 65)

A configuração das identidades é uma construção socialmente representada entre os indivíduos. Lembrando Silva (2005), este processo ocorre em um jogo de forças e vetores, o que culmina em disputas de poder entre quem tem a propriedade discursiva. É no entrecruzamento de discursos, atravessados por lutas simbólicas, que ocorrem as representações e se produzem identidades. Assim, classificar é também atribuir poder.

Como explica Bourdieu (2007, p. 115), as classificações são produto de uma imposição arbitrária, de um estado anterior da relação de forças no campo das lutas pela delimitação legítima. Esta relação atribui contornos de distinção àquilo que é apresentado como único. O que é digno de poder ou privilégio se sobressai em relação àquilo que exclui, de forma que “o mundo social é também representação e vontade, e existir socialmente é também ser percebido como distinto.” (BOURDIEU, 2007. p. 118)

É pela linguagem que as identidades se representam e se deixam representar. É por meio dela que se mostra ou se oculta o poder simbólico entre os discursos. Assim, é pela linguagem que se confere um nome e, portanto, poder, ao que é nomeado. Analisar essa complexidade é o que move o presente trabalho, sobretudo porque é na linguagem que todas essas relações podem ser observadas e percebidas. Em “As palavras e as coisas”, Foucault expõe a riqueza da linguagem, aquilo que com ela se vislumbra e o que ainda se poderá vislumbrar.

Em toda sua espessura e até os mais arcaicos sons que pela primeira vez a arrancaram ao grito, a linguagem conserva sua função representativa: em cada uma de suas articulações, desde os tempos mais remotos, ela sempre „nomeou‟. Em si mesma, é tão somente um imenso sussurro de denominações que se sobrepõem, se comprimem, se ocultam e, entretanto, se mantêm para permitir analisar ou compor as mais complexas representações. (FOUCAULT, 1999. p. 145).

Ocorre que esse emaranhado de signos e significados que é a linguagem, tomado por posições desiguais entre os que aí legitimam seu discurso, é ainda um conjunto de instabilidade. Foucault (1999, p. 155) se pergunta como é possível que as palavras, como designações primeiras e nomes articulados com a própria representação, possam se afastar de sua significação de origem, adquirir um sentido vizinho, mais amplo ou mais limitado. Ao que ele mesmo responde, alegando que as modificações de forma não têm regra, são quase indefinidas e jamais estáveis.

Em contrapartida, completa Foucault (1999, p. 155), as alterações de sentido obedecem a princípios que se podem assinalar. Uns concernem à semelhança visível ou à vizinhança das coisas entre si. Outros remetem ao lugar onde se depositam a linguagem e a forma segundo a qual ela se conserva. Numa representação, contudo, pode-se vincular um signo verbal a um elemento que dela faz parte, a uma circunstância que a acompanha ou mesmo a algo ausente que lhe é semelhante e, por isso, retorna à memória. Foi assim, conforme o teórico, que a linguagem se desenvolveu e prosseguiu seu desvio em relação às designações primeiras.

Na origem tudo tinha um nome – nome próprio ou singular, depois o nome vinculou-se a um único elemento dessa coisa e se aplicou a todos os outros indivíduos que o continham igualmente: não é mais a tal carvalho que se deu o nome de árvore, mas a tudo o que continha ao menos tronco e galhos. O nome vinculou-se também a uma circunstância marcante: a noite não designou o fim deste dia, mas a faixa de obscuridade que separa todos os poentes de todas as auroras. Vinculou-se enfim a analogias: chamou-se folha a tudo o que fosse fino e leve como uma folha de árvore. (FOUCAULT, 1999. p. 160).

Muito menos que fruto da exatidão, a linguagem é produto da instabilidade. É por tudo isso que ela é a imprescindível nas representações sociais, também instáveis, de sujeitos

considerados dispersos e fragmentados de identidade. Estes, por sua vez, em seus discursos atravessados por outros tantos que lhes antecederam ou que lhes são simultâneos, delimitam os objetos de que falam com noções de distinção. Relações de poder permeiam a complexidade de sua linguagem e as classificações de seus objetos de estudo. Entretanto, os nomes há muito se desvincularam de seu significado primeiro, conotando outros tantos objetos, com tantos outros significados. É essa ruptura que se pretende observar nas nomenclaturas referentes à Comunicação Organizacional. Antes, porém, é mister adentrar o universo das terminologias.

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